Quantas oposições existem dentro da oposição venezuelana

Disputas internas na coligação de 14 partidos mostram que as divisões vão muito além do chavismo e do anti-chavismo

     

    A oposição venezuelana obteve nas eleições de dezembro sua maior vitória desde a ascensão do chavismo, em 1999. Ao conquistar a maioria dos 167 assentos da Assembleia Nacional, a MUD (Mesa Democrática Unitária) deixou para trás quase 17 anos de revezes.

    Ainda que a Justiça mantenha a decisão de impugnar o mandato de 4 dos 122 oposicionistas eleitos, a maioria anti-chavista é irreversível agora.

    Olhando para trás, a ação “unitária” da oposição foi um sucesso. Mas, adiante, será difícil mantê-la. À medida que aumenta o poder da MUD, crescem suas divisões.

    Os 122 assentos não pertencem a um partido só, mas a um total de 14 legendas agrupadas sob um nome fantasia: MUD. Muitas destas siglas nasceram de rachas recentes entre si. Outras, são dissidências do próprio chavismo. Parir uma unidade estratégica foi um trabalho duro. Mantê-la, parece impossível.

    Estratégias diferentes

     

    Os dois principais partidos da oposição na Assembleia são o Primeiro Justiça (PJ), com 33 cadeiras, e a Ação Democrática (AD), com 26.

    Depois da vitória na eleição parlamentar de dezembro, as duas legendas divergiram logo de cara sobre quem deveria assumir a Presidência da Casa. O PJ indicou Julio Borges. E perdeu. O deputado eleito foi Henry Ramos Allup, da AD.

    Já no discurso de posse, Allup defendeu a saída do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, antes do fim do mandato:

    “Eu acho que o presidente Maduro deveria pensar nessa possibilidade [de renúncia]. Se isso é um mecanismo de solução para a crise política, por que descartá-lo?”

    Henry Ramos Allup

    Presidente da Assembleia Nacional da Venezuela

    O PJ se opõe à ideia. Eles preferem que Maduro se desgaste até a próxima eleição presidencial, que só acontecerá em 2018.

    A tese do PJ é a de que a situação econômica da Venezuela é tão ruim agora - sobretudo pela queda no preço do petróleo, principal produto da economia local - que seria um mau negócio para a oposição assumir o poder nessas circunstâncias.

    A ideia da “sangria” de Maduro beneficia Henrique Capriles (PJ). Ele concorreu contra o presidente venezuelano na eleição de 2013 e perdeu por muito pouco - 50% contra 49%. O desgaste governista no cenário atual poderia favorecê-lo numa nova eleição. Mas não agora.

    O problema é que essa estratégia não desagrada apenas líderes da AD, como Allup, mas também os membros do Vontade Popular, partido que, com 14 cadeiras, tem a quarta maior bancada da oposição na Assembleia.

    Tudo somado, tem-se um núcleo duro do oposicionismo dividido em relação ao seu principal objetivo de longo prazo: como e quando chegar à Presidência da Venezuela.

     

    O Nexo ouviu dois especialistas no assunto, cujas opiniões convergiram num ponto. Ambos dizem que a união eleitoral da oposição foi um sucesso estratégico, mas sua manutenção é um desafio e tanto para o futuro:

    “A oposição ao chavismo é muito heterogênea. O que fez todos esses grupos se unirem em algum momento foi a posição comum contra o chavismo. Agora é preciso ver como eles trabalharão a união numa agenda mais ampla. Não será tão fácil”

    Rafael Simon Jimenez

    Professor de Direito Constitucional da Universidade Metropolitana de Caracas e ex-vice-presidente da Assembleia Nacional pelo extinto MAS (Movimento ao Socialismo)

    “Há muitos caudilhos na MUD. Em comum, eles têm a defesa da anistia [aos políticos de oposição presos no governo Maduro] e a derrubada do presidente. Mas são partidos de diferentes matizes, do capitalismo social ao neoliberalismo. Não é uma aliança nada homogênea”

    Agustín Lewit

    Cientista político e editor da Agência Nodal

    Raízes da divisão

     

    O bate-cabeça da oposição não é de hoje. Teve início em 2014, quando três expoentes antichavistas se engajaram numa iniciativa chamada “La Salida (A Saída)”, que propunha, como o nome sugere, que Maduro, mesmo tendo sido eleito um ano antes, simplesmente se fosse.

    As manifestações de rua foram duramente reprimidas, seus líderes foram presos e a oposição terminou a jornada dividida.

