Recessão: do conceito amplo aos efeitos sobre a população

Termo se refere a períodos de retração da atividade e é uma quase constante no debate econômico brasileiro

A palavra “recessão” não é nova no léxico do noticiário brasileiro. Em um país de turbulenta história econômica – marcada por inflação alta e crises políticas frequentes –, ela é quase uma constante no debate público.

Em 2020, a pandemia do novo coronavírus desencadeou uma nova crise econômica, logo após uma das mais longas recessões da história do Brasil. Abaixo, o Nexo explica o que é uma recessão e como elas marcaram períodos dentro da história brasileira e mundial.

O QUE é uma recessão

A economia dos países funciona em ciclos, que economistas costumam chamar de “ciclos de negócios”. Nesses ciclos, há alternância entre momentos de crescimento da atividade econômica e momentos de retração. Isso também vale para a economia global, que também passa por suas oscilações cíclicas. Cada ciclo é composto de um período de retração e um período de expansão.

Uma recessão corresponde ao período em que a economia está em retração. Isso pode acontecer em um ou mais países, com duração indefinida. Uma recessão pode ser demarcada de diferentes formas no tempo e no espaço. Portanto, é um conceito amplo, sem uma regra ou definição única oficial.

A alternância entre expansão e retração, própria dos ciclos, não é regular. As expansões podem por durar por muito tempo, assim como as retrações. Porém, historicamente, nunca houve uma expansão que durasse para sempre; o mesmo vale para as recessões. Portanto, a experiência econômica até agora diz que as recessões e expansões são, na prática, inevitáveis.

PERÍODOS RECESSIVOS EM HACHURAS

Evolução do PIB brasileiro - série trimestral dessazonalizada, de 1996 a 2020. Alternância entre expansões e recessões

O gráfico acima ilustra como funcionam na prática os ciclos econômicos. As recessões estão marcadas nas hachuras, conforme os critérios do Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos). O comitê se responsabiliza por identificar, no Brasil, os períodos de expansão e recessão da economia.

Uma recessão pode atingir apenas um país durante poucos meses, ao longo dos quais a atividade econômica estará em baixa. Pode ocorrer também uma retração a nível global, num declínio que dura anos. A escala temporal e geográfica, portanto, pode variar.

Geralmente há, no entanto, um mínimo de tempo que é necessário transcorrer para demarcar temporalmente as recessões. Uma retração de curta duração na atividade econômica não necessariamente configura uma recessão. O NBER (National Bureau of Economic Research ou Escritório Nacional de Pesquisa Econômica, organização privada sem fins lucrativos dos EUA) diz que é necessário um declínio econômico “por mais do que alguns meses”.

Apesar de haver um limite inferior para a duração de uma recessão, não há limite superior. Ou seja, uma recessão precisa ter uma duração mínima (superando “alguns meses”), mas pode perdurar por anos.

Não há ligação direta necessária entre a duração e o tamanho de uma recessão. Uma recessão hipotética pode ter duração longa, mas resultar em quedas mais amenas dos indicadores econômicos do que outra recessão hipotética que seja mais breve mas mais forte. Na prática, a tendência é que um período recessivo mais comprido tenha efeitos mais graves sobre a economia, como um todo.

O olhar sobre o PIB e outros indicadores

Quando se fala em atividade econômica, o mais comum é olhar para o PIB (Produto Interno Bruto). O PIB é o resultado da soma de todos os novos bens e serviços produzidos no país em certo período. Por ser um indicador do quanto e como a economia produziu no determinado período observado, o PIB aponta se a economia se expandiu, encolheu ou se manteve igual na comparação com outros momentos.

O PIB é o indicador mais usado para medir a atividade econômica de um país. No entanto, há outros dados que podem ser úteis para entender se um país está em fase de declínio da atividade econômica ou não.

O uso de diferentes indicadores para determinar se há ou não recessão acaba sendo uma decisão arbitrária. Depende, portanto, dos métodos adotados por quem está avaliando se há ou não uma retração geral da atividade econômica.

Além do PIB, é comum também olhar para outros fatores, como nível de emprego, renda da população, produção industrial, números de vendas, entre outros. A ideia é que esses indicadores ajudam a mensurar o ritmo da economia. Se eles apontam, conjuntamente, para uma desaceleração econômica, pode ser um sinal de preocupação. Se eles mostram um cenário positivo no qual a economia está aquecida, podem ser entendidos como um indício de que a atividade caminha bem.

É normal que indicadores econômicos caminhem juntos, mas não há, necessariamente, uma relação direta entre eles. O nível de emprego, por exemplo, pode aumentar em um país em um trimestre de queda do PIB. Uma forma hipotética disso acontecer seria uma combinação de elevação na atividade industrial – resultando no acréscimo de muitos empregos – com um péssimo período de exportação da safra agrícola. Nesse quadro, mesmo que o PIB tenha caído, isso não significa necessariamente que a economia como um todo esteja em apuros.

O conceito de depressão

Além de recessão, o termo depressão é outro utilizado frequentemente para se referir a um período ruim da atividade econômica. Ele é usado para descrever o pior momento conhecido na história do capitalismo mundial – a Grande Depressão, crise financeira e econômica que teve como estopim o crash da bolsa de Nova York em 1929.

