Os passos do senador Fernando Collor na era lulista

Senador citado na Lava Lato refez carreira política após o impeachment da Presidência em 1992, e agora é apontado por delator como pivô de corrupção na Petrobras

     

    Fernando Collor de Mello retornou a Brasília em 2007, 14 anos depois de sofrer o impeachment do cargo de presidente da República. Havia sido eleito no ano anterior para uma cadeira no Senado durante o mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, a quem havia superado na disputa ao Palácio do Planalto em 1989. Após três derrotas consecutivas, o petista finalmente chegara ao comando do país em 2003. Naquele momento, da volta de Collor, iniciaria seu segundo mandato.

    Collor passou a integrar a base governista de Lula no Congresso. Manteve-se nessa mesma condição quando o petista elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff. Mas a partir de 2014, com a operação Lava Jato, que investiga um esquema de contratos da Petrobras, o senador por Alagoas voltou a figurar como suspeito de corrupção.

    As suspeitas mais recentes constam de trechos do depoimentos de Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras preso pela Lava Jato. Segundo o delator, Collor recebeu R$ 26 milhões de propinas  como parte de um acordo político.

    Cerveró fez acordo de delação premiada em troca de perdão judicial. Segundo ele, entre 2009 e 2010, Collor exerceu influência em duas diretorias da BR, a qual foi consentida pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para o procurador-geral Rodrigo Janot, em troca das indicações Collor garantia apoio político ao governo Lula no Congresso.

    Além de Collor, o senador Delcídio do Amaral (PT-SP), preso no fim de 2015 pela Lava Jato, e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), faziam parte da divisão de propinas de contratos da BR, também segundo a delação do ex-diretor. Todos negam ter qualquer relação com o esquema.

    Cerveró foi diretor financeiro da BR entre 2008 e 2014. Outros três delatores também falaram aos investigadores sobre Collor na condição de alguém com poder de indicar pessoas de sua confiança na empresa.

    Esta é a situação do senador na Lava Jato

    Indicações na BR

    A Procuradoria afirma que Collor foi o responsável pela indicação de dois diretores na subsidiária da Petrobras. Os contratos firmados eram a fonte de propinas. Segundo delatores, Pedro Paulo Leoni, ex-ministro de Collor, era seu representante em reuniões sobre o acerto do dinheiro.

    Corrupção e lavagem de dinheiro

    Collor foi denunciado em agosto de 2015 pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro sob acusação de ter recebido R$ 26 milhões em propinas. Os pagamentos ocorreram entre 2010 e 2014. O Supremo Tribunal Federal ainda não se manifestou sobre a denúncia.

    Collor nega as acusações. Em post divulgado em seu perfil no Facebook, o senador diz serem falsas as declarações de que ele tivesse influência política “para obter favores ou exercer qualquer outro tipo de pressão sobre diretores ou funcionários da BR Distribuidora”. Também criticou a “forma parcial e seletiva” com que têm sido divulgadas as delações.

    “As relações do Senador Fernando Collor com instituições públicas sempre se deram exclusivamente em caráter institucional, no desempenho da função de Senador da República e na defesa dos interesses do Estado de Alagoas, tudo no legítimo exercício da representação parlamentar”

    Defesa do senador Fernando Collor

    em post publicado no Facebook em 12 de janeiro

    De volta aos escândalos

     

    Os novos fatos da Lava Jato vem à tona 23 anos depois da renúncia de Collor à Presidência e do processo de impeachment, em meio ao esquema PC Farias, seu tesoureiro de campanha que operava empresas fantasmas a partir de propinas recebidas de empresários. Collor passou parte deste período se defendendo das acusações feitas em 1992 e tentou reconstruir sua carreira política.

    Até março de 2014, quando a Lava Jato foi deflagrada, Collor era mais um entre os 81 senadores. Um integrante discreto da base de apoio dos governos Lula e Dilma, e parlamentar próximo de Renan Calheiros (PMDB-AL). Desde então, as menções ao seu nome no âmbito das investigações sugerem que o senador não era uma figura esquecida tampouco ignorada no meio político.

    Foco político está em Alagoas

    No Senado Collor é líder de um bloco formado por nove senadores, filiados ao PTB, PR, PSC e PRB. O senador, no entanto, se envolve pouco com questões partidárias.

    As manifestações públicas de Collor em geral são sobre Alagoas, Estado de origem de sua família e onde fez carreira política. Lá ele ainda mantém o apoio de um eleitorado mais velho e localizado em cidades do interior.

    Sua família é proprietária de veículos de comunicação, o que garante a ele espaço na mídia local. Mas a influência política principal atualmente é exercida pelo PMDB, partido do atual governador Renan Filho, filho de Renan Calheiros, figura de peso também no Estado.

    "Collor não é homem de partido, é um personagem. É um político obsoleto, que faz campanha como se fazia há 20 anos. O sucesso dele é creditado à imagem dele (uma figura conservadora e religiosa). Do ponto de vista político, o partido dele não tem força [em Alagoas]. E Collor não é uma figura que agrega forças políticas, com herdeiros políticos"

    Ranulfo Paranhos

    cientista político, professor da Universidade Federal da Alagoas

    Ainda assim, Collor conseguiu cavar espaço no cenário político. Abaixo, o Nexo relembra os principais momentos do senador:

    Antes da volta ao Senado, três derrotas

     

    O processo de impeachment tornou Collor inelegível por oito anos, mas já em 1998 ele tentou disputar novamente a Presidência. A candidatura foi impugnada em razão da punição aplicada, igual critério foi adotado em 2000, quando quis concorrer à Prefeitura de São Paulo.

