Como a arenização mudou o jeito de assistir futebol no Brasil

Estádios da Copa do Mundo de 2014 aceleraram mudanças que já vinham ocorrendo desde os anos 1990. O ‘Nexo’ mostra como o fenômeno mudou a forma de o torcedor se relacionar com o esporte

Em julho de 2019, a Copa América marcou o fim do ciclo de grandes eventos esportivos recebidos pelo Brasil. O período de 12 anos começou com os Jogos Pan-Americanos de 2007, passando na sequência pela Copa do Mundo de 2014 e pelos Jogos Olímpicos do Rio em 2016.

Uma das marcas dos megaeventos esportivos no Brasil foi a construção – muitas vezes com uso de dinheiro público – de grandes estruturas para receber as competições. Entre elas estão os estádios erguidos ou reformados para a Copa do Mundo.

As arenas reconfiguraram o espaço e a forma de se assistir futebol ao vivo no Brasil. Do aumento do preço dos ingressos à mudança no perfil de quem vai aos jogos, o processo chamado de arenização acelerou uma transformação que já estava em curso, e que segue ocorrendo ainda no início da década de 2020. Abaixo, o Nexo explica o que é a arenização dos estádios de futebol e a marca deixada no Brasil.

O QUE é a arenização do futebol

A arenização do futebol pode ser definida como o processo de migração ou transformação dos estádios de futebol em arenas multiúso. O caráter multiúso das estruturas se traduz no aproveitamento do espaço para outras finalidades que não o futebol, como shows e eventos corporativos.

No modelo anterior dos estádios brasileiros, a estrutura era voltada ao que acontecia no gramado. O ato de ir ao estádio consistia em duas atividades: assistir ao jogo e viver a experiência das arquibancadas, cantando e interagindo com base no que acontecia em campo.

Nas arenas multiúso, o espaço é voltado para uma variedade de ações, que priorizam o consumo de diversos produtos. Além de assistir à partida, os torcedores podem comprar produtos oficiais do clube ou alimentos e bebidas licenciados por parceiros comerciais da arena. O tratamento dado aos espectadores os torna mais próximos de consumidores do que da imagem anterior e tradicional do torcedor. Não à toa, o design das novas arenas é comparado ao de shopping centers, locais de cuja movimentação é motivada apenas pelo consumo.

“O sucesso comercial e financeiro agora é tão importante e priorizado quanto o sucesso no âmbito esportivo. Sendo assim, os estádios não serão mais pensados a partir daqueles que os freqüentam – a torcida – mas serão construídos ou remodelados a partir das exigências do mercado e do consumidor. Como proclamam os dirigentes atuais, o torcedor tradicional tornou-se uma figura dispensável, pois o que se busca agora são consumidores, que vejam o espetáculo futebolístico como mais um produto a ser adquirido e desfrutado em uma tarde de fim-de-semana passada no moderno shopping-estádio”

Antonio Holzmeister

pesquisador, na dissertação de mestrado “A nova economia do futebol: uma análise do processo de modernização de alguns estádios brasileiros”, defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2005

Outra marca das arenas modernas de futebol é a forte presença de dispositivos de vigilância. Isso vai desde a distribuição de câmeras por toda a estrutura, até a rigidez com lugares marcados e a eventual exigência de cadastramento biométrico dos torcedores, como ocorre na Arena da Baixada, em Curitiba. A justificativa geralmente usada para a adoção desses mecanismos é a contenção de possíveis atos de violência, comumente associados às torcidas organizadas.

Os espaços das arenas são marcados pela segmentação das arquibancadas em diversos setores, majoritariamente – quando não totalmente – cobertos por cadeiras. A adoção de assentos costuma reduzir a capacidade dos estádios, por limitar a quantidade de ingressos que pode ser vendida. A ideia de poder ver o jogo sentado e acompanhando por um grande telão remete ao conforto como parte do produto englobado no preço do ingresso. O torcedor pode ver a partida ao vivo, mas com elementos que aludem ao conforto do sofá de casa.

