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Por que o Baiana System é a grande banda do Carnaval 2016

Letras politizadas e raízes musicais misturadas ao rap, rock e música jamaicana são a base do fenômeno baiano deste ano

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    O Carnaval baiano está com outra cara - menos axé e mais guitarra baiana misturada com rap, rock, dubstep, música eletrônica, caribenha e jamaicana.

     

    Essas são algumas das influências perceptíveis do Baiana System, um trio que está mexendo com a música segundo artistas tão diferentes quanto BNegão, Daniel Ganjaman e Marcio Victor, do Psirico (o responsável pelo hit Lepo Lepo, do carnaval de 2014).

    O projeto, criado em 2009, reúne Russo Passapusso, Roberto Barreto e Marcelo Seco e chama atenção pelas performances explosivas, inclusive no circuito Barra Ondina no Carnaval de 2016:

     

    Mas também é conhecido pela capacidade de reunir públicos de gostos bem diferentes atrás do trio. O Nexo conversou com o jornalista baiano Luciano Matos, que cobre música há mais de 15 anos, para enumerar as razões pelas quais o Baiana System é a grande estrela do Carnaval 2016.

    Axé music em baixa

    A música baiana pedia renovação há alguns anos - e o Baiana System surgiu exatamente nesse momento. "A indústria explorou o axé ao máximo e isso ofuscou qualquer outra produção, nada mais saía daqui", afirma Matos.

    Para ele, a fórmula repetitiva da música local também se esgotou e era natural que algo novo surgisse e ganhasse espaço. "Esse axé baiano popular, que vende a Bahia como terra da felicidade, perdeu a conexão com a massa."

    Forte conexão com a cultura local

    Ao mesmo tempo, a banda surgiu de uma necessidade dos músicos de criar algo inovador em cima da tradicional guitarra baiana, um instrumento de madeira sólida com captadores magnéticos e afinação em quintas.

    A sonoridade ficou famosa nas músicas de Luís Caldas, por exemplo, que fundou a Banda Eva na década de 1980. São elementos familiares da música local misturados de uma maneira que não tinha sido feita antes.

    Letras contundentes e engajadas

    O Baiana abusa dos recursos poéticos nas letras, às vezes flertando com os aspectos técnicos do rap. Misturado a isso, falam de temas politicamente importantes, o que se torna mais atraente em um país que recentemente se viu mais interessado por política. A aposta da banda para o Carnaval é a música "Lucro (descomprimido)", uma cumbia sobre especulação imobiliária e exploração desenfreada na natureza na Bahia, por exemplo. Aqui está a letra:

    "Tire as construções da minha praia

    Não consigo respirar

    As meninas de mini saia

    Não conseguem respirar

    Especulação imobiliária

    E o Petróleo em alto mar

    Subiu o prédio, eu ouço vaia

    Eu faço figa pra

    Pra esse vida tão sofrida

    Terminar bem-sucedida

    (...)

    Máquina de louco

    Você pra mim é lucro

    Máquina de louco"

    "Essa postura acabou atraindo fãs ativistas LGBT, feministas, do movimento negro, embora a banda não tenha especificamente se vendido com esse bandeira", explica Matos.

    Fãs entusiasmados

    Matos destaca os shows da banda como experiências catárticas. E os vídeos dos shows comprovam isso. "Eu via os shows do Baiana há três anos e sabia que eles iam virar algo grande. Era diferente, a massa no carnaval ouvia o som e se juntava ao bloco", diz ele.

    Foto: reprodução/facebook/divulgação
    Apresentações do grupo são descritas como 'catárticas'
    Apresentações do grupo são descritas como 'catárticas'

    As influências da música eletrônica são responsáveis pelos elementos audiovisuais e decoração psicodélica do palco.

    Além disso, a banda é queridinha de grandes nomes de diferentes origens musicais, como os rappers B Negão, Karol Conka, Lurdes da Luz, Luis Caldas, o produtor Daniel Ganjaman e até a cantora Ivete Sangalo.

    Públicos variados e múltiplas influências

    As influências do Baiana System são difíceis de enumerar. Mas além da guitarra baiana que conduz a levada, pode-se escutar reggae, dubstep, música caribenha e reggaeton, rock e pagode baiano.

    Para Matos, isso é natural: reflete a variedade de produções musicais do Estado. "A Bahia sempre teve outras coisas, tem rock, tem rap. O Baiana reúne essas influências", diz.

    Como começou na cena independente, a banda tem a atenção dos entusiastas da cena underground de música no Brasil. Ao mesmo tempo, o ritmo das músicas também funciona muito bem como batuque de carnaval - e aí se iguala aos ritmos de trio elétrico baiano.

    "A própria estética do reggae, do dub, vem sendo uma tônica nas composições atuais, e eu achava que a guitarra baiana se encaixava muito bem nessas linguagens, principalmente do dub, que acaba sendo muito mais estética do que gênero, a forma de utilizar os delays, as colagens."

    Roberto Barreto

    Músico do Baiana System em entrevista à Saraiva Conteúdo

    Discrição

    Para Matos, a recusa do Baiana de tocar em grandes festivais e ao lado de músicos com os quais eles não se identificam - "apesar dos vários convites" - é um sinal da integridade musical e acaba trazendo os fãs ainda mais para perto. Os músicos também são avessos ao marketing tradicional. Dificilmente dão entrevistas e sequer têm uma foto de divulgação oficial da banda.

    Experiência musical diversa - e vasta

    Passapusso, Barreto e Seco já passaram por outros grupos consagrados de diferentes ritmos. Passapusso também está por trás do Bemba Trio e do Ministereo Público e recentemente lançou um elogiado  disco solo.

    Robertinho Barreto tocou no Timbalada e no Lampirônicos, banda de rock que chamou a atenção na Salvador do início dos anos 2000.

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