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2015, o ano em que os direitos das mulheres avançaram (mas não há só o que comemorar)

Da abolição da mutilação feminina na Nigéria ao #meuprimeiroassédio no Brasil, relembre os fatos que marcaram o ano

     

    Em 2015 mulheres continuaram ganhando menos que os homens, o feminicídio ainda é uma ameaça real e o mundo ainda tem grandes desafios para promover, de forma consistente, direitos iguais para homens e mulheres.

    No entanto, neste ano também houve avanços significativos em políticas, campanhas e manifestações que evidenciaram a questão de gênero no Brasil e no mundo, segundo a linha do tempo publicada pela Organização das Nações Unidas.

    Foi em 2015, por exemplo, que a Nigéria aboliu a mutilação genital feminina, que a diferença salarial entre mulheres e homens em Hollywood foi exposta e que o Nepal elegeu sua primeira presidente mulher. No Brasil, a campanha #meuprimeiroassédio e a tomada das ruas nas manifestações que ficaram conhecidas como “Primavera Feminista” trouxeram à tona questões até então restritas aos círculos feministas, e ajudaram a ampliar a discussão sobre o tema.

    Relembre os fatos que marcaram o ano

    A briga por igualdade nos salários em Hollywood

     

    O grande tema do Oscar 2014 foi o discurso de Patricia Arquette sobre igualdade de gêneros em Hollywood. Em fevereiro de 2015, o vazamento de e-mails de executivos da Sony revelou sexismo na cúpula da indústria do entretenimento. Em outubro, a atriz Jenniffer Lawrence, a mais bem paga do mundo, publicou um artigo no blog da atriz Lena Dunham reclamando sobre seu salário - e com motivo. Enquanto ela recebeu US$ 54 milhões, o ator mais bem pago do mundo, Robert Downey Jr., teve um salário de US$ 80 milhões. Em geral, em Hollywood, as mulheres ganham praticamente metade do valor pago aos homens.

    Alemanha estabelece cota para executivas mulheres

    Seguindo o exemplo de outros países europeus, a Alemanha aprovou em março uma lei que garante cota de 30% nos conselhos de administração para mulheres. A ideia é corrigir a desigualdade e a falta de mulheres nos cargos de comando. A medida foi direcionada para as grandes empresas, que têm mais de 2 mil funcionários, mas as médias também devem estabelecer suas cotas específicas. A decisão seguiu o exemplo da Noruega, que adota a reserva de cadeiras desde 2003. Holanda, Itália, França e Espanha também têm políticas parecidas.

    Países latino-americanos iniciam combate ao feminicídio

     

    Todos os anos, 60 mil mulheres são assassinadas no mundo. E a América Latina tem as mais altas taxas de feminicídio. O país mais violento do mundo para as mulheres é El Salvador, com uma taxa de 14 assassinatos para cada 100 mil mulheres. O Brasil tem uma taxa considerada alta: 4,8 a cada 100 mil. Em março, o país foi pioneiro ao adotar o Modelo de Protocolo Latino-Americano de Investigação de Mortes Violentas de Mulheres por Razões de Gênero, criado pela ONU. No dia 9, a presidente Dilma Rousseff sancionou a Lei do Feminicídio, que torna hediondos os assassinatos de mulheres decorrente de violência doméstica ou de discriminação de gênero.

    Nigéria acaba com a mutilação genital feminina

    Em maio, o então presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, assinou uma lei que transformou a mutilação genital feminina em crime. Segundo a Organização das Nações Unidas, uma em cada quatro mulheres nigerianas foram submetidas à prática. Apesar do avanço, a ONU reconhece que é dificil acabar com a mutilação porque ela é enraizada culturalmente no continente africano. Estima-se que pelo menos 133 milhões de mulheres e meninas tenham sido mutiladas na África e no Oriente Médio, onde a prática é mais comum.

