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Feminismo: origens, conquistas e desafios no século 21

Marcado pela pluralidade de pautas, movimento por direitos das mulheres segue em constante transformação. O ‘Nexo’ apresenta os momentos-chave, as diferentes ondas e as principais figuras que contam essa história

O feminismo chega à segunda década do século 21 sob ataque de movimentos políticos e sociais reacionários, mas também reafirmando sua influência na cultura e na política a partir de avanços significativos.

Ao mesmo tempo, deixa cada vez mais claro que a luta pela igualdade entre mulheres e homens não é monolítica, tampouco foi ao longo da história. É mais exato falar, portanto, de feminismos.

Abaixo, o Nexo resgata grandes figuras, conquistas, debates internos, críticas sofridas e pautas ainda urgentes para os vários feminismos, tão presentes no debate público atual.

O QUE é feminismo

O feminismo é um movimento social e político que reivindica igualdade entre mulheres e homens. Não se trata, dessa forma, de um movimento sexista, que tenta impor a superioridade das mulheres sobre os homens.

A origem do conceito é atribuída a Charles Fourier (1772-1837). O teórico do socialismo utópico teria usado a palavra feminismo pela primeira vez entre 1808 e 1841. Em seu livro “Teoria dos quatro movimentos”, Fourier defende que o avanço na conquista de liberdade para as mulheres é um pré-requisito para o progresso de toda a sociedade. O termo se popularizou nas décadas seguintes, a princípio em países como Estados Unidos e Reino Unido.

As ideias e ações feministas tentam superar uma arraigada desigualdade de gênero, que se reflete na falta de representatividade política das mulheres, que é histórica e se mantém ainda hoje, na desigualdade salarial em relação a homens que realizam o mesmo trabalho, nas estatísticas de violência contra a mulher, nos padrões de beleza, na forma de educar meninas e meninos e em uma série de outros aspectos.

Gráfico em linha mostrando a desigualdade salarial entre mulheres e homens no brasil de 2012 a 2018

“Algumas pessoas perguntam: ‘Por que a palavra feminista? Por que não só dizer que você acredita nos direitos humanos ou algo assim?’ Porque isso seria um jeito de fingir que não são as mulheres que têm, por séculos, sido excluídas. Isso seria uma forma de negar que os problemas de gênero afetam as mulheres”, diz a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

O combate à exclusão e a desigualdades variou ao longo do tempo, com protagonistas diferentes. Há vários feminismos, com diversidade e heterogeneidade entre as mulheres e suas demandas. Reconhecer o caráter plural do movimento legitima a contribuição de mulheres de diferentes etnias, origens sociais, orientações sexuais e identidades de gênero: negras, indígenas, asiáticas, lésbicas, bissexuais, transgêneros.

No fim do século 19 e início do século 20, por exemplo, mulheres se juntaram para reivindicar pautas como o direito ao voto. Em geral, eram brancas e de classe alta. Concomitantemente, mulheres trabalhadoras e de etnias não brancas, inicialmente não identificadas como feministas, também se organizavam por direitos, reivindicando pautas ligadas às suas realidades. No decorrer do século 20, esses grupos tensionaram a agenda dominante do feminismo.

No século 21, o movimento ganhou fôlego renovado em várias partes do mundo, ampliando seu alcance por meio da internet e colocando em prática novas formas de mobilização e organização.

QUEM são as precursoras do feminismo

A luta de mulheres contra as estruturas de opressão – assim como a reflexão e elaboração crítica sobre a condição de desigualdade a que estiveram historicamente submetidas – antecede a palavra feminismo e a existência de um movimento feminista organizado.

As protofeministas

Christine de Pizan (1364-não se sabe o ano de sua morte), filósofa e escritora nascida na Itália, publicou em 1405 “O livro da cidade das mulheres”, obra em prosa na qual ela reúne figuras femininas célebres da história em uma cidade alegórica, em resposta à misoginia da obra “Romance da rosa”, de Jean de Meun.

A francesa Marie de Gournay (1565-1645) já argumentava em favor do direito das mulheres à educação, um privilégio restrito aos homens na época.

Por sua vez, Sor Juana Inés de La Cruz (1648-1695), filósofa, poeta, dramaturga e escritora autodidata, é uma figura primordial do feminismo nas Américas. Se tornou freira com o objetivo de evitar o casamento e para prosseguir com seus estudos e defendeu, em uma famosa carta a um bispo, seu direito e de todas as mulheres de acessar o conhecimento.

As pioneiras

No século 18, as mulheres não só produziram textos como passaram à ação coletiva, realizando encontros e reuniões para reivindicar direitos. Sua atuação no Ocidente foi impulsionada por ideais Iluministas, como a defesa da liberdade individual e a ênfase no desenvolvimento intelectual, e por dois marcos que colocaram em xeque estruturas sociais: a Revolução Francesa e a guerra de independência dos Estados Unidos.

Duas defensoras dos direitos das mulheres que viveram nesse período e deixaram textos fundamentais para a formação do movimento feminista foram Olympe de Gouges (1748-1793) e Mary Wollstonecraft (1759-1797).

Mulheres tiveram um papel ativo na Revolução Francesa. Suas reivindicações, porém, não estavam sendo ouvidas. Após a Declaração dos direitos do homem e do cidadão ser proclamada em 1789, a dramaturga e ativista francesa Olympe de Gouges publica “A declaração dos direitos da mulher e da cidadã” em 1791.

Seu artigo primeiro afirma que “a mulher nasce livre e tem os mesmos direitos do homem”. De Gouges foi executada na guilhotina em 1793, no Período do Terror da revolução, por fazer críticas ao poder instituído.

Apenas um ano depois da publicação da declaração de Olympe de Gouges, a educadora e ativista inglesa Mary Wollstonecraft lança, em 1792, seu “Reivindicação dos direitos das mulheres”.

No livro, defende que as mulheres são tão racionais quanto os homens e que ambos deveriam ter o mesmo acesso à educação. Ela critica as contradições presentes na obra de pensadores iluministas como Jean-Jacques Rousseau, que não estenderam seus ideais de liberdade e cidadania a elas.

A preocupação com a instrução feminina nessa época não era exclusividade de mulheres europeias. Nana Asma’u (1793-1864), princesa do califado de Sokoto, território atual da Nigéria, defendeu que a educação das meninas deveria ser institucionalizada e padronizada. Intelectual que estudava o Corão e era fluente em várias línguas, ela treinou uma rede de professoras, as jajis, que viajavam pelo império ensinando mulheres em suas casas.

QUAIS as ondas do feminismo e suas protagonistas

A história do feminismo a partir do século 19 é comumente contada por meio de uma periodização em ondas. Ela enfatiza momentos em que o feminismo tomou conta do debate público, com reivindicações e discussões irrompendo com maior força em torno de determinadas pautas.

A metáfora das ondas, porém, não é unânime. Há muitas contestações em torno dessa categorização, como a de que ela sugere ter havido gerações monolíticas de feministas, organizadas a cada vez em torno uma agenda unificada e pressupondo a existência de um feminismo único. Ela também pode levar à suposição de que não há continuidade entre as lutas e a produção teórica dos diferentes momentos, o que tampouco é verdade.

A primeira onda

O que se convenciona como a primeira onda vai de meados do século 19 às primeiras décadas do século 20, sendo caracterizada principalmente pela reivindicação do direito ao voto e ao acesso igualitário à educação.