Os telões também são usados para a promoção de espetáculos e quadros de entretenimento semelhantes aos usados nos intervalos de eventos esportivos nos EUA. Um exemplo de uso é a câmera do beijo, protagonizado por um casal escolhido ao acaso. Também ocorrem momentos interativos em que os torcedores devem repetir um gesto ou fazer algo – beijar o escudo do time na camisa, cantar o hino da agremiação, – para aparecer no telão. Nas arenas, há uma segunda camada de entretenimento que ocorre sem que haja necessariamente interação com o jogo de futebol.

A segmentação dos espaços da torcida permite que haja variedade de preços – a maioria deles altos – e áreas de exclusividade no estádio. Nas arenas, surgem locais exclusivos e gourmetizados, como uma piscina privativa na Arena Corinthians. Assim como no caso dos telões, esses espaços dão a possibilidade de ser visto – seja pelo público que está no estádio ou pelas câmeras de televisão.

O aumento dos preços

Com a arquitetura mais confortável e a estrutura mais complexa, feita para comportar lojas e banheiros de luxo, os clubes passaram a cobrar valores mais altos pela ida a uma partida de futebol. O processo de arenização do futebol brasileiro, portanto, aumentou os preços dos ingressos.

Um levantamento publicado em 2015 pela empresa de auditoria e consultoria BDO Brazil quantificou o encarecimento dos ingressos nas arenas. O estudo considerou os 380 jogos do Brasileirão de 2015, comparando os preços nas arenas construídas para a Copa do Mundo de 2014 e nos estádios antigos. A diferença era de um preço 67% mais alto nas arenas.

INGRESSOS MAIS CAROS

Ticket médio no Brasileirão de 2015. Consideravelmente maior nas arenas do que nos estádios antigos

O modelo das arenas costuma ser acompanhado pela adoção de programas de sócio-torcedor pelos clubes. Nesses programas de fidelidade, os torcedores pagam valores mensais para obter descontos e prioridade de compra de ingressos. Geralmente, há faixas de valores – quanto mais cara a mensalidade, maior o benefício que vem em troca e maior a chance do torcedor conseguir ingressos para jogos mais importantes, como finais e jogos intercontinentais.

QUANDO a arenização começou

A difusão do modelo de arenas multiúso começou, de fato, nos anos 1990. Mas o processo de transformação dos espaços ligados ao futebol já havia se iniciado antes, na Europa. As primeiras alterações significativas ocorreram nos anos 1980, na Inglaterra.

A transformação dos estádios ingleses e na Europa

Durante as décadas de 1960 e 1970, o ambiente do futebol inglês era marcado pela presença dos hooligans, jovens torcedores, geralmente de classe média baixa, organizados em torno de um clube de futebol. Na opinião pública daquele país, o hooliganismo virou sinônimo de violência nos estádios.

Nos anos 1980, dois episódios serviram de estopim para uma tentativa do poder público de afastar os hooligans dos estádios.

O primeiro ocorreu em 1985. Na final da Liga dos Campeões da Europa entre Liverpool (Inglaterra) e Juventus (Itália), um confronto entre as duas torcidas deixou 39 mortos e mais de 600 feridos. A partida ocorreu no estádio de Heysel, em Bruxelas, capital da Bélgica. Na ocasião, não havia uma divisória sólida entre as seções onde estavam as torcidas das duas equipes – a única barreira era um cordão de policiais. O confronto começou quando hooligans ligados ao Liverpool tentaram invadir o espaço dos torcedores italianos, levando a uma confusão que levou dezenas de pessoas à morte por esmagamento e asfixia. O episódio ficou conhecido como a tragédia de Heysel.

O segundo episódio foi a famosa tragédia de Hillsboroug, em 1989. No episódio, 96 pessoas morreram após um tumulto em uma partida entre Nottingham Forest e Liverpool, pela semifinal da Copa da Inglaterra. Além das quase cem mortes, a confusão deixou outros 700 feridos. A reação pública imediata, estimulada por tabloides como o The Sun, foi de culpar os próprios espectadores da partida pelo ocorrido. No entanto, meses após a tragédia, um inquérito que ficaria conhecido como o Relatório Taylor mostrou que ela havia sido fruto de despreparo e incompetência da polícia – e da falta de estrutura do estádio, que pertencia ao Sheffield Wednesday. A Justiça inglesa ratificou a tese do documento apenas em 2012, passados 23 anos.

