Relatos de pesquisadores ilustram consequências do desastre de Mariana

Expedição levanta impacto social e ambiental da tragédia. Resultado revela uma outra dimensão do rompimento da barragem

     

    Ainda não está claro o tamanho do impacto do desastre de Mariana (MG). Enquanto alguns pesquisadores seguem avaliando os efeitos sobre animais, águas e vegetais, outros tentam entender as consequências econômicas e sociais da tragédia, que despejou 60 milhões metros cúbicos de lama ao longo do rio Doce. Com o intuito de entender a dimensão do problema na vida das pessoas, pesquisadores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) realizaram uma expedição por algumas das regiões impactadas.

    A expedição, que aconteceu semanas após a tragédia, contou com dois pesquisadores do departamento de Geografia da UFMG e um de Geociências da UFJF. O relatório preliminar foi divulgado em janeiro e conta com relatos de moradores das principais regiões impactadas pela lama: Regência (ES), Linhares (ES), Colatina (ES), Baixo Guandu (ES), Resplendor (MG), Conselheiro Pena (MG), Governador Valadares (MG), Periquito (MG), Ipatinga (MG), Santa Cruz do Escalvado (MG) e Barra Longa (MG).

    Eis algumas das conclusões:

    Boa parte da população não tem total clareza sobre a situção

    Os pesquisadores afirmam que “parece claro que interesses econômicos e políticos maquiaram discursos bastante tendenciosos, distantes do propósito de alertar e informar a população”. O documento relata que “muitos entrevistados pareciam tranquilos sobre a contaminação das águas e dos solos devido ao que foi divulgado pela Samarco, mesmo antes de órgãos oficiais realizarem os próprios laudos”.

    O relatório diz, ainda, que essa confusão gera reações ambíguas por parte da população. Algumas pessoas dizem frases como “o rio morreu”, “nem meus netos vão pescar aqui”, mas também falam na esperança de um dia a Samarco “limpar o rio”. “Prognósticos infundados e irresponsáveis divulgados pela grande mídia confundiram ainda mais a população, que não sabe em que acreditar”, diz o relato.

    As vítimas do desastre culpam a Samarco

    “Foi praticamente unânime entre os entrevistados o veredito de que a culpa pelo desastre deve ser atribuída ao consórcio Samarco/Vale/BHP e/ou aos órgãos de fiscalização e controle ambiental”, diz o documento.

    Falta assistência à população rural

    De acordo com os pesquisadores, as atenções estão sobretudo voltadas às cidades, enquanto as áreas rurais, também impactadas pelo desastre, não despertam a mesma preocupação e terminam sem assistência, muitas vezes, inclusive sem receber água. Dessa forma, a Samarco “se aproveita desse aspecto e se ausenta das zonas rurais”.

    Para parte dos pescadores a assistência também não chegou. Em Regência (ES), por exemplo, alguns trabalhavam instalando boias de contenção e se sentiam, assim, “aliviados” por estarem contratados temporariamente - mesmo sem terem recebido compensações pela tragédia. As consequências se estendem à economia local. “Além da proibição da pesca, que afetou as famílias dos mais de 50 pescadores cadastrados, cerca de 60% das reservas das pousadas locais para a temporada do verão haviam sido canceladas”, diz o estudo.

     

    Em grandes cidades, a situação também foi caótica

    Em Governador Valadares (MG), cidade com quase 300 mil habitantes, a situação foi relatada como crítica. O documento traz o relato de um professor que “apontou a existência de um verdadeiro caos urbano: empresas dando férias coletivas aos funcionários; famílias com maior poder aquisitivo se deslocando temporariamente para outros municípios; fechamento temporário do campus da universidade”. Ele diz que “havia inclusive pessoas saindo em busca de água para encher suas caixas d’água, temerosos dos riscos de contaminação”. O estudo sugere que são “sinais de comportamentos do tipo ‘salve-se quem puder’”.

    Os pesquisadores relatam que, após ficarem mais de uma semana sem o fornecimento de água, alguns moradores estavam se banhando com a água disponibilizada pelo sistema público, sem se preocupar com possíveis consequências dermatológicas. Os shopping centers, que funcionavam normalmente, não tinham água nem nos banheiros.

    Habitantes lamentavam a morte de animais

    A revolta é maior nas cidades que sentiram mais as consequências da tragédia. Em Resplendor (MG), os depoimentos dão conta de que “as pessoas entrevistadas revelavam grande emoção e indignação ao se referir ao desastre” e lamentavam peixes grandes (alguns com até 12 kg) que morreram arrastados pela lama. Também “foi relatado que era comum ver pequenos mamíferos e roedores (como javalis e capivaras) bebendo água do rio antes do desastre, sobretudo nas porções de vegetação preservada, e que desde então estes animais sumiram”.

     

     

    Alimentação da população foi prejudicada

    Em Periquito (MG), parte da população, desinformada, chegou a comer peixes mortos que vinham pelo rio. Segundo um entrevistado, elas passaram mal e foram para o hospital. Em alguns casos, foram tomadas medidas de precaução. “Outros, cercaram os bebedouros de gado para que os animais não tocassem no rio, já que houve casos de galinhas e patos que morreram 24 horas após consumirem a água do rio. O mesmo morador que relatou a morte das galinhas disse também que os peixes mortos que foram trazidos pelo rio não foram comidos nem por urubus”, diz a publicação.

    A percepção entre moradores da zona rural e urbana é diferente

    O relatório diz que na área urbana da Santa Cruz do Escalvado (MG) muitos dos moradores não foram afetados pela tragédia. No entanto, na zona rural, a população foi impactada de forma brusca. “No momento em que os rejeitos chegaram, a população se deslocou para a ponte da cidade, de onde puderam observar árvores, animais e objetos que vinham sendo carregados pelo rio”, diz o documento.

    O texto também retrata o choque vivido pelos moradores: “Uma nota triste nessa localidade, diz respeito ao fato de um dos moradores ter encontrado fragmentos de corpos humanos em meio aos troncos depositados. Isso abalou sensivelmente as pessoas que confirmavam com pesar o episódio”.

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