Assim como as recessões, não há uma definição oficial e objetiva para o que seja uma depressão. No entanto, há o entendimento entre economistas que uma depressão nada mais é do que uma recessão aprofundada e/ou alongada. Ou seja, é uma recessão em escala maior.

QUEM define se há uma recessão

A amplitude da definição de recessão faz com que a identificação de um período como recessivo (ou não) esteja sujeita a arbitrariedades. Há mais de um método usado para definir se há ou não uma recessão em curso.

Um deles é o da “recessão técnica”, usado muitas vezes como forma rápida e objetiva de identificar se um país está em retração econômica. A ideia da “recessão técnica” é bastante simples e se baseia apenas na observação de um indicador: o PIB. Se o PIB de um local apresenta queda por ao menos dois trimestres consecutivos, há recessão técnica. Portanto, por essa ótica, dois trimestres seriam suficientes para definir se a atividade econômica está recessiva.

A definição pode ser útil para identificar rapidamente um momento econômico ruim. No entanto, ela possui fragilidades.

Se, por exemplo, o PIB cai muito pouco por dois semestres consecutivos – duas quedas seguidas de 0,1%, por exemplo –, a ótica técnica apontaria um período recessivo, quando tal variação pode não necessariamente indicar uma retração generalizada da atividade econômica.

De forma análoga, se a economia cai muito em um trimestre, mas sobe no seguinte, pode se ter a impressão que a economia “escapou” de uma recessão – quando, na verdade, entrou em um período de retração. Um exemplo hipotético seria uma queda acentuada de 5% do PIB em um trimestre seguida de uma leve alta de 0,3%. As perdas acumuladas seriam enormes, e o fato de o PIB ter subido um pouco no semestre seguinte à queda não quer dizer necessariamente que a trajetória passou a ser de recuperação.

Por conta desse tipo de brecha, é incomum ver acadêmicos da área de economia utilizando o conceito de recessão técnica para definir se uma economia está ou não em recessão. O mais comum é olhar para outros indicadores além do PIB.

A atuação do Codace

Existe, no Brasil, um órgão especializado que acompanha o andamento da economia brasileira e determina se ela está passando por um momento de expansão ou recessão. Trata-se do Codace – Comitê de Datação de Ciclos Econômicos, ligado à FGV (Fundação Getulio Vargas).

O comitê independente foi criado em 2009 com o objetivo de estabelecer uma “cronologia de referência para os ciclos econômicos brasileiros”. Isso significa que suas leituras do momento econômico servem como parâmetro para o setor público e privado, além de auxiliar pesquisas acadêmicas que tratem do tema.

O Codace é formado por oito economistas. Em junho de 2020, o comitê era formado majoritariamente por economistas ligados à FGV. O Codace é coordenado pelo ex-presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore.

Seguindo a ideia de ciclos de negócios, o Codace separa a trajetória da economia em dois tipos de momentos: recessão e expansão. O ponto de virada de uma expansão para uma recessão é chamado de pico. Analogamente, o momento de transição que marca o fim de uma recessão e início de uma expansão é chamado de ponto de vale.

A cada vez que o comitê identifica um desses pontos de virada, ele emite um comunicado relatando o início ou o fim de uma recessão. Para definir se um período é recessivo ou expansivo, o Codace leva em conta a trajetória de “diversos segmentos” da economia brasileira. Se houver uma retração perceptível no conjunto de variáveis – não só o PIB – por ao menos dois trimestres consecutivos, considera-se que há uma recessão.

O comitê olha para variáveis como produção, vendas, emprego e renda. Em diversos momentos, recessões definidas pelo Codace contrariaram a noção de recessão técnica, estendendo-se por períodos em que o PIB não necessariamente caiu por dois trimestres consecutivos. Na recessão de cinco trimestres entre o primeiro de 1998 e o primeiro de 1999, por exemplo, houve um primeiro período de queda do PIB, seguido por dois momentos consecutivos de alta. Isso não impediu a atividade econômica de estar em retração, pela visão do Codace.

Apesar do comitê ter sido criado em 2009, ele tratou de analisar toda a trajetória da economia brasileira desde o início de 1980. Nos pouco mais de 40 anos analisados, dez recessões de diferentes tamanhos e profundidades foram identificadas. A mais recente é a que se iniciou no primeiro trimestre de 2020, comunicada pelo Codace em 26 de junho.

A definição nos EUA

O Codace segue o modelo proposto pelo NBER (National Bureau of Economic Research), que faz trabalho semelhante nos EUA. O NBER começou a fazer datações de ciclos econômicos em 1979. Com mais dados econômicos robustos disponíveis que no Brasil, o comitê americano identificou todos os ciclos econômicos desde 1854, apontando 35 recessões na economia dos EUA desde então.

Assim como o Codace, o comitê do NBER é formado por oito economistas ligados a universidades importantes do país. Em 2020, participam do grupo pesquisadores das universidades de Harvard, Princeton, Stanford, Northwestern, MIT e da Califórnia.

Pelo mundo, há outras organizações como o NBER e o Codace dedicadas a identificar o andamento dos ciclos econômicos em diferentes países e regiões.

