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Por que é raro partidos brasileiros escolherem seus candidatos em prévias

Histórico de criação de legendas sem base social e culto à personalidade favorecem decisões tomadas pela cúpula; modelo utilizado no Brasil tem pouca semelhança com o norte-americano

     

    Ano de eleição é ano de disputa entre políticos da mesma legenda para saber quem sairá candidato, e no Brasil e essa escolha costuma ser feita a portas fechadas, com muita conversa na cúpula dos partidos. Mas há momentos excepcionais em que a decisão é aberta aos filiados. São as chamadas prévias.

    Não é nada parecido com o que ocorre nos Estados Unidos, onde as primárias (as prévias dos americanos) começaram a ser adotadas de forma extensa a partir da década de 1920 a fim de coibir autoritarismo e a corrupção nos partidos. Lá as disputas são abertas e os candidatos realizam uma extensa agenda de debates para a escolha do candidato.

    No Brasil, as prévias só ocorrem em último caso. E costumam não trazer grandes surpresas na escolha do nome que irá para a urna.

    O primeiro caso famoso de disputa interna pós-redemocratização por aqui ocorreu em 1988, quando Luiza Erundina contrariou o principal líder do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, e enfrentou Plínio de Arruda Sampaio pelo direito de se candidatar a prefeita de São Paulo. Erundina venceu a prévia e, depois, a eleição municipal.

    Foi um desses raros momentos em que a cúpula de um partido saiu derrotada de uma disputa pré-eleitoral. O próprio Lula já teve de enfrentar prévias. Foi em 2002, quando o então senador Eduardo Suplicy decidiu enfrentá-lo para ver quem seria o candidato à Presidência naquele ano. O líder petista venceu com 85% dos votos e, depois, foi parar no Palácio do Planalto.

    Mandachuvas e culto à personalidade

    Os partidos brasileiros não têm o hábito de realizar prévias por dois motivos principais, segundo a professora de ciência política Márcia Ribeiro Dias, da Universidade Federal do Rio de Janeiro:

    Legendas de cima para baixo

    Em regra, as legendas brasileiras nascem "de cima para baixo",  fundadas por quadros políticos já constituídos, e mantêm a mesma lógica na escolha de candidatos. A história recente do Brasil tem exemplos de partidos criados por decisão de apenas uma liderança política, sem base social consistente, como o PSD, de Gilberto Kassab. A maior exceção, segundo Márcia, é o PT em suas origens, um partido que nasceu a partir de um base social constituída. "A escolha do candidato no Brasil em geral é feita entre os que têm mais prestígio junto à cúpula", diz.

    Personalismo na política

    A cultura política brasileira dá mais valor à figura pessoal do político do que ao partido ao qual ele é filiado. Isso desestimula a participação em legendas e deixa as cúpulas mais livres para decidir sobre as candidaturas, diz Márcia.

    Nos Estados Unidos, as duas principais legendas nasceram da Guerra Civil Americana (1861-1865), identificadas com parcelas da sociedade. "Eles também têm quadros da elite política, mas o sistema se criou a partir das bases", afirma.

    Prévia contribui, mas não é ‘panaceia’

    O cientista político Humberto Laudares, fundador do movimento social-democrata Onda Azul, próximo ao PSDB, é entusiasta da realização de prévias partidárias como "mais um mecanismo" para aumentar a transparências das legendas e engajar os cidadãos, mas adverte que prática não pode ser encarada como uma "panaceia" que resolverá os problemas dos partidos. A história brasileira, diz, tem exemplos de prévias que serviram apenas para superar impasses pontuais, e não como prática participativa.  

    Florisvaldo Souza, secretário de organização do PT, diz que o Brasil não possui tradição de democracia partidária e ainda "está aprendendo" a lidar com as prévias. Para ele, um dos problemas do mecanismo seria a abertura, à sociedade, da disputa entre os pré-candidatos. "O debate que era para ser interno, entre os filiados, ganha uma projeção para fora. Acaba tendo muita interferência com a divulgação da mídia", diz.

    Escolha tucana em São Paulo

    A possibilidade de prévia que mais chama a atenção neste ano é a do PSDB da capital paulista, marcada para 28 de fevereiro e disputada por três candidatos: o vereador Andrea Matarazzo, o empresário João Doria Jr. e o deputado federal Ricardo Tripoli.

