Como um jogo ajuda a valorizar a cultura de indígenas do Alasca

'Never Alone' foi desenvolvido especialmente para promover valores, tradição e mitologia de povo Iñupiat

     

    Há milhares de anos os Iñupiat, povo nativo do Alasca, transmitem sua cultura por meio oral. É desse modo que as leis, os valores, costumes e o conhecimento geral da população são passados de geração em geração. No entanto, dinâmicas culturais variadas, a globalização e a tecnologia colocaram em xeque valores fundamentais da cultura Iñupiat.

    Antropólogos passaram a pensar em formas de valorizar aspectos culturais relevantes para a população, bem como em novas maneiras de transmiti-los através das gerações. A solução não foi um livro ou um documentário, mas um game, criado em parceria com o próprio povo indígena.

    “Never Alone” (“Kisima Ingitchuna”, no original), jogo que identifica e valoriza as tradições Iñupiat, foi lançado em 2014. A iniciativa veio da Cook Inlet Tribal Council, uma ONG que trabalha para nativos do Alasca, junto com a E-Line Media, empresa de games educativos. Da parceria, nasceu a Upper One Games, primeira desenvolvedora de jogos nos EUA controlada por indígenas.

    Elaboração do game ocorreu via ‘desenvolvimento inclusivo’

     

    Um dos riscos antecipados pelos criadores era o de incorrer em estereótipos. Por isso, apostaram num modelo batizado como "desenvolvimento inclusivo", convidando mais de 40 nativos, de diferentes idades, para colaborar com a criação.

    O game reconta a história de Kunuuksaayuka, uma antiga lenda criada por Robert Cleveland, um dos principais contadores da tribo. Para os Iñupiat, um conto pertence à família de seu criador. Por isso, a Upper One chamou Minnie Gray, filha de Cleveland, para ser a principal consultora dos desenvolvedores.

    No game, é necessário que um ajude o outro o tempo todo

    A narrativa é centrada em Nuna, garota que sai de casa para tentar dar fim à estranha nevasca que estava acabando com sua tribo. Na jornada, tem a ajuda de uma raposa. Esses elementos não estão ali por acaso: o jogo todo é centrado na colaboração, conceito central na cultura Iñupiat. O game, aliás, foi pensado para ser jogado a dois. É necessário que um ajude o outro o tempo todo.

    A raposa, que também é um espírito da natureza, mostra como a população se relaciona com os animais. A "força do clima", que os Iñupiat chamam de Sila, se traduz em diversas mecânicas de jogo. Para avançar nas fases, é necessário dialogar com o meio ambiente o tempo todo.

    Conforme o jogador avança e encontra trechos secretos nas fases, são desbloqueados vídeos que contam a história da tribo.

    Jogo vai além de um game educativo

     

    “Never Alone” foi muito elogiado pela crítica e venceu diversos prêmios, como o BAFTA (British Academy Games Awards), Games for Change e PAX (Penny Arcade Expo), reconhecidos na indústria. A empresa não revela quanto ganhou, mas garante que já retornou “múltiplas vezes” o investimento. Na Steam, principal loja virtual de games, o título tem nota 9 (de 10).

    A recepção da crítica e do público incentivou a desenvolvedora a pensar em uma nova categoria, chamada “world games”, que visa justamente apresentar povos e culturas para o resto do mundo. Faz sentido: videogames e mitos têm funções semelhantes: nos fazer viver novas experiências.

    Assista ao trailer do game:

     

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