Duas análises sobre o impacto dos protestos em SP para Alckmin e Haddad

Aumento das passagens e onda de protestos cobram um alto preço político tanto para os planos do governador tucano quanto para o prefeito petista

     

    No penúltimo dia do ano de 2015, o governo paulista e a prefeitura de São Paulo anunciaram ao mesmo tempo o reajuste de R$ 3,50 para R$ 3,80 das tarifas do transporte público. A objetivo era dividir o ônus do impacto negativo da notícia às gestões do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e do prefeito Fernando Haddad (PT).

    Pouco depois do anúncio o MPL (Movimento Passe Livre) programou protesto contra o reajuste para o dia 8 janeiro deste ano. Desde então já ocorreram três atos e já há uma quarta manifestação programada para a próxima terça-feira, 19.

    O reajuste no bolso do contribuinte, por si só, já é uma medida impopular. Além disso, a repercussão da atuação da polícia durante os protestos poderá ter reflexos no eleitorado.

    Planos políticos

    Haddad vai disputar a reeleição neste ano. A avaliação do seu governo é a pior desde o início de sua gestão, segundo pesquisa Datafolha divulgada em novembro de 2015.

    Os planos eleitorais de Alckmin estão em 2018, quando pretende disputar a Presidência. Mas o tucano também está envolvido com a eleição paulistana, embora ainda não tenha indicado com clareza quem será seu candidato nas possíveis prévias do partido. A popularidade do tucano também está em seu pior momento, de acordo com pesquisa Datafolha de dezembro do ano passado.

    Em aspas

    O Nexo convidou dois especialistas no assunto para avaliar eventuais impactos das manifestações para o prefeito Fernando Haddad e para o governador Geraldo Alckmin.

    Os especialistas são:

    • Carlos Melo, cientista político e professor do Insper (Insper Instituto de Ensino e Pesquisa)
    • Marco Antonio Carvalho Teixeira, cientista político e professor de Administração Pública da FGV-SP

    Consequências para Alckmin

    Carlos Melo

    É natural que os efeitos os efeitos das manifestações deste janeiro de 2016 se diferenciem de junho 2013. Lá, presidente, governador e prefeito sofreram enormes desgastes na opinião pública, àquela época mais ou menos um bloco; aqui, a ação das autoridades se refinou e visa os diferentes grupos; interlocuções específicas, com objetivos distintos.

    Geraldo Alckmin mantem diálogo especial com setores conservadores, de oposição do governo federal e ao PT. Não sem razão críticos da situação politica e econômica e, ao mesmo tempo, refratários às cenas de violência ocorridas hoje e durante as manifestações de 2013. São defensores de liberdades individuais, como o direito à livre e segura circulação pelas ruas. Não foi à toa que o governador citou a “indignação seletiva” dos atuais manifestantes -- estocando Dilma com o aumento da inflação e das tarifas de energia e adulando seus críticos --; seu endurecimento faz sentido.

    O viés é conservador, sim, nem por isso ilegítimo -- é nesse rio que o pretenso candidato a presidente joga suas iscas. A eleição na Capital pouco lhe interessa: primeiro, por temor de reforçar correntes tucanas contrárias a seus objetivos -- que venham a dividir seu domínio no estado; segundo, porque a manutenção de seu eleitorado não passa pelo controle da máquina pública municipal, mas por essa relação subjetiva.

    Marco Antonio Carvalho Teixeira

    Alckmin saiu de algo muito semelhante recentemente com os protestos contrários ao fechamento das escolas. Ele começou com um discurso de que não voltaria atrás, houve forte atuação policial e depois, diante da proporção que os atos ganharam, acabou ficando isolado. Isso gerou impacto negativo à imagem dele, que foi inclusive identificado por pesquisas do Instituto Datafolha.

    Agora, os protestos contra a tarifa envolvem grupos muito semelhantes aos que participaram dos atos nas escolas. Mas parece que Alckmin está repetindo a mesma prática, inclusive retórica.

