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Como a Petrobras foi da euforia à crise em cinco anos

Empresa brasileira perdeu quase R$ 300 bilhões em valor de mercado desde 2010. Ações chegam ao pior preço da história com a forte queda na cotação internacional do petróleo

    A redução forçada nos investimentos e na produção de petróleo nos próximos anos é só mais um capítulo ruim na história recente da Petrobras. Na terça-feira (12), o preço internacional do barril do petróleo chegou ao seu nível mais baixo em todo o mundo desde 2003: US$ 30,5. Com isso, a empresa brasileira viu o preço de sua ação preferencial chegar aos R$ 5,53, o menor nível da história.

    A petroleira brasileira que no final de 2010 valia R$ 376 bilhões, vale hoje R$ 85 bilhões. Em cinco anos, a Petrobras perdeu 77% de valor de mercado. Perdeu também o selo de boa pagadora conferido pelas três principais agências de classificação de risco, viu suas dívidas em dólar explodirem e seu produto perder valor.

    Além da queda no preço do petróleo no mercado internacional, há causas internas para a depreciação: o controle artificial de preços praticado pelo governo como uma estratégia para segurar a inflação controlando o preço da gasolina; a explosão de sua dívida com o aumento do dólar; e a Operação Lava Jato - o maior caso de corrupção já investigado pela Justiça brasileira até hoje, que tem a Petrobras como pivô de subornos e superfaturamentos.

    Mas, para entender a trajetória da Petrobras, é preciso revisitar o seu período de maior otimismo.

    ‘Nunca antes na história da Humanidade’

    Em setembro de 2010, a Petrobras viveu o "momento mais auspicioso do capitalismo mundial". A definição do presidente Luis Inácio Lula da Silva refletia o clima de então, marcado pela descoberta do pré-sal.

    Na euforia, o governo foi ao mercado buscar novos sócios para a Petrobras. A grande operação de capitalização arrecadou R$ 120 bilhões em investimentos para a empresa.

    “Nunca antes na história da Humanidade nós tivemos um processo de capitalização da envergadura que a nossa Petrobras está fazendo aqui hoje”, dizia Lula semanas antes da eleição de sua sucessora, Dilma Rousseff.

    Depois disso, o preço do petróleo no mercado internacional caiu e, com o alto custo da extração em águas profundas, o pré-sal se tornou bem menos atrativo.

    Queda

     

    Governo controla preços e Petrobras tem prejuízo

    Usado para segurar a inflação e como medida de incentivo à economia, o controle de preços da gasolina prejudicou o caixa da Petrobras durante o primeiro mandato de Dilma.

    Segundo os balanços da empresa, o prejuízo da Diretoria de Abastecimento foi de R$ 9,9 bilhões em 2011, R$ 22,9 bilhões em 2012, R$ 17,7 bilhões em 2013, e R$ 38,9 bilhões em 2014.

    Em meio ao chamado boom das commodities, quando o petróleo chegou a ser vendido a US$ 125 entre 2011 e 2012, o governo usou sua força no conselho de administração da Petrobras para manter o preço da gasolina mais baixo, o que gerou prejuízos ao caixa da estatal.

    O gráfico abaixo mostra a evolução dos preços da gasolina, no mercado interno, e do barril de petróleo no mercado internacional desde 2011. Os valores são mostrados em relação aos preços em janeiro de 2011 (como se nessa data ambas as grandezas valessem 1, para melhor comparação). Os dados do petróleo foram corrigidos pela taxa de câmbio média de cada mês, fornecida pelo Banco Central.

    Petrobras não acompanha mercado internacional

     

    Durante a campanha eleitoral de 2014, a presidente repetia sua rejeição à ideia de atrelar o preço do combustível no Brasil ao mercado internacional. A ideia era que o preço da gasolina no Brasil mantivesse certa estabilidade, ora estaria acima, ora abaixo do preço no mercado externo. “Não existe uma lei divina que obrigue a atrelar ao mercado internacional”, disse a presidente em setembro daquele ano.

    Questionada sobre a demanda da Petrobras por um reajuste na gasolina, Dilma classificou a reivindicação como “legítima”, mas disse que a empresa tinha “202 milhões de acionistas”, em referência à população brasileira.

    O então ministro da Fazenda, Guido Mantega, era também o presidente do Conselho de Administração da estatal. A presidente da empresa, Graça Foster, era indicada pela presidente Dilma. Graça, apesar de indicar em comunicados e balanços a intenção de reajustar o preço de acordo com o mercado internacional, não contou com o apoio da presidente para reequilibrar as contas.

    Dívida cresceu mais de 300%

    Os problemas de governança, a interferência do governo e os prejuízos causados por ela, além do endividamento da Petrobras, levaram a empresa a perder o grau de investimento conferido pela Standard & Poor’s. A dívida saiu de R$ 117,9 bilhões em 2010 para cerca de R$ 506 bilhões atualmente. O valor é 329% maior que há cinco anos. Como cerca de 84% de suas dívidas são em moeda estrangeira, a empresa fica vulnerável à variação do dólar e do euro, por exemplo.

    O rebaixamento da nota aumenta o custo para a Petrobras pegar dinheiro emprestado. Com isso, terá ainda mais dificuldade para voltar ao equilíbrio e fazer os investimentos necessários para cumprir sua parte no pré-sal.

    A empresa anunciou no início da semana a redução de R$ 127 bilhões nos investimentos previstos para os próximos quatro anos por causa dos problemas financeiros. Em vez de investir R$ 516 bilhões, a nova meta é de R$ 389 bilhões.

    O custo da corrupção e da má gestão

    No final de 2014, a empresa de auditoria PwC se recusou a assinar o balanço apresentado pela Petrobras. Meses antes, em março, a Operação Lava Jato começava a revelar o esquema de pagamento de propinas a funcionários da empresa para a obtenção de contratos a valores superfaturados. O mercado esperava que o balanço da estatal computasse as perdas com a corrupção e viu na ausência dessa informação um sinal de falta de transparência.

    Depois de seguidos adiamentos, em abril de 2014 a Petrobras apresentou aos acionistas o cálculo do prejuízo causado pela corrupção. O documento admite perdas por corrupção são R$ 6,1 bilhões, mas há controvérsias sobre a metodologia do cálculo. A correção de rumo se mostrou tardia.

    O balanço apresentou ainda a desvalorização de bens da empresa: R$ 44,3 bilhões. Erros de planejamento, indícios de superfaturamento e atrasos em obras pesam neste resultados negativo. Em 2014 a empresa apresentou o primeiro prejuízo anual desde 1991: R$ 21 bilhões.

    Prejuízo atípico

     

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