Desnutrição infantil: um problema para a vida toda

Falta de nutrientes na primeira infância compromete o desenvolvimento físico e psíquico. E está associada não apenas à escassez de comida, mas também à qualidade do que chega ao prato das crianças

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Brasileiros na fila do osso, atrás de restos de carne. Brasileiros à espera do lixo do supermercado, em busca de algo aproveitável. Essas são cenas de um país que, no último trimestre de 2020, tinha mais da metade de sua população vivendo com algum tipo de insegurança alimentar, com pelo menos 19 milhões de cidadãos enfrentando sua face mais brutal: a fome.

Segundo especialistas no tema, as crianças são as mais afetadas pela alimentação inadequada, por causa dos reflexos duradouros do problema. Uma pesquisa do instituto Datafolha de maio de 2021 revelou que a insegurança alimentar afetava um a cada três lares com crianças de até seis anos no Brasil, elevando as chances de ocorrência de desnutrição infantil.

Abaixo, o Nexo explica como a desnutrição infantil pode prejudicar as crianças, relata quais avanços foram obtidos pelo país na área e mostra como o Brasil chegou ao atual cenário de retrocesso.

O QUE é desnutrição infantil

A desnutrição infantil é uma condição clínica decorrente de uma deficiência ou excesso, relativo ou absoluto, de um ou mais nutrientes essenciais, segundo definição do Ministério da Saúde. Ela pode ser causada por ingestão insuficiente de alimentos ou por má alimentação, ou seja, consumir produtos não saudáveis.

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), a desnutrição é uma desordem tanto de natureza médica como social: os problemas médicos da criança resultam, em parte, dos problemas sociais do domicílio em que ela vive. Eles podem vir de dificuldades financeiras, dificuldade de acesso a alimentos saudáveis, falta de atenção e cuidado por parte de pais ou responsáveis, desconhecimento sobre alimentação saudável, entre outros cenários.

O desmame precoce, a higienização inadequada de alimentos e a incidência repetida de infecções intestinais causadas pela falta de saneamento básico também têm grande influência na ocorrência de desnutrição infantil.

O principal sintoma da desnutrição é a dificuldade para ganhar peso. Quando o peso não aumenta ou regride na curva de crescimento, a criança pode estar desnutrida. Esse sintoma pode ser acompanhado por falta de força e energia, além de dificuldade de concentração e crescimento atrofiado. Em casos graves, podem ocorrer inchaços no estômago, face e pernas, além da mudança na pigmentação da pele.

A fase de maior atenção é a que vai até os 2 anos. Bebês desnutridos têm o sistema imunológico enfraquecido e são menos resistentes às doenças comuns da infância. Resfriados e diarreias, por exemplo, podem ser fatais.

13,78%

era a porcentagem de crianças brasileiras de até 5 anos atendidas nos serviços da atenção primária no SUS (Sistema Único de Saúde) com peso inadequado entre janeiro e setembro de 2021

Das cerca de três milhões de crianças brasileiras de até cinco anos com peso inadequado atendidas nos serviços da atenção primária no SUS (Sistema Único de Saúde) entre janeiro e setembro de 2021, 310.169 estavam acima do peso, 88.220 tinham peso baixo e 48.169 peso muito baixo.

Para entender a desnutrição, é preciso lidar com o conceito de insegurança alimentar, criado em 1996 pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), entidade que lida com disponibilidade, estabilidade, acesso e utilização de alimentos. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mede a insegurança alimentar em uma escala de três níveis:

GLOSSÁRIO

Insegurança leve

Quando há preocupação com acesso aos alimentos no futuro e são adotadas estratégias para manter uma quantidade mínima disponível.

Insegurança moderada

Quando já há uma quantidade restrita de alimentos e o consumo fica abaixo do esperado. O alimento na mesa, portanto, fica mais restrito.

Insegurança grave

Quando há uma privação severa de alimentos, podendo chegar à fome, com acesso a calorias insuficientes para suprir necessidades energéticas.

O caminho da desnutrição

A desnutrição pode se apresentar em todos os níveis de insegurança alimentar, mas tem maior incidência nas fases moderada ou grave. Quanto mais avançado o nível de insegurança alimentar, maior o risco de desnutrição.