O primeiro país em que as mulheres puderam votar foi a Nova Zelândia, em 1893. Ao longo da primeira metade do século 20, esse direito foi conquistado em dezenas de outras nações.

Para que isso acontecesse, ativistas pelo sufrágio chamadas de sufragistas – mulheres instruídas, pertencentes às classes mais altas – fizeram protestos expressivos e, muitas vezes, radicais em países como Estados Unidos e Inglaterra.

Elizabeth Stanton (1815-1902) foi uma das figuras centrais na luta pelo sufrágio nos EUA. Stanton, que era também abolicionista, foi uma das organizadoras da Convenção de Seneca Falls em 1848.

Primeira assembleia realizada no país para discutir os direitos das mulheres, o evento reuniu no estado de Nova York cerca de 300 pessoas, com uma ampla maioria feminina. Teve como resultado a publicação de um importante documento, a “Declaração dos direitos e sentimentos”, redigida por Stanton, que denunciava o status inferior em que as mulheres eram mantidas e listava resoluções para que alcançassem igualdade moral, econômica e política. O item que pleiteava o direito ao voto para as mulheres foi o mais controverso.

Nos anos que se seguiram, mais conferências pelos direitos das mulheres foram realizadas no país. Em uma delas, ocorrida em 1851 na cidade de Akron, Ohio, a ativista abolicionista e pelos direitos das mulheres Sojourner Truth (1797-1883) proferiu um discurso histórico, conhecido pela frase “Ain’t I a woman?” (Por acaso não sou uma mulher?), no qual coloca em questão quem se enquadraria em uma certa definição da mulher como um ser frágil e delicado.

Nascida escravizada no estado de Nova York, conseguiu se libertar em 1826, indo para a capital, onde trabalhou como dom��stica e se dedicou à pregação religiosa. Ela teve contato com o abolicionismo em uma comunidade utópica em Massachusetts e, pouco mais tarde, com o movimento de mulheres, passando a frequentar reuniões sufragistas. Era uma figura magnética e poderosa oradora, que advogou pelas duas causas até o fim da vida.

Organizadas em associações pelo sufrágio, Stanton e outras mulheres, como Susan B. Anthony (1820-1906), continuaram militando pelo direito ao voto em várias frentes: realizando petições, apresentando emendas à Constituição e sendo presas por tentarem votar. O primeiro estado em que as americanas tiveram direito ao voto nos EUA foi o de Wyoming, em 1869. Nos anos seguintes, o direito foi sendo conquistado em diferentes estados, mas, em nível federal, foi obtido apenas em 1920. Alguns estados, no entanto, ainda tinham leis que restringiam o voto de pessoas negras, o que impediu algumas mulheres afro-americanas de votarem até a aprovação da Lei do Direito ao Votos em 1965.

No Reino Unido, diversas associações pelo sufrágio feminino se formaram a partir dos anos 1850 e petições com milhares de assinaturas foram apresentadas ao parlamento britânico. O movimento, no entanto, se dividiria em torno de táticas de protesto muito distintas.

A National Union of Women’s Suffrage Societies, frente que passou a reunir diversas sociedades de sufrágio do país em 1897, era comandada pela sufragista Millicent Fawcett (1847-1929) e se utilizava de instrumentos de pressão pacíficos e legais, como escrever cartas a parlamentares e realizar marchas e comícios. Em 1903, Emmeline Pankhurst (1858-1928), uma das integrantes da organização, fundou, junto com suas filhas, um grupo dissidente, chamado Women’s Social and Political Union.

As mulheres que formavam esse grupo ficaram conhecidas como suffragettes, e passaram a adotar uma abordagem mais radical, chamando atenção do público para sua causa por estarem dispostas a ser presas, feridas e até mortas. O diminutivo pejorativo do sufixo “ette”, cunhado em um artigo do jornal The Daily Mail para menosprezá-las frente àquelas que seriam as sufragistas “verdadeiras”, foi adotado de maneira triunfante pelo grupo de Pankhurst.

Tencionando angariar apoio popular a partir da publicidade gerada por seus atos e por seu consequente encarceramento, as suffragettes recorreram a bombas, incêndios criminosos, quebraram janelas e se acorrentaram a prédios públicos. Também realizaram marchas e atos públicos, como o “Parlamento de Mulheres” de 1908, que reuniu 500 mil delas no Hyde Park, em Londres. Presas, fizeram greve de fome para seguir chamando atenção do público para sua pauta, passando a ser submetidas à alimentação forçada com tubos inseridos em suas gargantas.

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918), acabou sendo decisiva para a conquista do direito ao voto no Reino Unido. As sufragistas apoiaram como civis os esforços de guerra do país, conquistando a simpatia de muitos dos que eram alheios à causa. Meses antes do fim da guerra, em 1918, mulheres acima dos 30 anos com propriedades passaram a poder votar no Reino Unido e Irlanda. Mulheres da classe trabalhadora ficaram de fora. A conquista do direito ao voto por todas as britânicas acima de 21 anos ocorreu apenas em 1928, semanas após a morte de Emmeline Pankhurst.

À margem das manifestações reconhecidas como parte dessa primeira onda do feminismo, nos séculos 19 e início do 20, estavam mulheres operárias que se organizavam em sindicatos e associações separadas dos homens, reivindicando melhores condições de trabalho.

O evento que deu origem ao Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, tem ligação com esses movimentos. Em 1908, 15 mil mulheres marcharam em Nova York reivindicando jornadas de trabalho mais curtas, pagamentos mais justos e, também, o direito ao voto. No ano seguinte, o Partido Socialista da América fez da data o primeiro Dia Nacional da Mulher. A adoção mundial da data foi sugerida pela ativista feminista e socialista Clara Zetkin (1857-1933).

Além de Zetkin, Rosa Luxemburgo (1871-1919) e Alexandra Kollontai (1872-1952) estavam entre as mulheres que, paralelamente à organização das trabalhadoras fabris em diferentes países, refletiam sobre a dupla opressão sofrida pela mulher operária e sobre sua função no capitalismo.

Também é menos conhecida, na historiografia ocidental do feminismo, a emergência do movimento em países orientais. No Japão, por exemplo, feministas pioneiras como Hiratsuka Raicho (1886-1971) e Ichikawa Fusae (1893-1981), atuaram juntas pelos direitos políticos das mulheres nas primeiras décadas do século 20. Raicho também criou a primeira revista literária voltada para mulheres do país, a Seito, conhecida por desafiar a moral e o papel social destinado às mulheres na época. Já Huda Sha'arawi (1879-1947) é conhecida como a precursora do movimento de mulheres no Egito. Fundou em 1923 a União Feminista Egípcia, que tinha como objetivo o sufrágio, reformas legislativas que ampliassem as liberdades das mulheres egípcias e maior acesso à educação.

No Brasil, o tema da emancipação feminina já aparecia na imprensa, inclusive em publicações editadas por mulheres, durante a segunda metade do século 19. Assim como em outros países, o acesso à educação formal pelas mulheres era uma pauta importante nesse momento.

Destaca-se a figura de Nísia Floresta (1810-1885), educadora, escritora e poeta, pioneira do feminismo do Brasil. Ela fundou em 1838, no Rio de Janeiro, o Colégio Augusto, voltado para meninas. Seu modelo pedagógico era revolucionário por oferecer a elas o mesmo nível de ensino disponível então somente para jovens do sexo masculino. Floresta colaborou ainda com jornais e publicou 15 obras em diferentes idiomas, incluindo uma “tradução livre” de “Reivindicação dos direitos das mulheres”, de Mary Wollstonecraft, lançada em 1832 com o título “Direitos das mulheres e injustiça dos homens”.