Além de trazer uma investigação sobre as causas da tragédia, o Relatório Taylor também trazia recomendações de mudanças nas estruturas dos estádios para aumentar a segurança nos jogos de futebol. Entre as medidas sugeridas estavam a retirada de alambrados e a colocação de assentos em todos os lugares das arquibancadas, buscando evitar a superlotação das partidas. A implementação das mudanças, feita com o apoio da então primeira-ministra Margaret Thatcher (1979-1990), levou à redução da capacidade dos estádios e ao subsequente aumento dos preços dos ingressos.

A transformação dos estádios britânicos abriu caminho para a implementação do modelo inglês por toda a Europa a partir dos anos 1990. A redução da capacidade dos estádios e o aumento no valor dos ingressos atingiu quase todos os países europeus. Mas o modelo inglês, por si só, representa apenas um antecedente do processo de arenização do futebol. A adoção das arenas multiúso começou apenas nos anos 1990, a partir da Copa do Mundo de 1994.

O Padrão Fifa e o caso brasileiro

A Copa do Mundo de 1994, realizada nos EUA, marca a primeira vez em que a Fifa – entidade organizadora do futebol mundial – fez exigências arquitetônicas para os países-sede do evento. A organização passou a exigir que o conceito de arena multiúso guiasse a construção de novos estádios para a competição. A ideia era impulsionar o consumo nos estádios, abrindo a possibilidade para a realização de eventos que extrapolassem o âmbito esportivo, estendendo o legado dos torneios mundiais para além das quatro linhas.

No Brasil, a arenização deu seus primeiros passos nos anos 1990. A primeira arena inaugurada no país, em 1999, foi a Arena da Baixada, casa do Athletico em Curitiba, em 1999 – quinze anos, portanto, antes da realização da Copa do Mundo no país.

O fim dos anos 1990 marca o início do processo de redução da capacidade dos estádios brasileiros. O movimento reverteu a orientação da estrutura futebolística atrelada ao gigantismo, cujo maior símbolo nacional é o Maracanã, que inspirou outros estádios com enorme capacidade e com setores de baixíssimo custo, voltados às classes populares e onde se assistia ao jogo em pé – as gerais.

Construído no Rio de Janeiro para a Copa do Mundo de 1950, o estádio teve recorde de público na final daquela competição: quase 200 mil pessoas. Em 2014, o mesmo local também sediou a final da Copa do Mundo, já após as reformas que transformaram o Maracanã em uma arena. O público foi de pouco menos de 75 mil pessoas.

Apesar de ter se iniciado nos anos 1990, o processo de arenização dos estádios brasileiros só se intensificou mesmo a partir de 2007, quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014. A implementação do padrão arquitetônico seguindo as exigências da Fifa – o chamado “padrão Fifa” – catalisou a transformação dos estádios brasileiros.

As megaobras que ergueram as 12 arenas da Copa do Mundo de 2014 contaram com importante participação dos cofres públicos. Do total de R$ 8,5 bilhões gastos com os estádios da Copa, 45,1% dos recursos vieram de financiamento federal, com papel central do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

R$ 3,8 bilhões

foi o total dos financiamentos federais às obras dos estádios da Copa do Mundo de 2014, segundo o Portal da Transparência do governo federal

A arenização não se restringiu aos locais que receberam jogos da Copa do Mundo. Na mesma época em que aconteciam as obras nesses locais, outros novos estádios foram erguidos por clubes brasileiros tomando como referência a cartilha arquitetônica do padrão Fifa. Essas outras iniciativas foram tomadas para ampliar receitas e evitar que rivais abrissem distância na capacidade de levantar recursos.

