A crença no poder dos astros: da Antiguidade à internet

Astrologia mantém sua influência cultural na contemporaneidade apesar de contestações científicas sobre sua validade

Foto: Sariana Fernández/Nexo
Desde a Antiguidade, a astrologia desempenha um papel na cultura e na espiritualidade de quase todas as civilizações
Desde a Antiguidade, a astrologia desempenha um papel na cultura e na espiritualidade de quase todas as civilizações

Originada há milhares de anos, a astrologia inspira e orienta pessoas pelo mundo, de gente comum a governantes importantes da história, incluindo reis da Antiguidade e figuras do século 20, como Charles de Gaulle e Ronald Reagan.

Considerada atualmente uma pseudociência, a astrologia mantém sua relevância cultural e espiritual, sendo largamente consumida no século 21 na internet, sobretudo nas redes sociais e em aplicativos. Entenda os conceitos da astrologia e veja as discussões que o tema desperta.

O QUE é astrologia

É o estudo da posição e do movimento das estrelas, dos planetas, do Sol e da Lua com o objetivo prever a influência desses corpos sobre eventos terrestres e sobre os seres humanos. Desde a Antiguidade, ela desempenha um papel na cultura e na espiritualidade de quase todas as civilizações.

Astrologia e astronomia chegaram a ter uma origem comum na Antiguidade, partindo dos mesmos princípios de observação do céu, e caminharam em paralelo por milhares de anos.

O caminho das duas disciplinas seguiu rumos separados a partir dos séculos 16 e 17, quando a consolidação do método científico e as descobertas de cientistas como Johannes Kepler (1571-1630) foram incorporadas pela astronomia.

Foto: Wikimedia Commons
Entalhe medieval dos signos do zodíaco, séc 16
Entalhe medieval dos signos do zodíaco, séc. 16

O filólogo clássico alemão Franz Boll (1867-1924) afirmou que a essência da astrologia é querer ser religião e ciência ao mesmo tempo. Se aproxima da religião por professar que o cosmos, a natureza e os seres humanos são regidos por forças do além, e da ciência ao se basear em cálculos sobre a posição dos astros e dividir o céu em setores geometricamente exatos.

O movimento de translação da Terra em torno do Sol faz parecer que é ele que se move entre as estrelas. A trajetória aparente descrita pelo Sol na esfera celeste ao longo do ano chama-se eclíptica. A órbita da maioria dos planetas também se dá no plano eclíptico.

É dessa linha imaginária que parte o sistema de coordenadas celestes da astronomia, usado para determinar a posição dos astros no céu.

O zodíaco da astrologia também é estruturado a partir da eclíptica: baseia-se em uma divisão em 12 partes iguais dela, cada uma correspondente a um signo.

O mapa astral mostra como estava o céu no momento exato do nascimento de uma pessoa. Para a astrologia, sua leitura revela características do indivíduo de acordo com os signos associados aos planetas e casas.

QUEM criou a astrologia

A reverência e o culto aos corpos celestes praticados por povos da Antiguidade podem ser considerados um estágio anterior ao desenvolvimento da astrologia (e mesmo à origem das religiões). Na escrita pictográfica dos sumérios, por volta de 3.000 a.C., e um pouco mais tarde, nos registros de assírios e babilônios, havia uma conexão linguística entre os conceitos de estrela e deus. Essa mitologia astral antecipa a visão de mundo da astrologia.

Suas origens remontam, portanto, à região da Mesopotâmia, ocupada pelas civilizações Suméria e Babilônica, por volta de 2.500 a.C. Essa primazia é disputada pelo Egito Antigo – argumento defendido, por exemplo, pelo cientista Cláudio Ptolomeu (90-168 d.C.) –, mas não há evidência histórica suficiente para comprovar qual precedeu a outra ou se ambas se desenvolveram em paralelo.

Para as civilizações mesopotâmicas, os planetas estavam associados às funções e habilidades de determinados deuses e tinham influência sobre fenômenos naturais e também humanos.

Foto: Wikimedia Commons
Ilustração do cientista grego Ptolomeu publicada em livro de Giordano Ziletti em 1564
Ilustração do cientista grego Ptolomeu publicada em livro de Giordano Ziletti em 1564

Quando as previsões baseadas na posição dos planetas se expandiram para outros territórios, os nomes desses deuses foram adaptados para diferentes culturas e linguagens, mas suas características foram de modo geral mantidas.

