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Tragédia no rio Doce: qual o impacto do mar de lama no meio ambiente

Cálculos sobre as consequências ainda não estão concluídos, mas parcela considerável do ecossistema se foi; leito do rio foi pavimentado pelos rejeitos de minério de ferro

    Além de ter matado ao menos 13 pessoas - ainda há 10 desaparecidas - e ter destruído o distrito de Bento Rodrigues, na cidade mineira de Mariana, a lama que se espalhou pelo rio Doce após o rompimento de uma barragem de mineração no dia 5 de novembro causou danos graves ao meio ambiente.

    Foram despejados 62 milhões de metros cúbicos da lama de rejeitos de minério de ferro na natureza. A empresa responsável pela exploração dos minérios no local e pela barragem que se rompeu é a Samarco (da qual são sócias as multinacionais Vale e BHP).

    Na quarta-feira (25), dois especialistas da ONU criticaram a postura do governo brasileiro e das empresas envolvidas na tragédia.

    “Não é aceitável que tenha demorado três semanas para que informações sobre os riscos tóxicos da catástrofe da mina tenham vindo à tona.”

    John Knox e Barkut Tuncak

    Relatores das Nações Unidas para Direitos Humanos, Meio Ambiente e Resíduos Perigosos

    Ainda é cedo para saber quais são os danos definitivos. Serão necessários estudos para conhecer a composição e toxicidade da lama, pesquisas para verificar as populações de animais e plantas prejudicadas e análises para entender o impacto dos rejeitos no subsolo. Produzir tais diagnósticos não é um processo rápido.

    De acordo com Everton de Oliveira, geólogo e doutor em hidrologia e contaminação pela Universidade de Waterloo, no Canadá, um estudo para identificar a contaminação da lama nos lençóis freáticos demora, no mínimo, dois meses. E a avaliação é essencial para determinar qual técnica poderá ser usada para minimizar a contaminação e tratar a água.

    O governo federal já anunciou um plano de recuperação ambiental. No entanto, não deu detalhes. A presidente Dilma Rousseff falou em revitalizar as nascentes e “olhar para as matas ciliares”. A ideia é que a Samarco arque com parte dos gastos. A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, diz que a reabilitação pode levar uma década, mas promete que recuperará integralmente a bacia do rio Doce. Segundo ela, há a possibilidade de que o Rio volte até em condições melhores do que a original. Entretanto, especialistas ouvidos pelo Nexo dizem que alguns danos podem ser irreversíveis - ou muito difíceis de serem recuperados.

    O Rio Doce provavelmente não será mais o mesmo

    O rio era responsável por abastecer a água da região, que tem 228 cidades e mais de quatro milhões de habitantes, além de sustentar populações ribeirinhas, com atividades como a pesca. A associação de pescadores de Regência, distrito onde o mar capixaba se encontra com o rio, acredita que a foz do rio só voltará a ser propícia para a pesca em dez anos.

    Segundo os especialistas da ONU, o dano ambiental é equivalente a 20 mil piscinas olímpicas de resíduos de lama tóxica que contamina o rolo, rios e o sistema de águas em uma área de mais de 850 quilômetros. Segundo eles, o rio Doce “agora é considerado morto por cientistas”.

    Embora o relatório mencione substâncias tóxicas, não está claro, ainda, o nível de contaminação da água. Um laudo do Serviço Autônomo de Água e Esgoto do Baixo Guandu, no Espírito Santo, detectou a presença de metais pesados como arsênio e chumbo em níveis que estão milhares de vezes acima do recomendado.

    Mas o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), órgão responsável pela fiscalização de barragens de rejeitos, diz que a lama é pouco tóxica. Um outro relatório, do Ibama e da Agência Nacional de Águas, não detectou a presença de componentes tóxicos ou de metais pesados na água, e permitiu o restabelecimento do abastecimento das cidades. Um laudo decisivo, da equipe técnica do Ministério Público, deve ser emitido no começo de dezembro.

    Se realmente houver presença de metais pesados, os lençóis freáticos ficam contaminados. “Eles têm persistência no meio ambiente e entram na cadeia alimentar”, diz Marcelo Quintiere, engenheiro agrônomo e especialista em auditoria ambiental. Além disso, as águas subterrâneas param de ser oxigenadas e "os metais do solo se dissolvem com mais facilidade", explica Oliveira.

    Grande parte do ecossistema local foi perdida

    Na avaliação de Marcus Vinícius Polignano, professor do departamento de saúde coletiva da Universidade Federal de Minas Gerais, ao menos 70% do ecossistema local foram perdidos. "A lama pavimentou o rio e suas margens, ocupou todo o espaço natural que existia, acabou com o local onde peixes viviam e se reproduziam", avalia.

    Os peixes que sobreviveram foram para os 16 afluentes do rio, que estão funcionando como reservatórios. No momento, pesquisadores avaliam como poderão perpetuar as espécies. "Você não pode simplesmente pegar os peixes e jogar nos rios. É necessário pensar como será a nova cadeia alimentar, o novo habitat deles", diz Polignano.

    Em algumas partes a fauna aquática foi completamente exterminada. Como a região tem muitos animais endêmicos, ou seja, que só aparecem ali, há chance de espécies serem extintas. A informação é de Rominy Stefani, doutora em biologia, Viviane Schuch, doutora em microbiologia e Renato Gaban, doutor em zoologia, que fazem parte do Grupo de Apoio Independente para a Análise de Impacto Ambiental, que se organizou de forma independente para investigar o impacto da tragédia.A vida no mar capixaba também deverá ser afetada por anos. Em entrevista ao G1, Luciano Evaristo, presidente substituto do Ibama, alerta que a lama poderá causar morte de peixes e afetar ninhos de tartarugas. Mas não há ainda a dimensão exata do impacto nas espécies locais. Peixes e aves marinhas estão sendo encontrados mortos na praia de Regência (ES). O Ministério do Meio Ambiente diz que irá monitorar o despejo da lama no oceano pelos próximos 120 dias. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ) estimaram que a lama mais grossa impactaria uma área de 9 quilômetros do litorial, mas a Secretaria do Meio Ambiente do Espírito Santo diz que os rejeitos já avançaram por mais de 40 quilômetros. Há o temor de que a contaminação se espalhe até o Arquipélago de Abrolhos, na Bahia. No entanto, a ministra Izabella Teixeira garante que isso não acontecerá.

    Leito do rio pode se tornar estéril

    A lama de resíduos que pavimentou o leito do rio é pobre em material orgânico. É como se ela cimentasse o solo por onde a água passa, impedindo o nascimento de vegetação. De acordo com Polignano, em algumas regiões, a lama chegou de 50 a 100 metros além da margem do rio.

    Outro problema do rio pavimentado é que a água subterrânea para de receber oxigênio, explica Everton Oliveira. “As águas superficiais já se mostram visualmente degradadas”, comenta. Segundo ele, a falta de oxigenação faz com que os metais naturais do solo se dissolvam nas águas superficiais, contaminando-as mais ainda. Para se abastecer, a população deve cavar poços profundos.

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