Quais as divergências entre o governo Dilma e o PT na economia

Artigo do presidente do partido com pedidos de mudanças na política econômica reaquece bate e rebate entre a legenda e o Planalto, e mostra que o desencontro de visões seguirá em 2016

     

    O PT termina o ano deixando claro que também não vai facilitar o 2016 da presidente Dilma Rousseff. Além de lidar com as incertezas políticas resultantes do pedido de impeachment, Dilma estará diante de um cenário econômico ainda mais desfavorável. É justamente nessa área que o Partido dos Trabalhadores escancara suas insatisfações com o governo Dilma e cobra mudanças.

    O artigo escrito pelo presidente do PT, Rui Falcão, divulgado nessa segunda-feira (28), é a amostra mais recente de como há tensão entre os discursos do Palácio do Planalto e da legenda. O texto, que pede revisões em pontos centrais da política econômica, como a taxa de juros e o ajuste fiscal, vem a público mesmo após a saída de Joaquim Levy do Ministério da Fazenda, oficializada em 18 de dezembro. A troca do comando da pasta estava entre as principais cobranças do PT - endossadas também pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

    Mas as primeiras declarações de Dilma e do novo ministro, Nelson Barbosa, de que as medidas do antecessor continuam, foram o suficiente para o PT retomar as críticas à presidente e manter a postura de embate.

    “A mudança na equipe econômica não altera nossos objetivos de restabelecer o equilíbrio fiscal, reduzir a inflação, eliminar a incerteza e retomar o crescimento”

    Dilma Rousseff

    presidente da República, em 21 de dezembro, dia da posse de Nelson Barbosa

    “Sabemos da competência, habilidade e capacidade de diálogo dos novos ministros Nelson Barbosa e Valdir Simão. Confiamos em que eles deem conta da tarefa, mudando com responsabilidade e ousadia a política econômica”

    Rui Falcão

    presidente do PT, em artigo publicado em 28 de dezembro

    Para o partido, a política de Dilma é equivocada porque penaliza trabalhadores e os mais pobres. Esses são os segmentos que tradicionalmente têm apoiado os governos petistas.

    Estes são os temas que expõem as divergências entre governo e PT, motivos de um embate que durou o ano todo e foi reeditado com o artigo de Rui Falcão:

    Medidas do ajuste fiscal

    Desde o início do segundo mandato, a equipe econômica de Dilma defende propostas de cortes orçamentários como medida para equilibrar as contas do governo. O PT é contra o modelo adotado por entender que o ajuste inibe investimentos e afeta o crescimento do país.

     

    “Nós temos agora [...] de sustentar toda uma política contra a crise, nós temos de fazer uma escolha: ajustar o mais rápido possível a economia para voltarmos a crescer”

    Dilma - 11 de junho

    no congresso do PT

     

    “Não tem um país no mundo que tenha feito ajuste e melhorado a economia”

    Lula - 14 de outubro

    em discurso a trabalhadores, lideranças políticas e sindicais

     

     

    Alterações em benefícios trabalhistas

    Governo conseguiu aprovar no Congresso, em junho, Medida Provisória que impôs restrições ao acesso ao seguro-desemprego, ao abono salarial e ao seguro-defeso.

    “Por exemplo, seguro-desemprego, em que havia uma situação que era muito estranha no Brasil. Nós, com a menor taxa de desemprego da série histórica, tínhamos um nível de gasto com seguro-desemprego absolutamente fora de qualquer proporção. Então, a gente sabia que tinha de olhar aquilo porque foi crescente isso”

    Dilma - 14 de abril

    em entrevista coletiva

     

    “Foi um erro ter feito isso (a mudança no seguro-desemprego) por medida provisória. Devia ter chamado o movimento sindical e feito um acordo.”

    Lula - 12 de maio

    em evento fechado com jovens sindicalistas

     

    Política de aumento da taxa de juros

    Com aval do governo federal, o Banco Central fez aumentos sucessivos na taxa de juros desde 2013. Atualmente, a taxa está em 14,25%, a mais alta desde julho de 2006.

     

    “Na hora que esse risco [fiscal] é retirado, a economia relaxa, todo mundo quer ver a taxa de juros cair. Não há dúvida nenhuma: enquanto não acertar o fiscal, é muito difícil a taxa de juros cair”

    Joaquim Levy - 29 de setembro

    então ministro da Fazenda, em evento em São Paulo

     

    "O PT não acredita que é possível retomar o crescimento provocando recessão. Nem que se possa combater a inflação com juros escorchantes e desemprego de trabalhadores e máquinas"

    Rui Falcão - 11 de junho

    discurso de abertura do Congresso do PT

     

    Controle da inflação

    Atrelada à política de juros, o controle da inflação é ponto relevante na política econômica. Setores do PT defendem adoção de medidas imediatas para reduzir a alta dos preços, mas Dilma sinaliza que o processo deve ser gradual.

     

    “[...] A inflação já está indicando sinais de que aponta para uma queda. Redução da inflação em 2016, combinada com alguma recuperação do crescimento puxado pelas exportações [são fatores que podem levar ao crescimento]”

    Dilma - 10 de setembro

    em entrevista ao jornal "Valor Econômico"

     

     

    “A inflação, mesmo com o prolongado ciclo de altas de juros, permanece em trajetória de alta. [...] De fato, a estratégia atual para combater a inflação pressupõe a queda do emprego, da renda e dos salários.”

    Fundação Perseu Abramo - 29 de setembro

    trecho de documento divulgado pelo centro de pesquisa e formulação política do PT

     

    No artigo publicado nessa segunda, Rui Falcão relembra todos esses pontos. Mas além de um recado ao governo Dilma, o texto é ainda um aceno aos movimentos sociais que participaram do protesto de 16 de dezembro, contra o impeachment da presidente. "Nas propostas da Fundação Perseu Abramo e entidades parceiras, nos projetos da nossa Bancada, da Frente Brasil Popular, da CUT, do MST, entre outras, há subsídios à vontade para serem analisados e adotados", escreveu Rui Falcão.

    São grupos que manifestaram apoio à permanência de Dilma, porém, ao mesmo tempo, cobraram a revisão da política econômica e criticaram o ajuste fiscal. No dia 16, líderes sindicais fizeram questão de dizer que a presidente precisa mudar se quiser contar com o apoio dos grupos, que se distanciaram da petista nos últimos dois anos.

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