Viagens espaciais: explorando ‘a fronteira final’

Voos rumo ao espaço marcaram o século 20 e são essenciais para o desenvolvimento científico e tecnológico na atualidade

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“O espaço, a fronteira final”, dizia o capitão James T. Kirk no início de todo episódio da série televisiva “Star Trek” (1966-1969). Os céus sempre despertaram fascínio e encantamento na humanidade. Para muitos, lar de deuses. Para outros tantos, lar de dúvidas que devem ser respondidas.

O fato é que no começo século 21 sabemos muito mais sobre o céu, sobre o espaço e sobre o Universo. E como o conhecimento cresce em forma de progressão, não é exagerado afirmar sabemos hoje muito menos do que saberemos no próximo século.

As viagens espaciais foram essenciais para que astrônomos e físicos do mundo todo formassem a nossa base de conhecimentos sobre o Universo que nos cerca, além de terem sido importantes para o amplo desenvolvimento tecnológico que se consolidou durante o século 20.

O QUE configura uma viagem espacial

A Federação Aeronáutica Internacional, principal órgão global de regulamentação no campo aeronáutico, define como viagem espacial qualquer voo – tripulado ou não – que ultrapasse a altitude de 100 km a partir da superfície do planeta. Apenas para efeitos de comparação, um voo comercial tradicional faz seu trajeto a cerca de 9 a 12 km de altura.

Para além dos 100 km de altitude, a atmosfera se torna tão pouco densa que são necessárias velocidades altíssimas para se prosseguir com o voo.

Foto: Reprodução/Nasa
Theodore von Karman, um homem idoso, branco, cabelos brancos, usa um terno preto e segura um livro em mãos. Ele está de pé e sorri
O físico Theodore von Karman, que ajudou a definir onde começa o espaço

Esse ponto é conhecido como Linha de Karman, isso porque na metade da década de 1950, o físico húngaro Theodore von Karman reuniu dezenas de cientistas para determinar a partir de qual altitude um voo poderia ser considerado uma viagem espacial.

Após uma série de cálculos, o time chegou aos 100 km de altitude. E o ponto acabou batizado em homenagem ao físico.

Para ser possível prosseguir um voo que ultrapasse a Linha de Karman, são necessárias velocidades iguais ou superiores a cerca de 24,8 mil km/h. Se houver menos do que isso, os foguetes em questão perdem o controle e despencam de volta à superfície terrestre em queda livre.

A Linha de Karman se encontra na termosfera, a penúltima camada de atmosfera terrestre, antecedendo a exosfera, que se inicia por volta dos 500 km de altitude a partir da superfície e se estende até os 1.000 km de altura.

É na termosfera que se encontra a Estação Espacial Internacional e diversos satélites artificiais que orbitam o planeta.

Altitude de alguns dos satélites que orbitam a Terra

Gráfico que mostra altitudes de satélites

A Nasa e as forças armadas dos EUA não seguem a definição estabelecida pela Federação Aeronáutica Internacional, optando por considerar como viagem espacial todo voo, tripulado ou não, que ultrapasse a altitude de 80 km a partir da superfície terrestre. É nesse ponto que tem início a termosfera.

QUEM foram os precursores das viagens espaciais

A humanidade sempre se fascinou pelos céus. Mas as ideias um pouco mais concretas sobre viagens espaciais surgiram na ficção do século 19.

Em 1865, o escritor francês Júlio Verne escreveu o livro “Da Terra à Lua”, no qual contava a história da primeira viagem lunar. Na história, foguetes não existiam, e a ida ao espaço se dava por meio de um canhão que lançava os astronautas rumo à Lua.

Ilustração da nave Columbiad, presente na primeira edição de "Viagem à lua", de Júlio Verne
Ilustração da nave Columbiad, presente na primeira edição de "Viagem à lua", de Júlio Verne

Quinze anos depois da publicação de Verne, o jornal londrino Pall Mall Gazette, numa resenha do livro, cunhou o termo “nave espacial”, que se tornou recorrente tanto na ficção, quanto na engenharia aeronáutica.

Fora do campo da ficção científica, a possibilidade de se começar a viajar para o espaço começou a ser estudada com mais fôlego no início do século 20.