    Um núcleo duro formado pelos líderes Antonio Ledezma, María Corina Machado e Leopoldo López tomou a frente do “La Salida”. O problema é que a oposição não acompanhou em bloco. Capriles desembarcou. Desde então, o grupo permanece unido contra Maduro, mas dividido em relação à data em que a saída do presidente deveria se dar.

    Destes, López e Ledezma se encontram presos. María Corina perdeu o mandato. A oposição se refere aos dois como presos políticos. Os chavistas, como conspiradores.

    Veja o mosaico que compõe a MUD:

    Oposição venezuelana na Assembleia Nacional

    Primeiro Justiça - 33 parlamentares

    Logo após a eleição, indicou Julio Borges para presidir a Assembleia, mas perdeu. Forma um bloco “moderado” dentro da MUD, auto-intitulado de “centro-esquerda”, embora seus líderes tenham participado de um golpe de Estado frustrado em 2002. Um de seus expoentes, Henrique Capriles, concorreu contra Hugo Chávez em 2012 e contra Nicolás Maduro em 2013. Foi de um racha do PJ, em 2005, que se descolou Leopoldo Lopez, hoje no Vontade Popular, um dos líderes mais radicais da oposição, condenado a quase 14 anos de prisão.

    Ação Democrática - 26 parlamentares

    Partido do atual presidente da Assembleia, Henry Ramos Allup. Inicialmente se opunha à saída forçada de Maduro, mas, para angariar votos e levar a Presidência da Assembleia Nacional, mudou de posição. A AD é o partido que se alternou no poder durante 40 anos com o Copei (Comitê de Organização Político-Eleitoral da Venezuela), no que ficou conhecido como “Pacto de Ponto Fixo”. O partido é membro da Internacional Socialista, mas se opõe com força ao chavismo.

    Um Novo Tempo - 20 parlamentares

    Compõe a autointitulada ala moderada da oposição, juntamente com a AD. Um de seus líderes históricos, Miguel Rosales, perdeu para Chávez a eleição presidencial de 2006 mas, no ano seguinte, impôs ao presidente venezuelano uma derrota importante na tentativa de reformar a Constituição.

    Vontade Popular - 14 parlamentares

    Surgiu em 2009 como um movimento de protesto e é considerada hoje uma das alas mais duras contra o chavismo. O partido prioriza a libertação do que chama de presos políticos (o governo e a Justiça da Venezuela refutam o uso do termo). É Liderado por Leopoldo Lopez, ex-companheiro de Capriles no Primeiro Justiça.

    Movimento Progressista da Venezuela - 4 parlamentares

    Surgiu de uma divisão do Pátria Para Todos. Foi chavista em sua origem, antes de passar para a oposição.

    Causa Radical - 4 parlamentares

    Fundado em 1917 a partir de um racho no Partido Comunista da Venezuela.

    Avançado Progressista - 3 parlamentares

    Foi fundado em 2012. Recebeu membros descontentes da ala governista. Se diz “esquerda moderna” e se compara ao ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e à presidente do Chile, Michelle Bachelet.

    Contas Claras - 2 parlamentares

    Surgiu em 2004. É fortemente ligado a Vicencio “Enzo” Scarano Spizzo, prefeito de San Diego, condenado em 2014 a 10 meses de prisão por envolvimento em protestos contra Maduro.

    Aliança Bravo Povo - 1 parlamentar

    Partido surgido em 2000. Saiu de uma divisão da Ação Democrática, em apoio a Antonio Ledezma, que era prefeito de Caracas hoje está preso numa unidade militar, acusado de conspirar para derrubar o presidente.

    Projeto Venezuela - 1 parlamentar

    Partido se empenhou no referendo contra Chávez em 2004, mas também critica a oposição por sua falta de propostas.

    Vente Venezuelana - 1 parlamentar

    Partido de Maria Corina Machado, deputada deposta em 2014, que ficou conhecida por, mesmo sem mandato, ter participado por conta própria de uma conferência da OEA (Organização dos Estados Americanos). María Corina foi uma das articuladoras do “La Salida”.

    Convergências - 1 parlamentar

    Saiu de uma cisão na Copei, que se alternou com a AD no poder por 40 anos.

    Força Cidadã - 1 parlamentar

    Fundado em 2003 depois de um racha na Ação Democrática.

    Gente Emergente - 1 parlamentar

    Nasceu de uma divergência com o chavismo em 2008 e passou a integrar a MUD em 2010.

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