A doença pode ocorrer em crianças que consomem uma quantidade escassa de alimentos, provocando atraso no crescimento e magreza, por exemplo, ou em crianças cuja dieta é rica em carboidratos, levando à menor resistência do corpo a infecções pela falta de nutrientes. A desnutrição ainda pode ser classificada em função da relação entre peso e altura.

GLOSSÁRIO

Desnutrição crônica

Quando as crianças param de crescer e se tornam atrofiadas, o que faz com que tenham baixa estatura para sua idade.

Desnutrição aguda

Quando a criança apresenta baixo peso em relação à altura. Se esse for inferior a 30% do normal, as funções corporais são alteradas e há elevado risco de morte.

A questão do sobrepeso

A desnutrição é na maioria das vezes associada à magreza. Mas é possível que crianças que estejam acima do peso para sua idade sejam também desnutridas, uma vez que a alimentação pode ser rica em açúcar e gorduras e pobre nos alimentos que fornecem os nutrientes fundamentais para o organismo. Essa desnutrição por excesso de alimentos inadequados é o que se chama de “fome oculta”.

A “fome oculta” pode afetar indivíduos e famílias que foram obrigadas a mudar a alimentação por falta de dinheiro, mas também aqueles que teriam condições financeiras de se alimentar bem e acabam comendo mal por outras razões. Diagnosticá-la pode ser mais difícil, pois não há manifestação dos sinais clássicos da desnutrição.

COMO a desnutrição infantil afeta os sobreviventes

A desnutrição infantil leva a uma série de alterações no funcionamento do organismo, conforme seu grau de intensidade. Algumas das alterações são:

  • perda muscular com consequente debilidade física
  • deficiência imunológica
  • desaceleração, interrupção ou involução do crescimento
  • alterações psíquicas e psicológicas

A desnutrição está associada à maior recorrência de doenças infecciosas, prejuízos no desenvolvimento psicomotor, menor aproveitamento escolar e menor capacidade produtiva na vida adulta. Adultos que foram desnutridos quando crianças apresentam mais riscos de desenvolverem doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade.

Durante a primeira infância (período que vai dos 0 aos 6 anos), acontecem 90% das conexões cerebrais. É o chamado período único de neuroplasticidade: novas conexões e neurônios são formados como nunca, circuitos neuronais se expandem e ocorre a estruturação dos mecanismos biológicos que darão suporte às funções sociais, cognitivas e emocionais da criança.

A desnutrição infantil pode facilitar o desenvolvimento de doenças ou distúrbios neuropsíquicos na idade adulta, como epilepsia, esquizofrenia e depressão. Estudos sugerem que crianças desnutridas podem estar mais vulneráveis a crises convulsivas do que as bem nutridas.

O problema atrapalha o desenvolvimento de habilidades como atenção, memória, leitura e aprendizagem de linguagem como um todo. A criança que tem dificuldade de aprendizagem tem maiores chances de ir mal na escola ou de abandonar os estudos, o que afeta suas perspectivas profissionais no futuro.

A “fome oculta” afeta a saúde e vitalidade e pode ter consequências sérias como carência de iodo, vitamina D, vitamina A e anemia por deficiência de ferro. A carência de ferro pode comprometer o desenvolvimento intelectual e psicomotor da criança. Já a falta de vitamina D pode afetar a visão, podendo até causar cegueira total, e debilita o sistema imunológico. O iodo pode evitar vários problemas de saúde, como retardo do crescimento e comprometimento do desenvolvimento cerebral.

A importância da amamentação

A saúde do embrião durante o primeiro trimestre gestacional depende da condição nutricional da mãe antes da fecundação. No segundo e terceiro trimestres, depende da situação da mãe (ganho de peso, ingestão de caloria e nutrientes, fator emocional, estilo de vida).

Quando uma mãe está mal nutrida durante a gestação, isso repercute na saúde dela, na saúde do feto que está se desenvolvendo e, possivelmente, na saúde até de seu neto. Ou seja, os problemas decorrentes da mal nutrição podem se refletir por até três gerações.

“A mãe mal nutrida tem uma alteração da sua composição corporal, o que faz com que se altere as respostas embrionárias, provocando modificações epigenéticas e mudanças na expressão gênica dessa mãe e do feto. Isso pode provocar desnutrição, neurodesenvolvimento prejudicado, obesidade, doenças cardiovasculares, doenças crônicas e agudas como um todo. Se eu tenho uma mãe mal nutrida, eu tenho uma criança com predisposição para doenças crônicas não transmissíveis”, afirma a nutricionista materno-infantil Marina Bonelli.

