O que esperar e o que não esperar do Fórum de Davos

Encontro na Suíça é um dos eventos mais importantes do ano para agentes econômicos de todo mundo, mas não deve oferecer todas as respostas para as crises que estão sobre a mesa

     

    O Fórum Econômico Mundial começa nesta quarta-feira (20) em Davos, na Suíça, com a seguinte pauta: o impacto da tecnologia nos postos de trabalho e como lidar com a questão. Estudo divulgado pelo fórum na segunda-feira (18) afirma que cerca de 7 milhões de pessoas vão perder suas vagas nos próximos cinco anos devido à inteligência artificial, aos robôs, às impressão 3D e à nanotecnologia.

    Não se deve esperar do encontro, porém, pactos entre líderes globais e agentes financeiros, muito menos propostas concretas a respeito do tema. Afinal, não é necessariamente para isso que serve o fórum anual de Davos. Mais do que planejar soluções concretas para o mundo, o encontro é palco para troca de impressões, além de um termômetro.

    O que um secretário do Tesouro dos Estados Unidos diz durante o Fórum Econômico Mundial, por exemplo, pode influenciar decisões de compra e venda no mundo inteiro. Políticos e empresários sabem que estão sendo observados e usam o evento para emitir sinais.

    Ao longo de 45 anos o encontro já discutiu a crise do petróleo da década de 1970, a reunificação da Alemanha, recebeu Nelson Mandela e  tentou achar soluções para a grande crise de 2008.

    Entre os temas urgentes e os emergentes

     

    Além do impacto da tecnologia no trabalho, o fórum deve lidar com temas como a dinâmica dos conflitos atuais no Oriente Médio, a queda no preço mundial do petróleo, a desaceleração do crescimento chinês e a queda no preço da matéria-prima e seu impacto sobre as economias emergentes.

    “A batalha por reputação, na economia, se ganha ou se perde antes do encontro, não lá [em Davos]”, disse ao Nexo o economista André Perfeito, da Gradual Investimentos. Ou seja, Davos não é um lugar de surpresas.

    Para ele, o fórum “continua tendo um papel estratégico, de trazer grandes questões globais, mas perdeu o charme e a influência do passado, mesmo que continue funcionando como um local importante de network [rede de contato] para os líderes”. Perfeito considera que o efeito de Davos na economia “é mais estratégico do que de curto prazo”.

    A opinião dele é compartilhada pelo comentarista de assuntos internacionais do jornal britânico “Financial Times”, Gideon Rachman, numa breve rodada de debate entre jornalistas da publicação, que foi ar nesta segunda-feira (18), sobre as expectativas em torno da próxima reunião de Davos.

    “Você espera algo tangível dessa reunião?”, pergunta a moderadora, Gillian Tett. Rachman responde de forma direta: “Para ser honesto? Não. Mas eu acho que vai ser muito interessante em termos de [medir o] clima” para os grandes temas da agenda internacional.

    Entidade sem fins lucrativos

    Diferente do que muita gente pensa, o Fórum Econômico Mundial não é somente um encontro. É uma entidade sem fins lucrativos com sede na Suíça e que organiza anualmente o encontro em Davos. O fórum foi fundado na década de 70 pelo professor suíço Klauss Schwab e produz estudos e relatórios sobre a economia mundial.

    Sua reunião anual costuma reunir autoridades monetárias, executivos de multinacionais e representantes do mercado financeiro. Entre os painéis da edição de 2016 há assuntos que vão do Ebola à transformação digital das indústrias, mas o foco principal é a economia.

    Desde que a fundação que organiza o encontro passou a fazer fóruns regionais, críticos veem perda de importância na reunião de Davos. Uma média de dez encontros descentralizados têm ocorrido todos os anos na África, no Oriente Médio, na América Latina e no Extremo Oriente, com recorrência maior na China e na Índia como países anfitriões.

    Estrelas que desfilam em Davos

     

    O Fórum é lugar de influenciar. E não são só economistas que vão à Suíça tentar passar uma boa imagem de seus países ou empresas. Estrelas da música e do cinema já foram a Davos debater com gente como Bill Gates e Al Gore.

    O líder do U2, Bono Vox, discursou no Fórum em pelo menos quatro oportunidades. Ativista dos direitos humanos, o roqueiro já cobrou ajuda de países ricos para a erradicação da pobreza na África.

    Um dos casais mais famosos do mundo, Angelina Jolie e Brad Pitt, também já foi a Davos pedir ajuda humanitária para afetados por guerras. Já Matt Damon esteve por lá para receber um prêmio por seu trabalho de levar água potável aos mais pobres.

    Participação Brasileira

    Nelson Barbosa, com menos de dois meses à frente do Ministério da Fazenda, será a estrela da delegação brasileira em Davos este ano. Barbosa tem a missão de convencer a comunidade econômica internacional que está comprometido em acertar as contas do governo.

    A participação do ministro no Fórum será avaliada pelos principais mercados do mundo e influenciará as expectativas sobre o Brasil.

    Além de participar de paineis, Barbosa deve se reunir com o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Jacob Lew, e com a diretora do FMI (Fundo Monetário Internacional), Christine Lagarde.

    Críticas

     

    Símbolo do modelo econômico praticado no mundo, Davos recebe críticas frequentes. Muito veem a reunião aunal como um símbolo do aumento da desigualdade promovida pelo capitalismo e a globalização.

    Após a crise de 2008, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o fórum já não tinha “mais o glamour que eles pensavam” e que o “sistema financeiro já não pode desfilar como modelo exemplar”. O ex-presidente - que esteve em Davos em 2003, 2005 e 2007 - disse isso durante o Fórum Social Mundial, criado para ser um contraponto à visão capitalista da reunião na Suíça.

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