Gestos e decisões: como os japoneses lidam com a corrupção na política

Renúncia, mea culpa, penitência e até suicídio marcam o comportamento dos políticos japoneses flagrados em casos de corrupção e negligência

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Akira Amari não é mais o chefe da Economia japonesa. Ele renunciou nesta quinta-feira (28) depois de ter sido flagrado recebendo propina de uma empresa que mantém negócios com o governo.

A forma como o esquema funciona não é nada original. Demissões no governo japonês tampouco são novidade - esse é o quarto ministro que Abe perde por “má conduta”, desde que assumiu seu segundo mandato, em dezembro de 2012.

O que realmente chama a atenção nesses casos é a forma como os japoneses lidam com infração, culpa e perdão sempre que flagrados em casos desse tipo.

Chorando diante das câmeras, Amari se desculpou por ter causado “preocupações e problemas” numa “situação muito embaraçosa”. No anúncio público de sua renúncia, o agora ex-ministro abaixou a cabeça ao pedir perdão, enquanto espocavam flashes fotográficos que fariam circular pelo mundo a imagem do político enxugando as lágrimas.

O mea culpa também foi feito pelo premiê japonês, Shinzo Abe, que assumiu a responsabilidade por ter indicado para o cargo um político flagrado recebendo dinheiro vivo para beneficiar uma construtora numa licitação.

“Eu me sinto responsável por tê-lo nomeado e me desculpo com o povo japonês por isso”

Shinzo Abe

Primeiro-ministro japonês, em referência ao caso Akira Amari

A saída de Amari golpeia a principal frente do governo Abe: a economia. O ministro demissionário liderou a assinatura do ambicioso TPP (Tratado Transpacífico), que cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com a participação de até 18 países. Nos próximos dias, Amari viajaria à Nova Zelândia para participar de uma cerimônia de implantação do acordo.

Antes disso, em outubro de 2014, Abe já havia sofrido outro golpe semelhante numa área simbólica: a igualdade de gênero. Em seu segundo mandato, o premiê nomeou cinco mulheres - a maior cota na história dos governos japoneses -, mas duas delas caíram logo depois, sob suspeita de corrupção.

“Eu peço sinceramente desculpas, como membro do gabinete Abe, por falhar em dar qualquer contribuição para reanimar a economia ou contribuir para uma sociedade na qual as mulheres tenham espaço”

Yuko Obuchi

Ex-ministra do Comércio do Japão

O Japão ocupa a 18ª posição num ranking de 168 países, elaborado pela Transparência Internacional.

Suicídio e Fukushima: casos extremos

 

Em 2007, durante o primeiro governo de Abe, o então ministro da Agricultura, Floresta e Pesca do Japão, Toshikatsu Matsuoka, de 62 anos, se matou enforcado com uma correia de passear cachorros, num apartamento funcional, em Tóquio.

Matsuoka havia respondido a uma comissão de inquérito no parlamento, horas antes, sobre subornos pagos por madeireiras, desvios em fundos de campanha e recebimento indevido de verbas para cobrir gastos de água e luz que, na verdade, já estavam inclusos na manutenção de seu apartamento funcional.

Mais recentemente, em setembro de 2011, o então ministro da Fazenda, Yoshio Hachiro, renunciou simplesmente por ter se referido à região de Fukushima como uma “cidade fantasma”. A declaração, feita apenas seis meses após o terremoto seguido de tsunami que provocou vazamento de material radioativo na usina atômica local, foi considerada ofensiva pelos japoneses.

A comissão parlamentar que investigou o desastre disse que as autoridades e os técnicos da Tepco (Tokyo Eletric Power), empresa responsável pela usina, “traíram o direito da nação de ser protegida”.

Masataka Shimizu, presidente da Tecpo, visitou na época ginásios de desabrigados pelo acidente nuclear e, junto com o corpo de diretores da empresa, se ajoelhou no chão e pediu “profundas desculpas” por ter causado “preocupação e ansiedade” às vítimas.

A importância dos gestos

 

Mais do que na maioria dos países, os gestos físicos e as palavras importam muito no Japão. A etiqueta não está restrita apenas à penitência em casos de corrupção, mas também à importância que se dá ao interlocutor na política e na sociedade em geral.

 Ao vistar o imperador japonês Akihito, em novembro de 2009, o presidente americano, Barack Obama, não apenas apertou sua mão como também inclinou o tronco na direção do seu interlocutor, abaixando a cabeça.

Adversários políticos de Obama criticaram o que foi classificado nos redutos republicanos como um sinal de submissão dos EUA. Um dos detalhes debatidos pelos que conhecem a cultura japonesa é se o presidente americano se inclinou o bastante diante do imperador. Para muitos americanos, ele sequer deveria ter se inclinado. Para alguns japoneses, ele se inclinou pouco.

Problema semelhante foi enfrentado pelo ex-presidente americano Bill Clinton, ao receber Akihito na Casa Branca em 1994.

Esse tipo de saudação é comum em monarquias. Obama já havia passado por essa polêmica na Arábia Saudita, e políticos canadenses e australianos frequentemente se inclinam em reverência à família real inglesa.

No caso dos pedidos de desculpa, alguns ministros japoneses ficam de pé, mantendo o tronco acentuadamente inclinado e a cabeça abaixada por um período mais longo do que o usado nas saudações. Outros, como no caso de Fukushima, se ajoelham no chão, inclinam completamente o corpo para frente e tocam o piso com a cabeça, num sinal ainda mais claro de penitência.

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