Uma grávida desnutrida com baixo peso pode ter alterações na placenta, comprometendo o fluxo sanguíneo e o metabolismo de nutrientes. Isso pode levar o bebê a se tornar um adulto com maiores riscos de hipertensão, com resistência insulínica, aumento da adiposidade e diminuição das células beta com predisposição a diabetes.

No caso de uma grávida desnutrida com sobrepeso, as alterações na placenta podem gerar um feto mais estressado e grande demais para a idade gestacional. Na fase adulta, ele poderá ter problemas como predisposição a doenças cardíacas, derrames e diabetes, além da obesidade.

QUEM mais sofre com desnutrição infantil

Em 2019, um levantamento do Enani (Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil) apontou que a insegurança alimentar no Brasil, independentemente do grau, era maior entre crianças pretas do que em crianças brancas.

Além disso, o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19, realizado em 2020 pela Rede Nacional de Pesquisadores em Soberania e Segurança Alimentar no Brasil, mostra que 66,1% das famílias em insegurança alimentar eram chefiadas por uma pessoa negra.

A nutricionista Fernanda Bairros, coordenadora do Harambee (Grupo de Estudos e Pesquisas em Saúde da População Negra) e integrante do grupo de trabalho sobre Racismo e Saúde da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), afirma que as desigualdades sociais e o racismo são determinantes para que crianças negras tenham menos acesso a bens, serviços e oportunidades e, consequentemente, acesso à alimentação em quantidade e qualidade necessária.

Discrepância racial

Presença de algum nível de insegurança alimentar nos domicílios por cor/raça, segundo dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil

O relatório Situação Mundial da Infância - Crianças, alimentação e nutrição do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) revela que a desnutrição crônica entre crianças indígenas menores de 5 anos era de 28,6% em 2018. Esse dado pode variar entre as etnias, chegando até em 79,3% em crianças yanomami.

Crianças Yanomami

No Brasil, cerca de 30 mil indígenas vivem na Terra Yanomami, uma área de nove milhões de hectares localizada entre os estados de Roraima e Amazonas. O local tem sido invadido por garimpeiros, algo que prejudica a vida dos indígenas, afirma a Hutukara Associação Yanomami.

Entre 2019 e 2020, ao menos 24 crianças yanomamis com menos de 5 anos morreram por desnutrição, segundo divulgou a Agência Pública a partir de informações da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) obtidas via Lei de Acesso à Informação.

Paulo Cesar Basta, pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ressalta que a população Yanomami enfrenta, além do garimpo ilegal, uma vulnerabilidade sanitária onde a oferta de água potável, a coleta de lixo e o saneamento nas aldeias é praticamente inexistente.

O pesquisador lembra também que a assistência à saúde é precária, pois das 360 aldeias da terras indígenas yanomami, apenas em 78 delas há unidades básicas de saúde em operação.

“Na prática, o quadro de desnutrição crônica e de vulnerabilidade sanitária em que vivem os Yanomami, hoje, é produto de uma histórica exclusão social, de um racismo institucional cada vez mais evidente e de um abandono quase total por parte do Estado”, diz ele.

Em entrevista à agência Amazônia Real em setembro de 2021, Ana Lice Yanomami, do baixo rio Mucajaí, em Roraima, alertou para a desnutrição de mães e filhos do povo. Ela contou que os rios estão poluídos com o mercúrio do garimpo ilegal e as crianças estão deixando de se alimentar.

“Nossa comida está toda contaminada, até as mães que estão amamentando estão sofrendo, muitas estão desnutridas também, quando falamos que o garimpo tem que acabar, é porque quem está sofrendo somos nós”, afirmou.

ONDE está a desnutrição infantil no Brasil

A prevalência de desnutrição infantil no Brasil ocorre nas regiões Norte e Nordeste, em decorrência de fatores como, por exemplo, a disparidade nos acessos de saneamento básico e serviços de saúde nas regiões.

Desigualdade regional

Presença de algum nível de insegurança alimentar nos domicílios por região, segundo dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil

No contexto da pandemia de covid-19, o relatório Impactos primários e secundários da covid-19 em crianças e adolescentes, publicado em agosto de 2020 pelo Unicef, mostra que 23% dos brasileiros passaram a consumir mais alimentos industrializados.

