De Aécio a Padilha, o que disse ‘Ceará’, o novo delator da Lava Jato

Carlos Alexandre de Souza Rocha era transportador de dinheiro de Youssef, peça central da investigação, e citou nomes de políticos do PP, PSDB, PMDB, PT e PTB

    A mais recente relação de citações a políticos suspeitos de envolvimento com o esquema de corrupção investigado pela Lava Jato partiu de um carregador de dinheiro.

    Carlos Alexandre de Souza Rocha, o “Ceará”, trabalhava para o doleiro Alberto Youssef, considerado figura chave nas apurações de desvios envolvendo contratos da Petrobras e de repasses de propinas a funcionários da estatal e políticos.

     

    “Ceará” é um dos 40 delatores da Lava Jato. Seus depoimentos foram coletados entre junho e julho de 2015. O acordo de delação premiada, em que ele se compromete a dar informações relevantes em troca de perdão judicial, foi homologado pelo Supremo Tribunal Federal em agosto. Apenas em dezembro as declarações foram tornadas públicas, após o STF retirar o sigilo do documento.

    Em seus 19 depoimentos “Ceará”, que se define à Justiça como empresário, citou nomes de políticos de partidos do PP, PT, PSDB, PMDB e PTB. Alguns deles já haviam sido mencionados por outros delatores, mas novos nomes surgiram.

    Uma das citações feitas por ele já foi descreditada pela Justiça. Trata-se da menção ao senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Isso porque o "patrão" do novo delator, Youssef, negou ter repassado dinheiro ao parlamentar. Diante da fragilidade das declarações de "Ceará", o ministro do Supremo, Teori Zavascki, decidiu arquivar a investigação contra Randolfe.

    Outras acusações, porém, reforçaram suspeitas já levantadas e trouxeram outros nomes ao caso, como o do senador Aécio Neves (PSDB). Abaixo estão algumas das acusações feitas por “Ceará” que vêm se juntar à extensa lista de depoimentos que ligam políticos com esquema de corrupção desbaratado pela Lava Jato.

    'R$ 300 mil para Aécio'

     

    Segundo “Ceará”, o dinheiro que seria destinado ao senador Aécio Neves (PSDB-MG) foi entregue em 2013, no Rio, a um diretor da UTC, uma das empreiteiras investigadas pela Lava Jato.

    "Ceará" contou ter feito quatro entregas de dinheiro no prédio da empreiteira no Rio. Em uma delas, o diretor, chamado "Miranda", que recebeu o dinheiro afirmou que o valor vinha sendo cobrado por Aécio. "Ceará, aqui a gente dá dinheiro para todo mundo: situação, oposição, pessoa de cima do muro, pessoal do meio campo, todo mundo", lhe disse o diretor.

    Em nota divulgada no fim de dezembro, a assessoria de imprensa de Aécio, que não é alvo de inquérito, afirmou que a declaração é "absurda e irresponsável". "O senador não exerce influência nas empresas do governo federal com as quais a empresa atuava e não era sequer candidato à época mencionada. Além disso, a UTC não executou nenhuma obra vinculada ao Governo de Minas Gerais no período em que o senador governou o Estado."

    'R$ 10 milhões para Guerra'

    O delator disse aos investigadores que o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra recebeu R$ 10 milhões para "abafar" a CPI da Petrobras de 2009. O senador morreu em 2014.

    O depoimento repete o que o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, também delator da Lava Jato, afirmou em agosto de 2014. Alberto Youssef também confirmou o pagamento ao partido. O PSDB nega ter recebido dinheiro ilegal e no ano passado defendeu a investigação do caso.

    Youssef é criador do apelido usado por Carlos Alexandre de Souza Rocha

    O dinheiro não foi entregue a Sérgio Guerra por “Ceará”, que só disse saber que o pagamento ocorreu. A CPI mencionada pelo delator durou cinco meses e foi encerrada sem revelar dados relevantes. Em seu depoimento, o delator conta que o fim da comissão foi "muito comemorado" por Youssef e o ex-deputado José Janene, que teria dito: "A CPI terminou em pizza".