    De volta a Alagoas, Collor disputou o governo estadual em 2002. Foi derrotado mas recebeu 419.741 votos (40,2%), contra 553.035 votos (52,9%) do vencedor, o então governador Ronaldo Lessa.

    Em 2006, foi eleito para o Senado, com 550.725 votos. Em 2010, ele tentou disputar de novo o governo de Alagoas, mas terminou em terceiro lugar. O jingle de sua campanha era “É Lula apoiando Dilma, é Dilma apoiando Collor”, sinal da aproximação entre ele e o governo federal.

    Após a derrota, retomou as atividades no Senado e em 2014 foi reeleito com 689.266 votos (55,69%).

    Aproximação com Sarney, Renan e Lula

     

    No dia seguinte à posse no Senado, em fevereiro de 2007, Collor deixou o PRTB e se filiou ao PTB, partido do bloco de apoio ao governo Lula. O PTB na época era contemplado com um dos 36 ministérios.

    No retorno ao Congresso, Collor se reaproximou das principais lideranças do PMDB, os senadores José Sarney (AP) e Renan Calheiros, antigo desafeto por causa de brigas eleitorais em Alagoas e do processo de impeachment. Sarney e Renan também eram aliados de Lula.

    Graças a ajuda de Renan, Collor foi eleito presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado, em 2009. No cargo, ele tinha entre suas  prerrogativas a de ditar o trâmite de propostas de interesse do governo, como de projetos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), uma das vitrines do governo Lula.

    Nesse período, em 2009, ocorreram as negociações a cerca da participação de Collor em indicações de cargos da BR Distribuidora, segundo o ex-diretor Nestor Cerveró. O senador oferecia em troca a garantia de apoio político a Lula, de acordo com a interpretação do procurador-geral Rodrigo Janot. Lula, em nota, diz que os diretores da Petrobras e da BR foram indicados por partidos e não por ele.

    Comissões rendiam holofotes ao senador

     

    Em 2010, também com apoio de Renan, Collor assumiu a presidência da Comissão de Relações Exteriores, cuja temática era de interesse pessoal do parlamentar. Em 2013, voltou à Comissão de Infraestrutura e despertou curiosidades por abrir as sessões às 7h30, horário bastante incomum na rotina da casa.

    A exceção garantia espaço na TV Senado, já que naquele período não havia outras comissões para dividir a transmissão. Não era raro fazer a leitura das atas das reuniões ou dos documentos para uma sala ainda vazia, ou diante de apenas um ou outro parlamentar.

    A presidência das comissões e seus discursos em plenário lhe rendiam holofotes. Às vezes consequências de seus rompantes, como o bate-boca com o senador Pedro Simon (PMDB), em 2009. Ou quando rasgou diante das câmeras a prestação de contas de um órgão do Ministério dos Transportes por entender que o documento tinha "informações falseadas" sobre uma obra em Rondônia.

    Lava Jato mudou postura no Senado

     

    Collor costuma ser definido como um senador de perfil discreto e reservado. É afável com os colegas e evita conversar com jornalistas. O avanço das investigações da Lava Jato, no entanto, despertaram Collor, que direcionou seu descontentamento ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

    A gota d'água foi a apreensão de seus carros de luxo pela Polícia Federal, em julho, na Casa da Dinda, durante de uma das fases da Lava Jato. Ao discursar no plenário do Senado para se defender das acusações, Collor sussurrou um "filho da puta" dirigido a Janot.

    Os pronunciamentos, aliás, tornaram-se espaço frequente de ataques ao procurador e à Lava Jato. Foi em 2015 que mais vezes Collor subiu à tribuna do plenário, 33 ao todo, de acordo com registros do site do Senado. Em 14 delas ele fez críticas a Janot ou à conduta dos demais procuradores e da Polícia Federal.

    Apenas para comparação, em 2012 e 2013 foram 29 pronunciamentos, mas a maioria sobre temas aleatórios, como homenagens e críticas ao governo de Alagoas. Nos outros anos foram em média dez discursos.

    Relação com Dilma esfriou

     

    A Lava Jato também afastou Collor de Dilma. O senador vinha sendo um aliado fiel dos governos Lula e Dilma. Em 2014, enquanto seu partido decidiu declarar apoio à candidatura de Aécio Neves (PSDB), o senador manteve seu voto à petista.

    Até o ano passado, Collor votou de acordo com os interesses do governo Dilma na maioria das vezes, como mostra o Basômetro, ferramenta desenvolvida pelo "Estadão Dados", que mede o comportamento de parlamentares e partidos nas votações nominais na Câmara e no Senado.

    No primeiro mandato de Dilma, o senador votou 82% das vezes de acordo com o governo. No segundo, votou a favor em 75% das votações, mas começou a dar declarações contrárias a propostas da petista, como a de retomar a CPMF, e a criticou pela falta de diálogo com o Congresso. No ano passado, Collor chegou a manifestar à presidente suas ressalvas à Lava Jato, em reuniões com lideranças de partidos.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que Collor é acusado de receber R$ 26 bilhões em propina. Na verdade, são R$ 26 milhões. A informação foi corrigida às 18h45 do dia 17 de janeiro.

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