As regiões Norte e Nordeste foram as que consumiram esses alimentos em maior quantidade, com 26% cada. As populações das duas regiões também foram as que mais deixaram de fazer uma refeição por falta de dinheiro.

A cidade de Fortaleza é a que mais possui crianças de até 5 anos com índices elevados de peso em relação à altura (14,5%), segundo dados de 2021 do Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional) do Ministério da Saúde. O menor índice fica por conta de Brasília, com 6,6%.

QUANDO a desnutrição infantil melhorou

De acordo com o Unicef, a desnutrição infantil crônica (medida pela baixa estatura da criança para a idade) caiu 50% no Brasil entre 1996 e 2006. A desnutrição aguda (baixo peso em relação à altura) passou a ser registrada em apenas 1,5% das crianças.

Em 2013, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), a parcela da população em situação de fome estava em 4,2% – o nível mais baixo até então. Isso fez com que a FAO, órgão da ONU para alimentação e agricultura, excluísse, em 2014, o Brasil do Mapa da Fome.

Políticas públicas para alimentação

O então presidente Fernando Henrique Cardoso lançou, em 2001, o Funcep (Fundo Nacional de Combate e Erradicação da Pobreza), beneficiando famílias abaixo da linha de pobreza. Além dele, o Programa Bolsa-Alimentação, de combate à mortalidade infantil e à desnutrição voltado às famílias mais pobres do Brasil também foi criado. O programa priorizou, naquele ano, 1.143 municípios atingidos pela seca na região Nordeste e no norte de Minas Gerais.

Já em 2003, no primeiro mandato do governo Luiz Inácio Lula da Silva, foi criado o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), cujo objetivo é promover o acesso à alimentação e incentivar a agricultura familiar. Operado pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e também pelos municípios e estados, o PAA tem seu desdobramento no Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar), criado em 2009.

A partir disso, os resultados da estratégia Fome Zero aliados a políticas públicas de combate à pobreza e à miséria, como a adoção do programa Bolsa Família, tornaram-se visíveis entre 2004 e 2013.

O combate à fome no país incluiu a criação de cozinhas comunitárias, bancos de alimentação e transferências de dinheiro, reduzindo a fome de mais de 44 milhões de famílias, o que também reduziu em 73% a desnutrição infantil.

O Brasil executa, há mais de seis décadas, o Programa Nacional de Alimentação Escolar, de responsabilidade do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, uma política pública considerada referência regional e mundial.

O intuito do projeto é que, todos os dias, os 41 milhões de estudantes matriculados tenham acesso a alimentos frescos, saudáveis e nutritivos, boa parte deles adquiridos da agricultura familiar local, cumprindo a lei criada em 2009.

Um acompanhamento realizado pelo Ministério da Saúde com as mesmas crianças durante quatro anos registrou melhora no estado nutricional delas. A prevalência de desnutrição que atingia 18,9% em 2013 passou a 10,1% em 2016.

POR QUE a desnutrição ainda é um desafio no Brasil

Depois do avanço obtido por meio de políticas públicas, retrocessos começaram a ser registrados. No último trimestre de 2020, a fome atingia 9% da população (19 milhões de brasileiros), segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.

O Ministério do Desenvolvimento Agrário, que se especializou na criação da pequena e média agricultura familiar, foi extinto pelo governo Michel Temer em 2016. O governo Jair Bolsonaro extinguiu o Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional) em 2019, levando com ele também o Sisan (Sistema de Segurança Alimentar e Nutricional). No mesmo ano foi extinto o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, criado em 2004.

A economista e doutora em Saúde Pública, Tereza Campello, ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome durante o governo Dilma Rousseff, destaca que houve um desmonte de ações de incentivo à agricultura familiar, por exemplo, com a diminuição de recursos repassados para o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). Em 2012, os recursos movimentados pela Companhia Nacional de Abastecimento foram de R$ 600 milhões, enquanto em 2020, foram de R$ 15 milhões.

