A viagem desta brasileira fará você ver os refugiados no Oriente Médio com outros olhos

Jornalista passou um mês entre refugiados próximos ao Estado Islâmico e decidiu escrever um livro sobre seu “Turismo de Empatia”

    Quando a jornalista paulistana Talita Ribeiro, 28 anos, decidiu viajar para o Oriente Médio, ela não esperava voltar com um projeto de livro. Mas foi o que aconteceu após ela conhecer refugiados no Iraque, na Turquia e na Jordânia.

    Motivada por uma foto de uma refugiada síria, que se despe de sua burca quando foge do Estado Islâmico, ela decidiu fazer a viagem para conhecer as mulheres e os desafios que elas enfrentam na região. Passou meses estudando a cultura e a política local.

    Quando chegou lá foi surpreendida por ver muito mais do que as cicatrizes da guerra. Viu que as crianças, apesar de terem perdido muito, ainda mantinham a pureza da infância e a esperança em dias melhores. Viu que havia mulheres se empoderando, tomando a frente de revoluções e inciando um verdadeiro processo de mudança.

    Malala não é exceção: mulheres estão no fronte

     

    Talita diz que chegou a regiões muito próximas (até 50 km) de cidades tomados pelo Estado Islâmico. Em alguns desses locais, como no Curdistão Iraquiano, se surpreendeu pela quantidade de mulheres pegando em armas para combater, assumindo espaços na política, na luta por direitos e no sistema judiciário lutando contra crimes de honra.

    "Nós vemos alguém como a Malala Yousafzai vencendo um Prêmio Nobel e achamos que é exceção. Não é”, diz. “Há outras mulheres na vanguarda. Não são maioria, mas vivem um momento histórico de transição”, diz.

    São mulheres que estão ficando viúvas ou solteiras por causa da guerra. E, nos espaços que são deixados pelos homens que fogem ou morrem, elas conseguem, aos poucos, tomar novas decisões e construir uma sociedade sem ter homens como referência.

    O momento que Talita descreve sobre mulheres na política se reflete, por exemplo, nas notícias das 17 mulheres que foram eleitas para conselhos municipais na Arábia Saudita, em dezembro de 2015. Foi a primeira eleição em que mulheres puderam participar como candidatas e eleitoras.

     

    A impressionante esperança das crianças

    A jornalista estava interessada em explorar o universo feminino. Mas se surpreendeu com a resiliência das crianças. "Apesar de tudo o que perderam, ainda eram crianças. Elas não tinham um brinquedo sequer, mas conseguiam se divertir com qualquer coisa que aparecesse. Se, mesmo em meio à guerra, as crianças conseguiam preservar a infância, a compaixão e a honra, havia motivos para manter a esperança”, diz.

    Uma das histórias que ela conta é de um garota iraquiana, de 10 anos, que já viveu um ano e três meses em territórios ocupados pelo Estado Islâmico. "Não tive coragem de perguntar sobre esse período, ao ver o terror em seu rosto e os olhos cheios de lágrimas”, narra Talita. A menina, que quer ser médica, mas não pode ir à escola há dois anos, e que foi resgatada. Ela havia sido vendida a uma organização pelo equivalente a US$ 4 mil.

     

    Em outra ocasião, Talita se impressionou com uma menina jordaniana de cinco anos. A garota tinha uma grande cicatriz na perna, consequência de uma cirurgia por um problema de nascença - o que não a impediu de cruzar fronteiras a pé. Em certo momento, a menina viu que Talita estava com um esparadrapo no braço. A jornalista usava a faixa para esconder uma tatuagem escrita em hebraico, mas disse para a pequena garota que se tratava apenas de um machucado. "Ela, que estava em uma situação muito mais frágil, começou a dizer para eu não me preocupar, que minha dor ia passar”, lembra.

    Viagem se tornará um livro

    Foi no Iraque, após visitar um campo de refugiados onde havia mais de 25 mil pessoas dormindo em barracas, com condições precárias, que Talita decidiu que iria fazer algo daquela experiência. "Percebi que não podia ir embora como se não tivesse visto nada. Precisava fazer qualquer coisa para ajudar alguém, nem que fossem apenas algumas famílias".

    Inicialmente, a jornalista não queria fotografar, preocupada em não expor as pessoas. Sua opinião mudou ao conhecer uma senhora na Jordânia que pediu para ser fotografada. A decisão foi escrever um livro - “Turismo de empatia” - e lançá-lo via financiamento coletivo, pelo qual tenta levantar R$ 30 mil.

    Talita garante que todos os envolvidos no processo de criação da obra são voluntários e o lucro do livro será doado para dois projetos sociais na região: a "Família Aziz", uma família de brasileiros na Jordânia que distribui cestas básicas, roupas, móveis e medicamentos, e a “Top Brazilian Sport Academy”, uma escolinha de futebol no Curdistão Iraquiano que dá aulas de futebol para crianças e adolescentes refugiados.

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