A inversão de papéis no caso ‘Charlie Hebdo’

Semanário satírico francês usa imagem do menino Aylan para atacar refugiados que assediaram alemãs na cidade de Colônia

     

    Abdullah Kurdi - pai do menino Aylan, de 3 anos, encontrado morto, de bruços, numa praia turca, em setembro, ao tentar chegar à Europa fugindo da guerra na Síria - expôs neste domingo (17) uma contradição no debate entre a liberdade atribuída aos valores ocidentais e a opressão atribuída ao oriente.

    Ao comentar uma charge publicada na edição da quarta-feira (13) do jornal francês “Charlie Hebdo”, Kurdi disse de maneira assertiva que, para ele, tanto a guerra em seu país natal quanto o preconceito e o rechaço dos países que deveriam acolhê-los se igualam nas ofensas à dignidade humana.

    A charge à qual Kurdi faz referência mostra o futuro hipotético de Aylan, caso ele tivesse sobrevivido na Europa. Para o “Charlie”, o menino morto por afogamento na Turquia estaria hoje assediando sexualmente cidadãs europeias, se tivesse sobrevivido.

    A hipótese é uma referência às denúncias de ataques cometidos por imigrantes contra cidadãs alemãs na cidade de Colônia, na virada do ano. No desenho do semanário, Aylan é retratado com uma cara de porco. Ao lado dele, outro imigrante aparece com rosto de macaco, correndo atrás e tentando apalpar as nádegas de mulheres.

     

    Kurdi diz que chorou ao ver o desenho, que, para ele, faz “tão mal quanto as ações dos criminosos de guerra e terroristas” dos quais a família fugia na Síria.

    O debate envolve duas trocas inesperadas de papel:

    Sem maniqueísmo

    “Charlie Hebdo”, de vítima a algoz

    O semanário francês foi objeto de uma campanha internacional de solidariedade depois de ter sido atacado por terroristas em janeiro de 2015, num massacre que tirou a vida de oito membros da equipe editorial do “Charlie”, além de outras quatro pessoas. Na época, o jornal foi atacado por extremistas islâmicos por ter publicado charges do profeta Maomé. Agora, ao publicar charges do menino Aylan, muitos defensores do semanário satírico, adeptos da campanha “Je suis Charlie (eu sou Charlie)” se viraram contra a publicação, sob o argumento de que ela se equipara aos opressores no discurso agressivo contra os refugiados.

    Os refugiados, de presas a predadores

    A charge do “Charlie” liga dois momentos distintos. Primeiro, faz referência a um refugiado que virou símbolo da vulnerabilidade - o menino morto na praia em setembro. Em seguida, o compara aos agressores sexuais denunciados na cidade alemã de Colônia. Na noite de Ano Novo, a polícia alemã registrou 500 queixas de ataques cometidos por cidadãos que, de acordo com as vítimas, eram imigrantes do Oriente Médio e do norte da África. O episódio na Alemanha ilustraria o erro de se abrir as portas para uma religião e uma cultura que seriam intrinsecamente incompatíveis com os valores europeus, de acordo com seus críticos.

    Referência recorrente

     

    Essa é a quarta vez que o “Charlie” faz referência a Aylan. Logo que o caso ganhou destaque na imprensa mundial, o semanário publicou um desenho que reproduzia o cenário da famosa foto do corpo do menino, de bruços, na areia, acrescentando um outdoor parecido aos da rede McDonald’s, que dizia: “dois menus de criança pelo preço de um”.

    Em seguida, disse que os cristãos caminham sobre as águas, mas os muçulmanos afundam, por isso Aylan teria fracassado na travessia. Da última vez, ele aparecia como um personagem de programa infantil, com os dizeres: “bem-vindo à ilha das crianças”.

     

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