Como os cientistas manipulam insetos, vegetais e células-tronco para substituir a carne que você come

Alternativas têm apelo por serem mais saudáveis e prejudicarem menos o meio ambiente. Mas ainda são caras - e controversas

     

    Em 2050, a população do planeta chegará a 9 bilhões de pessoas. A ONU estima que precisaremos aumentar a produção de proteínas em 70% - e sem impactar o meio ambiente de maneira irreversível. Afinal, para criar gado para o abate ou plantar soja, é preciso desmatar e usar milhões de litros de água, por exemplo.

    Por isso, uma das preocupações da ciência é aumentar a produção de alimentos, especialmente de proteínas, de maneira sustentável. Além disso, há a crescente demanda de mercado por alternativas alimentares que não dependam da crueldade animal.

    Já existem várias alternativas promissoras. Elas vão de carne de verdade feita em laboratório, a partir de células bovinas, proteína animal feita de insetos ou bactérias e engenharia alimentícia que faz com que vegetais proteicos tenham gosto e textura de carne.

    Conheça as principais alternativas da ciência para substituir a carne

    Hambúrguer de insetos e larvas

    Grilos, cupins, formigas e larvas são a alternativa defendida pelo professor Marcel Dicke, da Universidade de Wageningen, na Holanda. Dicke já ganhou sete prêmios por suas pesquisas, inclusive em nutrição por insetos.

    A vantagem, de acordo com ele, é que insetos e larvas crescem rapidamente e precisam de pouca comida e água. Além disso, em alguns casos é possível alimentá-los com matéria orgânica que iria para o lixo - o que reciclaria esse material imediatamente de volta à cadeia alimentar.

     

    Já há startups dedicadas a colocar a alternativa em prática. A canadense Aspire Foods, por exemplo, se dedica a processar insetos para fornecer alimentos em países pobres. A americana Six Foods conseguiu financiamento coletivo para colocar no mercado salgadinhos feitos à base de grilo, arroz e feijão integral. São vendidos nos sabores cheddar, sal marinho e churrasco.

    A desvantagem: por enquanto, quase todo mundo tem nojo de comer insetos.  Além disso, alguns cientistas acreditam que criar esses animais em larga escala também poderia demandar uma produção insustentável de alimentos e água, o que não resolveria o problema de impacto ambiental.

    Carne a partir de células-tronco

    Em 2013, Mark Post, um cientista da universidade holandesa de Maastricht, apresentou o primeiro hambúrguer criado completamente em laboratório, a partir de células de bovinos.

     

    No processo, células tronco são retiradas do animal sem machucá-lo ou feri-lo. Em laboratório, as células são multiplicadas. Depois de três meses, as fibras são removidas individualmente e manualmente, cortadas e abertas, para então serem prensadas e formarem o tecido que dá liga à carne.

    O resultado é um hambúrguer 100% feito em laboratório, sem nenhum animal morto no processo. A energia empregada na produ��ão dessa carne é 70% menor do que aquela necessária para obter a mesma quantidade de carne bovina de uma vaca viva. A necessidade de terreno e água também cai cerca de 90%.

    Ainda há bastante resistência cultural à carne produzida em laboratório - nos EUA, 80% da população não comeria carne feita artificialmente. Mas esse não é o maior entrave: o grande problema é que o processo ainda é caríssimo. O valor total do projeto para produzir esse primeiro hambúrguer foi de quase 1 milhão e meio de reais.

    Há outras startups focadas em produzir carne artificial. No bairro do Brooklyn, em Nova York, uma empresa está produzindo carne e couro feitos em laboratório, a partir de células animais.

     

    “Vacas são muito ineficientes. Elas demandam 100 gramas de proteína vegetal para produzir apenas 15 gramas de proteína animal consumível. Então precisamos dar muita comida para as vacas para que possamos ter proteína animal suficiente para nos alimentarmos. Perdemos muita comida nesse processo. Com carne feita em laboratório, não precisamos matar as vacas e o processo não produz metano.”

    Mark Post

    Cientista da Universidade de Maastricht, na Holanda, em entrevista ao The Guardian

    Vegetais com gosto e textura de carne

    A Beyond Meat é uma empresa já em atividade que produz proteína com textura e gosto de carne de vaca e boi a partir de plantas e vegetais. Ethan Brown, o fundador da empresa, explica que a ideia é fazer um produto tão bom que ele possa atrair comedores de carne sem maiores problemas. Veja no vídeo (em inglês):

     

    Para isso, Brown diz que engendrou sua carne vegetal pensando diretamente na estrutura molecular da carne de verdade. Fibras, lipídios, proteínas são retirados de plantas e então reconectados da mesma forma como são encontrados na carne de verdade.

    O resultado foi muito elogiado por jornalistas e críticos que provaram a carne produzida pela Beyond Meat. De acordo com eles, não deve em nada em gosto ou textura para as proteínas animais.

    A Beyond Meat vende “carne” moída, hambúrgueres e tiras de “frango” em lojas de produtos naturais nos EUA. Mas é caro, como era de se esperar: um pacote de 200 gramas de proteína análoga a frango custa 26 dólares, mais de 100 reais.

    Outra iniciativa interessante é a da startup Impossible Foods, que também extrai componentes vegetais para criar hambúrgueres com suposto gosto e textura de carne moída de verdade. A ideia é colocar o primeiro hambúrguer vegetal no mercado em 2016.

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