No ano de 1903, o engenheiro russo Konstantin Tsiolkovsky publicou o artigo “A exploração do espaço cósmico por meio de dispositivos de propulsão”, no qual apresentava uma base teórica que demonstrava que, ao menos em tese, seria possível chegar ao espaço usando “dispositivos de propulsão” – mais especificamente, foguetes.

Os foguetes existem desde o século 10, tendo sido registrados pela primeira vez na China da dinastia Song. Naquela época, eles eram simples, pequenos e usados apenas para propulsionar flechas em confrontos militares, funcionando a partir da pólvora.

Com o passar dos séculos, os foguetes foram chegando aos países ocidentais e o entendimento acerca deles se ampliando.

Em 1919, o físico americano Robert Goddard publicou o artigo “Um método para se alcançar altitudes extremas”, no qual aprofundava as teorias de propulsão divulgadas anos antes e estabelecia algumas diretrizes para o uso de foguetes de combustível líquido para se chegar ao espaço.

Na época de sua publicação, o artigo de Goddard levantou desconfiança. Para a população da época, viajar até o espaço era um sonho distante, se não impossível.

Essa percepção mudou na década de 1940, quando a Alemanha nazista lançou o V-2, o primeiro míssel guiado e a primeira tecnologia criada pelo ser humano a chegar ao espaço, atingindo uma altitude de 189 km.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota dos nazistas, a maior parte da equipe de desenvolvimento do V-2 foi para os Estados Unidos trabalhar com o governo do país nas décadas subsequentes, especialmente em um período conhecido como a Corrida Espacial.

QUANDO as viagens espaciais ganharam força

O boom do desenvolvimento relacionado às viagens espaciais se deu na chamada Corrida Espacial, uma das frentes da Guerra Fria.

Ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o mundo se viu diante de duas grandes potências. De um lado, os Estados Unidos e suas ideias capitalistas. De outro, a União Soviética, encabeçada pela Rússia, tentando emplacar o comunismo.

Ambas as potências buscavam vender suas ideologias em outros países, por meio de influência cultural e desenvolvimento tecnológico, por exemplo.

A Guerra Fria tem esse nome porque em nenhum momento de seus quase 50 anos de duração houve um conflito armado de grandes proporções envolvendo diretamente as duas potências.

A Corrida Espacial teve início no fim da década de 1950 e se estendeu até a metade da década de 1970.

Nesse período, tanto Estados Unidos, quanto União Soviética buscavam uma hegemonia na exploração do espaço, que era visto como necessária para garantir a segurança nacional e também como símbolo da superioridade ideológica e tecnológica de cada uma das potências. A Rússia deu o pontapé inicial ao lançar, em 1957, o Programa Sputnik.

A iniciativa teve início em outubro daquele ano, com o lançamento do Sputnik-1, o primeiro satélite artificial a ser colocado em órbita, ficando a 577 km de altitude. Ele tinha como objetivo coletar dados sobre a densidade da atmosfera terrestre, bem como o comportamento das ondas de rádio na atmosfera.

Cerca de um mês depois, a Rússia enviou ao espaço a cadela Laika, que foi lançada em um foguete, intitulado R-7, a uma altitude de 982 km, para que os cientistas soviéticos pudessem entender se mamíferos poderiam sobreviver à viagem, já com o desejo de se colocar seres humanos em órbita.

Laika era uma vira-lata encontrada em Moscou. A escolha por um animal abandonado se deu porque os cientistas do projeto acreditavam que esses cães já tinham enfrentado condições extremas de frio e fome nas ruas.

A cadela não sobreviveu à viagem. Em órbita, morreu em decorrência de um superaquecimento registrado no motor do foguete R-7. Depois dela, a Rússia enviou outros 12 cães ao espaço. Desses, cinco retornaram com vida.

A primeira pessoa a realizar uma viagem espacial foi o russo Yuri Gagarin, lançado na nave Vostok-1 em abril de 1961 com o objetivo de descobrir se era possível um ser humano sobreviver a um voo como esse.

