Como Beyoncé tratou de violência policial no programa mais visto da TV americana

Cantora lançou música crítica e se apresentou com dançarinas vestidas de Panteras Negras no Super Bowl. Houve reação de todos os lados

     

    A cantora americana Beyoncé lançou um single no último sábado chamado “Formation” (formação, em inglês), devidamente acompanhado de um videoclipe super produzido. Com a mesma música, a “Rainha Bey”, como é chamada, se apresentou domingo no intervalo do Super Bowl, o jogo da final do campeonato de futebol americano que se tornou o evento esportivo mais importante do país e também o de maior audiência na televisão (são 114 milhões de TVs ligadas).

    Mas o que seria apenas mais uma apresentação grandiosa da artista virou polêmica. As expectativas antes - pela possibilidade de Beyoncé cantar "Formation" - e depois do show despertaram reações de todos os lados: muitos vibraram com a sua perfomance, muitos passaram a incitar um boicote à cantora e ao Super Bowl.

    Isso porque a música e a perfomance de Beyoncé exaltam o negro americano e criticam a violência policial em um momento em que os Estados Unidos passam por tensões sociais após diversos casos de morte de negros por policiais brancos.

    Um desses casos foi o de Michael Brown, de 18 anos, morto com dois tiros na cabeça em Ferguson, no Missouri, em 2014. Depois disso houve o caso de Walter Scott, de 50 anos, morto com um tiro nas costas quando fugia desarmado de um policial, em North Charleston, na Carolina do Sul, em 2015; e Freddie Gray, de 25 anos, morto após sofrer uma ruptura de vértebra enquanto era detido por policiais em Baltimore, em Maryland, em abril do ano passado. 

    A letra e o clipe de “Formation” carregam uma série de referências à história do movimento negro nos EUA e aos recentes casos de violência policial no país. A apresentação de Beyoncé no Super Bowl não foi diferente:

    O que diz a letra de ‘Formation’

    A letra é fundamentalmente sobre o orgulho negro. Exalta mulheres, a origem do negro americano, os Estados do sul do país (Beyoncé é de um deles: o Texas), cita estereótipos sobre negros de forma orgulhosa (o de ir ao restaurante Red Lobster, ou de andar com molho de pimenta na bolsa), e, sobretudo, fala sobre a capacidade de todo negro nos EUA de assumir poder.

     

    “Eu vejo algo, eu quero (...)  / Eu sonho, Eu trabalho duro / Eu me esforço até tê-lo”

    “Você pode ser um Bill Gates negro em formação, porque eu destruo / Eu posso ser uma Bill Gates negra em formação / Okay meninas, agora entremos em formação, eu destruo”

    O que mostra o clipe de ‘Formation’

    O clipe começa com a voz de Messy Mya, uma celebridade youtuber de Nova Orleans morta a tiros em 2010, dizendo: “O que aconteceu em Nova Orleans? Vadia, eu estou de volta por demanda popular”. Beyoncé aparece em pé sobre um carro de polícia coberto por água, uma referência aos estragos do furacão Katrina que em 2005 atingiu Nova Orleans e todo o Estado de Louisiana, onde a filmagem acontece.

     

    As imagens misturam cenários de casas submersas e Beyoncé com roupas de época, remontando ao século 19. “Meu pai é Alabama, mamãe Louisiana. Você mistura o Negro com o Creole e faz uma Texas ‘bamma’ (gíria sulista para ‘cafona’)”. Surge na tela a filha de Beyoncé e Jay-Z, Blue Ivy, com seu cabelo black, enquanto a mãe canta: “Eu gosto do cabelo do meu bebê, com cabelo de bebê e afros. Eu gosto do meu nariz negro com as narinas dos Jackson Five”, em referência ao grupo de Michael Jackson e seus irmãos quando jovens.

     

    Beyoncé aparece, ainda com roupa de época, de luto em uma espécie de velório em frente a uma casa, em seguida em uma sala de estar com um grupo de mulheres negras vestidas como madames brancas. A cena pula para um estacionamento em que Beyoncé e suas dançarinas exibem a coreografia do refrão (o vídeo imita a qualidade dos vídeos VHS em um cenário típico dos anos 1980), ao som de: “Eu destruo (gíria traduzida de “slay”, mas que também poderia significar “eu mato”), okay. Okay, meninas, agora vamos entrar em formação. Eu destruo”.

    A “Rainha” aparece então novamente de preto (uma referência às práticas de bruxaria ou vodu nos Estados do sul americano) mostrando o dedo do meio e dizendo que “quando ele transa bem comigo, eu levo ele para o Red Lobster”,  ou então deixa ele dar uma volta no seu “helicóptero”, ou ainda permite que a música dele toque no rádio. E encerra dizendo que você e ela “podem ser um Bill Gates negro em formação”.

    Entre uma cena de missa batista frequentada por muitos negros e outra que mostra um jornal estampando o ativista negro Martin Luther King na capa, começam a aparecer cenas atuais de um garoto vestido de preto e usando um gorro e dançando em frente a um paredão de policiais que então levantam as mãos para o alto e “se rendem”. Em seguida, a câmera passa por uma parede com a frase: “Parem de atirar em nós” (“stop shooting us”). Aqui, uma clara referência aos recentes protestos contra a violência policial americana.

     

    O clipe acaba com Beyoncé afundando sobre o carro de polícia.

    Como foi a apresentação de ‘Formation’

    Beyoncé aparece no gramado do estádio da final do Super Bowl vestida com uma jaqueta inspirada naquela usada por Michael Jackson, logo após uma banda militar abrir alas para ela entrar. Suas dançarinas estão todas vestidas de preto com boinas também pretas, em referência aos Panteras Negras, organização política negra ativa nos anos 1960 e 70, famosa por sua atuação armada defendendo guetos negros da violência da polícia, considerada racista.

     

    Qual é a polêmica?

    A união de letra, clipe e apresentação revoltaram os defensores da polícia e quem, em geral, não vê no racismo o fato que motiva as mortes de negros pobres nos Estados Unidos. Faz parte dessa linha de pensamento o grupo partidário da campanha “All Lives Matter” (todas as vidas importam), uma resposta à campanha “Black Lives Matter” (a vida dos negros importa), criada na internet em 2013 por ativistas negros após a morte do jovem Travyon Martin, baleado por um vigilante na Flórida.

    Após o show, posts no Facebook e no Twitter com a hashtag ‪#‎BoycottBeyonce‬, #‎BoycottNFL‬ ‪e ainda #‎BoycottPepsi‬ passaram a pedir o boicote à artista, ao campeonato de futebol americano e à empresa patrocinadora dos shows no Super Bowl.

    Do outro lado, “Formation” parece ter sido bem recebida pelos fãs. Poucos minutos depois da apresentação, foi anunciada a turnê “The Formation World Tour”, com a qual Beyoncé deve viajar pela América do Norte e Europa a partir do dia 27 de abril. Interessados se apressaram em acessar o site de vendas de ingressos que, devido ao volume excessivo de visitantes, chegou a ficar fora do ar.

    ESTAVA ERRADO: A versão inicial deste texto dizia que Beyoncé aparece de "luto" em certa cena do clipe. Na verdade, ela está fazendo uma referência às antigas bruxas ou praticantes de vodu de Louisiana. O texto foi corrigido às 14h38 do dia 9/02/2016.

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