Para a ex-ministra, além da decadência de programas diretamente ligados à alimentação, o Brasil ainda precisa melhorar em relação a programas sociais que elevam a renda das famílias. Campello defende que um conjunto de fatores, como aumento do desemprego, desaceleração do crescimento do salário mínimo e a piora de políticas sociais como Bolsa Família, INSS (Instituto Nacional de Segurança Social) e benefício de prestação continuada, representam um retrocesso no combate à má alimentação dos brasileiros.

Campello afirma também que a precarização do emprego tem grande parcela de contribuição na diminuição do poder aquisitivo dos brasileiros, o que compromete o acesso a itens básicos, como alimentos. Segundo o IBGE, a taxa de desemprego no Brasil era de 11,6% no trimestre encerrado em novembro de 2021, com um total de 12,4 milhões de pessoas desempregadas no país. “A insegurança alimentar é quatro vezes maior em uma casa onde o chefe de família não tem carteira assinada”, afirma Campello.

O combate à desnutrição infantil

Ana Lydia Sawaya, professora da Universidade Federal de São Paulo e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Nutrição e Pobreza do IEA (Instituto de Economia Agrícola), reforça que o grande problema no Brasil não é a quantidade de alimentos disponíveis, mas a dificuldade de acesso a eles, que faz com que crianças comam pouco ou mal.

Em entrevista ao Jornal da USP, em 2018, ela afirmou que, no país, há três fatores que causam a desnutrição e sempre estão relacionados: quantidade insuficiente de alimentos, má qualidade dos alimentos, que carecem de proteínas, vitaminas e minerais, e a insalubridade da moradia, que aumenta a frequência de infecções. A batalha contra a desnutrição deve passar por diferentes áreas:

  • formação para que as famílias saibam da importância de alimentar os bebês de forma adequada
  • melhorias na infraestrutura e no saneamento básico para garantir acesso à água potável e rede de esgoto
  • diversificação da agricultura para que uma variedade maior de alimentos chegue à mesa das pessoas

A merenda escolar tem papel fundamental nesse caminho. De acordo com Najla Veloso, coordenadora regional do projeto de alimentação escolar da FAO, ela representa uma das políticas mais eficientes para combater a má nutrição em todas as suas formas.

No Brasil, 41 milhões de estudantes (20% da população) são atendidos por esses programas, garantindo o direito humano à alimentação e ajudando a atingir diferentes ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável).

Veloso destaca que, para muitos estudantes, a merenda escolar é a única refeição do dia. “Essa é uma política transversal que atua no combate à fome, contribui para a formação de hábitos de consumo saudáveis, aproxima o jovem da produção de alimentos (com hortas escolares) e ainda fomenta a economia local com as compras públicas de agricultores familiares. É uma política ganha-ganha”, disse ela.

A nutricionista materno-infantil e especialista em doenças crônicas não transmissíveis Marina Bonelli ainda destaca que, no caso de plenas condições de acesso aos alimentos, é preciso atenção e cuidado, além da combinação com realização de atividade física. Ainda assim, a atuação do Estado é fundamental.

“É preciso incentivar a alimentação saudável, regular o marketing para as crianças, porque ainda vemos propagandas de alimentos processados, com embalagens que chamam a atenção delas. Também é importante a melhoria na rotulagem dos alimentos para que a população consiga compreender o que está escrito. As letras são muito pequenas e são utilizados termos técnicos demais”, afirma Bonelli.

NO MUNDO: a desnutrição infantil global

Segundo a FAO, a insegurança alimentar moderada ou grave em escala global tem crescido lentamente, de 22,6% em 2014 para 26,6% em 2019. Já em 2020, aumentou quase na mesma taxa dos cinco anos anteriores combinados para ficar em 30,4%.

768 milhões

é a estimativa de pessoas no mundo que enfrentaram a fome em 2020 durante a pandemia da covid-19, representando 9,9% da população mundial

Globalmente, 149,2 milhões de crianças com menos de cinco anos (22%) tiveram baixa estatura para a idade em 2020. Quase três quartos das crianças com atraso de crescimento em todo o mundo viviam em apenas duas regiões: Ásia Central e do Sul (37%) e África Subsaariana (37%).

No mesmo ano, 45,4 milhões de crianças menores de cinco anos (6,7%) sofreram de definhamento (peso excessivamente baixo). Quase um quarto vivia na África Subsaariana e mais da metade vivia no Sul da Ásia, a sub-região com a maior prevalência.