Já no século 20, a reivindicação do direito ao voto pelas mulheres também ganhou destaque no Brasil, sobretudo a partir da fundação da Federação Brasileira para o Progresso Feminino em 1922. As sufragistas brasileiras também eram mulheres da elite.

Foto: Domínio público
Grupo de mulheres vestidas à moda dos anos 1920 e 1930 posando para foto
Integrantes da Federação Brasileira para o Progresso Feminino, em 1930

A bióloga Bertha Lutz (1894-1976) foi uma das figuras centrais desse movimento. Ela havia tido contato com as sufragistas na Europa, onde realizou o ensino superior e, ao retornar ao Brasil, se tornou a principal articuladora da organização. As pressões da federação resultaram na instituição do voto feminino nacional pelo código eleitoral publicado em 1932 – até a década de 1960, porém, só mulheres assalariadas podiam votar. Nas primeiras eleições em que as brasileiras puderam exercer seu direito, em 1934, Lutz foi eleita deputada federal suplente, tomando posse dois anos depois. Seu mandato foi curto: chegou ao fim com o golpe dado por Getúlio Vargas em 1937, que fechou o Congresso e instituiu o Estado Novo. O golpe pôs fim também às atividades da Federação Brasileira para o Progresso Feminino.

Envolvida no movimento sufragista britânico e na organização pacifista e operária Women’s Co-operative Guild, a escritora Virginia Woolf (1882-1941) não só participou da movimentação feminista de sua época como antecipou discussões que ganhariam maior reverberação entre as feministas nas décadas posteriores. Para além de uma obra de ficção inovadora, Woolf produziu ensaios fundamentais para o pensamento feminista do século 20, como “Um teto todo seu”, de 1929, que trata do impacto da condição das mulheres sobre sua produção literária, e “Três Guinéus”, de 1938, às vésperas do início da Segunda Guerra Mundial, no qual relaciona ordem patriarcal e militarismo.

Para Woolf, experiências pessoais das mulheres poderiam ser a base para a transformação social. Essa ideia se conecta com a definição aplicada à segunda onda do feminismo. Esse período é associado ao slogan “o pessoal é político”, uma afirmação de que as experiências pessoais das mulheres não eram insignificantes e estavam conectadas às estruturas de poder que as oprimiam.

A segunda onda

As feministas identificadas com a segunda onda, delimitada entre as décadas de 1960 e 1980, estavam interessadas em tratar da sexualidade, do prazer feminino, dos direitos reprodutivos e da saúde da mulher, da violência doméstica, do estupro, e do trabalho doméstico não remunerado realizado pelas mulheres.

Uma contribuição fundamental para esta geração e para as próximas foi feita em 1949, com a publicação de “O segundo sexo” pela filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), uma densa pesquisa sobre a condição feminina em diferentes momentos históricos. Ela introduziu a ideia de que ser mulher não é uma determinação do sexo biológico, mas uma construção social, expressa na famosa frase “não se nasce mulher, torna-se”. Nessa construção estaria a base da opressão das mulheres. O valor atribuído por ela à experiência pessoal das mulheres encorajou a percepção de uma irmandade entre elas devido à opressão compartilhada.

A infelicidade de mulheres americanas brancas e de classe média na década de 1960, por exemplo, foi identificada por Betty Friedan (1921-2006) como uma questão coletiva, chamada por ela de “problema sem nome”. No livro “A mística feminina”, publicado em 1963, ela associa a insatisfação dessas mulheres a uma feminilidade idealizada, devotada à família e ao casamento, que vinha sendo fortalecida social e culturalmente a partir do pós-guerra. Com grande repercussão nos EUA e em outros países, incluindo o Brasil, a obra é creditada por ter desencadeado a segunda onda no país.

A chegada da pílula anticoncepcional ao mercado nos anos 1960 desempenhou um papel determinante para a ampliação da liberdade sexual feminina e para o planejamento familiar de mulheres casadas. A invenção de um método contraceptivo eficaz e reversível foi influenciada pela atuação da enfermeira e ativista pelo controle de natalidade Margaret Sanger (1879-1966), que desde o início do século 20 buscava garantir acesso à informação e aos métodos de prevenção de gravidez para mulheres nos EUA. Sanger ajudou a viabilizar financeiramente as pesquisas realizadas na década de 1950 que deram origem à pílula.

O episódio da “queima de sutiãs” que ficou associado (muitas vezes com uma carga estereotipada e antifeminista) às feministas por décadas ocorreu nessa época, nos EUA. O contexto foi o de um protesto realizado pelo Movimento de Libertação das Mulheres em 1968 contra o concurso de beleza Miss América.

Centenas de feministas foram a Atlantic City protestar contra o evento, denunciando a objetificação e o racismo promovidos por ele. Uma de suas ações foi montar uma “lata de lixo da liberdade”, na qual jogavam itens associados à feminilidade tradicional, entre os quais estavam os sutiãs e revistas Playboy. Na prática, os objetos não foram queimados, mas o mito criado pelas notícias sobre o evento perdurou e se cristalizou na reação contrária ao feminismo que se fortaleceu nos anos 1980.

Em 1975, o antropólogo Gayle Rubin (1949) fez uma contribuição teórica importante para o feminismo: no ensaio “O tráfico de mulheres, notas sobre a economia política do sexo”, formula a existência de um “sistema sexo-gênero”. Cria assim um novo conceito, o do gênero, caracterizado como uma “divisão de sexos imposta socialmente”. Ele dá forma ao que feministas como Simone de Beauvoir já vinham afirmando há décadas: as identidades de homens e mulheres não são dadas pela biologia, mas socialmente construídas.

Assim como era o caso em relação às sufragistas, mulheres de outras classes e identidades raciais tinham demandas distintas em relação às mulheres brancas e de classe média que são colocadas como protagonistas da segunda onda. Reivindicar o direito de trabalhar fora de casa, por exemplo, não fazia sentido para mulheres negras e pobres, que haviam trabalhado fora desde sempre.

O ativismo e o pensamento de mulheres negras sobre sua dupla opressão, de gênero e raça, já vinha de longa data, como indica a já mencionada trajetória de Sojourner Truth. A partir da década de 1960, porém, elas passam a afirmar a necessidade de falar em um feminismo negro, no qual a temática racial estivesse, junto com a opressão de gênero, em primeiro plano.

A discussão sobre racismo e preconceito de classe dentro de feminismo ganhava maior destaque. Em 1981, Angela Davis (1944) publica “Mulheres, raça e classe”, um divisor de águas na análise histórica da luta das mulheres à luz de questões de raça e classe. Ativista, pesquisadora e professora, Davis era conhecida por sua atuação no movimento dos direitos civis negros na década de 1960 e por sua participação na organização revolucionária Panteras Negras.

No Brasil, assim como em outros países da América Latina, a mobilização das mulheres contra o machismo nas décadas de 1960 e 1970 tinha um pano de fundo específico: a ditadura militar (1964-1985). Entre as muitas publicações da imprensa alternativa da época, houve também importantes periódicos feministas, como Nosotras, Mulherio e Brasil Mulher. Além disso, mesmo em um contexto de repressão, grupos feministas se formaram em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo – e também no exílio, em países como Estados Unidos, Chile e França.