    O presidente do diretório paulistano do PSDB, vereador Mario Covas Neto, defende a realização de prévias, mas diz que o processo "é sempre complicado, pois ocorre uma disputa interna muita intensa". Ele também afirma haver na legenda "um pouco de desconfiança se o processo será levado até o final da forma como foi convencionado".

    "O argumento de que sem prévias não há briga é o mesmo de que sem democracia não há disputa"

    Humberto Laudares

    Cientista político e fundador do movimento Onda Azul

    Nesta quarta-feira (27), o "Estado de S. Paulo" informou que líderes do PSDB estavam preocupados com o "acirramento" da disputa interna em São Paulo e iriam pedir ajuda ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para buscar o "consenso interno" no diretório. A disputa interna pode até ser cancelada.

    Humberto Laudares, do Onda Azul, é cético sobre as prévias do PSDB em São Paulo. Diz que não houve debates até hoje e que os pré-candidatos estão buscando "feudos pré-estabelecidos". Além disso, a iniciativa de recorrer a FHC mostraria "imaturidade" dos tucanos. "Como o maior partido da oposição não consegue organizar prévias para eleição de prefeito? O argumento de que sem prévias não há briga é o mesmo de que sem democracia não há disputa", afirma.

    Prévias importantes no Brasil

    2012

    PSDB em São Paulo

    O diretório municipal do PSDB da capital paulista, na ausência de um nome que unisse a legenda na disputa pela prefeitura, decidiu realizar prévia entre quatro candidatos: José Aníbal, Ricardo Tripoli, Bruno Covas e Andrea Matarazzo. A cerca de um mês da realização das prévias, José Serra decidiu se lançar. O movimento fez Covas e Matarazzo abandonarem a disputa.

    Apenas 30% dos 21 mil filiados ao PSDB aptos a votar participaram e Serra venceu com 52% dos votos. Covas Neto avalia que a baixa participação de filiados em 2012 está relacionada à entrada tardia de Serra na disputa. "As pessoas que apoiavam os candidatos que se retiraram ficaram frustradas e não mantiveram o mesmo ânimo", diz.

    2012

    PT no Recife

    A legenda realizou prévias entre Maurício Rands, que integrava o governo de Eduardo Campos (1965-2014), do PSB, e o então prefeito do Recife, João da Costa, que venceu por 52% dos votos. Houve troca de acusações de fraudes e a executiva nacional do PT anulou o resultado, alegando falhas na definição do colégio eleitoral apto a votar. Humberto Costa se lançou na nova disputa, com apoio da direção nacional, foi escolhido candidato e acabou em terceiro na eleição. Insatisfeito com a intervenção da cúpula petista, Rands deixou o partido no mesmo ano.

    2002

    PT na eleição nacional

    Lula era o candidato favorito do PT para disputar a Presidência da República em 2002, quando Eduardo Suplicy, também interessado na vaga, fez valer o artigo 147 do estatuto do PT, que determina a realização de prévias se houver mais de um pré-candidato. Lula era contra a consulta, que custou, à época, R$ 500 mil, com cerca de 6 mil urnas em 3 mil municípios. Lula venceu com cerca de 85% dos votos válidos, contra 15% de Suplicy, entre 166 mil votantes.

    1988

    PT em São Paulo

    Luiza Erundina, respaldada por sua base entre assistentes sociais, decidiu disputar a escolha do candidato do PT a prefeito de São Paulo contra o desejo de Lula, que era contra a realização da prévia e apoiou o nome de Plínio de Arruda Sampaio. Ela derrotou Plínio e disse ter ouvido de integrante do partido que sua vitória comprometia "o projeto das esquerdas", segundo entrevista concedida em 2013 ao portal "Terra". Erundina venceu a eleição contra Paulo Maluf e se tornou prefeita da capital paulista. Segundo Florisvaldo Souza, secretário de organização do PT, Lula não se opôs às prévias contra Suplicy, em 2002, e entre Erundina e Plínio, em 1988. "O Lula sempre defende a ampliação das consultas e nunca se opôs ao debate interno", diz.

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