Cinema brasileiro tem poucos negros, na frente e atrás das câmeras

Pretos e pardos correspondem à metade da população, mas são apenas 15% dos atores principais e 2% dos diretores de filmes nacionais

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A questão racial esteve no centro do debate do Oscar de 2016, pelo fato de nenhum negro ter sido indicado à premiação. Em alta em Hollywood, a questão da representatividade no cinema também vem à tona agora no Brasil, um país em que pretos e pardos correspondem à metade da população, mas são apenas 15% dos atores principais e 2% dos diretores de filmes nacionais.

Os dados são da pesquisa “A Cara do Cinema Nacional: perfil de gênero e cor dos atores, diretores e roteiristas dos filmes brasileiros”, conduzida por pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. No levantamento, que analisou os lançamentos brasileiros de maior bilheteria entre os anos de 2002 e 2014, os pesquisadores perceberam que o cinema nacional tem cor e gênero: é branco e masculino.

“As mulheres negras, inexistentes nos principais cargos técnicos, são o grupo com menor representatividade nos elencos e, quase sempre, acompanhadas por estereótipos negativos”, disse ao Nexo Marcia Rangel Cândido, mestre em ciência política e uma das responsáveis pelo estudo.

O levantamento utilizou dados da Ancine (Agência Nacional do Cinema) e critérios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para fazer a avaliação dos filmes.

A cara do cinema brasileiro

Atrás das câmeras, nenhuma mulher negra

84% dos filmes foram dirigidos por homens brancos; mulheres brancas dirigiram 13% das produções, enquanto homens negros foram responsáveis por apenas 2%. Nenhum dos filmes foi dirigido por uma mulher negra. Entre os roteiristas a diferença permanece. 74% deles são homens; destes, apenas 4% são negros. Entre o restante, de mulheres roteiristas, não há sequer uma negra.

Na atuação, negros são minoria e são estereotipados

Apenas 31% dos filmes analisados tinham atores negros. E, segundo os pesquisadores, quase sempre eles apareciam em papeis estereotipados, associados à pobreza e criminalidade. Em números gerais, 59% dos atores são homens (destes, 14% são negros). As mulheres são 41% (e só 4% são negras).

“Os dados notabilizam o problema da questão racial no país. Se as mulheres brancas encontram participação desigual em relação à predominância dos homens de cor branca, os negros e as negras são ainda mais atingidos por esse contexto assimétrico”, diz o estudo.

Os cargos técnicos na área audiovisual necessitam de um alto grau de profissionalização - por isso, a área reflete a desigualdade do Ensino Superior no Brasil (hoje, com políticas de incentivo como cotas, negros são apenas 22% dos estudantes em universidades federais).

Mas esse não é o único fator. Para Marcia Cândido, ainda há “barreiras simbólicas que ainda operam para manter esses grupos apartados de maior participação no circuito comercial”. Elas ficam claras ao se observar a produção de festivais com o o Femina, dedicado a filmes produzidos por mulheres, e o Encontro de Cinema Negro do Brasil, África e Caribe, que explicitam a qualidade e alto nível técnico das produções.

Falta de políticas públicas se reflete na falta de diversidade

 

Nos EUA, a indústria do cinema é custeada principalmente por empresas e instituições privadas - por isso, a falta de representatividade pode ser tratada no âmbito do financiamento privado. Mas, no Brasil, o cinema depende de leis de incentivo, como a Rouanet. Para Marcia, uma das razões para a desigualdade no Brasil é a falta de políticas públicas voltadas para a correção das igualdades históricas.

“A Lei Rouanet e a Agência Nacional do Cinema [Ancine] ainda operam com mecanismos que facilitam a manutenção de grupos dominantes como contemplados em financiamentos públicos”, critica a pesquisadora.

Para ela, os editais lançados pelo Ministério da Cultura dedicados a minorias ainda têm o orçamento muito baixo - além disso é necessário que “outras instituições também se comprometam em elaborar iniciativas especiais para democratizar o cinema, deixando de ignorar debates sobre racismo e sexismo nos meios de comunicação”.

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