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Por que a relação entre zika e microcefalia ainda não está totalmente confirmada

Há cada vez mais evidências que vírus causa má-formação cerebral em bebês. Mas, para a ciência, elas ainda não são suficientes

    A relação entre zika vírus e microcefalia ainda é uma hipótese. Bastante provável, mas ainda uma hipótese. As evidências apresentadas em vários estudos apontam o vírus como responsável pela má-formação cerebral. Mas, para a ciência, ainda é cedo para se ter certeza.

    Em novembro, o Ministério da Saúde afirmou ter confirmado a relação entre zika e microcefalia. Já a OMS (Organização Mundial da Saúde), que declarou emergência global em relação ao tema, é mais cautelosa. Em sua página oficial, ela diz o seguinte:

    "Agências investigando surtos de zika estão encontrando mais evidências corporais relacionadas à conexão entre o zika vírus e a microcefalia. No entanto, mais investigações são necessárias para entender melhor a relação entre microcefalia em bebês e o zika vírus. Outras potenciais causas também estão sendo investigadas."

    Para colocar mais dúvidas nas investigações, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, disse que nenhuma das 3.177 grávidas infectadas pelo vírus no país apresentaram casos de microcefalia. Lá, mais de 25 mil pessoas tiveram zika.

    Nos EUA, são reportados 25 mil casos de microcefalia por ano (0,6% da população de recém-nascidos). No Brasil, em 2014, foram registrados apenas 147 casos de microcefalia (o que resultaria em uma taxa de 0,007% de recém-nascidos). A diferença na proporção é muito grande.

    No jornal “O Estado de S. Paulo”, o biólogo Fernando Reich escreve que “esse aparecimento súbito [de novos casos suspeitos de microcefalia] pode ser real, e causado pelo zika, ou pode ser uma anomalia causada pela subnotificação no Brasil”.

    Segundo ele, "é o pequeno número de casos nos últimos anos que faz com que fique difícil saber se o número de microcéfalos realmente está crescendo por causa do zika”.

    No último boletim epidemiológico divulgado na sexta-feira (12), o Ministério da Saúde diz que foram reportados 5.079 casos suspeitos de microcefalia no Brasil desde o início das investigações em 22 de outubro de 2015 até 6 de fevereiro de 2016. Desses, 3.852 (75,8%) ainda estão sendo investigados.

    Do restante, 765 (15%) foram descartados. Apenas 462 (9%) se tornaram casos confirmados de microcefalia - entre eles, somente 41 (0,8%) são casos confirmados com relação ao zika vírus.

    Os números corroboram com a cautela da OMS. A relação entre o zika e a microcefalia não é estabelecida ao acaso. Essas são algumas das correlações encontradas até o momento que estabelecem a conexão:

    As evidências já encontradas

    Zika é detectado no cérebro de um feto

    Uma gestante, da Eslovênia, foi infectada pelo zika em Natal (RN) no primeiro trimestre da gestação. O feto foi abortado depois de 32 semanas de gravidez. Na autópsia, pesquisadores descobriram estruturas neurológicas danificadas e confirmaram a presença do zika vírus no tecido cerebral. O estudo foi publicado no “New England Journal of Medicine”.

    Vírus consegue ultrapassar a placenta

    Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, com a PUC-PR (Pontíficia Universidade Católica do Paraná) indica que o zika consegue ultrapassar a placenta durante a gestação. A análise foi feita a partir de amostras de uma paciente na Região Nordeste que sofreu um aborto retido (quando o feto para de se desenvolver dentro do útero) na oitava semana de gravidez, após apresentar sintomas de infecção pelo vírus. O resultado não necessariamente significa que há relação entre a contaminação e a microcefalia, mas é um indício de que a carga viral é passada para o bebê.

    Ele foi detectado em tecidos de bebês

    Em novembro, quando o Ministério da Saúde estabeleceu a relação entre zika e microcefalia, os pesquisadores haviam identificado a presença do vírus em amostras de sangue e de tecido de bebês com a má-formação cerebral.

    Exames para outras doenças deram negativo

    Outro estudo, publicado pelo norte-americano CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças, na sigla em inglês), avaliou 35 bebês nascidos com microcefalia entre agosto e outubro de 2015. Nenhum deles apresentava sífilis, toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus e herpes, que também podem causar a má-formação cerebral. No entanto, 26 mães (74%) apresentaram sintomas da infecção pelo zika vírus no primeiro ou segundo trimestre de gestação. Desses bebês, 25 (71%) tiveram microcefalia severa.

    Anticorpos para o zika vírus foram encontrados nos bebês

    Uma pesquisa feita em parceria pelo Centro de Pesquisas Ageu Magalhães e o CDC realizou teste de detecção de anticorpos específicos para o zika vírus em 12 bebês. Em todas as amostras, os resultados foram positivos. Como o anticorpo é grande demais para passar a barreira placentária, os resultados levam a duas conclusões. “Em primeiro lugar, este anticorpo foi produzido pelo bebê (não pela mãe), o que implica que o bebê foi infectado pelo vírus antes do nascimento. Em segundo lugar, também indica que o vírus foi capaz de infectar o sistema nervoso do feto”, escreve no blog da Sociedade Brasileira de Imunologia, Dinler Amaral Antunes, doutor em Genética e Biologia Molecular pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

    Quais sãos os próximos passos na investigação

     

    A situação é muito nova. A relação entre zika e microcefalia começou a chamar a atenção no Brasil há dois meses. Estudos epidemiológicos são complexos e demoram tempo para chegar a conclusões definitivas.

    Além disso, no caso da gravidez, a situação é ainda mais complicada porque envolve uma série de particularidades da gestação, além de exigir acompanhamento da mãe e do bebê. 

    “Estabelecer de forma definitiva a relação causal entre a infecção por um patógeno e uma dada manifestação clínica não é uma tarefa fácil, sobretudo quando a manifestação afeta apenas uma parcela pequena dos indivíduos infectados e apresenta um intervalo grande de tempo entre o momento da infecção e a manifestação do referido desfecho”, escreve Antunes.

    A USP (Universidade de São Paulo) está realizando um estudo com seis mil grávidas para investigar as relações entre zika e a microcefalia. No entanto, o projeto, que conta com investimento de R$ 500 mil, deve ser concluído só no final de 2017. As gestantes serão acompanhadas mensalmente e exames tentarão detectar qualquer relação entre as doenças.

    Segundo reportagem da revista “Nature”, muitos pesquisadores acreditam que dados epidemiológicos sozinhos não serão suficientes. De acordo com os cientistas ouvidos, é necessário reproduzir estudos em laboratório, introduzindo o vírus no cérebro de animais para testar os efeitos. Pesquisas nesse sentido já estão sendo desenvolvidas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

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