Do Facebook para as ruas: como o ódio político se transforma em violência física

Desigualdade social e econômica, polarização e alvo específicos são alguns dos elementos que preconizam violência política

     

    Entre a terça-feira (15) e sexta-feira (18), quase uma dezena de relatos nas redes sociais deram conta de agressões entre manifestantes contra o governo Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula e outro grupos que se opõem ao impeachment.

    Alguns depoimentos vêm de pessoas que disseram ter sido agredidas só por estarem vestidas de vermelho, a cor da bandeira do Partido dos Trabalhadores, de vários movimentos da esquerda brasileira e que é comumente associada a ideologias de esquerda em outros países. Mas nesta quinta-feira, até mesmo um dos organizadores dos protestos pelo impeachment, Marcello Reis, foi agredido pelos manifestantes que ele mesmo reuniu.

    “Uma vez que o passo em direção aos atos violentos é dado, é muito difícil voltar. [O ato violento] coloca o grupo, e a pessoa, num caminho diferente.”

    Kathleen Blee

    Socióloga, em entrevista ao The New York Times

    Casos em que protestos organizados pela sociedade civil registraram agressões têm se tornado cada vez mais constantes no cenário político brasileiro. O clima hostil, conhecido nos campos de comentários na internet, parece ter chegado às ruas.

    Para sociólogos, cientistas e psicólogos políticos, os contextos em que manifestações sociais acabaram resultando em violência geralmente combinam um contexto histórico particular, com fatores econômicos e fenômenos sociológicos.

    Estes são os elementos que têm relação com o comportamento violento em manifestações políticas:

    Descrença na eficiência da política tradicional

    Quando um grupo que defende uma ideologia sente que não existem maneiras democráticas de alcançar suas reivindicações, aumentam as chances de que seus protestos  tornem-se  violentos. Isso acontece quando as vias tradicionais do processo político não parecem dar conta do que está sendo reivindicado, de acordo com Clark McCauley, professor de psicologia no Bryn Mawr College, nos Estados Unidos.

    Polarização de opiniões

    Os pesquisadores Mohan Penubarti e Patrick Asea, da Universidade de Los Angeles, apresentaram em 1996 um estudo econômico no qual listam a polarização de opiniões como um dos fatores que estão relacionados à violência política. Outro estudo mais recente, da Escola de Graduação Econômica de Barcelona, também concluiu que polarização social e econômica estão sempre presentes em contextos de conflitos políticos violentos.

    Choque moral

    A socióloga Francesca Polletta, autora do livro “It Was Like A Fever: Storytelling in Protest and Politics” (‘Foi como uma febre: contando histórias de protestos e política’, sem edição brasileira), disse ao jornal “The New York Times” que um dos catalizadores que despertam violência política é o ‘choque moral’, que acontece quando pessoas se sentem moralmente traídas de maneira específica, pungente e que se conecta com alguma situação pessoal. Pode ser uma foto chocante, um fragmento narrativo simbólico ou um fato que o faça sentir ofendido.

    Um alvo específico

    É preciso ter um objetivo claro e simples, às vezes personificado, explica Polletta. Pode ser a figura de um político, uma lei específica que precisa ser mudada. Reivindicações muito vagas ou muito abrangentes, para a pesquisadora, despertam menos raiva - porque é mais difícil sustentar a raiva de maneira tão vasta.

    Desigualdade social

    O cientista político Samuel Hutington teorizou, em 1968, no livro “Political Order in Changing Stories”, que desigualdade salarial e de moradia são condições econômicas que deixam a sociedade mais vulnerável a insurgências.

    O discurso de ódio direcionado a “inimigos comuns” ou minorias que já são historicamente discriminadas foi central para criar a atmosfera que causou episódios como o genocídio em Ruanda, quando duas etnias rivais se enfrentaram, e para caracterizar a natureza do enfrentamento dos chavistas e dos opositores na tentativa de golpe de estado na Venezuela em 2002.

    Nos EUA, discurso de ódio também está tomando as ruas

    Em 2015, nos EUA, dois homens espancaram um morador de rua de origem latina. De acordo com um deles, a motivação veio do candidato às eleições presidenciais americanas Donald Trump, que tem um incisivo discurso anti-imigração.

    Esse foi apenas um dos episódios de violência associados aos discursos de Trump. Em alguns casos, opositores apanharam enquanto ele discursava.

    “Sabe o que eu odeio? Tem um cara tumultuando, socando, e a gente não pode socar de volta. Era muito bom antigamente. Sabe o que acontecia com um cara desses antigamente? Ele sairia daqui em uma maca.”

    Donald Trump

    Em um comício, falando sobre um opositor que gritou “Black Lives Matter”

    O site The Atlantic acredita que se Trump se tornar de fato o candidato republicano à presidência dos EUA, a violência tende a crescer.

    Para o site, os apoiadores de Trump mostram um alto grau de autoritarismo, o que significa que eles têm medo irracional de desordem social de qualquer tipo e defendem métodos simples e brutais para contê-la.

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