Gagarin chegou a uma altitude de 327 km a bordo da Vostok-1, orbitando por 108 minutos. Tudo correu bem e o pouso ocorreu no Cazaquistão. O astronauta – ou cosmonauta, no termo optado pelos russos – não teve nenhum tipo de problema de saúde. Ele morreu sete anos depois em um acidente ocorrido durante um voo de treinamento na base da Força Aérea russa, em Moscou.

Nos Estados Unidos, os esforços para explorar o espaço começaram quatro meses após o Sputnik 1, com o lançamento do satélite Explorer 1, que veio acompanhada da criação da Nasa, a agência espacial americana.

Após a viagem de Yuri Gagarin, os EUA iniciaram seus próprios esforços para levar seres humanos ao espaço. Em um discurso emblemático na Universidade Rice no ano de 1962, o então presidente John F. Kennedy fez uma proposta ousada: o país colocaria astronautas em solo lunar ainda naquela década.

Foram anos de desenvolvimento e preparação, com uma operação gigantesca e voos de teste, mas a promessa foi cumprida. Em 20 de julho de 1969, os astronautas americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin pisaram na Lua.

O pouso na lua fez parte do programa Apollo, iniciado pela Nasa em 1961. Ao todo, o projeto teve 17 voos, com o último tendo sido realizado em 1972. Armstrong e Aldrin tocaram em solo lunar na missão Apollo 11.

O lançamento se deu a partir do centro de lançamentos John F. Kennedy, em Cabo Canaveral, no estado da Flórida, no dia 16 de julho de 1969. Em 12 minutos, o foguete Saturn 5 entrou no espaço.

A aproximação lunar teve início três dias depois. Armstrong e Aldrin fizeram o pouso no módulo lunar Eagle, enquanto um terceiro astronauta, Michael Collins, permaneceu na nave Apollo.

O pouso foi televisionado e assistido por milhões de pessoas ao redor do mundo. Logo, surgiram teorias conspiratórias afirmando que a viagem à Lua era uma farsa e que tinha sido encenada em um estúdio sob o comando do cineasta Stanley Kubrick, responsável pelo filme de ficção científica “2001: Uma odisseia no espaço”, lançado um ano antes.

Apesar de desmentidas, as afirmações, feitas sem nenhuma evidência, continuam a circular até os dias de hoje.

A Corrida Espacial teve seu fim em 1975 com o anúncio da missão Apollo-Soyuz, uma colaboração internacional entre União Soviética e Estados Unidos, que tinha como objetivo acoplar, em órbita, uma nave americana com uma russa.

Tratava-se mais de uma iniciativa diplomática e simbólica do que uma viagem com objetivos práticos. O encontro das naves se deu em 17 de julho daquele ano. Os astronautas de ambos os países se encontraram, realizaram alguns experimentos científicos simples e trocaram presentes entre si.

A missão Apollo-Soyuz correu sem nenhum problema e se tornou um símbolo não só do fim da Corrida Espacial, mas também como o início de uma fase menos tensa entre as potências. A Guerra Fria teve seu fim oficial em 1991, com a dissolução da União Soviética.

Concebida pelos Estados Unidos e pela União Soviética, a Estação Espacial Internacional foi lançada em 1998, orbitando a uma altura de cerca de 400km. A maior parte de sua construção se deu já em órbita, tendo sido concluída em 2011.

Apesar de ter sido uma iniciativa desses dois países, a estação, que nada mais é do que um grande laboratório, pode ser usada por agências espaciais de 15 nações, que incluem Reino Unido, França, Noruega, Japão e Alemanha, tornando-se um símbolo de cooperação internacional.

AONDE as viagens espaciais já chegaram

Com tripulantes, as viagens espaciais já feitas se limitaram a ir ao nosso próprio satélite natural, a Lua, mas há planos para viagens tripuladas ao nosso planeta vizinho, Marte. Elas, porém, ainda não têm previsão para acontecer.

Sem tripulantes, cantos mais inóspitos da Via Láctea já foram explorados.

A sonda Voyager 1, lançada em 1977, é o objeto humano que alcançou a maior distância espacial já registrada. Em setembro de 2013, ela entrou no espaço interestelar – ou seja, saiu do Sistema Solar e está vagando no meio da galáxia.

