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Há jeitos mais seguros de armazenar restos de minério. Saiba quais

Segundo especialista, barragens, como a que se rompeu em Mariana, são a maneira mais barata - e também a mais insegura - para acumular rejeitos

     

    Depois do rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, o governo de Minas Gerais anunciou a criação de uma força-tarefa para analisar alternativas para descarte de resíduos de mineração. A tragédia ocorrida no dia 5 de novembro deixou ao menos 13 mortos (ainda há outros 10 desaparecidos) e terá impactos ambientais profundos, mas ainda desconhecidos.

    Uma barragem como a que se rompeu, de propriedade da Samarco (empresa controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton), é uma estrutura construída próxima a uma mina de extração de algum tipo de minério. Trata-se de uma espécie de piscinão que armazena tudo aquilo que “sobra” do processo de separação entre a terra e o minério, que é o material de fato vendido.

    No caso do minério de ferro, essa separação é feita com água, que também se acumula na barragem, formando um imenso mar de lama. Em geral, para cada tonelada de minério de ferro extraída são gerados 500 quilos de rejeitos.

    Minas Gerais tem 450 barragens de mineração, segundo a Fundação Estadual do Meio Ambiente. A maior parte delas acumula os resíduos com água - é isso que forma a lama que hoje toma o rio Doce. Há alternativas para depositar o material que sobra da mineração. Todas elas têm aspectos positivos e negativos e se dividem em dois tipos: as que armazenam os rejeitos em forma de polpa, com água, e as que os transformam em resíduos sólidos. Estas últimas são consideradas as melhores alternativas, mas não são usadas no Brasil. Os itens abaixo foram elaborados com informações do professor Hernani Mota de Lima, especialista em geotecnia aplicada em mineração da Universidade Federal de Ouro Preto.

    Os tipos de descarte de resíduos de mineração

    • Elas armazenam o ‘resto’ da mineração junto com água. É o método mais simples. São feitas com pilhas do próprio material dos rejeitos, em sua fração mais grosseira. Há tipos específicos de barragens. A barragem do Fundão, que se rompeu, era do tipo alteamento a montante. Usado em regiões estáveis, ou seja, que não estão sujeitas a abalos sísmicos, é o método de construção mais barato e menos seguro.

    • Escavações subterrâneas. Nesta modalidade, os rejeitos são depositados em galerias de onde o minério já foi extraído. É uma alternativa com custos relativamente baixos. O impacto ambiental e visual são pequenos. O maior problema é que há pouco espaço para o acúmulo de rejeitos. Além disso, esse método só pode ser usado depois que a mina já tiver sido desativada. 
    • Empilhamento. Nesta técnica, o rejeito é transformado em um material mais sólido através de filtragem, para que se retire a água, ou espessamento, em um processo mecânico e químico. Desta forma, ele se transforma em pasta, um material úmido que endurece pouco tempo depois. Os rejeitos podem ser empilhados: formam uma montanha sólida, com baixo risco de ruptura, e pode-se colocar uma camada de solo por cima dela para que se faça o reflorestamento da região. Por ser uma técnica segura, é usada em países como o Chile, que estão sujeitos a terremotos e escassez de água. O maior problema é o preço: é o modelo mais caro de todos.

    Percorra abaixo o caminho da lama de Mariana

     

    Não se sabe a causa do rompimento

    A Samarco afirma que o reservatório se rompeu em razão de um tremor de terra. O Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo confirmou o registro de quatro pequenos tremores na região na data do rompimento. Dois deles aconteceram antes de a barragem se romper.

    No entanto, de acordo com o centro, não é possível estabelecer ligação entre os abalos e o rompimento da barragem e só uma perícia mais detalhada poderá estabelecer essa relação. Tremores de tal magnitude, de 2 a 2,6 graus na escala Richter, são comuns: acontecem todos os dias em São Paulo e quase nunca são sentidos.