O culto aos astros por parte dos babilônios, que incluía não apenas os planetas como as constelações, é o arquétipo do que viria a ser a astrologia.

Em séculos recentes, a astrologia ocidental não faz mais essa associação entre deuses e astros. Mas ainda segue a tradição dos babilônios com relação às propriedades ligadas aos astros, formuladas por eles.

A inscrição mais antiga que documenta a divisão do céu nas 12 partes que compõem o zodíaco data de 419 a.C. Em termos astronômicos, essa divisão resultou de uma intensa observação do movimento anual do Sol em torno da Terra – segundo a crença da época. Assim como os planetas, os signos zodiacais ganharam suas características próprias.

Além do culto aos astros, havia o aspecto astronômico, que envolvia observação e cálculos. Eles eram feitos apenas por sacerdotes. Os templos construídos pelos sumérios e babilônios serviam simultaneamente para reverenciar os astros deuses e para observar o movimento e as posições relativas de corpos celestiais visíveis, misturando a prática científica e a religiosa.

Estava delineado o princípio básico da astrologia: a crença de que tudo que acontece no céu tem relação com os eventos na Terra. Essa relação, embora misteriosa, poderia ser calculada, portanto, prevista, segundo seus adeptos.

QUANDO a astrologia ganhou força

A astrologia se espalhou pela região que cerca o Mar Mediterrâneo durante o Período Helenístico (300 a 200 a.C.). Nessa época, surgiu a astrologia helenística, desenvolvida principalmente a partir da tradição elaborada pelos babilônios e combinada a doutrinas filosóficas gregas.

Ela dá mais destaque ao horóscopo centrado na vida do indivíduo, na sua posição em face do universo e das transformações políticas e sociais em curso.

Esse horóscopo individual era produzido a partir do horário do nascimento, levando em consideração também o lugar, e presumia-se que forneceria informações sobre as predisposições e a trajetória de vida de uma pessoa. O exemplar mais antigo desse tipo de leitura individual dos astros data de 410 a.C.

É possível dizer que as raízes da astrologia como a conhecemos hoje foram concebidas no Oriente Médio e na Grécia Clássica entre 500 e 100 a.C.

A astrologia helenística foi praticada entre essa época e a Idade Média, quando o desenvolvimento da astronomia e da astrologia foram impulsionados pelo Império Islâmico.

Durante o período medieval, cientistas do mundo islâmico fizeram uma série de contribuições importantes para o campo da astronomia, criando teorias e conceitos que abriram caminho para um entendimento mais preciso dos movimentos dos astros.

Foto: Biblioteca Britânica/Wikimedia Commons
Atlas celeste, com constelações e os signos astrológicos, feito pelo cartógrafo Andreas Cellarius (1596-1665)
Atlas celeste, com constelações e os signos astrológicos, feito pelo cartógrafo Andreas Cellarius (1596-1665)

Astrólogos ofereciam seus serviços em bazares, onde as pessoas podiam pagar por leituras de horóscopo e previsões. Eram também empregados na corte real, onde auxiliavam os governantes a tomar decisões como o lançamento de uma campanha militar e davam consultas sobre o futuro de seus reinados. Foram ainda elaborados para prever o futuro de capitais como Bagdá na ocasião de sua fundação.

Possibilitada pela invenção da prensa móvel por Gutenberg nos anos 1450, a practica – um folheto impresso contendo previsões astrológicas para o ano – se tornou um gênero popular entre entre os séculos 15 e 17 nos territórios de língua alemã. Esse formato antecipou a relação entre astrologia e imprensa, que se tornaria fundamental nos séculos seguintes.

A astrologia consumida nos séculos 20 e 21 pelo Ocidente também deriva em grande parte da “astrologia moderna”, uma vertente desenvolvida pelo britânico Alan Leo (1860-1917) que, grosso modo, privilegia a compreensão da personalidade em detrimento da previsão de eventos futuros.