Foto: Divulgação /Nasa
Imagem registrada pela Voyager. A Terra é o pequeno ponto luminoso ao centro da foto
Imagem registrada pela Voyager. A Terra é o pequeno ponto luminoso ao centro da foto

A Voyager 1 continua operando normalmente e transmitindo dados do espaço para operadores na Nasa, mas a previsão é de que ela perca contato com a Terra em algum momento entre 2025 e 2030.

Num primeiro momento, a sonda tinha como missão registrar imagens de Júpiter e seus satélites, bem como de Saturno e seus anéis. Depois disso, a Voyager continuou sendo operada para dar aos astrônomos imagens do Sistema Solar e dados sobre o espaço interestelar.

A sonda Voyager 2 – que, apesar do nome, foi lançada um mês antes da Voyager 1 – entrou no espaço interestelar em 2018.

Sua missão original era estudar Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, tarefa que foi concluída no final da década de 1980. Desde então, a Voyager 2 cumpre o mesmo papel de sua sonda irmã.

Ela carrega consigo o “Disco de Ouro”, um disco com horas de sons dos seres humanos e da natureza, saudações em diversos idiomas, uma mensagem do então presidente americano Jimmy Carter e músicas como um trecho da ópera “A flauta mágica”, de Mozart, e “Johnny B. Goode”, canção de Chuck Berry.

O “Disco de Ouro” tem como objetivo dar uma noção da Terra para uma possível civilização alienígena que venha a entrar em contato com ele.

A expectativa é de que a Voyager 2 perca comunicação com a Nasa em algum momento a partir do ano 2030.

Telescópios também são parte importante da exploração espacial. Os mais famosos são o Hubble e o Kepler, ambos dos Estados Unidos.

O Hubble, cujo objetivo é registrar imagens das mais diversas partes do Universo, foi lançado em abril de 1990, a bordo do ônibus espacial Discovery. Ele segue em operação até os dias de hoje, a uma altitude de cerca de 545 km da superfície terrestre. Agências espaciais e universidades do mundo todo podem solicitar o uso dos equipamentos do telescópio.

O Kepler foi lançado em março de 2009, ficando em operação até outubro de 2018 a uma altitude de cerca de 150 mil km. Ele tinha como objetivo procurar por planetas. Ao todo, ele descobriu 2.662 deles.

Em outubro de 2021, a Nasa pretende lançar o telescópio James Webb, que deve substituir o Hubble, já que, ao longo das décadas, novas e melhores tecnologias foram surgindo.

COMO o financiamento de viagens espaciais mudou

No século 20, a maior parte dos voos espaciais foram realizados a partir de iniciativas e agências estatais. Aqueles que não tinham verba pública eram apenas voos feitos para colocar satélites de telecomunicações em órbita.

Porém, na virada do milênio, bilionários dos mais diversos países começaram a se interessar pela exploração espacial.

Embora os custos envolvidos num voo espacial tenham diminuído ao longo das décadas, viajar para o espaço ainda custa muito caro.

A mudança no modelo de financiamento de voos espaciais se deu porque as iniciativas estatais, na maioria dos casos, têm como finalidade pesquisas científicas que, em muitos casos, não trazem resultados práticos no curto prazo. Por outro lado, esses bilionários, além de dispor de verba, veem oportunidades de negócios que podem trazer lucros imediatos – do envio de satélites de comunicação ao turismo espacial.

Bilionários de olho no espaço

JEFF BEZOS

Fundada em 2000, a Blue Origin desenvolve “tecnologias que permitem o acesso humano ao espaço com menor custo e maior confiabilidade”, segundo as redes sociais da empresa. A companhia já desenvolveu um foguete suborbital reutilizável e montou instalações para construção, testes e lançamento de foguetes nos EUA. No Programa Artemis, além do módulo lunar, a Blue Origin contribuirá com o foguete que lançará a espaçonave ao cosmos. Já o seu Projeto Kuiper prevê lançar mais de 3.200 satélites em órbita baixa para oferecer internet a lugares remotos.

