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A ignorada ‘temporada de botes’ de Mianmar

Com o fim das monções, perseguidos políticos se lançam no Oceano Índico a bordo de barcos superlotados numa tentativa desesperada de chegar à Malásia e à Indonésia

     

    Todo ano, o mês outubro marca o término das monções no sul da Ásia. O fim do período das fortes chuvas, das rajadas de ventos e das inundações que duram quatro meses é seguido de um evento trágico - milhares de mianmarenses e bengalis se lançam às águas da Baía de Bengala em precários barcos pesqueiros superlotados, com escassos suprimentos a bordo, numa tentativa de alcançar a costa da Malásia e da Indonésia. Ao longo dos anos, centenas morreram pelo caminho. Os que chegaram vivos - traumatizados, com marcas de tortura, desidratados e desnutridos - disputam cotas restritas de imigração ou são simplesmente mandados de volta ao Oceano Índico pela guarda-costeira, da mesma forma que chegaram: sem nada.

     

    A “temporada de botes” na Baía de Bengala é uma crise migratória sazonal - todos sabem quando, onde e como ela acontecerá. Mas, nem por isso, é resolvida. Há duas razões para esse fluxo. A primeira é econômica. As pessoas buscam melhores condições de vida. A segunda é política. A maioria dos imigrantes é rohingya, uma etnia perseguida em Mianmar.

    Desde 2014, 95 mil pessoas fizeram essa travessia perigosa - mil delas morreram tentando -, de acordo com dados do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. O Acnur diz ainda que, só no mês de maio de 2015, 5 mil pessoas se lançaram ao mar nestas condições.

    Anna Shea, pesquisadora da Anistia Internacional dedicada à investigação da crise migratória em Mianmar, disse ao Nexo que pelo 1.500 mianmarenses se lançaram ao mar entre os dias 20 de setembro e 31 de dezembro de 2015.

    O drama no sul da Ásia não se compara ao recente fluxo migratório de refugiados sírios em termos numéricos. Em cinco anos, o conflito na Síria deslocou 4 milhões de pessoas - 10% delas para a Europa e o restante para países do Oriente Médio, principalmente o Líbano, que recebeu 1,2 milhão deles. Mas enquanto as vítimas da guerra recebem atenção midiática, das agências humanitárias e de governos em países bem estruturados como França, Reino Unido e Alemanha, os mianmarenses vivem uma dinâmica menos conhecida, cujos detalhes emergem de tempos em tempos apenas.

    Minoria Rohingya vai ao mar fugindo de perseguição

     

    A raiz dessa crise humanitária está ligada ao destino de uma pequena comunidade de 1 milhão de pessoas que vivem no Estado costeiro do Arracão, na fronteira com Bangladesh. O Arracão é o segundo lugar mais pobre de Mianmar, que é um dos países mais pobres do mundo. Ali, vivem os rohingya, uma minoria étnica, religiosa e linguística, discriminada tanto pela maioria budista de Mianmar (90% da população) quanto pelos governos civis e militares que se sucederam desde a independência do país do Reino Unido, em 1948.

    Os rohingya são de um ramo minoritário muçulmano e sequer possuem nacionalidade mianmarense. O grupo já foi descrito pela ONU como um “povo sem amigos e sem terra”. Eles não podem viajar no interior do país sem autorização do governo, nem ter título de propriedade. Para Mianmar, eles são de Bangladesh. Para Bangladesh, eles são de Mianmar. Pressionados pelo impasse, os rohingya tentam ser alguém a 3.400 mil km dali, na Malásia e na Indonésia.

    3.400 km

    É a distância que as tripulações percorrem no Oceano, entre o Arracão, em Mianmar, e Medan, na Indonésia

    Eles “estão tão desesperados que continuarão a arriscar suas vidas no mar até que as causas dessa crise sejam abordadas - o governo de Mianmar precisa pôr um fim imediato à perseguição aos rohingya”, disse Anna Shea, responsável pela área de pesquisa sobre refugiados na Anistia Internacional.

    Em 2012, uma onda de perseguição aos rohingya fez explodir a violência no Estado de Arracão. O episódio teve início com o estupro de uma jovem budista, atribuído a membros da etnia rohingya. Os choques entre os dois grupos ganhou contornos de ódio religioso e terminou com uma onda de fúria que deixou dezenas de mortos, muitos enterrados anonimamente em valas coletivas.

    Embora não exista de fato um censo específico sobre essa população no mundo, alguns pesquisadores dizem que metade dos rohingya já deixaram Mianmar.

    Tortura, extorsão e morte a bordo

     

    Alguns migrantes pagam as poucas economias de uma vida pela viagem. Traficantes de pessoas recebem o dinheiro e organizam a travessia, mas, uma vez a bordo, os tripulantes são torturados física e psicologicamente. Eles ocupam um lugar exíguo dentro das embarcações superlotadas e passam semanas sem poder se mexer. Os que tentam argumentar sofrem castigos físicos, são assassinados sumariamente ou lançados ao mar.  

    “Todas as mulheres, homens e crianças disseram ter apanhado ou terem visto outros sofrerem sérios abusos físicos e psicológicos. As pessoas são espancadas com bastões de metal ou de plástico - às vezes durante horas - simplesmente por implorar por comida, por se mexer ou por pedir para ir ao banheiro. Muitos saem com profundas cicatrizes físicas ou psicológicas da violência”, diz o relatório da Anistia Internacional, produzido a partir de mais de cem entrevistas com sobreviventes.

    “De manhã, você apanha três vezes. De tarde, você apanha três vezes. De noite, você apanha nove vezes”

    Jovem rohingya de 15 anos entrevistado pela Anistia Internacional

    Para arrancar ainda mais dinheiro das vítimas, alguns traficantes param os barcos durante a travessia e ligam para as famílias dos tripulantes, pedindo dinheiro em resgate. Uma menina de 15 anos disse à Anistia Internacional que foi colocada em contato com os seus pais por celular,  chorando. Em seguida, os criminosos tomaram o aparelho e ameaçaram lançá-la ao mar se não fosse pago um resgate de US$ 1,7 mil.

    Para combater o tráfico de pessoas na Baía de Bengala, os governos da Malásia, Indonésia e Tailândia anunciaram em maio medidas mais rígidas. Mas o que parecia ser uma solução agravou ainda mais o problema. Forças Armadas e de segurança dos países de destino passaram a impedir que os passageiros desembarcassem. Mais de 8 mil imigrantes foram simplesmente devolvidos nas mesmas condições em que chegavam.

    Após pressão internacional, Malásia e Indonésia chegaram a aceitar o estabelecimento de cotas, com a condição de que os imigrantes fossem para outro país a partir de maio de 2016, o que segue indefinido até agora.

    A ONU diz que 1 milhão de mianmarenses estão fora de suas casas, seja dentro do país, como “deslocados internos pela violência”, seja em países próximos. Como medida emergencial, a Anistia Internacional pediu que os países envolvidos realizem imediatamente operações de busca e salvamento no Oceano Índico enquanto questões de fundo, como a perseguição aos rohingya, não são resolvidas.

    Anna Shea diz, entretanto, ter registrado uma mudanças na forma de operar dos atravessadores este ano: “Aparentemente, os criminosos estão transportando apenas pessoas que dão garantias de que pagarão [pela travessia] depois do desembarque, o que é diferente dos métodos usados na última temporada. Essas redes ilegais são extremamente sofisticadas e podem se adaptar rapidamente às circunstâncias”.

     

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