    Olhando os precedentes (atos nas escolas e protestos de 2013), a impressão que se tem é de que ele repete o enredo que já não deu certo. Alckmin tenta dizer que se trata de manifestações de cunho político, quando na verdade o que precisa é abrir negociação. Essa postura apenas aumenta o grau de tensão ao invés de promover acordos.

    Se Alckmin não começar uma aproximação com esses grupos, e isso não ocorre da noite para o dia - já que envolve uma relação de confiança -, a tendência é que esse tipo de desgaste contra o seu governo passe a se repetir no futuro a cada decisão polêmica, o que pode prejudicar seus planos em 2018.

    No curto prazo, falando especificamente das eleições municipais, os protestos também podem deixá-lo em uma situação ruim dentro do PSDB, uma vez que o partido ainda não chegou a um consenso sobre quem indicar para disputar a Prefeitura e ele tem sido voz dissonante em relação a outras lideranças tucanas.

    Consequências para Haddad

    Carlos Melo

    Nem melhores, nem piores, os sinais de Fernando Haddad são apenas trocados na comparação com o governador. E mais complexos, evidentemente, pois é candidato à reeleição, este ano. Como em todo o país, o problema fiscal do prefeito é inescapável e o aumento de tarifas, incontornável. Haddad sabe que com isso despertará a contrariedade de grupos com enorme capacidade crítica e de manifestação, mas nem assim com alternativas eleitorais a ele, agora, em 2016.

    O endurecimento do prefeito é feito com sutileza a ponto de alcançar três objetivos: 1) mitigar a penúria fiscal da administração; 2) sinalizar para setores conservadores – os mesmos com quem Alckmin mantem interlocução – de que é capaz de agir contra a onda do populismo fiscal do governo federal; e, 3) ao mesmo tempo, diferenciar-se do governador no tocante à liberdade de manifestação e ocupação das ruas.

    Mesmo com toda contradição, o prefeito preserva a interlocução com setores que, ao contrário dos citados acima, enxergam a questão urbana e política como a supremacia das questões coletivas sobre o direito individual – um dilema que existe na política desde que o mundo existe. Sabe que esses setores não encontrarão nos tucanos, em Marta [senadora Marta Suplicy, PMDB], Russomano [deputado federal Celso Russomano, PRB] ou em Datena [apresentador José Luiz Datena, pré-candidato pelo PP] – em nada mais favorável a eles.

    Marco Antonio Carvalho Teixeira

    É importante lembrar que boa parte das políticas de governo implementadas por Haddad ocorreram em meio a conflitos (como as ciclovias, o programa de Braços Abertos, na Cracolândia e a redução da velocidade máxima em vias da cidade). Ele parece ter essa tendência de anunciar as medidas e ver o que ocorre. Isso passa a imagem de um tecnocrata, de que continua sendo mais ministro do que um prefeito.

    A questão é que, como prefeito, ele tem que escutar a todos e tentar reduzir ao máximo as insatisfações. Quando Haddad também repete a mesma trajetória, de não conversar antes, mostra que não aprendeu com os erros do passado.

    Ainda que ele tenha adotado políticas compensatórias no transporte público (com gratuidade para estudantes e idosos), era importante que ele não simplesmente aumentasse as tarifas. Ele poderia ter se mostrado disposto a ouvir e a dialogar antes de anunciar o reajuste.

    O custo dos protestos de 2013 ainda está presente para ele e é provável que o desgaste dele se acentue, porque reacende as polêmicas de suas outras medidas. E no caso das tarifas atinge um público que faz parte do seu eleitorado. Quem quer ganhar eleição tem que agregar e não dividir opiniões. Isso não significa agir de forma demagógica, mas conversar mais com os diferentes interesses da cidade.

    Além do risco de perder o público eleitor dele e do PT, esses atos podem aumentar o isolamento de Haddad já existente dentro do partido por entrar em conflito com parte da base social do partido.

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