ONDE estão as arenas de futebol no Brasil

Entre pesquisadores do tema, há consenso a respeito das 14 estruturas no Brasil que podem ser consideradas como arenas. São elas os doze locais que participaram da Copa do Mundo de 2014, mais os estádios de Grêmio (Arena Grêmio, em Porto Alegre) e Palmeiras (Allianz Parque, em São Paulo). Existe também uma discussão em torno do Estádio Olímpico Nilton Santos (Engenhão), no Rio de Janeiro. Na academia, pouco se fala nesse estádio como uma arena multiúso; no debate público, a realização de eventuais shows no local servem de critério para enquadrar o estádio do Botafogo no conceito de arena. Há, mais raramente, quem também considere o Estádio Independência, em Belo Horizonte, como uma arena. Sem contar esses dois locais, as 14 arenas brasileiras são:

  1. Maracanã, no Rio de Janeiro
  2. Mané Garrincha, em Brasília
  3. Arena Corinthians, em São Paulo
  4. Castelão, em Fortaleza
  5. Mineirão, em Belo Horizonte
  6. Beira-Rio, em Porto Alegre
  7. Itaipava Arena Fonte Nova, em Salvador
  8. Arena Pantanal, em Cuiabá
  9. Arena Amazônia, em Manaus
  10. Arena Pernambuco, em Recife
  11. Arena das Dunas, em Natal
  12. Arena da Baixada, em Curitiba
  13. Arena do Grêmio, em Porto Alegre
  14. Allianz Parque, em São Paulo

NAS CINCO REGIÕES

Onde estão as arenas no Brasil. Mapa indicando a localização das 14 arenas

Os elefantes brancos

Desde a escolha das cidades-sede da Copa do Mundo de 2014, em 2009, havia a desconfiança de que algumas arenas poderiam cair em desuso após o evento da Fifa. Isso porque as estruturas foram erguidas em lugares onde não havia tradição forte das equipes locais ou onde a frequência de realização de grandes eventos (como shows e espetáculos) era baixa. As escolhas que mais sofreram questionamentos foram as cidades de Cuiabá e Manaus.

O então ministro do Esporte do governo de Dilma Rousseff, Aldo Rebelo (2011-2015), rejeitava a ideia de que as arenas deixariam de ser usadas após a Copa do Mundo.

“Os estádios estão sendo concebidos com o conceito de arenas multiúso e economicamente sustentáveis, inclusive após a Copa. Diante disso, não vejo o risco de se tornarem elefantes brancos”

Aldo Rebelo

ex-ministro do Esporte, em conferência com jornalistas estrangeiros em 2012

A expressão “elefante branco”, usada pelo ex-ministro, descreve estruturas de grande porte, com alto custo de construção e manutenção, mas com baixo retorno financeiro. Após a Copa do Mundo, alguns estádios seguiram esse caminho. Os casos mais citados são os de Recife, Cuiabá, Manaus, Brasília e Natal, onde as partidas de futebol atraem pouco público e não conseguem receitas suficientes para bancar os custos de manutenção.

A falta de público é um problema que atinge a maioria das arenas erguidas ou reformadas para o torneio de 2014. Segundo levantamento da Fundação Armando Álvares Penteado, entre 2015 e 2017, dos 12 estádios que receberam jogos da Copa do Mundo, apenas a Arena Corinthians teve ocupação superior a 50%.

QUEM ganha com a arenização do futebol

A baixa taxa de ocupação não indica necessariamente que o público das arenas seja baixo em termos absolutos. Isso porque os novos estádios têm capacidade de receber mais torcedores do que as estruturas mais antigas do futebol brasileiro. A proporção de cadeiras vazias pode ser alta por haver muitos lugares, o que não impede o número de espectadores de ter aumentado. Mesmo com a baixa ocupação, nem todas as arenas da Copa do Mundo de 2014 viraram elefantes brancos com baixa rentabilidade.

O levantamento da consultoria BDO Brazil sobre o público no Brasileirão de 2015 mostrou que, naquele campeonato, as arenas receberam mais torcedores por jogo, em média. Combinando com os preços mais altos de ingressos, isso significa que as receitas também foram consideravelmente mais altas.

PÚBLICO MAIOR...