O trabalho do astrólogo incorporou à astrologia conceitos como os de karma e reencarnação, e se baseou também no estudo da teosofia, doutrina surgida no século 19 com ênfase na experiência mística e no esoterismo. A ele é atribuído o ressurgimento da astrologia no Ocidente, onde ela estava em declínio desde o século 17.

A sociedade na qual esse retorno floresceu, entre o fim do século 19 e o início do 20, vinha sendo transformada radicalmente pela Revolução Industrial e fora recentemente impactada pela publicação da obra “A origem das espécies”, de Charles Darwin, trabalho científico que abalou crenças religiosas.

A transição para uma astrologia com forte presença na cultura popular, expressa nas previsões diárias publicadas em meios de comunicação de massa, também tem raízes na prática de Leo. Ele inventou o “shiling horoscope”, uma previsão baseada no signo solar que era enviada pelo correio pelo valor de um xelim – precursora da ideia de explorar o potencial comercial de veicular horóscopos em um meio impresso.

Em agosto de 1930, pela ocasião do nascimento da princesa Margaret, irmã mais nova da rainha Elizabeth 2ª, uma previsão astrológica a respeito de seu futuro foi publicada pelo tabloide Sunday Express. O evento é considerado o marco inaugural da publicação de horóscopos em jornais e revistas não especializados.

O texto foi uma encomenda feita por John Gordon, editor do jornal, ao astrólogo Richard Harold Naylor, com o objetivo de noticiar o nascimento da princesa com uma abordagem diferente e impulsionar as vendas.

Embora não tenha sido a primeira previsão do tipo publicada por um jornal, o texto de Naylor foi um ponto de virada no consumo popular de horóscopos em jornais. Logo depois, ele inaugurou a primeira coluna de astrologia veiculada sob o título “What the stars foretell” (O que os astros preveem), com conselhos para os aniversariantes da semana.

Apenas em 1937, ambicionando atingir uma gama mais ampla de leitores, o astrólogo passou a trabalhar com previsões baseadas nos signos astrológicos ou “solares” – por se relacionarem à época do ano em que o Sol atravessa uma das 12 zonas celestiais vistas da Terra. Cada uma leva o nome de uma constelação próxima, que corresponde aos respectivos signos.

Com isso, a coluna caiu definitivamente no gosto do público e ganhou milhares de imitações. Parte delas sequer eram escritas por astrólogos.

Já então, a prática foi rejeitada por parte da comunidade de astrólogos, sendo criticada pelas generalizações e pela enorme simplificação do que consideram uma arte ancestral e complexa.

O argumento se mantém ainda hoje. Ao jornal The Guardian, a astróloga britânica Leigh Oswald disse em 2018 haver um ditado segundo o qual a astrologia dos signos solares, presente nos horóscopos, é conversa pra boi dormir. “Um bom mapa astral é uma sinfonia complexa, porque somos todos muito complicados”, defendeu.

ONDE a astrologia é forte no século 21

A astrologia ainda mantém sua legitimidade entre as ciências e uma presença cultural muito relevante na Índia, onde universidades chegam a oferecer bacharelado em astrologia. O país pratica a jyotisha, ou astrologia védica, um sistema específico que une as tradições grega e mesopotâmica da astrologia à noção de karma e a textos antigos do hinduísmo que versam sobre a finalidade da vida.

A crença nesse sistema, bastante difundida, exerce influência sobre as decisões tomadas em âmbito público e privado, ditando, por exemplo, o momento mais propício para a realização de um casamento, a inauguração de um negócio ou uma mudança de casa.

Foto: Museu Metropolitan/Wikimedia Commons
Pintura em aquarela de horóscopo com florais, Índia, 1850
Pintura em aquarela de horóscopo com florais, Índia, 1850

A China também conta com um zodíaco próprio, no qual cada signo é representado por um animal. Desde a década de 1990, porém, a astrologia ocidental tem se tornado mais popular no país e, nos últimos anos, contagiou sobretudo os mais jovens.

A astrologia do Ocidente é vista por essa nova geração como algo novo e exótico. Com isso, uma quantidade cada vez maior de chineses tem buscado a orientação dos astros para tomar decisões relativas a relacionamentos amorosos, amizades, filhos e mesmo sobre a contratação de funcionários.