Os órgãos internacionais

Quando se leva a discussão econômica para a escala global, é necessário considerar que pode haver muita heterogeneidade na trajetória da economia dos diferentes países. Enquanto alguns países estão em crise, outros podem estar crescendo. Por isso, não necessariamente o PIB mundial – aquele que mede todos os bens e serviços produzidos no planeta – precisa estar em queda para ocorrer uma recessão global.

Desde os anos 1960, o PIB mundial só teve queda anual uma vez, em 2009. Mas o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial – os dois maiores e mais importantes órgãos internacionais na área de economia – identificam que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, houve quatro recessões globais: 1975, 1982, 1991 e 2009.

Ambos FMI e Banco Mundial usam métodos semelhantes para definir se há ou não uma recessão global. Para que esse fenômeno ocorra, é necessário que haja uma queda no PIB mundial per capita, além de queda em indicadores amplos como produção industrial, nível de emprego, fluxos de capital, consumo de petróleo e comércio internacional.

POR QUE recessões acontecem

As economias dos países são estruturas grandes e complexas, compostas por muitos agentes que atuam de formas variadas. As recessões podem vir de diferentes setores, e por motivos diversos.

As crises podem ter origens financeiras ou econômicas. Mas mesmo dentro desses escopos amplos, há vários tipos de eventos que podem causar uma recessão.

Origens

ECONÔMICA

Quando se fala em origem econômica, trata-se da economia “real”, produtiva. Ou seja, trata-se dos mercados onde são produzidos bens e serviços não-financeiros, que compõem a maior parte de uma economia. Choques de diferentes naturezas podem afetar a economia produtiva. Em 2020, na crise do coronavírus, os setores produtivos ficaram parcialmente paralisados, o que levou a uma recessão enorme

FINANCEIRA

Uma crise que se origina no setor financeiro ocorre por algum desequilíbrio vindo dos mercados de ativos financeiros, onde se negociam ações de empresas, títulos públicos, moedas estrangeiras e outros. Uma crise financeira pode transbordar para a economia real, como ocorreu na recessão global iniciada em 2008, quando a economia foi gravemente afetada pela crise que começou nos bancos

Por trás dos desequilíbrios

diferentes fatores que podem causar desequilíbrios econômicos que se transformam em recessões, seja a partir do setor financeiro ou do setor produtivo.

Há, por exemplo, choques exógenos que afetam a produção de bens e serviços. É o caso de desastres naturais e pragas – ou mesmo pandemias, como ocorre em 2020. Outro evento extraordinário que pode criar uma retração econômica é a guerra, que pode destruir a capacidade produtiva de um país e reduzir a força de trabalho.

Uma recessão também pode decorrer de inflação acelerada. Preços podem acelerar e levarem o consumo e o investimento a caírem, reduzindo o ritmo da economia. Se isso ocorre, empresas recebem cada vez menos dinheiro, cortam gastos e demitem – o que reduz o consumo e gera uma espiral negativa na economia.

Recessões também podem vir em momentos econômicos aparentemente bons. Imagine que o PIB está crescendo muito a cada ano e muitas pessoas e empresas estão tomando crédito nos bancos para fazer investimentos, sob a crença de que a economia continuará andando bem. Nesse cenário, se a economia não crescer tanto quanto os tomadores de empréstimo esperavam, isso pode fazer com que eles não consigam pagar suas dívidas. Além de eventuais demissões e cortes de gastos, pode haver inadimplência. A depender da magnitude do problema que fica para os bancos, os efeitos disso podem se alastrar ainda mais pelo restante da economia.

Os governos também podem ser os responsáveis por causar uma recessão. Um exemplo é um governo que sobe os juros demais, o que reduz o volume de crédito na economia a um nível baixo demais e leva a uma desaceleração generalizada da atividade. Outro exemplo é alguma ação do governo que leva a uma redução ou bloqueio no dinheiro disponível aos cidadãos, como foi feito no Plano Collor em 1990.

O próprio medo de uma recessão pode levar a uma recessão, em um fenômeno que economistas chamam de profecia auto-realizada. Nesse caso, o temor de que possa haver uma retração na atividade econômica leva os agentes a reduzirem seus gastos e investimentos. Isso, por si só, pode levar a uma desaceleração na economia, que pode se transformar em uma recessão.

Há, portanto, muitos jeitos diferentes de uma recessão surgir. Há sempre muitos fatores dialogando ao mesmo tempo, e cada um deles pode contribuir de uma forma para levar a uma recessão.

Prevendo recessões

As muitas variáveis que podem causar uma retração tornam difícil o exercício de previsão de recessões. Não só há muitos fatores que podem influenciar o curso da atividade econômica, como muitos dados econômicos são divulgados algum tempo depois de terem acontecido – o próprio PIB de um trimestre costuma levar entre um e dois meses para ser divulgado.

Ainda assim, há economistas que tentam achar elementos que ajudem a identificar se uma recessão está próxima ou não.

Algumas das variáveis para as quais economistas olham são ligadas ao mercado de trabalho e ao ritmo de produção. É o caso de encomendas do setor industrial que, se estiverem caindo, podem apontar um sentimento ruim entre empresários. Também é o caso do nível de emprego de uma economia, que pode indicar que empresários estão cortando gastos e que a economia está prestes a ter uma queda.