Público médio no Brasileirão de 2015. Consideravelmente maior nas arenas do que nos estádios antigos

...RECEITAS MAIORES

Bilheteria média no Brasileirão de 2015. Consideravelmente maior nas arenas do que nos estádios antigos

Se, por um lado, o público das arenas foi quase 2,5 vezes o dos estádios antigos na Série A de 2015, a receita nas novas estruturas representou quase quatro vezes a das antigas. Isso é um reflexo da política de preços de ingressos nas arenas, que, como um todo, teve impacto positivo para os cofres dos clubes.

Além da bilheteria, os clubes também ganham receitas com as arenas ao associar os novos estádios aos planos de fidelidade para torcedores, os chamados programas de sócio-torcedor. Um levantamento feito pela Feng Brasil, empresa especializada em engajamento de torcedores, mostrou que entre 2014 e 2018, as receitas dos clubes com programas de sócios cresceram 42%. É importante ressaltar que esse número não contabiliza apenas os clubes que jogam em arenas, mas também as equipes que utilizam estruturas mais antigas, como Santos e Vasco (que jogam na Vila Belmiro e em São Januário, respectivamente).

Outras formas que os clubes têm de conseguir mais receitas com as arenas por meio de eventos como shows e passeios e a comercialização de produtos oficiais dentro do local em dias de jogos. Mas os clubes não são os únicos que podem se beneficiar do modelo de estádio que ganhou força no Brasil a partir da Copa do Mundo.

Administradoras, parceiros comerciais e naming rights

A arenização do futebol brasileiro permitiu a entrada de novos agentes no mercado. É comum que as arenas contem com empresas para administrá-las parcial ou totalmente. E os acordos envolvem repasses de valores arrecadados em bilheterias, cujos tamanhos variam a cada caso.

Há o exemplo do Palmeiras, que administra o Allianz Parque junto com a empreiteira WTorre, com quem divide lucros e receitas. O Corinthians, por sua vez, administra a Arena Corinthians em conjunto com a Odebrecht e outra empresa de gestão de fundos. O Grêmio também tem uma parceria com uma empreiteira, a OAS.

As arenas também permitem parcerias comerciais que explorem pela via do marketing os espaços dentro das estruturas. As medidas possíveis vão desde a venda de espaços para exposição de produtos (como carros e motocicletas), até a exibição de campanhas publicitárias em telões e parcerias em camarotes das arenas.

Por fim, as arenas também abrem possibilidade para os acordos de naming rights – quando uma empresa privada compra os direitos de nome da estrutura. O modelo, que pode render centenas de milhões aos clubes e administradoras, está consolidado no exterior, seja em clubes de futebol europeus ou em campos de esportes americanos.

No Brasil, apenas três arenas têm seus nomes ligados a uma empresa: o Allianz Parque, em São Paulo, cujos direitos de nome foram comprados pela seguradora alemã Allianz; e os estádios Itaipava Arena Pernambuco e Itaipava Arena Fonte Nova, em Recife e Salvador, compradas pelo grupo brasileiro de bebidas Petrópolis. Na Arena Pernambuco, a dificuldade para gerar receitas fez crescer o desinteresse pela arena, e os valores envolvidos na negociação dos naming rights caíram drasticamente após a Copa do Mundo.

COMO a arenização mexe com o público de futebol

As transformações pelas quais passaram os estádios – seja no Brasil ou no exterior – foram acompanhadas de alterações no público que vai aos jogos. As mudanças ocorreram tanto no perfil socioeconômico de quem está nas arquibancadas como na forma de torcer e apoiar a equipe.

Na academia, a maioria dos trabalhos entende que o estádio de futebol passou por um processo de elitização desde os anos 1990. Em contraposição, há trabalhos que, mesmo reconhecendo o aumento dos preços dos ingressos, discordam dessa ideia.

No geral, há poucas pesquisas acadêmicas que tragam os números precisos das mudanças que ocorreram no público que frequenta jogos de futebol. Há, no entanto, dois estudos no Brasil que confirmam a mudança no perfil socioeconômico dos torcedores em dois estádios brasileiros: a Arena Corinthians, em São Paulo, e a Arena do Grêmio, em Porto Alegre.

