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Por que Dilma tem de cair, por que Dilma tem de ficar, segundo seus críticos e apoiadores

Como opositores e governistas interpretam a continuidade ou a interrupção do mandato da presidente diante de três elementos: a multidão nas ruas, os processos que apuram corrupção no governo e a paralisia de um governo em crise

     

    A manifestação pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff pôs, segundo o Datafolha, 500 mil pessoas nas ruas de São Paulo, no domingo (13). Para os organizadores e a polícia, esse número foi de 1,4 milhão. Em ambas contagens, o protesto já é considerado “o maior ato político da história do país”.

    Para os críticos da presidente, a resposta massiva do povo nas ruas é um argumento decisivo para a interrupção de seu mandato, cuja autoridade vem sendo minada desde que ela foi reeleita, em janeiro de 2014, primeiro por questionamentos na Justiça Eleitoral sobre “abuso de poder econômico” durante a campanha, e, a partir de 2 de dezembro, pela abertura de um processo de impeachment na Câmara dos Deputados.

    Os argumentos que dividem os apoiadores e os críticos de Dilma giram em torno de três eixos principais:

    • perda de apoio popular, demonstrada por pesquisas de opinião e pela presença massiva do povo nas ruas
    • casos de corrupção envolvendo o governo, apurados tanto na Operação Lava Jato quando em processos que correm na Justiça Eleitoral
    • ingovernabilidade derivada da divisão da base de sustentação no Congresso, provocando estagnação política e econômica há um ano e meio.

    Para cada um desses itens, há argumentos contrários e favoráveis a Dilma. O Nexo organizou as grandes linhas que dividem esses dois pontos de vista.

    Pressão popular

     

    Qual o fato

    A aprovação ao governo Dilma é muito baixa. Em agosto, bateu o recorde negativo, quando 71% dos brasileiros disseram que a presidente é “péssima”. Além das pesquisas, as ruas demonstram mais rechaço do que apoio à presidente. No seu ponto alto, domingo (13), os críticos do governo realizaram a maior manifestação política da história do país, quando entre 500 mil pessoas, segundo o Datafolha, e 1,4 milhão, segundo a polícia e os organizadores, foram às ruas, só em São Paulo, além de mais 1 milhão em outras cidades brasileiras, para pedir que a presidente saia do posto.

    O que dizem os adversários de Dilma

    A oposição reconhece que a presidente tem um mandato legítimo e foi eleita com a maioria dos votos, mas diz que ela perdeu o apoio desde que tomou posse e hoje é rechaçada pela maioria dos brasileiros. Críticos da presidente dizem que o povo está demonstrando nas ruas que não está disposto a esperar pelo prazo regimental de uma nova eleição - ao contrário, é preciso interromper o mandato agora.

    “As pesquisas indicaram que a maioria esmagadora, mais de 70% da população que foi às ruas, deseja uma nova eleição (...) O povo brasileiro está cansado, perdeu a paciência, não quer esperar a próxima eleição e deseja a mudança radical já”

    Álvaro Dias

    Senador (PV-PR), em entrevista veiculada em seu próprio canal no Youtube e pelo site G1, logo após os protestos de 13 de março

    O que dizem os apoiadores de Dilma

    O mandato de Dilma é legal e legítimo, protegido pela Constituição, que não condiciona a permanência no posto aos índices de aprovação e de rejeição ao governo ou à presidente. Para os apoiadores da presidente, os protestos de rua servem para demonstrar descontentamento, mas não têm, por si só, o poder de interromper o mandato.

    “A gente está arriscando a democracia. Impeachment não é remédio nem para arrumar a economia nem para tirar uma presidente por causa de impopularidade”

    Jacques Wagner

    Ministro-chefe da Casa Civil do governo Dilma, em entrevista à “Folha de S. Paulo” após os protestos do dia 13 de março

    Corrupção e manobras

     

    Qual o fato

    Existe um processo de impeachment aberto contra Dilma na Câmara desde o dia 2 de dezembro de 2015. O pedido acusa a presidente de, entre outras coisas, cometer manobras fiscais ilegais e de compactuar com a corrupção na Petrobras. Caberá aos deputados e senadores decidirem por maioria se os motivos apontados no pedido de impeachment são suficientes ou não para que a presidente perca o mandato. Além disso, o TSE investiga se houve “abuso de poder econômico” na campanha pela reeleição de Dilma, em 2014. Na Lava Jato, os procuradores querem saber se a campanha de 2014 recebeu dinheiro ilegal de empresas que pagavam propina ao partido para ganhar contratos com a Petrobras.