É possível também olhar para o crédito. Se os bancos exigem maiores garantias e juros para emprestar aos negócios (em especial pequenos e médios), pode ser um sinal de percepção de riscos em alta na economia – o que indicaria um cenário ruim se aproximando.

Por fim, há, no mercado financeiro, um outro fator que alguns economistas apontam como bom termômetro sobre o futuro da economia. Trata-se da relação entre as taxas de juros de curto e longo prazos nos títulos públicos de um país. Se os juros de longo prazo estão iguais ou mais baixos que os de curto prazo (fenômeno chamado de curva de juros invertida), pode ser um sinal de que uma recessão está chegando.

Quando uma pessoa compra um título público, ela está emprestando dinheiro para o governo a uma determinada taxa e com um certo prazo de retorno. Em condições normais, a taxa para empréstimos longos é maior do que para curtos. Isso porque o cenário do longo prazo é mais incerto — em 10 anos, por exemplo, muita coisa pode acontecer que tipicamente não aconteceria no futuro próximo. Apostar em um quadro mais distante da economia e do mundo envolve mais riscos, o que se reverte em mais ganhos.

O movimento de aproximação e inversão das taxas de juros de curto e longo prazo indica que os agentes veem riscos semelhantes — ou até maiores — em fazer investimentos no curto prazo, em comparação aos de longo prazo. A expectativa, portanto, é de uma turbulência próxima. A aproximação e a inversão da taxa de juros de curto e longo prazos mostram que o mercado está pessimista.

CURVA DE JUROS AMERICANOS

Evolução dos juros nos EUA: juros em 10 anos vs juros em 2 anos. Curvas se aproximaram muito em 2008 e 2019, anos pré-crise

Há economistas que afirmam que os temores relativos à inversão da curva de juros podem levar a uma profecia auto-realizada.

QUANDO o Brasil esteve em recessão

Do primeiro trimestre de 1980 até o primeiro de 2020, o Codace identificou dez recessões. A primeira ocorreu entre o início de 1981 e o início de 1983. A mais recente foi iniciada nos primeiros meses de 2020, no período de eclosão da pandemia do novo coronavírus – apesar de os economistas do Codace terem identificado uma tendência recessiva na economia brasileira antes mesmo da chegada do coronavírus no país.

AS RECESSÕES DE ACORDO COM O CODACE

Evolução do PIB trimestral brasileiro. Dez ciclos de expansões e recessões se alternaram entre 1980 e 2020

Na história brasileira, há recessões com diferentes profundidades e durações. Nas dez recessões registradas pelo Codace, a mais profunda em termos de queda no PIB foi a primeira, entre o primeiro trimestre de 1981 e o primeiro de 1983. Foram nove trimestres com variação negativa acumulada de 8,5% no PIB brasileiro. Essa recessão foi marcada pela crise da dívida externa brasileira e pela moratória de 1982, além da inflação crescente.

Em termos de duração, duas recessões podem ser consideradas as mais longas nos registros do Codace. Uma delas ocorreu entre o terceiro trimestre de 1989 e o primeiro trimestre de 1992. Esses onze trimestres marcaram o pico da hiperinflação brasileira, que chegou a acumular mais de 6.000% em doze meses, no primeiro semestre de 1990. Nesse intervalo, o PIB acumulou queda de 7,7%.

PROFUNDIDADE E DURAÇÃO

Recessões brasileiras desde 1980: dez recessões com diferentes durações e profundidades

A outra recessão de onze meses que assolou a economia brasileira é mais recente: ocorreu entre o segundo trimestre de 2014 e o último de 2016. Essa crise foi marcada pela instabilidade política que culminou no impeachment de Dilma Rousseff (2011 a 2016); pela deflagração da Operação Lava Jato, que investigou escândalos de corrupção na gestão pública e em estatais brasileiras; pela deterioração das contas públicas; e pelo fim do ciclo das commodities, havendo desaceleração da demanda global por produtos de baixo valor agregado brasileiros. Nesse período, o PIB acumulou um recuo de 8%.

A recessão de 2014 a 2016 foi a única da qual a economia brasileira não se recuperou antes do início da recessão seguinte. Em todos os outros casos registrados pelo Codace, o período de expansão que seguiu a retração foi suficiente para superar as perdas acumuladas antes da próxima baixa. Até o fim de 2019, o PIB brasileiro ainda não havia voltado ao nível anterior à crise de 2014 e 2016, por mais que tenha passado três anos em expansão (de baixo ritmo). Quando a recessão de 2020 teve início, portanto, a retração anterior ainda não havia sido totalmente compensada, o que significa que as perdas da nova recessão – que deve ser uma das mais graves da história – se acumularão às perdas da anterior.

RECUPERAÇÃO DAS RECESSÕES

Recessões brasileiras desde 1980 e suas retomadas. Há retomadas mais demoradas e outras mais rápidas. A recessão iniciada em 2014 nunca foi plenamente recuperada

A irregularidade de profundidade e duração das recessões ocorre também nos períodos de expansão. Há diferentes períodos de alta, com impactos e resultados distintos sobre a atividade econômica. Entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990, por exemplo, houve um período de expansão econômica que durou 12 trimestres, levando a um crescimento acumulado do PIB de 19,2%. Já a expansão brasileira entre 2017 e 2019 viu 12 trimestres de expansão, mas com crescimento baixo, levando a uma elevação acumulada da atividade econômica de apenas 5,1%.

