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Por que o modelo de streaming ainda sofre resistência dos músicos

As pessoas voltaram a pagar por música na internet. Mas parte dos artistas está insatisfeita. Aqui está o debate a respeito do serviço

     

    Se você é assinante de algum serviço de streaming, nesta véspera de Natal poderá fugir de Simone e colocar Beatles para tocar na festa da família. Isso porque a partir do dia 24 de dezembro a discografia do Fab Four finalmente estará disponível em redes como Spotify, Deezer, Apple Music e Google Play.

    A demanda pelos discos dos garotos de Liverpool em serviços de streaming era grande. O perfil dos Beatles no Spotify, por exemplo, tem mais de 1 milhão de seguidores — mesmo contando com apenas uma única música deles ("Ain't she sweet").

    A demora também não é uma surpresa: foram cinco anos de negociações (entre 2005 e 2010) para que as canções dos Beatles fossem disponibilizadas para baixar no iTunes. Quando isso aconteceu, foram vendidos 450 mil discos do quarteto em apenas uma semana.

    Os termos da negociação entre os detentores dos direitos musicais dos Beatles e as empresas de streaming não foram divulgados. No entanto, é interessante ver uma das maiores bandas da música pop aderindo a tais plataformas enquanto artistas de sucesso em 2015, como Adele e Taylor Swift, as boicotam.

    Para entender por que os serviços de streaming ainda levantam discussões, é necessário saber qual o contexto que eles estão inseridos e como funcionam seus modelos de pagamento. Veja abaixo:

    Por que o modelo do streaming é polêmico

     

    A pirataria na internet foi por muitos anos o principal problema na relação entre artistas, gravadoras e público. Hoje, porém, as atenções estão voltadas para um modelo de negócios que por um lado deu certo – convenceu as pessoas a voltarem a pagar por música –, mas, por outro, ainda é alvo de reclamação de artistas: o streaming.

    Streaming é a transmissão de conteúdo online, sem que a música ou o filme seja baixado no computador ou celular. O Netflix faz isso em vídeos. Na área de música, há vários serviços, como Spotify, Deezer, Apple Music e Google Music.

    O modelo é popular: o Spotify, por exemplo, tem 75 milhões de usuários (20 milhões são assinantes que pagam uma quantia mensal para ter acesso ao catálogo). Do lado dos artistas, alguns reclamam que o streaming desvaloriza a arte, enquanto outros alegam que as plataformas não oferecem lucro o suficiente.

    Em 2014, a cantora Taylor Swift retirou suas músicas do catálogo do Spotify e incentivou outros artistas a fazerem o mesmo. Ela criticou o modelo freemium em que tais serviços apostam. Nele, o usuário pode pagar pela assinatura ou não. Se não pagar, poderá ouvir músicas gratuitamente, mas com inserções publicitárias. Para Taylor, quando a pessoa não paga nada pela música, ela desvaloriza a arte.

    Em outros casos, a reclamação é direcionada à remuneração, que alguns artistas consideram baixa. Evandro Fióti, empresário do rapper Emicida, diz que o modelo “sufoca” os músicos por não oferecer lucro o suficiente. Paula Lavigne, empresária de Caetano Veloso e presidente da Associação Procure Saber, também entrou na discussão: para ela, é preciso rever o modelo.

    Seus ‘plays’ não remuneram diretamente os artistas

    O Spotify fica com 30% de sua receita líquida e repassa os outros 70% aos detentores dos direitos autorais e fonográficos da música. O dinheiro, então, é dividido de forma uniforme. A conta é esta:

    Como é calculado o pagamento dos artistas

     

    Esse modelo é chamado de “Big Pool”.

    O valor que cada músico recebe pela obra depende de uma série de variáveis, como a receita geral, o quanto as pessoas usaram a plataforma e o tamanho do público que cada um alcançou.

