Contexto do ato anti-impeachment: defesa de Dilma, sem ‘cheque em branco’

Protesto em São Paulo é maior do que os anteriores, segundo contagem de instituto de pesquisa. Gritos de ‘Não vai ter golpe’ se misturam com ‘Fora Cunha’ e ‘Fora Levy’

     

    A cada grito de “Não vai ter golpe”, movimentos sociais e manifestantes entoavam em sequência o “Fora Cunha”, o “Fora Levy” e o “não ao ajuste fiscal”. O ato em apoio ao mandato da presidente Dilma Rousseff realizado em São Paulo nesta quarta-feira (16) reuniu milhares na Avenida Paulista, mas o recado dos organizadores foi claro: “Não damos cheque em branco”.

    A fala foi do presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Vagner Freitas, um dos líderes de ao menos 11 movimentos que subiram no carro de som usado no protesto realizado na capital.

    Eram em sua maioria grupos sindicais, de trabalhadores rurais, estudantes e sem teto, quem tradicionalmente apoia governos petistas. No ato, porém, eles incluíram o pedido pelo fim do ajuste fiscal, reivindicação que tem unido o discurso dos movimentos contra o governo desde o início do ano. Partidos de esquerda também participaram do protesto, entre eles PT, PC do B e PSOL.

    Segundo Datafolha, público cresceu

    Foi o primeiro ato em apoio à Dilma após o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), aceitar o pedido de impeachment, em 2 de dezembro. O protesto também cobrou a saída do peemedebista do cargo, denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro na Lava Jato. Houve registros de protestos em 25 Estados e no Distrito Federal.

    Em São Paulo, a Polícia Militar estimou, na noite de quarta, em 3 mil pessoas. Nesta quinta (17), no entanto, a Secretaria de Segurança Pública corrigiu o número para 50 mil. Em nota, a diferença foi atribuída pelo órgão a um "problema de comunicação na PM". O Datafolha, que usa metodologia de cálculo diferente, contou 55 mil pessoas. Pelos dados do instituto, o público desta quarta superou o dos dois primeiros atos favoráveis à Dilma, em março e agosto.

    No domingo (13), movimentos contrários à petista também organizaram manifestações em todo o país. Na capital paulista, o ato reuniu 30 mil pessoas, segundo a PM - o Datafolha calculou 40,3 mil. Foi o menor público na comparação com os protestos pró-impeachment realizados em março, abril e agosto.

    O que disseram os líderes de movimentos

    “Não damos cheque em branco. Não vai ter golpe, mas queremos a Dilma que elegemos”

    Vagner Freitas

    Presidente da CUT

    “Precisamos colocar pá de cal no impeachment (...) [Mas queremos] que Dilma nos escute. Não somos idiotas para ser chamados todo dia para rua. É a nossa pauta na ordem do dia”

    Gilmar Mauro

    Coordenador nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra)

    “Ser contra o impeachment, não é apoiar o governo Dilma. Queremos outro modelo econômico”

    Edson Carneiro Índio

    Secretário-geral da Intersindical

    ‘Fora Cunha’ embala o ‘Fora Levy’

    O mesmo grito dedicado ao pedido de afastamento de Cunha da presidência da Câmara serviu para embalar o pedido de saída do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Depois do “Não vai ter golpe”, o fim do ajuste fiscal era o segundo item da pauta dos movimentos no ato desta quarta. O terceiro era a saída de Cunha.

    “Fora Cunha, fora já daqui…o Eduardo Cunha junto com Levy”, gritavam os organizadores do ato no carro de som. “Queremos que acabe a política de ajuste fiscal. Levy já deu o que tinha que dar”, afirmou Vagner Freitas.

    Desde o início do ano, esses movimentos manifestam seu o descontentamento com a política econômica. Para eles, os cortes propostos pelo ajuste fiscal prejudicam os mais pobres e os trabalhadores.

    “A presidente Dilma precisa entender que quem está aqui nas ruas não é banqueiro. A saída para a crise política não é com este ajuste fiscal”

    Guilherme Boulos

    Coordenador nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto)

     

    Reivindicação reflete distanciamento

    O distanciamento entre o governo federal e os movimentos sociais preocupa setores do PT, principalmente no momento em que a gestão Dilma registra índices recordes de rejeição - 70% consideram o governo ruim ou péssimo, de acordo com pesquisa CNI/Ibope divulgada nessa terça-feira (15). O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem feito encontros regulares com esses grupos no decorrer do ano na tentativa de resgatar esse apoio.

    Os movimentos prometeram levar pessoalmente à presidente o recado apresentado às ruas nesta quarta.

    Para o prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), que acompanhou o ato, as cobranças feitas pelos grupos não diminuem o apoio à Dilma. “As manifestações ajudam a Dilma a enfrentar as contradições do governo, isso é democrático.”

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