Robôs decifram autores clássicos: um grande passo para a inteligência artificial

Inteligência artificial interpreta livros para conhecer o contexto de uma frase e poder entender melhor o que nós dizemos

     

    Uma frase dita por duas pessoas diferentes pode ter significados distintos. Dependendo da personalidade da pessoa e a situação em que ela diz algo, você interpreta de uma maneira.

    O mesmo não acontece com os robôs. Máquinas são relativamente boas em entender gramática e o significado de uma palavra. O problema é que elas não conseguem levar em conta o contexto da frase e a personalidade de quem a diz. Mas isso pode mudar graças ao trabalho de pesquisadores do Google.

    Um grupo de estudos sobre entendimento natural de linguagens, liderado pelo cientista Ray Kurzweil está tentando ensinar robôs a extraírem entendimento contextualizado de textos. Para isso, estão treinando-os com literatura clássica. As máquinas devem analisar diversos livros de autores como William Shakespeare e Mark Twain para saber diferenciar a personalidade e estilo de cada um.

    “Ao experimentar com sistemas capazes de perceber e projetar diferentes tipos de personalidade, nossa missão é permitir que computadores interpretem o significado das linguagens naturais de forma semelhante como fazemos.”

    Pesquisadores do Google

    em post no blog da empresa

    Sistema funciona escolhendo frases

    Para entender o contexto de uma frase, o Google precisa conhecer mais sobre a personalidade do autor. Ele necessita saber como Shakeaspeare se comportaria em determinada situação ou como Twain completaria uma frase específica.

    Para isso, foram feitos vários testes. Em um deles, os cientistas apresentavam uma frase e perguntavam para os robôs se determinada sequência fazia sentido. Por exemplo: eles perguntavam se era plausível que a continuação da frase “Como vai você?” ser “Eu gosto de bolo”. Nessa prova, as máquinas acertaram a sentença mais provável em 82,8% dos casos.

    Após evoluir o sistema, os robôs já sabiam dizer quem era o autor de determinado texto. Nesse estágio, no mesmo teste, o índice de acerto subiu para 88,9%.

    Depois, quando a máquina já é capaz de identificar o autor, os pesquisadores mudaram novamente o sistema. Em vez de ter de responder se a sequência fazia sentido ou não, agora o robô tinha duas opções de sentenças e precisava escolher qual faria mais sentido. Exemplo: frente a frase “Como vai você?”, ele deveria escolher entre “Eu gosto de bolo” ou “Vou bem, obrigado”. Nesse teste, o grau de acerto foi para 95%.

    Nesse estágio, ao entender como o autor se comportava, o sistema passou a até supor como ele completaria uma frase que nunca escreveu, ou como se comportaria em determinada situação específica. Segundo a inteligência artificial, se um telefone tocar, Shakespeare deixaria ele tocando até alguém atender; já Twain tentaria ser o primeiro a atender.

    Os robôs ainda reconheceram traços de personalidade. Eles classificaram Shakeaspeare como alguém mais introvertido, enquanto Twain mais extrovertido. Aqui o Google mostra como ele classificou outros autores. 

    “Esse trabalho é um primeiro passo para entender intenções e como o contextos de longo prazo influenciam a interpretação de texto. Além de ser divertido e interessante, esse trabalho tem o potencial de enriquecer produtos por meio de personalização”, dizem os pesquisadores. É com essa tecnologia que a empresa está desenvolvendo, por exemplo, o “Smart Reply”, ferramenta do Gmail que pretende entender o usuário o suficiente para responder seus e-mails mais simples.

    Assistentes virtuais também podem se beneficiar de descoberta

    Tal inteligência artificial, capaz de entender linguagens e contextos, alimentam as chamadas redes neurais artificiais. Elas são utilizadas em assistentes virtuais, como a Siri (Apple), Cortana (Microsoft), Now (Google) e M (Facebook). Ao entender o contexto da fala humana, as máquinas passam a nos entender melhor e nos oferecer serviços mais avançados. O Facebook, por exemplo, consegue reconhecer seu rosto em uma foto; o Google sabe as palavras que você costuma digitar no Android.

    A próxima fronteira para as redes neurais artificiais evoluírem e conseguirem oferecer mais coisas, sem depender de humanos, é o processamento de linguagens - justamente o que o Google está tentando resolver com seus novos estudos. Os sistemas precisam entender o que cada palavra significa e como elas se articulam. Só assim um computador poderá entender, de verdade, o que você fala e dar respostas completas para perguntas cada vez mais complexas.

    No entanto, para resolver esse problema, o pulo do gato está na coleta de dados. É claro que no meio dessa conta entra uma série de outros fatores, como bons engenheiros e algoritmos potentes. Mas, por trás da busca pelo melhor assistente virtual, há também uma corrida para ver quem tem mais usuários oferecendo mais dados, que são a matéria-prima de tudo. E pagam as contas - são eles que interessam para publicidade, que é a maior fonte de renda dos serviços grátis na internet.

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