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Fórum Social Mundial, 15 anos, volta a Porto Alegre e discute mudança de ciclo na esquerda

Evento pouco lembrará suas primeiras edições, com menos palestrantes famosos e mais debate sobre futuro de movimentos sociais e utilização de recursos naturais

    Quinze anos após o primeiro Fórum Social Mundial, em 2001, Porto Alegre sediará, a partir desta terça-feira (19), uma nova edição do evento para discutir o futuro da esquerda mundial em meio à crise.

    O clima pouco lembrará a edição de 2003 do fórum, também em Porto Alegre, que reuniu 100 mil pessoas no primeiro ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva acreditando que "um outro mundo possível" seria construído. Em 2016, o fórum espera ter, no máximo, 20 mil participantes, em meio à crise de governos eleitos pela esquerda na América Latina.

    O empresário Oded Grajew, um dos idealizadores do fórum, diz que o evento deste ano marcará um ciclo da esquerda fechando e outro se abrindo, no Brasil e no mundo. O que se fecha é "a ideia de que é só eleger alguém que os governos vão resolver alguma coisa". O que se abre mostra que "não dá para confiar que o governo fará aquilo que prometeu, é necessário participar mais da gestão".

    Eis um resumo do que mudou e o que permaneceu nos 15 anos de Fórum Social Mundial.

    Relação com o PT

    O Fórum Social Mundial é um espaço de reunião de temas e correntes políticas diversas e não se compromete com um partido específico, mas suas primeiras edições, de 2001 a 2003, em Porto Alegre, serviram de impulso para o projeto político do PT, que elegeu Lula em 2002.

    O arquiteto Chico Whitaker, também idealizador do fórum, diz que o PT soube "aproveitar" o movimento de articulação de forças da sociedade civil das primeiras edições. Mas agora, diz, pessoas que ajudaram a eleger Lula "estão buscando entender" o momento político brasileiro.

    "Há uma crise profunda, não só no Brasil, as pessoas estão meio perdidas e querem se encontrar, refletir em conjunto"

    Oded Grajew

    Idealizador do Fórum Social Mundial

    A situação do PT e do governo brasileiro será um dos temas discutidos no fórum, mas não é certo que a direção nacional petista aproveitará esse caldo, diz Tarso Genro, que era prefeito de Porto Alegre nas duas primeiras edições do evento. "Nossa direção é originária de uma crise partidária muito forte, não sei qual será o nível de aproveitamento de um evento como esse", diz.

    Nomes famosos
    Foto: Reuters - 23/1/2003
    Mesa de debates em ginásio na edição 2003 do fórum
    Mesa de debates em ginásio na edição 2003 do fórum

    O modelo de trazer pensadores mundialmente famosos para falar a muitas pessoas ficou para trás. Se no começo da década o fórum tinha eventos disputados com nomes como Noam Chomsky, José Saramago e Eduardo Galeano, falando para multidões em ginásios esportivos, agora a prevalência é de mesas com representantes de movimentos sociais. Isso está ligado à perda de força do fórum, mas também a uma escolha de seus organizadores.

    "As pessoas vinham para assistir aos intelectuais de esquerda fazerem a crítica do capitalismo. Hoje vemos os movimentos sociais vivendo no dia a dia o conflito direto com o sistema e pensando em alternativas", diz Mauri Cruz, diretor da Abong (Associação Brasileira de ONGs) e do comitê de apoio a esta edição do Fórum Social Mundial.

    Cenário mundial e regional

    O cenário político global que dá o pano de fundo deste Fórum é muito diverso do de 15 anos atrás, diz Tarso. "Aquele momento presumia um enfraquecimento do projeto neoliberal e projetava uma ascensão democrática e social em todo o globo, principalmente na América Latina", diz.  O momento atual, afirma, é de reversão do cenário mundial e de "vitória da força normativa do capital financeiro sobre os Estados, com consequências para uma visão social da democracia".

    Na América Latina, governos eleitos com apoio da esquerda foram derrotados ou enfrentam dificuldades. A Argentina elegeu Mauricio Macri, um presidente mais alinhado à direita, o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela, perdeu o controle do parlamento, e no Brasil a presidente Dilma Rousseff enfrenta a ameaça de impeachment. Os três países também devem registrar recessão econômica neste ano.

    Contraponto a Davos

    As primeiras edições do Fórum Social Mundial foram organizadas no final de janeiro para coincidir com a data de realização do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, que reúne líderes do empresariado global e políticos. Essa regra foi alterada em algumas edições, entre outros motivos para evitar o inverno nos Fóruns Sociais realizados no hemisfério norte, mas vale em 2016. "O Fórum Social Mundial nasceu para ser a contraposição a Davos. Escolhemos a mesma data para que as pessoas mostrem qual é a sua escolha de visão de mundo", diz Grajew.

    Em 2003, Lula, recém-empossado presidente, falou para uma multidão em Porto Alegre. Em seguida, voou para Davos. Grajew conta que se opôs. "Disse ao Lula que ele tinha que escolher entre os dois: 'misturar não dá certo, vai contaminar'. O Lula ficou bravo. Mas dito e feito", disse. 

    Ele lembra que o empreiteiro Marcelo Odebrecht,  preso desde 19 de junho de 2015 no âmbito da Operação Lava Jato, era um dos representantes do Fórum Econômico Mundial no Brasil. "A escolha de Lula em ir aos dois eventos no mesmo ano tem as sementes da crise atual", diz Grajew.

    Meio Ambiente

    A pauta ambiental terá mais força neste ano do que nos primeiros fóruns, diz Grajew. "Hoje está mais claro que os recursos do planeta são finitos e que o crescimento não pode ser ilimitado", diz. O desastre ambiental de Mariana (MG) será um dos temas discutidos.

    "A mudança climática não é mais uma tese, estamos vivendo ela todo dia e o tema da energia limpa está mais forte"

    Mauri Cruz

    Integrante do comitê de apoio ao Fórum Social Mundial

    Políticos no evento

    Neste ano é esperada a presença de pelo menos dois ministros do governo federal, Miguel Rosseto (Trabalho e Previdência) e Nilma Lima Gomes (Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos). A Fundação Perseu Abramo, do PT, pretende levar a debate, com apoio do PC do B, o tema do pedido de impeachment contra a presidente Dilma, sob a ótica de que o processo em curso seria um "golpe". Além de Tarso, participam Olívio Dutra, também ex-prefeito de Porto Alegre, e Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, entre outros integrantes da legenda.

    O movimento Raiz, ligado à deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), organiza um evento para discutir sua plataforma política. O PSOL realiza seminário sobre conjuntura internacional com Luciana Genro, Vladimir Safatle e Gilberto Maringoni. O Nexo indagou à Rede Sustentabilidade se realizaria evento no fórum dete ano, mas não obteve resposta.

    Números

    • 5 mil inscritos até sexta-feira (15)
    • 180 palestrantes convidados pela organização
    • 92 palestrantes internacionais de 60 países
    • 470 mesas de debate e atividades

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