    O que dizem os adversários de Dilma

    Para os críticos da presidente, o pedido de impeachment explicita tecnicamente as maiores irregularidades cometidas por Dilma no exercício do cargo. Sobre a Lava Jato, que também está incluída no impeachment, há ainda processos na Justiça Eleitoral nos quais os opositores de Dilma consideram trazer provas de uso de dinheiuro desviado da Petrobras na campanha de 2014. Para eles, o PT montou um esquema para se perpetuar no governo: favorecendo grandes empresas em contratos com a estatal, em troca de financiamento das campanhas políticas do partido.

    “[O PT e partidos aliados] montaram um complexo esquema de corrupção que assaltou os cofres da Petrobras e financiou a manutenção desse grupo no poder”

    Aécio Neves

    Senador do PSDB, em setembro de 2015

    O que dizem os apoiadores de Dilma

    Defensores do governo dizem que as manobras mencionadas no pedido de impeachment são menores e foram cometidas por presidentes anteriores sem as mesmas consequências. Além disso, afirmam que Dilma não está pessoalmente envolvida em nenhuma das denúncias. Eles também chamam atenção para a motivação política do fato, uma vez que o encarregado de acolher e dar andamento à peça no Congresso é o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), réu no STF por, segundo a Procuradoria-Geral, estar envolvido em esquema de corrupção na Petrobras. O processo do TSE os petistas atribuem a um “golpismo” do PSDB, que não soube reconhecer a derrota nas urnas, em outubro de 2013.

    “[A tese da Lava Jato é a de que] o dinheiro da Petrobras é roubado pelas empresas coordenadas pela quadrilha do PT (...). Pela história do país, os cartéis que se formam entre as empresas, e a maneira que elas corrompem os agentes públicos, não é por comando político. O problema político aparece em virtude do financiamento de campanhas, que todos os partidos praticaram”

    Gilberto Carvalho

    Ex-chefe de gabinete do governo Lula e ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República do governo Dilma, em entrevista, em março

    Desgoverno

     

    Qual o fato

    Além da oposição, o governo enfrenta a rebeldia dos partidos aliados no Congresso, principalmente de parte do PMDB, partido que formalmente é parte da base governista, ocupa sete ministérios, tem a vice-presidência, além do comando da Câmara e do Senado, mas cria dificuldades em votações importantes para Dilma. A paralisia impede a aprovação de reformas estruturais e atrasa a recuperação econômica. No dia 3 de março, o governo contabilizou a maior queda do PIB desde 1990 (- 3,8%) e não dá sinais de que reúna forças para passar medidas polêmicas como a recriação da CPMF, considerada fundamental pelo Ministério da Fazenda para recuperar o equilíbrio fiscal e a confiança na economia.

    O que dizem os adversários de Dilma

    A ingovernabilidade é fruto da inabilidade e do descrédito de um governo instável, ameaçado desde seu início pelo risco de queda da presidente, fustigada por um pedido de impeachment e por investigações que envolvem seus aliados mais próximos. A paralisia só terá fim com a troca da presidente, que não goza do prestígio necessário para angariar apoio e levar adiante as medidas necessárias para recuperar a economia. Diante deste cenário, a presidente deveria deixar o posto, sob risco de afundar ainda mais o Brasil na crise.

    “O país não pode parar no tempo. É preciso correr no sentido de buscar uma solução. Cabe ao Congresso Nacional dar o rumo e avançar”

    Geraldo Alckmin

    Governador de São Paulo, no dia 13 de março

    O que dizem os apoiadores de Dilma

    Dilma sofre nas mãos de uma oposição cuja única preocupação é criar dificuldades para o governo e levar ao fim o mandato da presidente da República. O principal partido aliado, o PMDB, dá sinais cada vez mais claros de abandonar o governo e ensaia candidatura própria em 2018, além de se aproximar cada vez mais do PSDB, principal adversário de Dilma. Para os governistas, as dificuldades no Congresso não são mais fruto de debates legítimos entre diferentes correntes de opinião, mas simples sinais de que a única pauta em jogo é o fim do mandato.

    “A instabilidade política não pode sufocar e nem pode emparedar a retomada do crescimento da economia brasileira. A oposição quer emparedar o governo, o País, com essa onda de crise. É claro que nós temos responsabilidades, sabemos que tem crise, mas essa instabilidade, esse emparedar que a oposição quer fazer é prejudicial ao país”

    José Guimarães

    Deputado (PT-CE)

     

     

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