    Janene, morto em 2010, era filiado ao PP e é considerado pela Lava Jato como o organizador do esquema instalado na Petrobras, iniciado em 2004. Youssef já disse que mantinha uma conta corrente conjunta com o parlamentar, que inicialmente definia o destino do dinheiro desviado da estatal.

    'Parte de laboratório para Padilha'

     

    O delator afirmou que o ex-ministro da Saúde e atual secretário municipal  de São Paulo, Alexandre Padilha, ficaria com uma das quatro partes do laboratório Labogen, empresa de Alberto Youssef. A Labogen, segundo a Polícia Federal, era usada pelo doleiro para tentar fraudar contratos de vendas de medicamentos com o ministério. A parceria entre a pasta e o laboratório, no entanto, não avançou.

    Aos investigadores, "Ceará" disse ter ouvido essas informações de Youssef. Segundo o delator, os contatos entre a empresa e o ministério foram intermediados pelo ex-deputado petista André Vargas, condenado pela Lava Jato e preso desde abril de 2015. Padilha comandou o ministério entre 2011 e 2014.

    Em sua delação, Youssef disse ter se encontrado com Padilha, mas não mencionou a divisão relatada por "Ceará". A assessoria do ex-ministro chamou de "irresponsável" a tentativa de ligar o seu nome ao caso a partir de "conversas ouvidas de terceiros". A nota destaca a relação com o laboratório já ter sido investigada e que o ex-ministro sempre defendeu a apuração de irregularidades.

    Dinheiro para Renan, Collor e políticos do PP

    A relação de políticos citados por "Ceará" inclui também parlamentares do PP, PMDB e PTB. O PP era o partido de José Janene, principal vínculo de Youssef com o esquema na Petrobras. Entre as 68 pessoas alvos de inquérito no Supremo, Corte responsável por casos que envolvem políticos em exercício de mandato, 31 são ou já foram filiadas ao PP.

    Em sua delação, "Ceará" mencionou como beneficiários de propina, por exemplo, o ex-deputado João Pizzolatti (PP-SC) e o ex-ministro Mario Negromonte. Ambos negam as afirmações.

    Além de parlamentares do PP, o entregador mencionou o transporte de dinheiro endereçado ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), e ao senador Fernando Collor de Mello (PTB). Renan é alvo de inquérito no Supremo e Collor já foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Os dois, no entanto, negam terem recebido dinheiro ilegal.

    Apelido foi criado por Youssef

    O apelido “Ceará” foi criação de Alberto Youssef, pelo fato de Carlos Alexandre de Souza Rocha ter nascido no Nordeste. O delator é natural do Recife, no entanto. Aos investigadores, “Ceará” disse ter conhecido Youssef em 2000, quando morava em Foz do Iguaçu (PR) e trabalhava com compra e venda de dólares.

    Anos depois, “Ceará” disse a Youssef que queria ganhar mais e começou a transportar dinheiro em espécie. Em 2007, ele conheceu o então deputado José Janene.

    “Ceará” relata que a movimentação de dinheiro transportado aumentou “consideravelmente” entre 2008 e 2009, e que ganhava uma comissão sobre o valor levado.

    Youssef está preso desde 2014 e já foi condenado a 39 anos de prisão. “Ceará” foi denunciado em abril de 2014 pelo Ministério Público Federal por “crimes financeiros” pela atuação irregular no mercado de câmbio. O trânsito ilegal de valores supera R$ 5 milhões, segundo os procuradores. O processo está em andamento na Justiça Federal do Paraná, que concentra as ações da Lava Jato.

    Ao todo, 68 políticos são alvo de inquérito por suspeitas de ligação com a Lava Jato. São investigações que estão sob ordens do Supremo, em razão do foro privilegiado de parte dos envolvidos. Em Curitiba, o juiz Sérgio Moro, da primeira instância federal, comanda a frente da operação que investiga empresários e ex-diretores da Petrobras.

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