Sua atuação, porém, era vista com hostilidade por setores da esquerda, que consideravam secundárias as pautas feministas relacionadas, por exemplo, à sexualidade e à autonomia das mulheres sobre o próprio corpo. Na visão desses setores, a redemocratização, a anistia e as diferenças de classe deveriam ter prioridade e o feminismo estaria “desviando” seu foco.

As mulheres não deixaram de militar também por essas questões em função de sua atuação feminista. Em 1975, por exemplo, fundaram o Movimento Feminino pela Anistia, liderado pela advogada Therezinha Zerbini e pioneiro na reivindicação do retorno de exilados políticos ao país. Maria Amélia de Almeida Teles (1944) militou contra o regime militar, pelo qual foi presa e torturada, e, ao mesmo tempo, foi uma das feministas a encabeçarem a luta por creches entre o final dos anos 1970 e início dos 1980.

A discussão sobre raça e a articulação da população negra por direitos também estava a pleno vapor no Brasil da década de 1970. Lélia Gonzalez (1935-1994), antropóloga, filósofa, professora, escritora e ativista dos movimentos feminista e negro, participou da fundação do Movimento Negro Unificado em 1978, e do Coletivo de Mulheres Negras N'Zinga, em 1983. Sua obra dá destaque ao protagonismo negro, sobretudo de mulheres, na formação social e cultural do Brasil, mas é ainda pouco lida e conhecida.

Na redemocratização, o movimento de mulheres seguiu ativo e participou da Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, pressionando por direitos e participando da elaboração do novo texto constitucional, em uma articulação que ficou conhecida como o “lobby do batom”.

A terceira onda

Iniciada nos anos 1990, a “terceira onda” foi antecedida por uma forte reação contrária ao feminismo pela política conservadora dos anos 1980 em países como EUA e Reino Unido e pelo rumor de que haveria começado uma era “pós-feminista”, na qual a luta das mulheres por igualdade estaria superada. Trabalhos teóricos e reivindicações emergidos a partir do final da década de 1980, porém, mostraram que a desigualdade continuava presente e levaram o debate sobre o gênero para uma nova direção.

Em 1990, a filósofa americana Judith Butler (1956) lança o livro “Problemas de gênero”, no qual, em resumo, defende que o gênero é fluido, não binário, e performativo – criado pela repetição de atos, que dão a ilusão de uma identidade natural e estável. Uma das pioneiras da teoria queer, Butler afirma que não só o gênero como o sexo e a sexualidade são construídos para terem uma correspondência específica: a da heteronormatividade.

A emergência da teoria queer abriu caminho para uma participação mais destacada de outras categorias além de mulheres cisgênero no feminismo, dando origem a novas ramificações do movimento, como o transfeminismo.

O conceito de interseccionalidade, introduzido em 1989 pela americana Kimberlé Crenshaw (1959), também reverberou nos debates da terceira onda em diante. Ainda que não fosse propriamente uma novidade, já que feministas negras americanas como Angela Davis, bell hooks (1952) e Audre Lorde (1934-1992) já tratavam do entrecruzamento entre o machismo e outras formas de opressão, o termo se converteu em uma vertente feminista e fez tornar mais difundida a compreensão de que diferentes aspectos da identidade podem se combinar para criar formas específicas e potencializadas de opressão.

A partir da década de 1980, além disso, o feminismo pós-colonial e indígena haviam colocado o imperialismo e o colonialismo na equação do gênero. Eles fazem a crítica das teorias feministas formuladas nos países ocidentais desenvolvidos e se concentram nas questões vivenciadas por mulheres no mundo pós-colonial. A indiana Chandra Mohanty (1955) é uma das autoras que fizeram contribuições fundamentais a essa vertente, como o ensaio “Sob olhos ocidentais: estudos feministas e discursos coloniais”, de 1986.

A quarta onda?

Com protestos nas ruas, campanhas nas redes sociais, novos coletivos organizados por mulheres jovens e uma proliferação de sites e blogs feministas a partir dos anos 2010, muitos têm anunciado a chegada de uma nova onda feminista. Essa movimentação tornou o feminismo mais mainstream e tem tido impacto na cultura, nas relações sociais, nas instituições e na política institucional. São centrais temas como a violência sexual e a representatividade.

Em 2011, estudantes canadenses organizaram a primeira Marcha das Vadias. Elas saíram às ruas com o corpo à mostra para protestar contra a culpabilização de uma colega que havia sido vítima de violência sexual por uma autoridade policial. A marcha chega ao Brasil no mesmo ano e, assim como em outros países do mundo, ocorre anualmente por aqui em dezenas de cidades.

Em 2012, a paquistanesa Malala Yousafzai (1997) se tornou um símbolo do direito de meninas a estudar ao ser baleada na cabeça por desafiar o Talibã.

No mesmo ano, uma palestra gravada em vídeo da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (1977) intitulada “Sejamos todos feministas”, hoje publicada também em livro, se tornou viral. Ela discute visões negativas sobre o feminismo na sociedade e defende a importância de que todas as pessoas, e não só as mulheres, sejam feministas.

As hashtags se tornaram uma importante ferramenta de mobilização feminista, permitindo que mulheres de todo o mundo manifestem sua indignação e se sintam respaldadas pelos relatos de outras, passando a também expor publicamente suas experiências ligadas ao machismo. Em 2015, as argentinas protestaram contra o feminicídio com o #NiUnaMenos.

No Brasil, campanhas como #ChegadeFiuFiu, lançada em 2013 contra o assédio sexual em espaços públicos, #MeuPrimeiroAssédio e #MeuAmigoSecreto, ambas de 2015, trouxeram à tona a onipresença velada do assédio na vida das mulheres. Também em 2015, as brasileiras foram às ruas em várias cidades brasileiras em um movimento que ficou conhecido como Primavera Feminista.

Em 2017, as americanas reagiram à eleição do presidente Donald Trump com uma manifestação histórica contra o presidente em várias cidades. A maior delas, na capital Washington, tinha quase 500 mil pessoas. Elas se posicionavam contra condutas misóginas do presidente eleito e os retrocessos que seu governo poderia trazer para os direitos das mulheres, por exemplo suspendendo o direito ao aborto legal.

No fim do mesmo ano, a explosão de um escândalo envolvendo alegações de abuso sexual cometidas sistematicamente ao longo de anos contra mulheres pelo produtor de Hollywood Harvey Weinstein deflagrou o movimento #MeToo (eu também). Acusações contra homens poderosos se multiplicaram em diferentes áreas e países.

Às vésperas das eleições brasileiras de 2018, mulheres lideraram grandes protestos em diversas cidades brasileiras contra o então candidato Jair Bolsonaro, manifestando sua oposição também nas redes sociais por meio da hashtag #elenão. Os atos foram declarados como a maior manifestação de mulheres na história do Brasil.

QUANDO o feminismo venceu

Desde o surgimento do feminismo moderno, o movimento obteve uma série de conquistas concretas que têm impacto sobre a vida e a autonomia de mulheres ao redor do mundo.

A aquisição desses direitos, no entanto, nem sempre é definitiva e linear. Tampouco ocorre simultaneamente em todo o mundo, para todas as mulheres. A filósofa Simone de Beauvoir alertava bastar “uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. Segundo ela, esses direitos não são permanentes. “Vocês devem se manter vigilantes durante toda a vida”, disse.