As recessões antes de 1980

Antes do período estudado pelo Codace, há diferentes períodos identificados como recessões. Em artigo publicado em 2002, os economistas Marcelle Chauvet, da Universidade da Califórnia (e integrante do Codace), e José Ailton Braga da Silva, do Banco Central, identificaram dois períodos na década de 1970 como recessivos. Ambos estavam ligados a contextos ruins da economia global e efeitos dos choques do mercado de petróleo: um ocorrendo do início de 1975 ao início de 1976, e outro ocorrendo dentro do ano de 1979.

Em dissertação de mestrado defendida em 2011 na UnB (Universidade de Brasília), a economista Mariana Fialho Ferreira identificou outra recessão no Brasil entre 1962 e 1963, em período marcado por turbulência política e econômica que culminou no golpe militar de 1964.

A análise de recessões em períodos mais antigos esbarra na questão da falta de disponibilidade de dados econômicos robustos. Se olharmos apenas para o PIB a partir de 1900, a economia brasileira registrou 16 anos de crescimento negativo até 2019. Metade deles ocorreram depois de 1980, e estão todos contemplados nas recessões identificadas pelo Codace. Os outros anos em que houve retração do PIB foram: 1902, 1908, 1914, 1918, 1930, 1931, 1940 e 1942. Muitos desses anos entram nos escopos das grandes guerras mundiais, além do período da Grande Depressão.

120 ANOS DE PIB

Variação anual do PIB do Brasil desde 1901.  Trajetória irregular, mas marcada majoritariamente por crescimento

QUAIS foram as piores recessões globais

Um estudo do Banco Mundial publicado em junho de 2020 identificou 14 recessões globais desde 1870 ��� a mais recente sendo a da pandemia do novo coronavírus. Ou seja, em um século e meio, cerca de um décimo dos anos se encaixam na definição de recessão global usada pelos órgãos internacionais. Por esses critérios, uma recessão global ocorre quando há uma queda no PIB mundial per capita, acompanhada de retração em indicadores econômicos importantes, como produção industrial, nível de emprego, fluxos de capital, consumo de petróleo e comércio internacional.

AS RECESSÕES GLOBAIS

Variação do PIB mundial per capita nas recessões globais. As piores foram (de pior para melhor): 1930 a 1932; 1945 a 1946; 1914; 2020 (com projeção do Banco Mundial)

Entre essas 14 recessões globais, as quatro maiores, pela métrica do PIB per capita, estão ligadas a momentos extraordinários na história mundial. Dentro desse critério, a crise financeira iniciada em 2008 e que resultou na recessão global de 2009 foi apenas a sétima maior retração mundial da história – atrás da crise do novo coronavírus em 2020.

A eclosão da Primeira Guerra Mundial

Na série do Banco Mundial, a primeira vez em que o PIB global caiu por três anos consecutivos foi durante o período da Primeira Guerra Mundial, entre 1917 e 1919. Ainda assim, nesses anos, a queda acumulada do PIB mundial per capita foi mais amena do que no ano de 1914, quando a guerra teve seu estopim.

Em 1914 – ano marcado pelo temor financeiro gerado pelo escalonamento das tensões geopolíticas –, o PIB per capita global recuou 6,7%. Bolsas de valores pelo mundo inteiro ficaram fechadas durante meses e houve queda generalizada nos investimentos. Sete a cada dez países do mundo registraram recessão naquele ano, segundo os dados do Banco Mundial.

A Grande Depressão

O período em que houve maior retração do PIB mundial per capita foi o da Grande Depressão. Entre 1930 e 1932, o indicador acumulou queda superior a 17%.

A crise teve como estopim o crash da bolsa de valores de Nova York em outubro de 1929. Dali a frente, a queda passou a afetar toda a economia dos Estados Unidos, em um efeito dominó. A queda da maior economia do mundo teve efeitos sobre todo o globo, durante anos. Em 1931, cinco de cada seis países do mundo estavam em recessão.

A recessão que teve origem no mercado financeiro americano levou a taxas enormes de desemprego (nos EUA, acima de 25%) pelo mundo e a três quedas consecutivas anuais no PIB global - algo que só havia acontecido uma vez antes e que desde então não ocorreu mais.

O pós-Segunda Guerra

Entre 1945 e 1946, o PIB mundial per capita caiu mais de 15%. Naquele momento, a Segunda Guerra Mundial, que havia envolvido mais de 70 países pelo mundo inteiro, alcançou seu fim. Na Europa, principal palco dos combates militares, o cenário era de destruição após a derrota da Alemanha nazista.

Parte da infraestrutura industrial estava em escombros e a força de trabalho havia sido perdida. Em 1945, o PIB global levou seu pior tombo da história, caindo 9,8%.