    Malawi acaba com o casamento entre crianças

    O Malawi, no noroeste da África, é um dos países com as maiores taxas de casamento de crianças no mundo: metade das meninas se casa antes de completar 18 anos. Em abril, o país elevou a idade mínima para casamentos para 18 anos. No mês seguinte, o governo colocou fim em 335 casamentos entre crianças e adolescentes.

    Malala abre escola para meninas sírias refugiadas

     

    Em julho, a ativista e ganhadora do Nobel da Paz Malala Yousafzai comemorou o seu aniversário de 18 anos inaugurando uma escola para meninas sírias refugiadas no Líbano. Estima-se que o país tenha 4,4 milhões de refugiados sírios - 500 mil são crianças em idade escolar, mas apenas uma em cada cinco tem acesso à educação. A escola de Malala oferecerá ensino secundário para até 200 meninas entre 14 e 18 anos.

    Países revisam suas metas para proteger os direitos das mulheres

    A igualdade de gêneros foi incluída pela ONU na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável em setembro. No mesmo mês, por ocasião do aniversário de 20 anos da Declaração de Pequim, acordo que definiu metas para alcançar a igualdade e eliminar a discriminação no mundo, 167 países revisaram seus objetivos e traçaram novos padrões de atuação para proteção dos direitos das mulheres.

    Nepal elege sua primeira presidente mulher (e outros países também)

    Em outubro, o Nepal elegeu sua primeira presidente: Bidhya Devi Bhandari, líder feminista e comunista. Bidhya havia sido ministra da Defesa do país e foi fundamental para a inclusão dos direitos das mulheres na Constituição nepalesa, aprovada em 2013. Croácia e Ilhas Maurício também elegeram suas primeiras mulheres na presidência. Segundo a ONU, o ano de 2015 termina com o maior número de mulheres em cargos de comando na política na história: são 15 chefes de Estado e 12 chefes de governos em todo o mundo.

    Na Tunísia, mulheres foram liberadas a viajar sem autorização

    Até 2015, as mulheres tunisianas não podiam viajar com os filhos sem terem autorização do pai das crianças. Em novembro, isso mudou: o parlamento aprovou uma lei que muda a regra e garante que tanto o pai quanto a mãe possam viajar com as crianças.

    Canadá tem gabinete igualitário entre homens e mulheres

     

    Assim que tomou posse como primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, líder do Partido Liberal e feminista declarado, nomeou seu conselho de ministros e ministras - e fez questão que houvesse número igual entre homens e mulheres. Durante a posse, ele foi questionado do por quê promover a equidade de gêneros na nomeação. A resposta foi simples: “porque é 2015”.

    Hashtags escancaram casos de abuso no Brasil

    Em outubro, manifestações de pedofilia nas redes sociais relacionadas a uma participante do programa Junior Masterchef, na TV Bandeirantes, motivaram uma onda de tweets revelando casos sobre assédios sofridos por mulheres ainda na infância e início da adolescência. Segundo a ONG feminista Think Olga, que organizou a campanha, foram 82 mil tweets com relatos organizados com a hashtag #meuprimeiroassédio- a idade média dos primeiros assédios, segundo eles, é de 9,7 anos. No mês seguinte, a hashtag #meuamigosecreto incentivou mulheres a relatarem casos de abuso. Neste caso, principalmente de familiares, amigos e pessoas íntimas. Outra hashtag, #agoraéquesãoelas, estimulou que homens jornalistas e colunistas cedessem seu espaço para a participação das mulheres em grandes veículos de comunicação.

    ‘Primavera Feminista’ leva milhares de mulheres às ruas

     

    No final de outubro, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei 5069, de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que dificulta o acesso ao aborto legal no país. O projeto penaliza qualquer pessoa que oriente a mulher sobre as possibilidades legais de aborto e exige que a mulher estuprada passe por um exame de corpo de delito para comprovar “danos físicos e psicológicos”. Vários protestos tomaram as ruas de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife entre o final de outubro e o início de novembro. Somados aos protestos que já aconteciam na internet, o movimento ficou conhecido como “Primavera feminista”.

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