Direito à educação

Primordial para as precursoras do feminismo, o direito das mulheres ao ensino era fundamental para garantir que elas tivessem a oportunidade de se desenvolver intelectualmente e de exercer profissões que eram domínio exclusivo de homens. Embora haja registros pontuais de mulheres em universidades europeias desde o século 13, a institucionalização da educação oferecida às mulheres só ocorreu a partir do século 18, a princípio com escolas e universidades voltadas exclusivamente para elas.

No Brasil, durante o período colonial, mulheres tinham acesso muito restrito ou nulo à escolarização – sua única possibilidade de estudar era ser educada em casa, por um preceptor, caso tivessem condições, ou na clausura dos conventos. De 1827, a primeira legislação do país a padronizar o ensino primário contemplava o ensino de alunas do sexo feminino, mas era discriminatória: elas não aprendiam todas as disciplinas ensinadas aos meninos, principalmente as consideradas mais “racionais” como a geometria. Em compensação, deveriam aprender as “artes do lar”, sendo treinadas para realizar o trabalho doméstico e assumir futuros papéis de esposa e mãe. Em meados do século 19, o acesso das mulheres à educação era defendido publicamente no país por intelectuais feministas como Nísia Floresta. O direito de cursar o ensino superior foi oficialmente estendido às mulheres por uma lei de 1879.

Direitos políticos

Outro dos principais aspectos da exclusão das mulheres da esfera pública era sua ausência de direitos políticos: elas não faziam parte do eleitorado, não podiam se candidatar nem ocupar cargos públicos. O movimento pelo sufrágio feminino irrompeu na segunda metade do século 19, obtendo os primeiros ganhos na virada para o século 20. De início, muitas vezes, mulheres obtinham o direito de votar em eleições locais, conquistando só mais tarde o voto em nível nacional.

Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), elas haviam alcançado o direito ao voto em mais de cem países. Em vigor a partir de 1954, a Convenção sobre os direitos políticos das mulheres, elaborada pelas Nações Unidas, estabeleceu que mulheres teriam o direito de votar em todas as eleições nos mesmos termos que os homens, sem nenhuma discriminação. O último país a assegurar esse direito às mulheres foi a Arábia Saudita, onde elas puderam votar pela primeira vez apenas em 2015.

Liberdades civis

Por muito tempo, as mulheres não possuíam autonomia legal, estando submetidas à tutela de pais, irmãos ou maridos. Muitas vezes não podiam, sem autorização de terceiros, ser proprietárias, ter conta em banco, viajar sozinhas e trabalhar fora de casa, entre outros impedimentos. No século 19, elas começaram a conquistar, pontualmente em determinados lugares do mundo, direitos financeiros, como o de herdar bens e ter controle sobre o próprio patrimônio. A igualdade jurídica só seria amplamente formalizada em textos constitucionais do século 20.

No casamento, o marido tinha de modo geral direitos irrestritos sobre a esposa, considerada sua propriedade. O código penal brasileiro de 1890, por exemplo, dava brecha para que ele pudesse matá-la sem ser punido alegando “legítima defesa da honra” em caso de adultério.

Ele poderia, segundo a legislação de diferentes países, dispor sobre os bens da esposa, “discipliná-la” fisicamente e violentá-la sem que a lei reconhecesse a prática como estupro. A solicitação do divórcio era vetada ou muito dificultada para as mulheres, sendo válida na prática apenas para os homens. A conquista de direitos iguais no casamento também foi fruto da mobilização de mulheres a partir do século 19. Vale dizer que o Brasil foi um dos últimos países do mundo a instituir o divórcio, fazendo-o apenas em 1977 e que mulheres “desquitadas” eram alvo de grande preconceito.

Em 2018, as mulheres passaram a poder dirigir na Arábia Saudita, direito que não possuíam até então.

Direitos trabalhistas

Houve conquistas relevantes também no âmbito do trabalho. A licença-maternidade remunerada virou lei em muitos países, junto com a adoção de mecanismos legais que buscam impedir a demissão durante ou logo após a gravidez, tendo sido concedida em caráter pioneiro na Alemanha do fim do século 19. Reivindicada por mulheres desde o início de seu trabalho na indústria, a equiparação salarial em relação a homens que exercem a mesma função também é legalmente reconhecida por uma série de países desde meados do século 20, com destaque para greves importantes de mulheres no Reino Unido (1970) e Islândia (1976) que pressionaram para isso.

Um dos primeiros tratados internacionais a mencionar a igualdade de direitos entre homens e mulheres foi a Carta das Nações Unidas, documento elaborado em 1945 no contexto da fundação da entidade internacional. Entre as pouquíssimas mulheres que participaram de sua redação estava a feminista brasileira Bertha Lutz, que, junto a outras representantes latino-americanas, foi essencial para a inclusão da frase.

Direitos reprodutivos

As mulheres avançaram ainda, de modo geral, na garantia de seus direitos reprodutivos, que incluem o direito à informação sobre como prevenir uma gravidez, ao acesso à contracepção e à interrupção da gravidez.

Até o século 20, os métodos contraceptivos existentes eram rudimentares e pouco acessíveis. Tanto a Igreja quanto a sociedade viam-nos com desconfiança, por encorajarem relações sexuais fora do casamento. Mulheres pobres eram as mais afetadas pela falta de informação e acesso à contracepção. Era comum que tivessem muitos filhos e recorressem a abortos inseguros, não raro realizados por conta própria. Políticas de planejamento familiar foram introduzidas no século 20 e, a partir da década de 1960, a pílula anticoncepcional passou ser amplamente disponibilizada para as mulheres em várias partes do mundo, levando a um salto considerável na eficácia em relação aos métodos mais utilizados até então.

Ao redor do mundo, mulheres lutaram pelo direito ao aborto ao longo do século 20, obtendo alguns ganhos a partir dos anos 1960 em países como os EUA (em 1973, quando a Suprema Corte reconheceu o direito ao aborto a nível nacional no caso Roe contra Wade) e a França (com a lei Veil, que entrou em vigor em 1975). Houve também vitórias mais recentes neste âmbito, em países como Portugal, Uruguai, Irlanda, Irlanda do norte, que o conquistaram nos anos 2000 e 2010. A Rússia foi o primeiro país a legalizar o aborto após a Revolução Bolchevique, em 1920. Esse direito foi revogado mais tarde mas é atualmente assegurado no país até 12ª semana de gestação.

O Brasil é um dos países a adotarem ainda hoje uma legislação restritiva ao aborto, que só é permitido em três casos: quando a gravidez resulta de estupro, implica risco para a vida da mãe ou se o feto é anencéfalo. Em anos recentes, ativistas pelos direitos das mulheres tentaram avançar rumo à descriminalização, mas se veem atualmente mais focadas em conter retrocessos. Uma série de projetos que tramitam no Congresso visam a proibir a interrupção de gravidez em qualquer circunstância. Eles têm sido alvo de lobby de parlamentares antiaborto, que procuram acelerar seu andamento.

Integridade física

O feminismo também provocou uma mudança significativa na forma como a sociedade encara a violência contra as mulheres. Vista no passado como um assunto privado, “de marido e mulher”, a violência doméstica se tornou uma questão política e um problema social a ser combatido com leis e políticas públicas. A criminalização e as ações de proteção às vítimas – como a criação de abrigos – começaram a acontecer em diferentes países na segunda metade do século 20. O movimento feminista também agiu e segue agindo para modificar uma cultura que responsabiliza as mulheres pela violência sofrida.

