O que une e o que separa Hillary Clinton e Bernie Sanders

Debate entre pré-candidatos do mesmo partido põe em evidência diferenças em relação ao financiamento de campanha, à saúde pública e ao legado de Obama entre os democratas

     

    Os dois principais pré-candidatos democratas à Casa Branca, Hillary Clinton e Bernie Sanders, participaram no domingo (17) de um debate na rede de TV americana NBC, pondo em evidência as diferenças que dividem o partido no ano em que os EUA escolhem seu novo presidente.

    O debate - realizado na cidade de Charleston, na Carolina do Sul - é parte de um período chamado “primárias”, que se estende por todo o ano de 2016, com delegados dos partidos Democrata e Republicano escolhendo, em todos os 50 Estados, quem serão seus concorrentes à Presidência, antes do embate final que acontece em 8 de novembro de 2016.

    Hillary é a favorita e, ao lado de Sanders, lidera as primárias democratas, deixando o terceiro pré-candidato, Martin O’Malley mais de 30 pontos percentuais atrás. A surpresa é que, em alguns Estados, Sanders, visto até pouco tempo como um “outsider” (alguém de fora do sistema), já aparece em primeiro lugar. É o caso de Iowa, onde o pré-candiato tem 49% contra 44% de Hillary, segundo pelo menos um instituto de pesquisa, o Quinnipiac. Em todos os outros, Hillary aparece na frente, mas a diferença entre os dois nunca foi tão pequena.

     

    Primárias de verdade

    Nos EUA, os debates entre os pré-candidatos do mesmo partido costumam ser duros, com acusações diretas e ataques frontais. Em Charleston, Hillary e Sanders falaram um por cima do outro, subindo a voz várias vezes para se fazerem ouvir.

    Em pelo menos quatro assuntos, a diferença de propostas ficou evidente:

    Agendas cruzadas

    Amizade com Obama

    Os dois candidatos pegam carona na popularidade de Barack Obama. A diferença é que Hillary fala como uma herdeira direta do legado do atual presidente americano, enquanto Sanders vende a tese da ruptura com as estruturas vigentes. Hillary faz o perfil de reformista suave, sempre menos contestadora que seu concorrente, que chega a se declarar socialista - termo raro no discurso dos políticos americanos. Segundo Hillary, Sanders teria chamado Obama de “fraco e desapontador” no passado. Sanders rebate lembrando que, até tem críticas ao atual presidente, mas fez campanha por ele e recebeu seu apoio ao Senado no passado.

    “Em 2006, quando eu concorri ao Senado, Obama foi gentil o bastante para fazer campanha por mim. Em 2008, eu fiz o meu melhor para que ele fosse eleito. E em 2012 eu trabalhei o mais duro que pude para que ele fosse reeleito. Nós somos amigos, trabalhamos juntos, mas temos diferenças de opinião”

    Bernie Sanders

    Pré-candidato democrata

    Rabo preso com o mercado

    Sanders critica tanto Hillary quanto Obama por receberem doações de Wall Street. “O sistema de financiamento de campanha é corrupto. Eu não tomo dinheiro dos grandes bancos”, disse Sanders. “Eu vou defender o presidente Obama por receber de Wall Street e por trazer resultados”, retrucou Hillary, sob aplausos. A candidata nunca negou que recebe doações de bancos, nem tentou se afastar do sistema financeiro. Sanders, por sua vez, diz que o lobby de Wall Street impede mudanças importantes na política americana.

     

    Controle de armas

    Os dois apoiam o controle de armas, mas discutem quem apoia mais e quem cede menos ao lobby do setor. “Senador Sanders votou com o lobby da NRA [Associação Nacional do Rifle] diversas vezes”, acusou Hillary. A pré-candidata trouxe à tona o histórico de votações de Sanders no Senado para provar a tese de que ele é leniente nesse assunto. Sanders retrucou explicando que se opôs apenas a projetos específicos que tornavam lojas de armas solidárias na responsabilidade por crimes cometidos por seus clientes. “Uma pequena loja familiar que vende legalmente armas não pode ser responsabilizada caso alguém faça algo terrível com uma arma”, disse Sanders.

    "Ele [Sanders] votou pela imunidade dos fabricantes e vendedores, num projeto que a NRA [Associação Nacional do Rifle] considerou a peça legislativa mais importante em 20 anos"

    Hillary Clinton

    Pré-candidata democrata

    Reforma da saúde

    Neste tópico, há uma nuance bem definida. Hillary defende a ampliação da atual cobertura de saúde, enquanto Sanders se apoia nos exemplos nórdicos para defender a cobertura integral para todos os cidadãos, sem exceção. “Nós já conquistamos muito”, disse Hillary, celebrando os resultados da reforma da saúde iniciada até agora por Obama. “Isso é nonsense”, criticou Sanders. “O que um programa de saúde para todos deve fazer é prover saúde para cada homem, mulher e criança como um direito”, estimando em 29 milhões o número de americanos que não dispõem de qualquer plano de saúde hoje.

     

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