A popularidade de Dilma em meio à ameaça de impeachment

Reprovação à petista tem recuo sutil após presidente da Câmara aceitar pedido de afastamento, mas percentual continua alto

    Em segundo mandato, iniciado em janeiro de 2015, a presidente Dilma Rousseff lida com índices altos de reprovação. No mês de agosto a insatisfação popular atingiu o recorde um recorde: 71% dos brasileiros consideravam o governo “péssimo”. Antes de o ano acabar, esse índice teve um leve recuo.

    A questão econômica, associada aos escândalos em série revelados pela Operação Lava Jato, é central para entender a atual situação. Além de perder o apoio daqueles que sentem na pele os efeitos da atual recessão, a petista também viu sua base eleitoral se dissipar.

    Isso porque Dilma foi reeleita com um discurso de defesa dos gastos públicos. E tão logo a campanha acabou, impôs ao país uma série de cortes orçamentários e um aperto fiscal a fim de ajustar as contas, deixando até os tradicionais apoiadores do PT, que historicamente giram em torno de 20% a 25% dos eleitores, sem discurso.

    A aceitação do pedido de impeachment pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), em 2 de dezembro, pode ter ajudado a presidente a recuperar alguns apoiadores. Nos números mais recentes do instituto Datafolha é possível ver essa pequena mudança.

    A pesquisa foi feita entre os dias 16 e 17 de dezembro de 2015, pouco depois de manifestações pró e contra o impeachment realizadas em boa parte do país. Na capital paulista, o ato em defesa do mandato de Dilma atraiu público maior do que o protesto organizado por grupos anti-governo.

    Leve melhora

    Popularidade do governo Dilma, segundo Datafolha

    A leve melhora registrada pelo Datafolha ocorreu depois de um longo período de seis meses em que esses números permaneceram praticamente estacionados, oscilando sempre dentro da margem de erro. Esse cenário também fica visível nas pesquisas realizadas pelo Ibope.

    Antes, índices estacionados

     

    O mais recente levantamento do Ibope, feito a pedido da CNI (Confedereação Nacional das Indústrias), mostra que para 70% dos brasileiros a gestão da petista era "ruim ou péssima". Os 2.202 eleitores entrevistados foram ouvidos entre 4 e 7 de dezembro, ou seja, ainda poucos dias depois do início do trâmite do pedido de afastamento.

    Para o cientista político Carlos Melo, professor do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), a melhora para governo registrada pelo Datafolha (e não capatada pelo Ibope) é reflexo do desenrolar do debate político motivado pelo trâmite do impeachment na Câmara. “É natural que parte do eleitorado do PT volte para o campo da aprovação”, diz.

    Trata-se de um grupo que ainda está insatisfeito com o desempenho de Dilma, mas não é favorável ao afastamento dela do cargo. E nem às condições em que a aceitação do impeachment ocorreu.

    Cunha aceitou o pedido contra Dilma quando percebeu que não teria o apoio de petistas no processo de cassação do qual é alvo no Conselho de Ética da Câmara.

    Melo lembra da tradicional base histórica do PT, de 20% a 25% dos eleitores. “A polarização de um debate, que coloca o impeachment como uma possibilidade real, tende a unir essa base do PT”, avalia.

    Para ele, os índices de aprovação à Dilma também mostram a existência de “um efeito memória entre pessoas mais velhas, que viveram crises sociais e inflação” no passado.

    A pesquisa Datafolha de dezembro, que ouviu 2.810 pessoas em 172 cidades, identificou as maiores variações de opinião em um eleitorado mais velho, de pessoas de 60 anos ou mais. O percentual desse grupo que avalia o governo como “ótimo ou bom” passou de 13% em agosto, para 21% em dezembro.

    Vitor Marchetti, cientista político e professor da Universidade Federal do ABC, também cita o peso do eleitorado mais velho como um fator relevante para entender quem são os apoiadores de Dilma.

    “As gerações mais velhas têm identidade partidária mais forte se comparada aos mais jovens.” Isso faz com que uma parte do núcleo duro do petismo permaneça fiel.

    O que vem por aí

    Os números recentes de avaliação de Dilma foram recebidos com certo alívio por integrantes do Palácio do Planalto. Para o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva, é um sinal de que ainda há espaço para o governo dialogar com os eleitores e que, mesmo insatisfeitos, nem todos veem no afastamento a solução para a crise atual.

    Os índices atuais, entretanto, ainda não asseguram tranquilidade, já que 2016 tem pela frente temas complicados para Dilma:

    Temas que o governo enfrentará em 2016

    • Continuidade da análise do pedido de impeachment no Congresso
    • Expectativas ruins para economia, com previsões de índices negativos da atividade econômica e de alta do desemprego, o que pode influenciar a opinião do eleitorado
    • Desdobramentos da Operação Lava Jato, que apura desvios na Petrobras e tem entre os investigados políticos do PT e de pessoas próximas ao Planalto

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