No Brasil, a lei Maria da Penha, de 2006, de combate à violência doméstica, a lei do feminicídio, de 2015, que agrava a pena de assassinatos cometidos com motivação ligada ao gênero e a lei de importunação sexual, de 2018, que trata do abuso sexual e da divulgação de imagens íntimas, foram resultado de mobilizações históricas do movimento feminista brasileiro com relação a esses temas.

Em 1993, as Nações Unidas reconheceram a mutilação genital feminina como uma forma de violência contra a mulher, e, portanto, uma violação aos direitos humanos. Com isso, em décadas recentes, ela vem sendo crescentemente coibida ao redor do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 26 países da África e do Oriente Médio contam hoje com leis que criminalizam a prática. Legislações do tipo também estão presentes em 33 outros países onde há populações oriundas de países onde ela é praticada.

Sem razões médicas ou benefícios à saúde, a mutilação genital feminina remove total ou parcialmente os órgãos genitais femininos externos, como o clitóris e dos grandes e/ou pequenos lábios. Além de ter impacto sobre a saúde mental e, normalmente, impossibilitar o prazer sexual, gera complicações como hemorragias graves, dificuldades para urinar, infecções e problemas ao dar à luz futuramente, aumentando o risco de morte de recém-nascidos.

Contra estupros e assédios

O silêncio em torno da violência sexual, a culpabilização das vítimas e a ideia de que estupradores são movidos por impulsos naturais, por uma sexualidade masculina incontrolável, que é de alguma forma “ativada” pela mulher (por conta do que ela está vestindo, por exemplo), vêm sendo combatidos pelas feministas pelo menos desde a década de 1970.

Elas politizaram esses atos, definindo-os como demonstrações masculinas de poder e controle sobre o corpo das mulheres, e contribuíram para tornar pública a conversa a respeito deles, incentivando que mulheres denunciem seus agressores.

Nos anos 2010, os abusos sofridos em universidades, nas ruas, no ambiente profissional levaram mulheres a compartilhar em massa suas experiências, em campanhas de grande adesão e impacto. Entre elas, o #MeToo, que teve início em 2017 com as alegações de assédio de mulheres contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein é visto como um marco mundial na conscientização pública sobre o assédio sexual e na responsabilização de figuras poderosas, praticamente inédita. Weinstein foi condenado em fevereiro de 2020 por estupro e assédio sexual, em um julgamento considerado histórico para as mulheres.

ONDE o feminismo ainda é reprimido

O feminismo ainda é perseguido abertamente pelo Estado em diversos países, com ativistas sendo presas e até torturadas. Um dos grupos opositores ao regime saudita, ativistas pelos direitos das mulheres foram presas em massa em 2018, torturadas e violentadas, algo que o governo saudita nega. Elas protestavam contra a proibição de que mulheres dirijam no país. Algumas mulheres foram soltas em maio de 2019, mas ainda enfrentarão julgamento. A ativista Loujain al-Hathloul, que recusou um acordo em que negaria ter sido torturada em troca de sua saída da prisão, continua presa.

Na China, cinco ativistas feministas foram presas às vésperas do Dia Internacional da Mulher em 2015. Elas haviam planejado distribuir adesivos contra o assédio sexual no transporte público. Mantidas em um centro de detenção por 37 dias, acabaram sendo liberadas devido aos protestos e a atenção internacional que sua prisão provocou. O movimento não só sobreviveu à repressão do governo como cresceu em anos recentes.

Autoridades russas abriram em 2018 uma investigação sobre o conteúdo postado pela blogueira feminista Lyubov Kalugina. A acusação é de que o material, que inclui memes, incitaria o ódio aos homens, e pode render a ela cinco anos de prisão. Yulia Tsvetkova, ativista pelos direitos das mulheres e da população LGBTI, foi multada pelo governo russo sob a acusação de disseminar “propaganda homossexual”. Em prisão domiciliar desde novembro de 2019, enfrenta ainda a acusação de produzir e disseminar pornografia por ter postado nas redes sociais desenhos da genitália feminina. Ela pode ser punida com até seis anos de prisão. Há ainda as várias prisões já sofridas pelas ativistas e integrantes da banda punk feminista Pussy Riot, opositora do governo russo, em retaliação a seus protestos.

Shaparak Shajarizadeh, ativista iraniana pelos direitos das mulheres, foi presa diversas vezes em protestos que desafiaram o uso obrigatório do hijab no país, e condenada a vinte anos de prisão em 2018 por ter removido o véu em público. Oficialmente, foi acusada e condenada por incentivar a prostituição, fazer propaganda contra o governo e agir contra a segurança nacional. Shajarizadeh fugiu do país e obteve asilo no Canadá. A jornalista e ativista iraniana Masih Alinejad, que mora nos EUA, teve familiares presos no Irã em 2019 como estratégia de intimidação por também defender a campanha “quarta-feira branca”, que encorajou iranianas a irem contra, nas redes sociais e nas ruas, o rígido código de vestimenta imposto às mulheres.

Em diferentes níveis, no entanto, feministas em todo o mundo convivem hoje com a perseguição de opositores, frequentemente online. A internet se tornou um terreno fértil para ameaças e insultos a ativistas como a brasileira Lola Aronovich, professora da Universidade Federal do Ceará e autora de um blog feminista desde 2008. Por sua defesa do feminismo, Lola foi ameaçada e atacada ao longo de cinco anos, de 2013 a 2018, por um homem hoje condenado e preso.

Em 2018, a antropóloga e professora da Universidade de Brasília, Debora Diniz, foi forçada a deixar o Brasil após receber ameaças de morte e ser incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do governo federal. Diniz teve uma atuação importante na ação que levou à descriminalização do aborto em caso de feto anencéfalo pelo Supremo Tribunal Federal, em 2012.

COMO o feminismo é atacado

A reação contrária ao feminismo o acompanha desde o início de sua história. À época do movimento sufragista, periódicos e entidades anti-sufrágio emergiram e não só se posicionavam contra a extensão do direito ao voto às mulheres como também ridicularizavam e legitimavam a violência contra as ativistas.

A retórica de cartuns publicados então difere pouco dos ataques a feministas no presente: também as chamava de mal-amadas, apelava à feminilidade tradicional e ao papel da mulher no lar, acusava-as de serem promíscuas e, ao mesmo tempo, de odiarem os homens, antevendo a submissão humilhante deles como consequência da conquista do direito ao voto.

Segundo Diane Lamoureux, professora de filosofia política na Universidade Laval e Francis Dupuis-Déri, professor de ciência política da Universidade do Quebec em Montreal, ambas no Canadá, o antifeminismo é ativado para “proteger a dominação masculina e consequentemente dificultar, impedir, fazer recuar o movimento pela liberdade, igualdade e dignidade das mulheres frente aos homens”.

Ambos organizam e são autores da introdução do livro “Les antiféminismes: analyse d’un discours réactionnaire” (Os antifeminismos: análise de um discurso reacionário), publicado em 2015.

O antifeminismo se adapta às transformações do próprio feminismo, tendo assumido diferentes formas ao longo de mais de um século. Com frequência, porém, ele segue três linhas argumentativas básicas: a da ameaça, segundo a qual o feminismo põe em risco a ordem divina, a ordem natural, a nação, a família, os homens ou a juventude; a da inutilidade, que duvida de sua capacidade de realmente transformar as relações de gênero e, por fim, a do efeito perverso que ele teria para as próprias mulheres.