A recuperação ocorreu com peso importante do Plano Marshall, uma série de aportes de dinheiro dos EUA aos países europeus mais atingidos pela crise. Poucos anos depois, em 1950, o PIB global teve seu maior crescimento anual na história, de 7,9%. Também foi o terceiro ano com maior alta do PIB per capita, segundo os dados do Banco Mundial.

As previsões para 2020

Até o final da década de 2010, a maior recessão desde o fim da Segunda Guerra Mundial havia sido a chamada Grande Recessão – crise global iniciada no sistema financeiro em 2008.

Mas a crise do novo coronavírus tem o potencial de ser ainda maior que a Grande Recessão. Pelas projeções do Banco Mundial, a pandemia deve levar à quarta pior retração do PIB global per capita em um século e meio, com queda de 6,2% – comparável à de 1914.

A projeção de queda no PIB global, não per capita, é de 5,2%. No relatório em que divulgou a previsão, o Banco Mundial também deixou claro que os números podem ser ainda piores se a recessão se estender para além de 2020. Além disso, o documento ainda destaca que 2020 pode ser o ano na série histórica em que a maior porcentagem de países esteve em recessão ao mesmo tempo. A expectativa apontada pelo Banco Mundial é que 92,3% de todos os países do mundo enfrentem retrações econômicas no ano.

ONDE as recessões globais foram mais fortes

Em todos os anos da série histórica do Banco Mundial, sempre há alguns países que registram recessão. Mas em anos de crise global, esse número tende a crescer. A Grande Recessão de 2008 e 2009 e a pandemia do novo coronavírus foram as duas ocasiões desde o fim da Segunda Guerra Mundial em que mais da metade dos países esteve em recessão.

EM RECESSÃO AO MESMO TEMPO

Proporção de países em recessão ao mesmo tempo. Raramente supera 50%. Em 2020, deve superar 90% e bater recorde

Olhando para a variação do PIB em cada um dos países do mundo, podemos identificar onde as recessões globais mais recentes foram mais graves.

Bloco comunista e Oriente Médio

A recessão global de 1991 foi uma das mais brandas entre as 14 registradas pelo Banco Mundial em um século e meio. Houve queda do PIB mundial per capita, mas o PIB como um todo, sem a ponderação demográfica, teve alta de 1,3%.

Naquele ano, a economia mundial ficou marcada por políticas monetárias restritivas de governos pelo mundo; pela crise do petróleo no contexto da Guerra do Golfo; pela hiperinflação em países em desenvolvimento, como Brasil, Rússia e Peru, além de uma gama de países africanos e asiáticos; e pela desintegração do bloco comunista na Europa Oriental. Não à toa, os países mais afetados por essa recessão foram aqueles ligados ao bloco comunista ou envolvidos no conflito no Oriente Médio.

A RECESSÃO GLOBAL DE 1991

Crescimento do PIB em cada país em 1991. Mapa mostra, com ajuda de cores, quais foram os países mais atingidos pela recessão de 1991

As grandes economias

Na Grande Recessão de 2009, o impacto da recessão foi mais forte. A primeira queda do PIB global desde o fim da Segunda Guerra Mundial também atingiu com força o leste europeu, mas desta vez teve impacto potente também sobre os países do ocidente do continente. Como um todo, o PIB da zona do euro apresentou queda de 4,5% no ano.

Os países com as maiores economias do mundo foram alguns dos mais atingidos por essa recessão. Um relatório de 2015 do Federal Reserve Bank de St. Louis, nos EUA, explicou que isso ocorreu por conta da origem da recessão. Como a crise teve início no sistema financeiro, os países com sistemas financeiros mais desenvolvidos, abertos e integrados sofreram mais com a primeira onda do choque.

Já a segunda onda foi mais forte sobre países que dependiam do comércio internacional com os países desenvolvidos, em especial os que vendiam petróleo. Isso explicaria o impacto forte da crise sobre países do Oriente Médio e sobre a Rússia. O choque no continente americano também foi mais forte do que em 1991.

A RECESSÃO DE 2009

Crescimento do PIB em cada país em 1991. Mapa mostra, com ajuda de cores, quais foram os países mais atingidos pela recessão de 2009

A crise pandêmica em 2020

Em 2020, ainda não é possível saber exatamente qual será o impacto da pandemia do novo coronavírus em cada país. No Brasil, as projeções vão desde a casa dos 6% até a casa dos 9%, como a feita pelo FMI. De toda forma, a crise tende a levar ao pior resultado anual do PIB na série histórica brasileira.

Em junho de 2020, o FMI divulgou dados com projeções para o desempenho anual do PIB de alguns países e regiões do mundo. A projeção coloca países da Europa Central que foram mais atingidos pela pandemia – Itália, Espanha e França, respectivamente –, como os países com maior retração da atividade econômica. Brasil, México e África do Sul também têm projeções de queda fortes.

No geral, países asiáticos são apontados como os menos impactados economicamente, assim como países da Europa Oriental. Não é possível saber exatamente se esse cenário irá se concretizar.

COMO a recessão afeta a vida das pessoas

Recessões podem ter diferentes origens, durações e desenvolvimentos. Mas, em todos esses tipos de recessões, os efeitos que chegam à população são negativos.