ELON MUSK

A SpaceX, empresa fundada em 2002, criou o primeiro foguete de combustível líquido a chegar à órbita da Terra com financiamento privado. Também foi a primeira empresa privada a transportar seres humanos para a Estação Espacial Internacional e a reutilizar um foguete orbital. Por meio do Projeto Starlink, deseja enviar uma plataforma de satélites para estabelecer um novo sistema de comunicação de internet. A maior ambição de Musk, no entanto, é colonizar outros planetas, como Marte.

RICHARD BRANSON

A Virgin Galactic, fundada em 2004, é o braço aeroespacial do grupo Virgin dedicada ao turismo espacial. Em 2014, um acidente com um foguete deixou um morto e as viagens ficaram paralisadas até 2019, quando a empresa levou três passageiros com sucesso além da fronteira do espaço. Na segunda-feira (28), a companhia fez uma oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês) e se tornou a primeira empresa de turismo espacial a negociar ações na bolsa de valores. Em 2017, Branson também fundou a Virgin Orbit, que envia satélites para o espaço.

Para além dos negócios

A exploração espacial também é vista pelos empresários como uma forma de contribuição à humanidade. Jeff Bezos, da Blue Origin, vê a colonização espacial como uma continuidade da vida na Terra e uma forma de garantir recursos para a sobrevivência do planeta.

“Podemos coletar recursos em asteroides e em objetos que estão perto da Terra”, disse o bilionário durante um evento no Kennedy Space Center em 2017. Ele vê a Lua como o destino mais possível para o ser humano e visualiza a construção de assentamentos permanentes nos polos lunares. “Sabemos coisas da Lua que não conhecíamos nas décadas de 1960 e 70, e com foguetes reutilizáveis podemos aplicá-las de forma acessível.”

Os planos de colonização espacial são em parte motivados pela perspectiva de que a Terra um dia se torne inabitável. Isso aparece na visão apocalíptica do dono da SpaceX, Elon Musk, por exemplo. Ele vê a exploração espacial como rota de fuga para quando uma “nova Idade das Trevas” assolar o mundo. Durante um painel no festival South by Southwest em 2018, ele disse que “se houver uma Terceira Guerra Mundial, precisamos garantir que existam seres humanos suficientes em outro lugar para que a civilização se reconstitua”.

As críticas às viagens privadas

Para economistas como a italiana Mariana Mazzucato, professora da Universidade College de Londres, o maior problema de deixar a exploração espacial nas mãos de empresas privadas é que elas estariam usando décadas de investimento público em infraestrutura espacial sem que os lucros com o turismo ou a mineração no espaço retornassem aos cofres públicos.

“Estamos privatizando e comercializando áreas como a Estação Espacial Internacional, mas o ingresso que os cidadãos estão pagando está ficando inteiramente com as empresas privadas envolvidas nessa comercialização”, disse a economista em seu canal no YouTube.

Outras questões mais práticas também são levantadas por especialistas como consequência da corrida espacial comercial, como o acúmulo de lixo espacial, a alteração de ecossistemas de outros planetas e o fato de que, dados os custos, viajar para o espaço será algo exclusivo dos mais ricos.

POR QUE as viagens espaciais são importantes

As viagens espaciais impactam nosso dia a dia já há algumas décadas.

Você está lendo este texto no Nexo, um jornal digital, hospedado na internet. Se você está acessando a rede mundial de computadores usando uma conexão de rede móvel – 3G, 4G ou 5G – agradeça aos satélites que estão em órbita, já que são eles que possibilitam a sua conexão.

Os sistemas que se utilizam de GPS também dependem diretamente dos satélites para funcionar. Com eles, você pode se localizar em um mapa digital ou requisitar serviços por meio de aplicativos, por exemplo.

Explorar o espaço, no futuro, pode trazer uma série de benefícios econômicos aos países que se aventurarem nessa área, a partir da criação de empregos e a captação de impostos.

Para além disso, as viagens espaciais são oportunidades para ampliar a base de conhecimento humano e responder dúvidas acerca do Universo que nos cerca.

As perguntas ainda são muitas, mas o lançamento de sondas como as da Iniciativa Voyager, de telescópios, como o Hubble da Nasa, e de operações tripuladas para a Estação Espacial Internacional podem ser o estopim para grandes descobertas que, no futuro, podem vir a ter aplicações práticas na nossa vida cotidiana.