Esses ataques não se restringem ao campo conservador. Na introdução ao livro “Os antifeminismos”, Lamoureux e Dupuis-Déri lembram que, embora o antifeminismo tenha sido em grande parte associado à direita conservadora e ao neoliberalismo em anos recentes, ele está presente em todo o espectro político. “A esquerda insiste em culpar o feminismo por [representar] uma ‘distração’ da luta de classes”, escrevem.

Publicado em 1991 nos Estados Unidos, o livro “Backlash: o contra-ataque na guerra não declarada contra as mulheres” é um marco no assunto. No livro, que se tornou um best-seller, a jornalista e pesquisadora americana Susan Faludi busca demonstrar a existência de uma reação contrária ao feminismo nos EUA, liderada pela direita e alimentada pela mídia americana.

Ela trata especificamente de como avanços promovidos pelo movimento feminista americano nos anos 1970 vinham sendo associados a uma série de problemas, como uma suposta “epidemia de infertilidade”, que recaíam sobre as mulheres nos anos 1980. Muitas dessas dificuldades eram falsas, segundo Faludi, construídas sem uma base confiável. A autora também vê essa reação como uma tendência histórica, que se repete sempre que as mulheres obtêm ganhos significativos em sua luta por igualdade.

Ainda que já fosse expressado com virulência no passado, o antifeminismo encontrou na internet um novo espaço para se manifestar, no qual mulheres que reivindicam direitos iguais são identificadas como “feminazis”.

Um artigo publicado em 2017 na revista latino-americana de ciências sociais Nueva Sociedad descreve a perseguição sofrida por feministas nas redes. Muitos desses ataques partem da “manosphere”, subcultura masculinista, misógina e antifeminista da internet ligada à “alt-right”, ala da extrema direita internacional que se fortaleceu em fóruns e sites a partir dos anos 2000 e que defende também, por exemplo, a supremacia branca e o antissemitismo. A radicalização crescente desses grupos já desembocou em atos de violência offline perpetrados por “incels” (involuntariamente celibatários), homens que culpam as mulheres por não conseguirem se relacionar afetiva e sexualmente com elas.

“Ainda que o antifeminismo preceda as redes sociais, novos repertórios de reação contra as feministas surgiram com a chegada da internet. A violência online se materializa por meio de diversas formas de assédio, perseguição e abuso. O clima ideológico propiciado pela ‘direita alternativa’ – racista, xenófoba e machista – alimenta boa parte desse movimento. Mesmo assim, muitas feministas levantam a voz, não se deixam amedrontar e buscam formas de resistir e consolidar os avanços conquistados”, escreve a jornalista Verónica Engler no artigo.

A ascensão recente da extrema direita no Brasil e no mundo tem sido, em parte, compreendida por pesquisadores como uma reação ao fortalecimento do feminismo e de outras lutas sociais, que atingiram uma capilaridade social inédita na última década.

É representativa dessa articulação a realização do 1° Congresso Antifeminista do Brasil, em 2018, no auditório da Igreja de Sant’Anna no Rio de Janeiro. O evento organizado pela ex-feminista Sara Winter reuniu entre 150 e 300 pessoas, em sua maioria homens, contrárias à “desconstrução moral da mulher” que consideram ser causada pelo feminismo.

Em países da América Latina, como o Brasil, e da Europa o combate a uma alegada “ideologia de gênero” tem sido a atual faceta da reação histórica às transformações impulsionadas pelo feminismo. A categoria foi criada ainda na década de 1990 pela direita religiosa, em um contexto no qual o conceito de gênero começava a ser adotado pelas Nações Unidas. É usada para acusar um suposto ataque aos valores da família tradicional, indo contra o feminismo e os direitos LGBTI, em especial de pessoas transexuais.

No caso do governo de Jair Bolsonaro, a ofensiva a essa “ameaça” tem tido impacto em sua política educacional, cultural e também na política externa.

O “problema” do gênero se tornou alvo de atenção do Vaticano nos anos 2000, quando passou a ser mencionado em diversos documentos. Para a doutrina católica, a ideia de que gênero e sexo biológico são coisas distintas desafia a ordem divina. Mais de uma década depois, porém, o gênero passou a ser atacado por mobilizações políticas que aglutinam atores conservadores variados, não mais exclusivamente religiosos, que têm o feminismo como um de seus principais (se não o principal) alvos.

Ao Nexo a ativista e pesquisadora Sonia Corrêa afirma que a aversão aos feminismos ocorre porque “mexem com estruturas muito sedimentadas em todas formações sociais. Viram as coisas de cabeça pra baixo”.

Movimentos conservadores o elegem como alvo, segundo ela, porque “ordens políticas e hierárquicas assimétricas e desiguais se sustentam em sistemas sexo/gênero que também são assim. É preciso enfiar o gênio de volta na garrafa. E o debate sobre gênero e sexualidade não é lateral, secundário, uma pauta dos costumes ou da moral, menos importante. Os conservadores sabem muito bem disso, por isso fizeram dele uma de suas pautas principais”.

POR QUE o feminismo é essencial no século 21

Na reação contemporânea ao feminismo, um dos argumentos é que as mulheres já teriam conquistado tudo e gozariam, hoje, de até “mais direitos do que os homens”. Essa ideia, definida pelo termo pós-feminismo, se popularizou na década de 1980.

Embora exista atualmente, em muitos aspectos, igualdade formal entre mulheres e homens – reconhecida, por exemplo, nas leis – a igualdade material, ou seja, concreta, ainda precisa avançar.

Mesmo com as conquistas dos últimos séculos, mulheres ainda vivenciam uma série de desigualdades por conta de seu gênero: são assassinadas por companheiros e ex-companheiros, realizam a maior parte do serviço doméstico, mesmo quando trabalham fora, são minoria em cargos de liderança e ganham menos do que os homens realizando a mesma ocupação, ainda que tenham, em média, escolaridade mais alta. Convivem com o assédio sexual desde a adolescência, na rua, no transporte público, no trabalho.

Na edição de 2020 do estudo “Women, business and the law” (“Mulheres, negócios e a lei”) do Banco Mundial, que mede a igualdade legal e econômica entre os gêneros em diferentes países, apenas oito países do mundo obtiveram a pontuação máxima no índice do estudo: Bélgica, Dinamarca, França, Islândia, Letônia, Luxemburgo, Suécia e Canadá. O Brasil fez 81,9 pontos, ficando atrás de países como África do Sul, México, Paraguai, Peru e Uruguai.

Um outro estudo divulgado em 2020 pelo Fórum Econômico Mundial projeta que, dada a lentidão dos avanços na igualdade de gênero no mundo entre 2006 e 2020, serão necessários 257 anos para superar as desigualdades entre mulheres e homens nos mais de cem países analisados.

