Quais os sinais que Datena ignorou até abandonar o PP

Apresentador se refere a suspeitas de corrupção que já eram conhecidas um ano antes de ele se filiar ao partido que abriga o maior número de investigados na Lava Jato

     

    O apresentador de TV José Luiz Datena disse que desistiu de sua candidatura à Prefeitura de São Paulo porque não poderia continuar em um partido, o PP, acusado de envolvimento com o esquema investigado pela Lava Jato. Em seu perfil no Twitter, escreveu que estava “desiludido” com a política.

    O anúncio foi feito nessa segunda-feira (18), seis meses depois de seu nome ser anunciado pelo partido como pré-candidato. A essa altura, no entanto, as menções ao partido nas investigações da Lava Jato já eram bem conhecidas.

    "Não posso permanecer em um partido que tomou mais de R$ 300 milhões da Petrobras", afirmou, referindo-se à cifra que consta da denúncia feita pela Procuradoria-Geral da República contra um parlamentar do PP, o deputado federal Nelson Meurer (PR).

    Meurer é apontado como um dos integrantes da cúpula do partido envolvido no esquema de desvios da Petrobras. A acusação formal do Ministério Público foi revelada no domingo (17) pelo jornal “O Estado de S. Paulo”.

    Em setembro de 2015, quando Datena decidiu deixar o PT (ao qual era filiado desde 1992) para migrar para o PP, o cerco à legenda já estava feito. Desde meados de 2014, a Procuradoria-Geral da República e integrantes da força-tarefa da Lava Jato vêm detalhando a participação de partidos e parlamentares no esquema, entre eles os filiados ao PP.

    Em entrevistas, Datena diz que tomou a decisão agora porque as denúncias estão mais claras. Aqui estão alguns fatos já conhecidos do público quando o apresentador aderiu ao PP em setembro de 2015:

    Condenações no mensalão em 2012

    O PP foi um dos cinco partidos que tiveram parlamentares condenados no julgamento do mensalão, em 2012. O Supremo entendeu que a legenda fez parte do esquema de pagamentos regulares feitos pelo PT a deputados em troca de apoio político ao governo Lula, no primeiro mandato do petista.

    Foram condenados os ex-deputados Pedro Corrêa (PP-PE) e Pedro Henry (PP-MT), e João Cláudio Genú, ex-assessor do PP na Câmara. O ex-deputado José Janene também foi denunciado, mas morreu em 2010, antes do julgamento.

    Em São Paulo, PP é sinônimo de Maluf

     

    Ao comunicar sua decisão nessa segunda-feira, Datena disse que a sinalização de que o deputado Paulo Maluf iria brigar pela candidatura do PP também influenciou sua desistência dos planos eleitorais. Maluf está entre as figuras mais conhecidas da legenda.

    Ele já foi prefeito, governador de São Paulo e responde até hoje a processos relacionados à sua gestão, resultado de denúncias de desvios de dinheiro de obras públicas. O deputado tem ainda pendências com a Justiça dos EUA, onde é investigado por evasão de divisas e por isso seu nome está na lista de procurados da Interpol desde 2009. Maluf costuma dizer que até hoje nada foi provado contra ele.

    Partido lidera número de investigados na Lava Jato

    O PP é o partido com mais parlamentares investigados pelo Supremo Tribunal Federal no âmbito da Lava Jato. Entre as 68 pessoas com inquéritos ou denúncias formais já em curso, 31 são filiadas ao partido. O presidente nacional da legenda, o senador Ciro Nogueira, também é investigado.

    A maior parte dos pedidos de inquérito foi feita ainda em março de 2014, quando o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, revelou a lista inicial de parlamentares suspeitos de recebe propinas desviadas de contratos da Petrobras.

    Deputado do PP é ligado à origem do esquema

    Segundo os investigadores da Lava Jato, o esquema de desvios na Petrobras foi organizado pelo ex-deputado José Janene (PP-PR), que morreu em 2010, e já havia sido acusado de envolvimento com o mensalão.

    A Operação Lava Jato surgiu em decorrências de investigações iniciadas em 2009, para apurar a relação entre o deputado com doleiros do Paraná, Estado onde o parlamentar vivia.

    A atuação de Janene na estatal foi relatada aos investigadores ainda em dezembro de 2014 pelo doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, também alvos da Lava Jato. Ambos já foram condenados por crimes como corrupção e lavagem de dinheiro.

    PP controlava diretorias na Petrobras

     

    Ao lado do PT e do PMDB, o PP é apontado pela Procuradoria como uma das legendas que controlavam diretorias estratégicas da Petrobras. A do PP era a de Abastecimento, ocupada por Paulo Roberto Costa entre 2004 e 2012. Ele foi indicado ao cargo por Janene e, após sua morte, o PMDB também passou a apoiar a permanência de Costa no cargo.

    O esquema atuou entre 2004 e 2012, segundo a força-tarefa, e envolvia empreiteiras, políticos e executivos da estatal. Empresários se organizavam em cartel para dividir entre si obras da Petrobras. Para garantir que apenas elas participassem das concorrências da estatal, executivos contavam com o apoio de agentes políticos. Eles, por sua vez, indicavam diretores de áreas estratégicas da estatal, responsáveis pelos contratos de interesse dos empreiteiros.

    Antes de entrar no partido, o apresentador foi filiado ao PT por 23 anos, sem nunca anunciar candidatura.

    Partido teve origem na Arena, que sustentou a ditadura

    A história do PP (Partido Progressista), a exemplo de boa parte dos partidos políticos em atuação, começa nos anos 1980, a partir da extinção da Arena e do MDB, as únicas legendas permitidas durante a ditadura militar.

    A origem do PP parte da Arena (Aliança Renovadora Nacional), de apoio aos militares. Em 1982, já na fase da redemocratização, da Arena surgiu o PDS (Partido Democrático Social). Disputas internas levam a ala descontente a criar o PFL (Partido da Frente Liberal).

    Em 1993, o PDS funde-se ao Partido Democrata Cristão e da união aparece pela primeira vez o "Progressista" no nome na legenda. Surge o PPR (Partido Progressista Reformador). No ano seguinte é feita nova fusão, dessa vez com outro Partido Progressista, que havia sido criado após a fusão do PST e do PTR.

    A nova união resulta na criação do PPB (Partido Progressista Brasileiro), que apoiava a criação do Plano Real, durante o governo Itamar Franco.

    Em 2003, a legenda tira o "Brasileiro" da sigla e fica apenas Partido Progressista. O "progressista" indicava o alinhamento do partido a teses econômicas que apoiam o livre mercado. No campo dos costumes, é conservador e favorável a pautas como proibição do aborto e redução da maioridade penal.

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