Ministro da Justiça liga videogame à violência. As pesquisas parecem concluir outra coisa

Estudos mostram que a relação não é necessariamente tão direta; violência tem causas mais complexas e variadas

     

    Na quinta-feira (14), o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou em conferência na OEA (Organização dos Estados Americanos) em Washington que a "exaltação da violência" em esportes e videogames incentiva a violência no Brasil.

    Em entrevista à BBC, o ministro alegou que videogames e esportes estariam banalizando a violência.

    "Outro dia ouvi um especialista dizer que nunca viu um game em que o vencedor é quem salva vidas, pois o vencedor é sempre quem mata. Essa cultura da exaltação da violência se projeta e acaba banalizando a violência, disseminando uma realidade perversa em que seres humanos podem aniquilar, ferir os outros em atos que são socialmente reprovados."

    José Eduardo Cardozo

    Ministro da Justiça, em entrevista à BBC

    A relação estabelecida por Cardozo não é nova. Na verdade, ela foi estabelecida em pesquisas há quase três décadas. O “Massacre de Columbine” em 1999 serviu como exemplo para diversas correlações entre videogames e violência. Na época, as investigações sobre o ataque levantaram a possibilidade de que os atiradores teriam agido também inspirados pelo game “Doom”. Esse foi um argumento que fez com que pais da vítimas entrassem com uma ação contra as empresas de games.

     

    O que dizem as pesquisas da área

    A questão ganhou visibilidade e, ao longo dos anos, e dezenas de estudos foram conduzidos sobre o tema. O campo ainda é controverso, mas cada vez mais pesquisas apontam que não é possível estabelecer essa relação conclusiva.

    Veja abaixo algumas das evidências encontradas na academia:

    A relação entre videogame e violência é muito pequena

    O psicólogo Christopher J. Ferguson, doutor em psicologia clínica e professor de ciências aplicadas e comportamentais da Texas A&M International University, fez uma revisão da literatura científica sobre o tema. Ao analisar não apenas a violência, mas agressão e redes de sociabilidade, o pesquisador reconhece que a agressividade é um comportamento aprendido, mas conclui que os videogames podem ter impactos positivos e negativos e que o efeito que pode ser, efetivamente, medido é muito baixo: ele é observado em menos de 2,5% dos casos.

    Para o psicólogo, há uma desproporção entre como o tema reverbera no debate público e sua relevância estatística.

    Mudanças de comportamento estão mais ligadas a fatores externos

    Andy Przybylski, pesquisador em psicologia do Instituto de Internet de Oxford, conduziu seis diferentes pesquisas sobre videogames. Ele concluiu que, mais do que o teor do jogo, o que pode mudar o comportamento de alguém é a quantidade de horas que a pessoa passa jogando. Além disso, segundo ele, "os riscos ligados ao ato de jogar são pequenos. Outros fatores na vida da criança vão influenciar mais seu comportamento. Essa pesquisa sugere que jogar games eletrônicos é um fator menor, mas estatisticamente significante no progresso acadêmico e no seu bem estar emocional", afirma.

    Os estudos também revelam uma relação inversa: indivíduos com traços de personalidade ligados a agressividade tinham uma tendência maior a preferirem jogos com conteúdo violento.

    A TV pode fazer mais mal do que o videogame

    Outro estudo, publicado na British Medical Journal, conduzido por mais de dez anos e com 11 mil crianças, também investigou as possíveis relações entre televisão, videogames e alterações de comportamentos. A conclusão? Assistir mais de três horas de TV pode aumentar as chances de desenvolver problemas comportamentais em jovens com idades entre cinco e sete anos. No entanto, quando olhamos para os videogames especificamente, não há nenhuma relação direta.

    Duas ressalvas são feitas diante da conclusão de que não é possível estabelecer uma relação definitiva entre o consumo de conteúdo violento em jogos com comportamento violento na vida real. A primeira é metodológica: as pesquisas desenvolvidas até agora estão restritas aos laboratórios e, portanto, não acompanham os indivíduos o longo da sua vida. A segunda se refere à natureza multicausal da violência.

    Violência tem causas mais complexas

    O Brasil é um país violento. Em 2014, morreram, em média, 154 pessoas por dia. Ao todo, foram 56.337 pessoas que perderam a vida assassinadas, 7% a mais do que em 2011, segundo o Mapa da Violência. O número coloca o país como o sétimo lugar no ranking de nações com maior número de homicídios. No Brasil, esse tipo de violência está ligado à chamada criminalidade urbana, e se explica mais em função dos dados de contexto socioeconômico, cultural e histórico do país do que por traços individuais de comportamento.

    Em um relatório global de 2011, o Banco Mundial reitera essa interpretação apontando como causas da violência um conjunto de fatores. Entre eles estão a pobreza e desigualdade, a urbanização rápida e não planejada, o desemprego, o fácil acesso a armas de fogo, tráfico de drogas e a própria cultura da violência entre outros.

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