EM ASPAS

Não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens, mas sobre si mesmas

Mary Wollstonecraft

Escritora e filósofa britânica

“Poucas tarefas são mais parecidas com a tortura de Sísifo do que o trabalho doméstico, com sua repetição sem fim: a limpeza se torna sujeira, a sujeira vira limpeza, de novo e de novo, dia após dia. A dona de casa se desgasta marcando o tempo: ela não cria nada, apenas perpetua o presente. A batalha contra a poeira e a sujeira nunca é vencida”

Simone de Beauvoir

Filósofa e escritora francesa

Ao longo da maior parte da história, ‘anônimo’ era uma mulher

Virginia Woolf

Escritora britânica

Você pode me fuzilar com palavras /E me retalhar com seu olhar /Pode me matar com seu ódio /Ainda assim, como ar, eu me levanto

Maya Angelou

Escritora e poeta americana

Não sou livre enquanto alguma mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas

Audre Lorde

Escritora e ativista americana, autora de 'Irmã outsider'

“Tentei destruir a imagem da mais bela mulher da história da mitologia como um protesto contra o governo por destruir a sra. Pankhurst, a mais bela personagem da história moderna”

Mary Richardson

Sufragista britânica que rasgou em 1914 o quadro ‘Vênus ao espelho’, de Diego Velázquez, protestando contra a alimentação forçada da líder Emmeline Pankhurst na prisão

“As mulheres do mundo ainda sofrem violência, são sobrecarregadas de trabalho e ganham um salário menor. Percorremos um longo caminho na conscientização e fizemos muitos progressos, mas esse é só o começo”

Gloria Steinem

Em entrevista à revista Forbes, em 2011

“Algumas pessoas me perguntam: ‘Por que usar a palavra feminista? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?’ Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral - mas escolher uma expressão vaga como ‘direitos humanos’ é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para esse problema esteja no reconhecimento desse fato”

Chimamanda Ngozi Adichie

No livro “Sejamos todos feministas”

“Há pouquíssimo tempo, eu acreditava que a minha geração teria sido, talvez, a última empenhada na luta das mulheres. Até que um vozerio, marchas, protestos, campanhas na rede e meninas na rua se aglomeraram. Levei um susto. Um susto alegre. Mais ainda ao perceber que aqueles não seriam gritos passageiros. Pelo menos, ninguém menor de dezoito anos precisava disfarçar seu feminismo, como era a tônica das simpatizantes do movimento no meu tempo. Elas chegaram e falaram, quiseram, exigiram. E, para meu maior espanto, suas demandas feministas estão sendo ouvidas como nunca”

Heloísa Buarque de Hollanda

No livro 'Explosão feminista'

NA ARTE

Embora muitas precursoras, como a mexicana Frida Kahlo (1907-1954), tenham antecipado aspectos da arte feminista, foi a partir da década de 1960 que mais mulheres artistas começaram, de fato, a reivindicar este título e a incorporar um discurso abertamente feminista em sua produção.

Elas buscaram desafiar o cânone masculino e seus suportes tradicionais, como a pintura e a escultura, e adotaram formas de expressão inovadoras – a performance e a instalação, por exemplo – questionando ao mesmo tempo os espaços convencionais do mundo da arte.

A experiência das mulheres e as diversas dimensões de sua opressão, como o controle imposto sobre corpo feminino, a violência de gênero e seu confinamento no ambiente doméstico, se tornaram temas centrais para as artistas, que também procuravam valorizar a história das mulheres e resgatar figuras femininas esquecidas.

As artistas não eram as únicas refletindo sobre essas desigualdades. Em 1971, a historiadora feminista Linda Nochlin (1931-2017) publicou o paradigmático ensaio “Por que não houve grandes artistas mulheres?”, que confronta a ideia do gênero artístico masculino com uma perspectiva feminista. Nochlin aponta os fatores sociais e econômicos que impediram mulheres de alcançar o mesmo status que os homens nas artes.

A arte feminista se espalhou por diversos países ao longo das décadas de 1960 e 1970, mas foi bastante forte nos Estados Unidos, onde foram produzidas obras que se tornaram emblemáticas.

No início dos anos 1970, a americana Judy Chicago fundou, com a colaboração de outras artistas, um Programa de Arte Feminista pioneiro no país. Implementado na Universidade Estadual da Califórnia e, pouco depois, também no Instituto de Artes da Califórnia, o programa possibilitou que alunas recebessem uma formação específica, baseada no estudo de escritoras e artistas mulheres e em sessões de discussão.

O objetivo era capacitá-las para explorar técnicas e temas condizentes com suas experiências enquanto mulheres. O programa também as preparava para ser confiantes, enfrentando “aspectos de sua socialização como mulheres que as impedia de se levarem a sério e a traçar objetivos ambiciosos”.

Um projeto marcante desenvolvido por artistas envolvidas no Programa de Arte Feminista foi “Womanhouse” (Casa de mulher, em tradução livre), exposição e instalação coletiva de 1972. Obras e performances de mais de 20 artistas ocuparam durante meses uma mansão abandonada de Hollywood. As intervenções buscavam colocar em questão a relação entre o espaço doméstico, a feminilidade e o papel social da mulher por meio de um uso revolucionário e criativo desse lugar.

A obra “The dinner party” (conhecida em português como “O banquete”), desenvolvida por Judy Chicago entre 1975 e 1979, também se tornou um ícone da arte do período. A instalação cria uma longa mesa de jantar à qual estariam sentadas grandes figuras femininas da história, como Sojourner Truth e Virginia Woolf, homenageando-as. Utensílios da mesa, como os pratos, foram especificamente criados para honrar cada uma das “convidadas”. No ladrilho branco do chão, nomes de 999 mulheres estão escritos em dourado.

Já no vídeo “Semiótica da cozinha”, de 1975, a artista Martha Rosler parodia um programa televisivo de culinária, “demonstrando” o uso dos utensílios e nomeando-os de A a Z. Ela faz isso, porém, de maneira antinatural, ora mecânica, ora agressiva, quase transformando esses objetos cotidianos em armas e transgredindo seu sentido original. A sinopse dada por Rosler é de que a protagonista do vídeo, uma “anti-Julia Child” (famosa apresentadora americana de programas do gênero), “substitui o significado domesticado dos utensílios por um léxico de raiva e frustração”.

Trabalhos dessa geração continuam a influenciar artistas nos dias de hoje e ganharam retrospectivas importantes nos anos 2000.

Além de produzir obras, artistas feministas também se organizaram em coletivos e entidades como a WAR (Women Artists in Revolution), e passaram a pressionar instituições de arte, cobrando que se tornassem mais inclusivas em suas coleções e programação.

Ocorridos na década de 1970 nos EUA, protestos dessa natureza viriam a ser a atividade-fim do coletivo Guerrilla Girls, criado em 1985 e atuante até os dias de hoje. O grupo produz cartazes e outros materiais com o objetivo de intervir nas ruas e museus de várias cidades do mundo, apresentando dados e usando da irreverência e da criatividade para atacar a desigualdade enfrentada pelas mulheres no mundo das artes. As ativistas permanecem anônimas e usam máscaras de gorila (cuja pronúncia em inglês é próxima à da palavra guerrilha) em suas aparições públicas.

A arte feminista do século 20 também teve ecos no Brasil e na América Latina. Artistas brasileiras como Márcia X (1959-2005), Letícia Parente (1930-1991) e Anna Maria Maiolino (1942) produziram obras de inquestionável teor feminista, mas muitas vezes decidiram não se declarar como tais.

VÁ AINDA MAIS FUNDO

  • Especial do Nexo sobre os 70 anos desde a primeira publicação de “O segundo sexo”, completos em 2019
  • Explicado do Nexo sobre identidade de gênero
  • “O livro do feminismo - As grandes ideias de todos os tempos”, Globo Livros (2019)
  • “Explosão feminista: Arte, cultura, política e universidade”, org. Heloísa Buarque de Hollanda, Companhia das Letras (2018)
  • “Pensamento feminista negro”, Patricia Hill Collins, Boitempo (2019)
  • “50 anos de feminismo: Argentina, Brasil e Chile”, org. Eva Blay e Lúcia Avelar, Edusp (2017)

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