O que há de errado no plano de recuperação ambiental da Samarco, segundo o Ibama

Plano entregue pela mineradora para recuperar o rio Doce foi considerado superficial e amador. Entenda seus pontos críticos

     

    A tragédia de Mariana (MG), causada pelo rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, espalhou lama pelo rio Doce até o oceano. Além de deixar 19 pessoas mortas, teve grandes consequências ambientais: o rio foi prejudicado, peixes e animais terrestres morreram e a vegetação na região foi danificada. Em resposta, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) pediu à Samarco, empresa controlada pela Vale e pela BHP, e responsável pela barragem, um plano de recuperação ambiental.

    O plano foi enviado no dia 18 de janeiro. No entanto, o Ibama o rejeitou , taxando-o de “genérico e superficial”. Ao “Jornal Nacional”, o diretor do Ibama, Paulo Fontes, chegou a chamar o documento, de 76 páginas, de "amador".

    A nota técnica do Ibama, divulgada em 28 de janeiro, explica os problemas do relatório da Samarco. Eis os pontos questionados:

    Em relação à flora

    O relatório da Samarco não especifica quais espécies de plantas foram afetadas e nem quantas destas se encontram em risco de extinção ou quantas têm distribuição limitada nos locais atingidos pela lama. Sem essa informação não é possível definir quais e quantos vegetais deverão ser cultivados nas áreas.

    Também não há detalhes sobre a área das margens dos cursos de água atingida. Segundo o Ibama,  essa informação é imprescindível para avaliar, de forma precisa, o dano feito à fauna e flora nativas, ou ainda saber qual o tipo de solo de cada local abaixo da lama.

    A Samarco também não menciona a altura da lama que se encontra depositada nas margens do rio nem sua composição química e  mineralógica. A altura da lama determina qual a técnica de revegetação que deve ser utilizada.

    Em relação aos animais

    O Ibama diz que o relatório subestima o impacto sobre os organismos aquáticos do rio e omite dados sobre o volume e diversidade de peixes encontrados mortos. Até 26 de dezembro, por exemplo, foram identificados e retirados do rio Doce mais de 28 mil peixes mortos. Eles pertenciam a dezenas de espécies. No entanto, segundo o órgão "é muito provável que uma quantidade imensuravelmente maior de peixes tenha morrido” graças às alterações causadas nos cursos de água.

    A abordagem do relatório também foi considerada superficial em relação à zona costeira, ignorando diversas espécies de peixes, aves e invertebrados aquáticos impactados pela lama.

    O Instituto diz que os impactos sobre a fauna terrestre também foram subestimados e não foram contemplados com possíveis soluções. Ao citar uma anta, que morreu presa na lama, o Ibama afirma que falta planejamento adequado de ações de resgate a animais impactados pelo desastre.

    Estudos desfavoráveis são subestimados

    O Ibama diz que apesar de estarem disponíveis muitos dados e resultados de análises sobre a turbidez das águas, a Samarco apresenta apenas "uma pequena amostragem, limitada a informações produzidas até meados de dezembro, se posicionando de forma otimista".

    Da mesma maneira, o órgão diz que há uma tendência da Samarco em "duvidar de análises que apresentam resultados pouco favoráveis". Enquanto isso, outros parâmetros, que não teriam relação direta com o acidente, como temperatura e coliformes, "são usados com ênfase para comunicar que nem todos os fatores relacionados à água foram afetados".

    Faltam propostas práticas

    O Ibama critica os prazos e diz que, mesmo as ações iniciais e consideradas urgentes não possuem nenhum prazo definido. Além disso, as ações de longo prazo também são taxadas de superficiais. "Por fim, não foram apresentados indicadores que permitam avaliar o sucesso de cada ação proposta".

    "De maneira geral, os assuntos relacionados à biodiversidade são apresentados de forma genérica e sem a devida relevância, como se tudo relacionado a este assunto fosse se resolver imediatamente com a recuperação da cobertura vegetal das margens dos rios e interrupção do lançamento de rejeitos nos cursos de água", diz o texto.

    A Samarco afirmou que os pontos de aprimoramento sugeridos pelo Ibama serão incorporados ao plano. Segundo eles, o documento é um processo dinâmico sob revisão permanente e aperfeiçoamento. A empresa terá até 17 de fevereiro para enviar a nova versão.

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