O desenvolvimento tecnológico tem tornado as viagens espaciais menos custosas e mais seguras. A SpaceX, empresa de Elon Musk, revolucionou a área ao desenvolver um foguete reutilizável que volta para sua própria base após o lançamento – nos voos ao espaço, o foguete é a parte que demanda mais dinheiro. Usá-los novamente diminui os valores envolvidos.

Iniciativas recentes demonstraram que investir em viagens espaciais pode trazer grandes descobertas. Em 26 de outubro de 2020, cientistas confirmaram que moléculas de água existem na superfície lunar, o que pode trazer benefícios para futuras viagens à Lua, já que ela poderia ser usada tanto para o consumo humano, quanto para o uso nos sistemas das sondas envolvidas.

Em setembro de 2020, cientistas do Instituto Nacional de Astrofísica da Itália confirmaram a existência de lagos de água salgada em Marte que, possivelmente, conseguiriam abrigar formas de vida, uma descoberta que pode mudar o entendimento que temos sobre o planeta e sobre o desenvolvimento de seres vivos.

NO BRASIL

No campo dos voos espaciais, o Brasil carrega uma contradição: o país nunca foi muito expressivo na área, mas ao mesmo tempo apresenta iniciativas de extrema importância.

Isso porque o país não tem um histórico de enviar astronautas ao espaço. O único que foi é o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, que visitou a Estação Espacial Internacional em março de 2006, sob tutela da Agência Espacial Brasileira, ligada ao ministério que hoje ele comanda.

Ao mesmo tempo, o Brasil conta com o Inpe, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, instituição internacionalmente, fundada em 1961 e vinculada ao ministério da Ciência.

O Inpe, cujo embrião foi concebido pelo ex-presidente Jânio Quadros, tem papel fundamental no monitoramento dos biomas brasileiros, bem como as consequências das interferências humanas neles.

É o Inpe, por exemplo, que monitora o avanço do desmatamento na Amazônia ou das queimadas no Pantanal, fornecendo às autoridades e à população, imagens de satélite que mostram o tamanho do problema.

O país também conta com duas bases de lançamento importantes: o centro de lançamentos de Alcântara, no Maranhão, e o de Barreira do Inferno, na cidade de Parnamirim, no Rio Grande do Norte.

Ambas as bases atuam mais para realizar lançamentos de missões estrangeiras, de países como Estados Unidos, Canadá e França, que optam pelos centros brasileiros por conta de suas localizações privilegiadas, de fácil acesso aéreo e marítimo, com baixa densidade populacional e, o mais importante, por estarem próximas da linha do Equador.

A linha imaginária do Equador divide o planeta nos hemisférios Norte e Sul. Nas regiões próximas a ela, a velocidade de rotação da Terra é maior, o que ajuda a dar um impulso extra aos foguetes e satélites que são lançados, economizando combustível.

Nos anos recentes, a base de Alcântara se tornou motivo de disputa política. Isso porque a principal iniciativa nacional do centro de lançamentos está estagnada desde 2003.

Foto: Divulgação/Agência Força Aérea
Protótipo do Veículo Lançador de Satélites, na base de Alcântara, no Maranhão
Protótipo do Veículo Lançador de Satélites, na base de Alcântara, no Maranhão

Trata-se do VLS, o Veículo Lançador de Satélites, um foguete cujo objetivo é levar satélites para a órbita terrestre. O desenvolvimento começou em 1985 e houve três tentativas de lançamento.

A primeira delas ocorreu em 1997, com o veículo sendo destruído no lançamento. Uma segunda tentativa se deu em 1999, com o mesmo resultado. A terceira, e mais desastrosa, aconteceu em 2003, com VLS sendo destruído ainda na base de lançamento, matando 21 pessoas.

No ano 2000, os Estados Unidos tentaram firmar um acordo com o Brasil que previa áreas de uso exclusivo dos americanos na base de Alcântara e a não-inspeção de contêineres lacrados. A iniciativa não foi para frente após votação no Congresso, com os parlamentares concluindo que as negociações ameaçavam a soberania nacional.

