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Mundo teve o fevereiro mais quente já registrado. Meta do clima está sob ameaça

Série histórica mostra que o mundo está aquecendo. E que uma das metas do Acordo de Paris pode ser inviável

O mês de fevereiro de 2016 foi o mais quente registrado desde que a humanidade começou a registrar a temperatura do globo, em 1880, segundo estudo da Nasa. Em janeiro, o recorde já havia sido batido.

Ou seja: o mundo passou pelo início de ano mais quente da história. E isso tem preocupado climatologistas.

A temperatura do planeta sofre variações por fatores pontuais - um ano pode ser mais quente que o anterior sem que isso signifique uma tendência de longo prazo, por exemplo. Por isso, a comparação é feita com as médias de grandes períodos.

No caso do estudo da Nasa, fevereiro de 2016 foi comparado com os meses de fevereiro entre 1951 e 1980. A temperatura foi 1,35° C maior do que a média do período, uma diferença acima daquela observada em janeiro, de 1,15º C.

Mesmo se tratando de um dado mensal, o tamanho da mudança e a persistente tendência de alta fizeram com que a comunidade científica mostrasse preocupação.

Com os números, Acordo de Paris pode estar em xeque

Os números de fevereiro mostram que o mundo já está 1,5º C mais quente do que a temperatura média registrada nos níveis pré-industriais do século 19 - patamar encarado como anterior à influência humana sobre o clima.

Isso significa que uma das principais metas do Acordo de Paris pode não ser cumprida. O acordo, assinado em dezembro com uma participação histórica de 195 países, almeja, até o final do século 21:

“Segurar a alta da temperatura média global bem abaixo de 2º C e empreender esforços para limitar a alta da temperatura a 1,5º C acima dos níveis pré-industriais.”

A meta, no entanto, diz respeito à temperatura anual. Por isso, apesar de o mês de fevereiro já ter registrado uma temperatura 1,5º C mais alta, ela não caducou - mesmo assim, os últimos dados são preocupantes.

“Não passamos da meta, mas estamos caminhando para isso”, diz Henrique Barbosa, pesquisador do Instituto de Física da USP, que colabora com o desenvolvimento de um modelo brasileiro para estudo de mudanças climáticas globais.

Não é só a série de recordes mensais, mas também a sucessão de recordes anuais que chama atenção.

Nove dos 10 anos mais quentes registrados ocorreram na última década. 2015 bateu o recorde anterior de temperatura, estabelecido em 2014. E 2016 caminha para bater 2015.

Mesmo levando em consideração o efeito do El Niño - fenômeno que periodicamente eleva a temperatura do Oceano Pacífico -, que devem ser os mais intensos desde 1998, cientistas creditam o aumento de temperatura à alta das emissões de gases estufa.

“Esses resultados sugerem que nós podemos estar ainda mais perto do que pensávamos de romper a barreira [de 2° C]. Se atrasarmos mais um pouco cortes maiores na emissão de gases estufa, parece que a temperatura da superfície global provavelmente vai exceder o nível após o qual os impactos da mudança climática tendem a ser muito perigosos”, disse ao jornal “The Guardian” Bob Ward, diretor do Instituto Grantham de Pesquisas em Mudanças Climáticas da London School of Economics.

Barbosa, do Instituto de Física da USP, ressalta que, para que a meta de Paris seja atingida, é urgente frear a rota de aumento das emissões de CO2, o principal gás causador do efeito estufa.

“Os registros dos últimos 1 milhão de anos encontrados no gelo mostram que as temperaturas variavam entre eras glaciais e interglaciais com uma concentração de carbono entre 180 partes por milhão a 280 partes por milhão”. Em 2015, com poluição e sob efeito do El Niño, a concentração de CO2 ultrapassou 400 partes por milhão.

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