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Contra alagamentos e poluição, países devolvem aos rios seu curso natural

Estratégia está sendo adotada na Europa e nos EUA como alternativa a tentativas de despoluição e construção de barragens

     

    Nos últimos 16 anos, dezenas de rios europeus, da Inglaterra à República Tcheca, passando por Alemanha, Espanha e Suécia, estão sendo devolvidos a seu curso natural.

    A medida é fruto de uma determinação da Diretiva de Trabalhos sobre Água da União Europeia, em 2000, que determinou que os países do bloco retornassem todos seus rios a um “bom estado” até 2015.

    Isso significa que os rios não deveriam mais ser usados como depósito de esgoto industrial. Também não poderiam mais ser canalizados e concretados para navegação.

    O resultado, de acordo com especialistas, foi que engenheiros europeus pararam de tentar despoluir os rios e conter enchentes usando concreto. Eles decidiram recuperá-los trazendo os rios de volta a seus cursos naturais.

     

    Processos de restauração estão sendo feitos no Douro, que corre pela Espanha e Portugal, de onde dezenas de barragens estão sendo tiradas; no Loire, na França e no rio Skjern, na Dinamarca, por exemplo. Nos EUA, também há processos bem-sucedidos de restauração do curso original de rios que haviam sido retificados.

    Os benefícios de devolver o curso natural

    Na Europa e no Brasil, rios foram retificados, receberam barragens ou foram canalizados pelas mesmas razões: dar espaço para que as cidades crescessem, facilitar a navegação e o escoamento de esgoto.

    Foi o que aconteceu em São Paulo, com os rios Pinheiros e Tietê.

    Foto: Divulgação/Domínio Público
    Rio Pinheiros, em São Paulo, antes da retificação. No centro, o trajeto do novo leito já desenhado

    O processo pode trazer benefícios, como a melhora das condições de escoamento e estabilidade, o rebaixamento da linha da água nas cheias e viabilizar irrigação para agricultura, por exemplo. Mas também altera o ecossistema local e pode causar alagamentos nas regiões onde o rio costumava correr.

    Depois que um grande alagamento no rio Reno, em 1995, atingiu grandes cidades na França, na Bélgica, na Holanda, em Luxemburgo e na Alemanha, alguns engenheiros começaram a repensar a eficiência  do modelo de barragens e retificação.

    A Holanda, famosa por sua engenharia de barragens, chegou à conclusão de que um rio em cheia encontrará o ponto mais fraco de uma barragem ou de um assoreamento e irá rompê-los, não importa quão altas essas construções sejam.

    A partir daí, a estratégia virou outra: permitir os alagamentos e dar espaço para que o rio voltasse a seu curso natural.

    “Por muito tempo, engenheiros viram os rios como rotas de navegação e canos para prover água, remover lixo e levar enxurradas para o oceano. A natureza era vista como uma inconveniência que tinha que ser domada. Mas quando você arruma briga com a natureza, normalmente você perde”

    Fred Pearce

    Consultor em meio ambiente da revista New Science, em um artigo para a Universidade de Yale

    O processo não é simples. É preciso analisar as condições do entorno: bacia hidrográfica, vazão das águas e o tipo de ocupação ao redor do rio. Alguns rios não podem ser completamente restaurados. Às vezes, é preciso reconstruir canais, romper barragens e dutos, quebrar concreto.

    Mas os benefícios, de acordo com especialistas, são grandes.

     
    Foto: Divulgação/ONG Protecting our water
    O rio Kissimee, nos EUA, também passou por um processo de restauração. Na foto, o leito antes e depois do projeto

    Eis as principais vantagens:

    • Redução ou fim de alagamentos, já que o rio pode voltar a correr em seu curso natural e não precisa “escapar” da rota.

    • Restauração do ecossistema local, incluindo fauna e flora, além das rotas de migração dos peixes.

    • Melhora na qualidade da água.

    • Restauração do valor recreacional do rio.

    • Queda na poluição gerada por erosão e sedimentos.

    Um dos projetos de restauração mais bem sucedidos na Europa é o do rio Skjern, o mais importante da Dinamarca. Antes retificado e canalizado, o rio teve seus meandros reescavados, além das várzeas, das curvas, dos prados e das áreas de alagamento natural também terem sido recuperadas.

    O resultado: depois da restauração, diferentes espécies de plantas voltaram a crescer nos prados, antes ocupados por campos de agricultura. Espécies animais voltaram a colonizar o leito e as margens do rio. E a área voltou a apresentar uma alta retenção de nutrientes.

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