Em 2018, o ex-presidente Michel Temer começou a negociar um novo acordo, um que fosse mais abrandado do que aquele da virada do milênio.

Um ano depois, o presidente Jair Bolsonaro assinou o acordo durante uma visita aos Estados Unidos. O texto prevê que empresas que usam tecnologia americana possam lançar seus satélites e foguetes ao espaço a partir de Alcântara, pagando ao Brasil por isso.

Em troca, o Brasil dá garantias concretas aos EUA para que não haja espionagem e roubo de equipamentos ou informações, já que o setor aeroespacial abrange muitos sigilos e patentes. Por isso o nome formal do texto é “acordo de salvaguardas tecnológicas”.

O acordo passou a valer em novembro de 2019, após ser aprovado tanto na Câmara, quanto no Senado.

EM ASPAS

“A Terra é azul”

Yuri Gagarin

cosmonauta russo, durante seu voo na nave Vostok-1

“Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”

Neil Armstrong

Astronauta, durante o primeiro pouso humano na Lua

“A Terra é apenas um pequeno palco em meio a uma gigantesca arena cósmica”

Carl Sagan

Astrônomo, no livro “Pálido Ponto Azul”

“A Terra é uma pequena cidade com muitos bairros em meio a um Universo gigantesco”

Ron Garan

Astronauta, em seu livro “The Orbital Perspective”, publicado em 2015

“Estamos conectados biologicamente uns aos outros, quimicamente ao planeta e atomicamente ao Universo”

Neil deGrasse Tyson

Astrofísico, na série documental “Cosmos”

“A Terra é o berço da humanidade, mas não podemos ficar no berço para sempre”

Konstantin Tsiolkovsky

Engenheiro aeroespacial, no artigo “Investigations of Outer Spaces by Rocket Devices”, publicado em 1911

NA ARTE

“Primeiro homem” (2018), longa biográfico sobre a vida de Neil Armstrong e a viagem à Lua.

“Perdido em Marte” (2015), filme baseado no livro de mesmo nome publicado em 2011 e que conta a história de um astronauta (Matt Damon) que acaba ficando preso em Marte após um acidente que abortou sua missão repentinamente.

“Kerbal Space Program” (2015), jogo de computador que coloca o jogador dentro de um programa espacial, com o objetivo de explicar a ciência e a tecnologia por trás das viagens espaciais

“Astronauta: Magnetar” (2012), HQ escrita e desenhada por Danilo Beyruth que inaugurou o selo de graphic novels da Mauricio de Sousa Produções. A trama mostra o Astronauta em uma missão para estudar uma estrela distante.

“2001: Uma odisseia no espaço” (1968), filme dirigido por Stanley Kubrick que apresenta uma versão ficcional do ano de 2001, com a humanidade explorando o espaço e fazendo contato com uma civilização alienígena.

“Star Trek” (1966), série de TV criada pelo roteirista Gene Rodenberry que mostra um futuro otimista para a humanidade, fundamentando a partir do entendimento das dinâmicas e funcionamentos de outros planetas e povos.

“Viagem à Lua” (1902), curta-metragem dirigido pelo francês Georges Méliès, e que mostra como seria a primeira viagem da humanidade à Lua.

VÁ AINDA MAIS FUNDO

  • “Pálido ponto azul”, livro em que o astrônomo Carl Sagan reflete sobre as possibilidades futuras da exploração espacial
  • “Laika’s Window”, livro do jornalista Kurt Caswell sobre a ida da cadela Laika ao espaço e sobre o legado de sua viagem para a União Soviética
  • “Starman”, livro dos historiadores Piers Bizony e James Doran, uma biografia de Yuri Gagarin
  • “Estrelas além do tempo”, livro da jornalista Margot Lee Shetterly sobre três cientistas negras que foram fundamentais para a Nasa durante a Corrida Espacial
  • “O primeiro homem”, do jornalista James R. Hansen, uma biografia de Neil Armstrong
  • “Crônicas espaciais”, livro do astrofísico Neil deGrasse Tyson no qual ele reflete sobre a importância e o futuro das viagens espaciais
  • “Rocket Science”, livro do engenheiro aeroespacial Andrew Rader, que explica a ciência e a tecnologia por trás dos foguetes

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