O caso da Arena Corinthians

Uma pesquisa de 2017 publicada pela Armatore, Market + Science, empresa de monitoramento de mercado, mostrou que o público da Arena Corinthians tem um perfil de renda elevada e alta escolaridade. Mais de um terço das 12 mil pessoas entrevistadas que frequentavam o estádio recebiam mais de R$ 8.800 ao mês – portanto, mais de dez salários mínimos da época. Pouco menos de um quarto recebia até quatro salários mínimos (R$ 3.520).

Em termos de escolaridade, quase 70% dos entrevistados tinham ensino superior completo. Apenas 15% tinham ensino médio completo ou menos anos de estudo.

As diferenças entre Olímpico e Arena do Grêmio

Em dezembro de 2012, o Grêmio de Porto Alegre trocou sua antiga casa em Porto Alegre, o Estádio Olímpico, pela recém-construída Arena do Grêmio. Em sua tese de doutorado, defendida em 2016 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o pesquisador Getúlio Reale Jr. comparou o perfil do público dos jogos do Grêmio antes e depois da mudança de estádio.

A pesquisa mostrou que houve uma transformação do público após a migração, mas menos abrupta do que poderia se imaginar. O autor escreve que ocorreu um processo de exclusão de torcedores com menos capital econômico e cultural, mas de forma gradual.

POR QUE há resistência às arenas

Muitos pesquisadores identificam que as arenas transformaram não só o público como a forma de torcer. A estrutura arquitetônica e a forma de tratar os torcedores primeiramente como consumidores alterou as relações e os hábitos nas arquibancadas.

“Esses equipamentos [as estruturas das arenas] exigem, acima de qualquer outro aspecto, a reformatação dos públicos do futebol enquanto um dos seus produtos, selecionando-o de acordo com suas capacidades de consumo e exigindo desse novo público um padrão de comportamento mais passivo e menos passional com relação aos clubes”

Irlan Simões Santos e Ronaldo Helal

pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em artigo publicado na revista Tríade em 2016

A passividade das torcidas nas arenas tem sido alvo de discussão em diversos lugares do mundo onde o processo de arenização está consolidado. Na Inglaterra, o silêncio nos estádios é tratado como um problema tanto pelos clubes como pela liga local, que é prejudicada na área de marketing pelo menor apelo televisivo das arquibancadas silenciosas. O diagnóstico principal é de que o preço alto dos ingressos leva os torcedores a irem à partida não com o objetivo de participar, mas de serem entretidos. É comum nas arenas inglesas que as poucas manifestações das torcidas ocorram para vaiar ou cobrar a equipe mandante, como exigência de um retorno por um produto caro. Outro fator ao qual o silêncio nos jogos ingleses é atribuído é a presença maciça dos celulares nas arquibancadas, que acabam servindo como distração.

“Na perspectiva de seus críticos [...], a intromissão do coeficiente mercantil, exponenciada no futebol de espetáculo contemporâneo, seria a causa do fim das emoções, da autenticidade, da espontaneidade, da história, da tradição e da rivalidade no futebol”

Felipe Tavares Paes Lopes e Bernardo Borges Buarque de Hollanda

pesquisadores da Universidade de Sorocaba e da Fundação Getúlio Vargas, respectivamente, em artigo publicado em 2018

Outro argumento usado é que, com os preços altos dos ingressos, os jogos de futebol se tornaram eventos sociais como quaisquer outros. O interesse esportivo fica de lado e o público foca no ato de “ver e ser visto”, tirando fotos para exibir nas redes sociais.

O conjunto das transformações nos estádios e seus efeitos sobre as arquibancadas é alvo de crítica e resistência por parte de parcelas de torcedores, no Brasil e afora. Em especial, há oposição das torcidas organizadas, mais identificadas com a “forma antiga” de torcer.

Os movimentos contra o “futebol moderno”

Uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas em parceria com o site Ludopédio, o Museu do Futebol e o governo do Estado de São Paulo mostrou que metade dos membros de torcidas organizadas paulistas ficaram insatisfeitos ou pouco satisfeitos com as arenas que foram erguidas no Brasil para a Copa do Mundo de 2014. Da mesma forma, metade dos entrevistados pela pesquisa afirmou que as mudanças que ocorreram nos estádios tornaram o ambiente pior ou muito pior. O estudo captou que, nas torcidas organizadas, quanto menor o grau de escolaridade, maior a insatisfação com as arenas.

