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O que o filme 'A Grande Aposta' nos ensina sobre a crise de 2008

Obra tem a missão de explicar o processo que levou milhões à falência. Para isso, usa um peixe e Selena Gomez

     

    Hollywood fez um filme com elenco cheio de estrelas dispostas a explicar para o espectador o colapso do mercado financeiro em 2008. Em “A Grande Aposta”, a crise do mercado imobiliário não é só pano de fundo. Os personagens é que estão ali para mostrar como o colapso, que quase ninguém enxergou, não era tão imprevisível assim.

    Mesmo falando de economia e explicando conceitos difíceis, “A Grande Aposta” foi indicado ao Oscar em cinco categorias: filme, diretor, roteiro adaptado, ator coadjuvante e montagem.

    “O que nos causa problemas não é o que não sabemos. É o que temos certeza que sabemos e que, no final, não é verdade”

    Mark Twain

    Escritor americano (1835-1910)

    A frase acima abre o filme e diz muito sobre o roteiro. A crise estava ali onde ninguém prestou atenção. Ninguém desconfiou porque tinha certeza, mesmo sem conhecer.

    A situação mostrada no filme fez os Estados Unidos entrarem em recessão e afetou países de todo o mundo. Em efeito cascata, bancos e seguradoras faliram e outros tiveram de ser socorridos pelo governo americano. Economistas a consideram a maior crise do capitalismo desde 1929.

    Tudo bem explicadinho

    Títulos do mercado imobiliário da categoria subprime não são uma coisa tão simples de entender. Mas a missão do filme é essa: explicar.

    A história é interrompida para que um chef de cozinha dê aulas sobre que dívidas exatamente compõem os tais títulos. A estrela teen Selena Gomez ensina como as expectativas afetam as decisões sobre investimentos.

    O chef nos conta como não desperdiçar as partes menos nobres e pouco frescas de um peixe: faz um caldo e ninguém reclama. A ideia é mostrar que os bancos fazem o mesmo com os títulos arriscados: escondem os empréstimos com grande possibilidade de calote em meio aos papéis mais seguros. E ninguém percebe.

    Selena Gomez aparece em um jogo de cartas em Las Vegas com uma pergunta simples: se um jogador tirou duas cartas boas nas primeiras rodadas, qual a chance da sorte se repetir na terceira?

    Quando investem, as pessoas também tendem a se impressionar com o desempenho do passado e passam a prestar pouca atenção nas condições atuais. O mercado imobiliário rendeu lucros por décadas, por isso muita gente achou que isso continuaria acontecendo.

    Basta olhar

    O personagem de Christian Bale, inspirado na história real de Michael Burry, é o primeiro a enxergar a crise. Como? “Fazendo o que ninguém fez: olhando”. Por décadas as dívidas imobiliárias foram pagas em dia, o que transformou o negócio em uma certeza. Em certa altura, alguém no filme pergunta: “quem deixaria de pagar a hipoteca?”.

    Burry não acredita apenas na classificação de risco de calote dada pelos bancos e começa a investigar as casas hipotecadas. Quem são os donos? Qual a parcela de seus salários eles usam na hipoteca? Onde eles trabalham? Qual a taxa de inadimplência?

    Assim ele descobre que os bancos foram dando empréstimos com garantias de retorno cada vez mais frouxas. As taxas de juros cresciam em caso de inadimplência e tornavam as dívidas impagáveis. A base do mercado de hipotecas estava podre e o sistema havia crescido de maneira irresponsável.

    Em 15 de setembro de 2008, o Lehman Brothers, um enorme banco de investimentos fundado 158 anos antes, declara falência. Os personagens do filme, que investiram prevendo a ruína do mercado de empréstimos imobiliários, ficam ricos.

    Milhares de pessoas perdem suas casas, milhões perdem o emprego e bilhões sofrem até hoje as consequências.

    Última informação

    Michael Burry, o primeiro a prever a crise na vida real, hoje aposta seu dinheiro em uma commodity: a água.

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