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O que Lula disse sobre tríplex, sítio, palestras e outras suspeitas da Lava Jato

Em pronunciamento na sede do PT após prestar depoimento à Polícia Federal, ex-presidente critica a Justiça, a imprensa e a oposição, diz que se sentiu ‘prisioneiro’ ao ser levado para depor e que voltará a rodar o país

     

    Num discurso político dirigido à militância, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou nesta quarta-feira (4) o que chamou de “prepotência, arrogância e pirotecnia” do juiz responsável pela Operação Lava Jato, Sérgio Moro.

    Lula também acusou o magistrado de agir em parceria com a imprensa. Além disso, associou a investigação da qual é alvo a uma oposição e a uma “elite” que não aceitam a ascensão “do andar de baixo”. Para o petista, tentam criminalizá-lo, assim como o PT. O ex-presidente prometeu voltar à militância de base, sem descartar uma terceira candidatura à Presidência em 2018.

    O discurso na sede nacional do PT, em São Paulo, foi uma resposta à condução coercitiva da qual Lula havia sido alvo no início da manhã. A Polícia Federal tirou o ex-presidente de casa, em São Bernardo do Campo, e o levou ao aeroporto de Congonhas, onde tomou seu depoimento por mais de três horas.

    O local foi escolhido, segundo procuradores, para evitar aglomeração e confrontos entre manifestantes favoráveis e contrários ao PT - que, mesmo assim, ocorreram. Lula refutou a justificativa para a “condução coercitiva”, disse que teria ido espontaneamente, caso convidado, e comparou o procedimento a uma prisão. “Me senti um prisioneiro”, disse.

    No pronunciamento, o ex-presidente demonstrou irritação com as perguntas feitas pelos investigadores, principalmente sobre a posse de um barco de alumínio e de pedalinhos de criança fotografados num lago artificial da Fazenda Santa Bárbara, em Atibaia.

     

    A propriedade está em nome de Fernando Bittar e de Jonas Suassuna Filho. Os dois são sócios de Fábio Luiz, um dos filhos do ex-presidente. Os procuradores dizem que o imóvel pertence, na verdade, a Lula e é fruto de “propinas decorrentes do favorecimento ilícito da OAS”, empreiteira investigada na Lava Jato.

    Apesar das menções pontuais às acusações durante o pronunciamento público, não se tratou de uma resposta jurídica, mas de um discurso político do ex-presidente. Durante todo o tempo, ele se referiu a um conluio entre a Justiça, a imprensa e a “elite brasileira” contra o “andar de baixo”.

    Lula ressaltou as superações que marcaram sua biografia, tanto na infância pobre no interior de Pernambuco quanto na luta pela democracia no movimento sindical, para dizer que se tornou o melhor presidente da história do Brasil, apesar da resistência “das elites”.

    O ex-presidente gritou, bateu na mesa e se emocionou durante o discurso, apoiado por risos e palmas de apoiadores. Ele prometeu viajar pelo país e voltar à militância política que marcou os primeiros anos da fundação do PT. Apesar de se dizer pessoalmente magoado, Lula disse ter ganhado novo ânimo político, sem mencionar abertamente a possibilidade de disputar a Presidência novamente em 2018. “Se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo. A jararaca está viva”, concluiu.

    Abaixo, os principais trechos da resposta de Lula às suspeitas da Lava Jato:

    Sítio em Atibaia

    O que diz a Lava Jato: Investigadores afirmam que Lula é o verdadeiro dono do imóvel, mas o colocou em nome de "laranjas". A Lava Jato diz que reformas feitas no local, custeadas pela Odebrecht, serviram para ocultar propinas pagas pela empreiteira a Lula e ao PT.

    O que Lula diz: “Esse companheiro [Fernando Bittar, um dos donos do sítio] comprou uma chácara na perspectiva de permitir que eu usasse e eu não posso usar porque é crime eu usar a chácara. (...) Eu uso o sítio de um amigo porque os inimigos não me oferecem (...) Bem que a Globo poderia oferecer o tríplex de Paraty que eu ia lá. Quem tem casa em Nova York, em Paris, nunca me ofereceram. Se me oferecesse eu ia.”

    Tríplex no Guarujá

    O que diz a Lava Jato: Procuradores afirmam que a OAS reformou um dos tríplex no Guarujá para beneficiar Lula, que tinha direito de compra de um apartamento no mesmo condomínio (o petista desistiu do negócio depois que o caso veio a público). O dinheiro gasto na reforma foi resultado de desvios de contratos da Petrobras, segundo a Lava Jato.

    O que Lula diz: “Um apartamento que não é meu, eles dizem que é meu. Eu quero saber quem vai me dar o apartamento quando esse processo terminar. Se vai ser a Globo ou o Ministério Público. Não é meu porque eu não paguei e não comprei. Se eu não comprei e não paguei, não é meu. Alguém vai ter que me dar o apartamento. Quando eu pagar e tiver uma escritura no meu nome eu vou dizer: é meu. E terei orgulho de dizer.”

    Palestras pagas por empreiteiras

    O que diz a Lava Jato: O Instituto Lula e a LILS Palestras, empresa do ex-presidente, receberam ao menos R$ 30 milhões de seis empreiteiras investigadas pela Lava Jato. Os valores eram referentes a palestras feitas por Lula, entre 2011 e 2014, quando ele já não era mais presidente. Procuradores querem saber se o dinheiro têm ligação com os desvios na estatal.

    O que Lula diz: "Eu me transformei no conferencista mais caro do mundo junto com o Bill Clinton [ex-presidente dos EUA]. Empresas que agenciam vários presidentes queriam me empresariar e a Clara Ant [diretora do Instituto Lula] falou que quem ia agenciar é o Instituto. 'Quanto vai cobrar? Vai cobrar igual ao Clinton'. Paga quem quiser, contrata quem quiser. Eu não tenho complexo de vira-lata. As pessoas que estranham que eu cobro US$ 200 mil, não se preocuparam que o Clinton veio aqui na CNI [Confederação Nacional da Indústria] e cobrou US$ 1 milhão. Vira-lata bate palma."

    Acervo pessoal

    O que diz a Lava Jato: Segundo os procuradores, ao sair do Palácio da Alvorada (2010), residência oficial da Presidência, Lula guardou bens pessoais num local de armazenagem da OAS. Esse favor é avaliado em mais de R$ 1 milhão e serviu, segundo a força-tarefa, para retribuir Lula por favorecimento à empreiteira em negócios com a Petrobras.

    O que diz Lula: "Eles agora querem saber do acervo. Deveriam ter procurado saber do acervo antes de me comprometer com essas tranqueiras todas. Sabe o que é alguém sair da Presidência com 11 containers de acervo sem ter onde pôr? Cadeira, trono, papel, tudo que vocês possam imaginar... Se somar todos os presidentes da história desse país, desde Floriano Peixoto, eu fui o que mais ganhei presente. Porque viajei mais, trabalhei mais, viajei o mundo. Eu tenho até trono da África. O que eu faço com isso? É do presidente, mas de domínio público. Eu tenho que tomar conta, mas ninguém me paga. Se o Ministério Público está preocupado, vou lá oferecer meu acervo. Eles tem um prédio redondo de vidro fumê que pode guardar as coisas que eu tenho. Aquilo não me faz nenhuma importância."

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