A resistência das torcidas organizadas se dá principalmente no sentido de rejeitar o tratamento de consumidores e de protestar contra preços altos dos ingressos. São recorrentes as manifestações de torcidas contra aquilo que chamam de “futebol moderno” – expressão que engloba o conjunto das transformações pelas quais passaram os espaços do futebol desde os anos 1990.

A resistência ao “futebol moderno” aparece em diferentes tipos de atos de torcedores por todo o mundo. Desde meados da década de 2010, é comum que torcedores se manifestem contra os preços altos dos ingressos, seja com faixas e cartazes em dias de jogos, reações em redes sociais ou protestos nas instalações dos clubes. Ações nesses moldes já foram registradas em países como Inglaterra, Suíça, Alemanha e Itália. No Brasil, clubes como Palmeiras, Atlético-MG, São Paulo, Flamengo, Corinthians e Santos já foram alvo de reclamações de suas próprias torcidas.

Mas a rejeição ao futebol moderno não se resume aos preços dos ingressos. A resistência acaba se estendendo a todos os princípios mercadológicos que ganharam protagonismo no futebol desde os anos 1990 e que levaram à exclusão de parte dos torcedores dos estádios. A ação de resistir se dá tanto pela externalização da insatisfação em atos de transgressão – como protestos, boicotes e xingamentos –, mas também pela preservação de tradições mais antigas. As referências a estéticas de outras épocas, seja por roupas ou sinalizadores no estádio, ocupa um papel central na resistência, que, no Brasil, tem as torcidas organizadas como protagonistas.

Os movimentos contra o “futebol moderno” já resultaram em associações de diferentes torcidas, tanto na Europa como no Brasil. Algumas dessas associações, inclusive, conseguiram estabelecer diálogos com clubes para alcançar mudanças nos estádios, como a retirada das cadeiras de parte das arquibancadas – como ocorreu na Arena Corinthians, no Brasil, e no Signal Iduna Park, estádio do Borussia Dortmund na Alemanha.

A resistência aparece também em jogos de equipes menores, pouco atingidas pelas transformações arenizantes. Nesses locais, as manifestações surgem como sinais de valorização das tradições – referidas no Brasil muitas vezes como o “futebol raiz”. Um exemplo conhecido em São Paulo é a Rua Javari, estádio do Juventus da Mooca, tradicional bairro de imigração italiana.

A arenização NAS ARTES

“Adeus, geral” (2016), documentário de Gustavo Altman, Martina Alzugaray, Matheus Bosco, Pedro Arakaki e Pedro Junqueira

“O campeão” (1982), música de Neguinho da Beija-Flor

“Geraldinos” (2015), documentário de Pedro Asbeg e Renato Martins

“Hillsborough” (2016), documentário da BBC

“Memória da Arquibancada: Histórias do Maracanã” (2019), documentário de Luís Costa

“A Era das Arenas” (2017), documentário de Rogério Dias

A arenização EM ASPAS

“Pobre assiste na televisão, e rico vai ao estádio”

Alexandre Kalil

prefeito de Belo Horizonte desde 2017 e ex-presidente do Atlético-MG (2008-2014), em entrevista ao UOL publicada em fevereiro de 2019

“Arenas da Copa não são elefantes brancos”

Aldo Rebelo

ex-ministro do Esporte, em entrevista publicada pela revista Veja em agosto de 2019

“Não existe mais estádio de futebol. Existe arena”

Luiz Gonzaga Belluzzo

economista e ex-presidente do Palmeiras, em entrevista para o documentário “A Era das Arenas”

“O tão criticado 'padrão Fifa' trouxe uma grande contribuição ao país, ampliando o grau de exigência de qualidade para a organização de novos eventos importantes”

Octavio de Barros

ex-economista-chefe do banco Bradesco, em entrevista publicada pelo G1 em julho de 2014

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Colaborou Lucas Gomes com os gráficos

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