Dicionário prático para não se perder quando o assunto é a vida nas cidades

O que é gentrificação? Por que se fala ocupação em vez de invasão? Entenda o jargão das discussões sobre políticas urbanas

     

    A melhoria da vida nas grandes cidades é um tema cada vez mais recorrente. A linguagem usada nesse debate, porém, pode causar confusão. Palavras como revitalização, requalificação e reabilitação têm significados muito específicos. O glossário abaixo ajuda a entender o que cada uma delas quer dizer e quando é adequado usá-las:

    Revitalização

    O termo ganhou força na década de 1980, nos EUA, utilizado para definir a recuperação de áreas centrais degradadas das metrópoles. O conceito pressupõe a injeção de vitalidade em uma região, com reformas que garantam a circulação de mais gente nas calçadas nos mais diversos horários e a qualificação do comércio local.

    Com o tempo, a expressão passou a ser criticada por especialistas por sugerir que as áreas degradadas não tinham “vida”, o que não é verdade. Outro problema é que a chegada das novas atividades muitas vezes ignorava o contexto preexistente no local. 

    Em São Paulo, a arquiteta Regina Meyer, professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, se opôs ao vocábulo ainda na década de 1990. “Revitalização é uma palavra que denota até um tremendo preconceito, porque hoje o centro é tão ou mais vital do que em outros momentos”, escreveu naquela época.

     

    Requalificação

    O termo passou a ser muito utilizado em projetos e discussões no lugar do contestado “revitalização”. O conceito também é importado, mais especificamente dos projetos que tomaram lugar em Barcelona na década de 1990 por ocasião dos Jogos Olímpicos na cidade.

    Quando apresentou a candidatura do Rio para sediar a Olimpíada de 2016, o então prefeito César Maia citou Barcelona como inspiração. A recuperação da Zona Portuária feita para os Jogos é um exemplo de requalificação.

    Ressignificação

    A palavra lida com uma dimensão mais simbólica e tem origem na neurolinguística. É usada para classificar a modificação de significado ou contexto. Aparece muito associada à incorporação de materiais novos em construções históricas, como no caso de intervenções artísticas em uma estátua ou prédio. Em 2009, por exemplo, o artista carioca Daniel Toledo enfaixou o busto do ex-presidente Getúlio Vargas, no centro do Rio, “ressignificando” o monumento, que de homenagem histórica se transformou em objeto de debates na cidade.

    O termo também é aplicado em situações em que um novo uso é dado para uma área ou equipamento urbano, como quando é descrito o que faz o skate e o parkour, esportes que se valem de escadarias, corrimões e plataformas existentes na cidade para sua prática.

    Reabilitação

    É o termo da moda hoje, popularizado por experiências portuguesas. O país europeu contou com diversos projetos que levaram esse nome nos últimos anos, entre eles trechos do cais de Lisboa.

    A reabilitação é uma espécie de intervenção que moderniza infraestruturas urbanas, como áreas verdes ou equipamentos, mas onde o “patrimônio urbanístico e imobiliário é mantido”.

    O setor imobiliário brasileiro já adotou o modelo. Em abril de 2015, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção promoveu em Brasília o evento Reabilitação e Renovação Urbana, em que foi defendido o respeito à “identidade dos locais onde se projeta a mudança”. No evento, foram mostrados casos de reabilitação de prédios antigos do centro de Belo Horizonte, como o edifício Tupis e o hotel Excelsior.

     

    Gentrificação

    Andar pela rua Augusta, em São Paulo, na área que ficou conhecida como o Baixo Augusta, revela uma sucessão de novos empreendimentos imobiliários. Nesse mesmo trecho, há alguns anos, o cenário era pontuado por casas de striptease, botecos, saunas e apartamentos com aluguel baixo. Esse processo de valorização imobiliária, no qual residências e comércio são substituídos por novos ocupantes de renda e preços mais altos, é chamado gentrificação.

    O termo vem do inglês “gentrification”, cunhado nos anos 1960 pela socióloga Ruth Glass para descrever mudanças no perfil de bairros da Zona Norte de Londres. Na língua inglesa, a palavra “gentry” é usada para designar “bem-nascidos”.

    Seja em português ou em inglês, gentrificação geralmente traz uma conotação pejorativa, de “faxina social”. Em janeiro de 2015, o governo regional de Paris agiu para barrar a gentrificação na cidade, listando 8.021 apartamentos em 257 endereços que teriam sua venda proibida e seriam transformados em moradias subsidiadas.

     

    Ocupação

    É usado por movimentos sociais para substituir “invasão”, que é um termo jurídico com complicações legais. Para os movimentos, suas iniciativas não são criminosas, e sim ações políticas legítimas, por isso a troca.

    A palavra “ocupação” se popularizou entre movimentos políticos urbanos recentes para expressar a tomada de um espaço como posicionamento contra algo, como no caso do “Occupy Wall Street”, nos EUA, e no movimento Ocupe Estelita, que faz campanha pela preservação do histórico cais do Recife. Mais antigos são os “okupas”, nome dado na Espanha aos seus “sem-teto” desde a década de 1980, ou seja, pessoas que tomam posse de edifícios vazios para fins de moradia.

    O arquiteto e urbanista Kazuo Nakano, do Instituto Pólis, contribuiu para o texto do Nexo.

     

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