A escalada do discurso violento de Trump, o candidato americano que 'não precisa de dinheiro'

Insultos, grosserias e simplificações inundam a campanha eleitoral divisionista do principal nome republicano à Casa Branca

     

    Poucos políticos podem dizer exatamente o que pensam. Donald Trump certamente é um deles. E isso tem sido um problema até para o seu partido republicano. O milionário americano é dono de uma fortuna tão grande - US$ 4,5 bilhões, segundo a "Forbes" - que nenhum financiador de campanha lhe impõe travas na hora de falar. O resultado tem sido uma enxurrada de declarações sexistas, racistas e xenófobas sem paralelo na história eleitoral dos EUA.

    “Vocês sabe de uma coisa bacana a meu respeito? Eu não preciso do dinheiro de ninguém”, disse Trump num comício em Iowa, no mês de agosto.

    O jornal americano “The New York Times” analisou todos os discursos de comício, palestras e entrevistas dadas por Trump durante todo o mês de outubro e a primeira semana de novembro de 2015, resultando num acervo de 95 mil palavras que revelam um padrão responsável por “construir um dos movimentos políticos mais surpreendentes em décadas”.

    Agressividade e simplificação

     

    Trump recorre à “repetição constante de frases divisionistas, palavras duras e imaginário violento raramente usados por presidentes americanos”, diz o NYT. Ele “ataca pessoas, não ideias”. No material levantado pelos jornalistas Patrick Healy e Maggie Haberman, Trump chama os adversários de estúpidos (30 vezes), horríveis (14 vezes) e fracos (13 vezes).

    O republicano também recorre à retórica do “nós” e “eles”, segundo a qual “nós” somos vencedores e “eles” são perdedores pusilânimes.

    A condição de franco-atirador assusta até mesmo alguns membros do partido. Um de seus colegas republicanos, Rick Perry, ex-governador do Texas, chegou a chamá-lo de “câncer conservador”.

    Além dos discursos ao vivo, o candidato também é um usuário frequente do Twitter, onde publica em média mais de 12 mensagens por dia para um público fiel acima de 5 milhões de seguidores. Em agosto de 2015, ele atacou seus críticos dizendo: “(Há) muitos idiotas politicamente corretos em nosso país. Temos todos de voltar ao trabalho e parar de perder tempo e energia com nonsense”.

    Inúmeros sites e jornais americanos se dedicam a selecionar as melhores (ou piores) frases de Trump, que lidera a maioria das pesquisas de intenção de voto nas prévias republicanas até agora. Aqui vão oito delas, capazes de revelar as simplificações esquemáticas e o maniqueismo que fazem sucesso na campanha, marcada para terminar em 8 de novembro de 2016, dia da eleição:

    "Quando o México manda seu povo (aos EUA), manda pessoas que têm um monte de problemas e trazem estes problemas para nós. Eles trazem as drogas, trazem o crime, são estupradores. E alguns deles, eu confesso, são boas pessoas"

    Em 16 de junho

    "Eu vou construir um grande muro - e, acredite, ninguém constrói muros melhor do que eu - e vou fazer isso de um jeito muito barato. Eu vou construir uma grande muralha em nossa fronteira sul, e vou fazer o México pagar por isso. Anote essas palavras"

    Em 23 de setembro

    "Só estou interessado na Líbia se nós ficarmos com o petróleo. Senão, não tenho interesse"

    Em 16 de junho

    "Se as pessoas que foram mortas em Paris tivessem armas, pelo menos eles teriam uma chance de lutar. Não é interessante que essa tragédia tenha ocorrido em um dos países com uma das leis de armas mais duras do mundo? Lembrem-se: onde ter armas é um delito, só os delinquentes as possuem"

    Em 16 de junho

    "Faça com que os pacientes com Ebola parem de entrar nos EUA. Trate-os, do melhor jeito possível, por lá. Os EUA têm problemas suficientes"

    Em 1º de agosto

    "Eu disse para Hillary Clinton 'esteja em meu casamento' e ela foi. Ela não tinha escolha, porque eu doei para sua fundação"

    Em 6 de agosto

    "Nós estamos perdendo muitas pessoas por causa da internet (recrutadas pelo Estado Islâmico) e temos que fazer algo. Precisamos procurar Bill Gates e muitas pessoas diferentes que realmente entendam o que está acontecendo. Nós precisamos dizer a eles, talvez em determinadas áreas, fechar aquela internet de alguma forma"

    Em 7 de dezembro

    "Donald Trump pede a suspensão total e completa da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos até que os legisladores do nosso país compreendam o que está ocorrendo"

    Comunicado de sua equipe de campanha, em 8 de dezembro

     

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