A queda na atividade econômica – que aparece geralmente em forma de retrações do PIB – significa que a sociedade está produzindo menos do que produziu no momento anterior. Na prática, isso se traduz em redução nas vagas de trabalho disponíveis.

O aumento do desemprego é uma marca das recessões. Independentemente da origem da crise, períodos recessivos tendem a ser épocas de pouco dinheiro entrando para as empresas. Com isso, negócios podem fechar as portas ou ter que cortar custos para conseguir se manter em pé. Cortes nos quadros de funcionários são comuns nesses cenários, levando a demissões em larga escala.

Com mais gente sem trabalho, a renda total dentro de uma economia – a chamada massa salarial, que soma todos os rendimentos do trabalho de uma sociedade – cai. Com a renda em baixa, a demanda tende a diminuir, o que leva a menos consumo e menos investimento. Como consequência, as empresas recebem menos dinheiro ainda e as demissões aumentam novamente.

As ações dos governos

Essa espiral negativa pode ser contida ou amenizada com ações dos governos. Alguns dispositivos públicos que ajudam a amortecer os impactos são acionados prontamente. São os chamados estabilizadores automáticos, como o seguro-desemprego. Se há mais gente desempregada, o governo automaticamente paga mais benefícios desse tipo à população, o que ajuda a arrefecer os efeitos da crise.

Ainda assim, esses estabilizadores podem ser insuficientes no combate à crise. Os governos podem – e costumam – aumentar gastos para diminuir os efeitos da recessão. Isso pode ser feito por programas sociais de apoio à população mais afetada, por socorro às empresas que ameaçam fechar as portas ou por aumento de gastos para aquecer a economia e tentar gerar empregos. Esse tipo de ação é chamada de política anticíclica, uma vez que tenta estimular uma economia que está em uma trajetória de baixa.

Caso os governos optem por elevar os gastos, isso tende a levar a um aumento do nível de endividamento público. É o que ocorre em 2020 no Brasil e em todo o mundo. Como há países onde o nível de endividamento pode já estar alto no momento de início de uma recessão, há economistas que defendem que deve haver um cuidado maior para não tornar a trajetória da dívida insustentável por conta de ações contra a crise.

Segundo esse argumento, se a dívida pública de um país cresce sem previsão de retorno a uma trajetória sustentável, a percepção de risco pelo mercado aumenta e a taxa de juros demandada para emprestar àquele governo (via compra de títulos públicos) se eleva. Quanto maior o risco percebido, maior vai ser o retorno exigido, o que faz com que o custo de novos empréstimos e de rolar a dívida existente aumente. Uma dívida que dá sinais de insustentabilidade pode resultar em uma espiral de endividamento descontrolado por um governo. O endividamento público, portanto, foi (e é) assunto central na discussão das últimas recessões vividas no Brasil e no mundo.

Além dos gastos (política fiscal), o governo também tem à sua disposição outros instrumentos para combater uma recessão. Ele pode, por exemplo, reduzir a taxa de juros para tentar estimular mais empréstimos. Com o crédito a um custo mais baixo, pode haver um aumento na circulação de dinheiro na economia, o que ajudaria a aquecer a atividade.

O governo também pode ampliar a liquidez da economia, liberando mais dinheiro para os bancos, que terão mais recursos para emprestar. Assim como no caso da redução dos juros, o canal desse estímulo seria o crédito. Essas medidas são exemplos de política monetária que podem ser tomadas por um governo numa crise.

Recessão e desigualdade

Cada vez mais a desigualdade tem ganhado espaço no debate econômico. Em períodos de crise, esse assunto cresce em importância.

Um estudo publicado em 2019 no Journal of Applied Economics por pesquisadores da Universidade de Murcia, na Espanha, buscou entender a relação entre recessões e desigualdade, considerando um histórico amplo de retrações econômicas em diversos países. O estudo não encontrou evidências suficientes para afirmar que recessões levam a aumentos na desigualdade.

No entanto, outros estudos com escopos menores mostram que há casos em que recessões levaram a aumentos na concentração de renda e até mesmo de riqueza. O termo renda se refere ao fluxo de dinheiro que entra a cada mês nas contas das famílias. Já o termo riqueza trata dos ativos totais que alguém tem: seu patrimônio, conta bancária, imóveis, investimentos, etc.

Dados do Federal Reserve – o Banco Central americano – mostram que a Grande Recessão de 2008 e 2009 levou a um aumento da concentração de renda e riqueza nos EUA. A recuperação nos anos seguintes à crise foi mais favorável aos mais ricos do que aos mais pobres pelas duas métricas.

Outros estudos que olham para o histórico de crises nos EUA mostram que as recessões tendem a aumentar a concentração de renda do trabalho. Isso ocorre principalmente como resultado do aumento do desemprego em momentos de crise.

No Brasil, pesquisas do FGV Social baseadas em dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que a recessão brasileira de 2014 a 2016 teve fortes efeitos sobre a desigualdade. Entre o segundo trimestre de 2015 e o terceiro trimestre de 2019 – ou seja, por 18 trimestres consecutivos – a desigualdade de renda esteve em alta no país. A população de menor renda foi a mais afetada pela longa recessão brasileira de meados da década de 2010, com efeitos que se estenderam para além do período de retração da atividade econômica.