De acordo com o Unicef, em 2019, nas áreas rurais e entre as famílias mais pobres, apenas uma em cada 5 crianças de até 2 anos de idade recebia o mínimo de nutrientes necessários para um desenvolvimento cerebral adequado. Cerca de 45% das crianças entre 6 meses e 2 anos não consumiam frutas ou legumes e 60% não consumiam ovos, leite, peixe ou carne.

40%

era a porcentagem das crianças com menos de 6 meses alimentadas exclusivamente com leite materno em 2019

As vendas de fórmula à base de leite cresceram 72% entre 2008 e 2013 em países de renda média-alta, como Brasil, China e Turquia, em grande parte devido a propagandas inadequadas e políticas ineficientes para estimular e apoiar a amamentação.

EM APAS: frases que ajudam a entender o problema

“Uma criança só pode aprender quando se nutre, e não quando está cheia de parasitas”

Leonel Brizola

líder da esquerda que foi governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul

“Para uma comunidade, não há melhor investimento do que dar leite aos bebês

Winston Churchil

político conservador que foi primeiro-ministro do Reino Unido

“O Brasil produz e tem condições de produzir alimento suficiente para alimentar todo seu povo, mas o povo não tem renda suficiente para acessar esses produtos”

Tereza Campello

economista, professora, doutora em Saúde Pública e ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, ao Nexo

“A primeira infância é um momento extremamente importante no desenvolvimento do ser humano e a qualidade da alimentação, das vivências e oportunidades inseridas na vida dessa criança, bem como sua educação, irão repercutir diretamente na saúde física e mental do adulto”

Cecília Araújo

médica pediatra especialista em neuropediatria, ao Nexo

“Nas escolas públicas, a merenda escolar deve ser a mais nutritiva possível. São merendas com cara de almoço porque, para muitas crianças, a merenda escolar é a única refeição nutritiva ou a única refeição do dia. Muitas crianças vão de casa para a escola em jejum e sabemos que uma boa alimentação é fundamental para um bom aprendizado escolar”

Samia Maia

pedagoga e mestre em Educação Especial e Inclusão no Contexto Amazônico e doutoranda em Educação, Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional, ao Nexo

“Comer bem não é comer muito. Às vezes a família acha que está fazendo um bem para criança, mas na verdade está trazendo alimentos que estão associados ao aumento de doenças crônicas como obesidade e ao aumento de problemas de saúde relacionados ao consumo de alimentos processados”

Suellen Campos

nutricionista do Núcleo de Apoio a Saúde da Família da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, ao Nexo

“A escravatura atual é a fome”

Carolina Maria de Jesus

escritora e autora do livro “Quarto de despejo” (1960)

“Se o Estado brasileiro cumprisse seu dever constitucional e, de fato, desenvolvesse políticas públicas inclusivas, visando uma reparação pelos danos e pela exploração compulsoriamente impostos aos povos originários durante a colonização e que se estendem até os dias atuais, a situação de saúde dos povos indígenas, sobretudo das crianças poderia ser muito diferente”

Paulo Cesar Basta

pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz, ao Nexo

“O racismo é um dos determinantes das desigualdades evitáveis e injustas vividas pela população negra, impedindo o acesso a bens, serviços e oportunidades”

Fernanda Bairros

coordenadora do Harambee e integrante do GT Racismo e Saúde da Abrasco, ao Nexo

NA ARTE: livros, filmes, documentários sobre o tema

  • “Vidas Secas” (1938), romance do escritor Graciliano Ramos.
  • “Super Size Me: A Dieta do Palhaço” (2004), documentário que mostra um experimento em que, por um mês, uma pessoa se alimenta apenas de comida produzida na rede de fast food McDonald's.
  • “Quarto de despejo” (1960), o diário de Carolina Maria de Jesus deu origem ao livro que relata o seu cotidiano na periferia de São Paulo.
  • “O começo da vida” (2016), documentário produzido com o apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Instituto Alana, Unicef e Fundação Bernard van Leer, está disponível em várias plataformas globais de vídeo sob demanda, incluindo Netflix e iTunes.
  • “Histórias da fome no Brasil” (2017), documentário de 2017 idealizado pela ONG Ação da Cidadania.

VÁ AINDA MAIS FUNDO: trabalhos acadêmicos ou governamentais sobre o tema

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