    Pelos órgãos oficiais, Samarco estava em dia com a legislação

    A última fiscalização da barragem do Fundão aconteceu em julho de 2015 e a Superintendência Regional de Regularização Ambiental garantiu que a barragem estava em “totais condições de segurança”. A licença era válida até 2019.

    A secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais, no entanto, já havia alertado a Samarco sobre possíveis falhas na barragem. Em um parecer  técnico feito a pedido do Ministério Público, o Instituto Pristino chamou a atenção para a proximidade entre a barragem e o local onde são depositadas rochas sem minério. Segundo o documento, havia “possibilidade de desestabilização do maciço da pilha e da potencialização de processos erosivos".

    Uma pergunta não está respondida: os critérios dos órgãos de fiscalização são suficientes para garantir a segurança desse tipo de empreendimento? Provavelmente os padrões terão de ser revistos.

    Não havia plano para evacuar a população local

    No momento do rompimento, funcionários da Samarco foram surpreendidos. Bento Rodrigues, distrito de Mariana que estava no caminho da lama, não tinha um plano de evacuação, rotas de fuga e nem uma sirene. A empresa avisou a Defesa Civil e algumas famílias e líderes comunitários por telefone. Mais de 600 moradores tiveram de ser retirados às pressas.

    "Foi desesperador, ouvimos um barulho imenso, um pessoal gritando para que todo mundo saísse, tentamos pegar algumas coisas e correr para o local mais alto"

    Erdileia Marques de Santos

    moradora de Bento Rodrigues, em entrevista à AFP

    "Resolvi sair pela janela. Subi no teto e fui pulando de telhado em telhado"

    Marcos Júnior de Souza

    adolescente de Bento Rodrigues, que foi avisado pela vizinha que “a barragem estourou”, em entrevista à "Folha de S. Paulo"

    O aviso da empresa não foi suficiente. Ao menos 13 morreram (outras 10 pessoas seguem desaparecidas). Entre os mortos estão moradores - três crianças - e funcionários da Samarco.

    Para o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, ex-Diretor de Planejamento e Gestão do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, “salta aos olhos o absurdo da inexistência de um Plano de Gestão de Riscos que levasse em consideração as atividades humanas e os fatores ambientais no vale atingido”. Para ele, a Samarco deveria ter desocupado as áreas de maior risco.

    “É inaceitável que nessas áreas de extremo risco tenha-se convivido todo esse tempo com a instalação urbana de residências, escolas, comércio"

    Álvaro Rodrigues dos Santos

    geólogo

    Estas foram as primeiras providências oficiais

    No dia 19 de novembro, a Justiça Federal do Espírito Santo determinou que a Samarco agisse imediatamente para impedir que a lama de rejeitos chegue ao mar. Uma barreira de 9km foi montada na Foz do Rio Doce, no Espírito Santo, mas não foi o suficiente para impedir que a lama invadisse o oceano.

    Agora, os governos de Minas e do Espírito Santo, junto com o Governo Federal, se articulam para entrar com uma ação conjunta contra a Samarco pelos danos causados ao ecossistema do rio Doce.

     

    Três dias depois da tragédia, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), deu uma coletiva na sede da Samarco. Na ocasião, ele disse que a prioridade era encontrar as vítimas e que ainda era cedo para que fossem apontados culpados.

    A presidente Dilma Rousseff sobrevoou o local de helicóptero no dia 12, uma semana após o rompimento. Ela anunciou cinco multas aplicadas pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e de Recursos Naturais Renováveis), totalizando um valor de R$ 250 milhões por danos ambientais.

    Além disso, o governo de Minas revogou a permissão de funcionamento da empresa até que ela prove que cumpre as exigências de segurança para esse tipo de atividade. Outras sanções ainda podem acontecer. Um acordo da Samarco com o Ministério Público vai destinar R$ 1 bilhão de reais para medidas emergenciais.

     

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