Em 2020, a ampla maioria dos economistas entende que a recessão causada pelo novo coronavírus deve levar a um aumento da desigualdade de renda. Em uma matéria publicada em maio, o Nexo ouviu três economistas que citaram diferentes motivos pelos quais a desigualdade deve aumentar no Brasil. Entre as razões indicadas estão: maior vulnerabilidade de trabalhadores informais; menor espaço em pequenos negócios para absorver choques negativos; mercado de trabalho desigual e precário; assimetria no contágio pela covid-19, com maiores números entre os mais pobres; e maiores dificuldades de acesso à educação entre a população de baixa renda. Há, portanto, diferentes ângulos pelos quais é possível entender que haverá um aumento da desigualdade de renda por conta da recessão iniciada em 2020.

A saúde e a carreira de jovens

Os efeitos de uma recessão podem se desdobrar de forma grave para além da questão da renda e do emprego. Uma pesquisa publicada em novembro de 2019 pela revista científica The Lancet Global Health relacionou a recessão registrada no Brasil entre 2014 e 2016 com o quadro de mortalidade no período de crise. O estudo foi realizado por sete pesquisadores do Brasil e do Reino Unido que atuam na área de saúde e de economia.

Usando dados do Ministério da Saúde, do Datasus, do IBGE e outras fontes oficiais do governo, a pesquisa concluiu que cerca de 30 mil mortes no Brasil entre 2012 e 2017 podem ser associadas ao desemprego gerado pela crise. Segundo a pesquisa, se o desemprego tivesse permanecido estável no período compreendido, essas mortes poderiam ter sido evitadas. Os grupos mais afetados pelo cenário recessivo foram homens, negros e pessoas com entre 30 e 59 anos. Portanto, uma recessão pode ter efeitos sobre a saúde da população.

Além disso, os desdobramentos de uma recessão podem chegar aos jovens que estão entrando no mercado de trabalho. Um estudo publicado em 2012 por economistas de universidades dos EUA e do Canadá no American Economic Journal investigou o que acontece com quem se forma da faculdade em momentos de recessão, na comparação com pessoas que conseguiram seus diplomas em momentos de expansão econômica.

A pesquisa mostra que, além das desvantagens iniciais de entrar em um mercado de trabalho fragilizado, se formar em uma recessão tende a levar a salários menores por até dez anos após a formatura. O custo financeiro é persistente, mas tende a desaparecer após uma década, quando salários de quem se formou na crise chegam ao mesmo nível de quem se formou em momentos de expansão. Além disso, o azar de conseguir o diploma em um momento ruim da economia pode impactar a trajetória da carreira como um todo: quem passa por isso tende a começar em empresas menores e com salários mais baixos, e tende a trocar mais de emprego ao longo da carreira.

EM ASPAS: frases sobre recessão

“O colapso econômico atual, ao contrário dos que o mundo experimentou em 1929 e 2008, não é fruto do contágio da economia real por uma crise no setor financeiro e sim do contágio da economia real por uma crise de saúde pública”

Laura Carvalho

economista da USP, em coluna publicada no Nexo em maio de 2020

“Embora se fale que foi uma das piores e mais demoradas recessões, a média desse período foi bem pior para a base da distribuição”

Marcelo Neri

economista e diretor do FGV Social, sobre a recessão de 2014 a 2016, em entrevista ao Nexo em fevereiro de 2020

“O problema central da prevenção de depressões foi resolvido, para todos os efeitos práticos, e de fato está resolvido há muitas décadas”

Robert Lucas

economista da Escola de Chicago e vencedor do prêmio Nobel de economia (1995), em artigo publicado em 2003 na American Economic Review

“A única coisa que devemos temer é o medo em si”

Franklin Delano Roosevelt

presidente dos EUA (1933 a 1945), no discurso de posse em 1933. Ele se referia ao medo que induzia as pessoas a guardar dinheiro, em vez de gastar, em meio ao contexto da Grande Depressão.

“[Se os governos não agirem], nós devemos esperar o colapso progressivo da estrutura existente de contratos e instrumentos de endividamento, acompanhado pelo total descrédito da liderança ortodoxa nas finanças e no governo, com um resultado final que não podemos prever”

John Maynard Keynes

economista britânico, em março de 1933

NA ARTE: a recessão ilustrada

Photogrammar”, site da Universidade de Yale que reúne 170 mil fotos do período da Grande Depressão nos EUA

“As vinhas da ira” (1939), livro de John Steinbeck centrado em uma família pobre do Oklahoma que passa por dificuldades financeiras decorrentes da Grande Depressão

“A grande aposta” (2015), filme de Adam McKay

“Trabalho interno” (2010), documentário de Charles Ferguson

Vá ainda mais fundo

A retomada da economia brasileira comparada às de crises anteriores”, gráfico do Nexo publicado em março de 2020

“1929: A grande crise”, livro do economista John Kenneth Galbraith publicado em 1955

As recessões brasileiras nas últimas quatro décadas”, reportagem especial do jornal O Globo

The NBER’s Recession Dating Procedure”, relatório do NBER que detalha as metodologias usadas para identificar recessões

Colaboraram Lucas Gomes e Gabriel Zanlorenssi com os gráficos

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