    O problema é que empresas não abrem todos esses números ao público. Segundo o Spotify, até o final de 2014 eles haviam repassado US$ 2 bilhões aos detentores dos direitos fonográficos.

    Para o músico e empresário Carlos Taran, é como se você fizesse um show em uma casa de espetáculos em troca de uma porcentagem da bilheteria, mas não soubesse qual foi a arrecadação da casa. “Sem a informação completa, você nunca poderá checar se 5 ou 50 mil pessoas pagaram para te assistir.”

    Segundo o Spotify, um artista recebe de R$ 0,021 a R$ 0,0294 cada vez que alguém ouve sua música. Isso significa que, para uma banda ganhar R$ 10 mil ao mês, ela precisa que suas canções sejam reproduzidas entre 340 mil e 470 mil vezes. Se um disco tiver dez músicas, ele precisa de 34 mil a 47 mil plays. E isso, é claro, sem contar os intermediários, como a gravadora e distribuidora.

    Quem está ganhando dinheiro com o streaming

    Uma pesquisa na França analisou a relação das gravadoras com dois serviços de streaming: Spotify e Deezer. A maior parte da renda bruta fica com as gravadoras, não com as plataformas nem com os intérpretes e compositores.

    Como é dividida a receita dos serviços de streaming

     

     

     

    Se considerarmos só o dinheiro que a plataforma passa aos detentores dos direitos fonográficos, a proporção fica ainda mais clara:

    Como é dividida a receita entre gravadoras, compositores e artistas

    Quando desconsideramos os impostos, a divisão fica da seguinte forma:

     

     

     

    Como é dividido o lucro dos serviços de streaming

    No entanto, quando se analisa o lucro, quem fica com a maior parte são os artistas:

     

    Quais são as formas alternativas de remuneração no streaming

    Em agosto de 2015, Kim Dotcom, o controverso fundador do site de compartilhamento de arquivos Megaupload, lançou o Baboom, que promete repassar 90% do valor arrecadado direto aos artistas.

    Há alguns meses, outro serviço, o Tidal, encabeçado por grandes músicos como Jay-Z e Beyoncé, também chegava ao mercado com a mesma promessa. Até hoje, nenhum desses modelos pegou.

    Um artigo na Cuepoint propõe outro modelo, conhecido como “Subscriber Share”. Enquanto no esquema tradicional todos os plays valem a mesma coisa, nesse esquema ele varia de acordo com cada ouvinte.

    No Subscriber Share, Se você é um assinante e ouve apenas quatro bandas, seu dinheiro é utilizado para remunerar somente os grupos que você ouviu. No Big Pool não: seu play vale tanto quanto o da pessoa que ouviu 85 bandas, e se seu artista preferido não for popular, ele ganhará bem menos. Na prática, o Subscriber Share seria uma oportunidade para o fãs de um artista pequeno, que não ouvem muitos outros artistas, valorizarem mais seu play. 

     

    A Deezer, por exemplo, diz que tem estudado o modelo, mas não vê diferenças significativas.

    “Os exercícios de estudo que já foram feitos dão conta de uma diferença mínima em 99% dos casos”

    Henrique Fares Leite

    gerente da Deezer de relações com a indústria musical para a América Latina

    Segundo ele, por enquanto, essa diferença pequena não justificaria o aumento de custos. “A quantidade de dados a ser gerada no “subscriber share” é infinitamente maior do que no modelo atual, o que pode gerar mais custos e entraves para ambos os lados”, comenta.

    Se esse modelo é justo? Leite diz que “justo é uma palavra que deve levar em conta pelo menos dois lados: artista e consumidor. Nem sempre os dois lados chegarão a um consenso sobre justiça. Esse modelo adotado pelo mercado atualmente nos parece, por ora, a melhor solução para a pirataria”. Para ele, conforme mais pessoas se transformarem em assinantes do streaming, “o repasse continuará a aumentar de maneira expressiva, melhorando ainda mais a percepção dos artistas em relação ao que é justo”. 

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