Com relação a esta última, a crença nos astros tem desencadeado um novo tipo de discriminação, baseada no signo do concorrente. Uma pesquisa realizada no país em 2017 indicou que 4,3% dos chineses formados à procura de emprego haviam sido alvo de preconceito por conta de seu signo do zodíaco – chinês ou ocidental. Virginianos costumam ser os mais discriminados.

O zodíaco chinês tampouco perdeu sua relevância. Em 2014, diversas províncias do país registraram um pico nos nascimentos de bebês cujos pais almejavam ter seus filhos durante o ano do cavalo, antes da chegada do ano do carneiro, visto como menos favorável.

Ao longo dos séculos, a China desenvolveu técnicas de adivinhação que foram usadas dentro e fora de sua corte imperial. Ainda hoje, muitos chineses recorrem a essas práticas para fazer consultas sobre o próprio destino – uma delas é o bazi, previsão astrológica baseada no dia e hora exatos do nascimento.

Nesses dois casos, a astrologia integra o cotidiano e a complexa espiritualidade dessas culturas.

Mas a força da astrologia também é expressiva em outros países: segundo uma pesquisa com dados de 2012, a rejeição dos americanos à astrologia naquele ano foi a menor desde a década de 1980. Os jovens de 18 a 24 anos eram o grupo com menos chance de vê-la com ceticismo, considerando-a nada científica.

COMO a astrologia se mantém popular

A ampla aceitação cultural recobrada pela astrologia no fim da década de 2010 não era vista desde as décadas de 1960 e 1970. Entre esses dois períodos, ela não desapareceu: permaneceu, por exemplo, nas páginas de jornais e revistas, mas passou para o segundo plano em termos de relevância.

O interesse renovado pela astrologia por parte de uma geração jovem – os millennials e a geração z – tem sido explicado por uma combinação de ingredientes. Um deles é a internet, mais especificamente as redes sociais. Há sites e perfis inteiramente dedicados à astrologia, aplicativos que fornecem horóscopos diários e outros serviços astrológicos, podcasts e uma avalanche de memes sobre o comportamento de cada signo.

Foto: Wikimedia Commons
Horóscopo feito à mão do príncipe Iskandar
Horóscopo feito à mão do príncipe Iskandar, nascido em 25 de abril de 1384, membro da Dinastia Timúrida, muçulmana e de ascendência turco-mongol, que governou a Ásia Central

Nesse sentido, como aponta o jornal The New York Times, a astrologia voltou não só como prática espiritual tradicional mas também como negócio, dedicado a produzir um conteúdo atraente para um público ávido.

Outros fatores comumente apontados para explicar esse retorno são o declínio de religiões organizadas entre os jovens e a incerteza gerada pela combinação de precariedade econômica e pânico decorrente do cenário político.

Voltar-se para um sistema de crenças estabelecido em um momento de crise é um mecanismo individual e social que se repete ao longo da história. A astrologia é um dos sistemas que passam a exercer forte apelo em períodos como esse.

Quando Richard Harold Naylor publicou no Sunday Express sua previsão sobre o futuro da princesa recém-nascida, em 1930, inaugurando o sucesso de massa do horóscopo na imprensa, menos de um ano havia se passado desde a quebra da Bolsa de Nova York, que deu início à Grande Depressão, como lembra uma reportagem da revista New Yorker.

Além do fornecimento de uma possível explicação – e, consequentemente, conforto – para grandes eventos que parecem estar fora do nosso controle, como catástrofes e resultados de eleições, o componente psicológico da astrologia é o que atrai grande parte de seu público.

A astrologia contemporânea se distanciou da ciência observacional na qual se baseava em sua origem e tem hoje uma relação mais próxima com a psicologia. Não à toa o nascimento da disciplina coincide com o surgimento da vertente mais “pop” da astrologia que conhecemos hoje, no fim do século 19 e início do 20.

Nessa vertente, o mapa astral é visto como uma representação da psiquê, e o horóscopo, como uma ferramenta para identificar o propósito e o potencial de crescimento psicológico e espiritual do indivíduo, sem determinismo. Ela é criticada por tender ao viés de confirmação, fazendo afirmações que condizem com o que as pessoas desejam ouvir sobre si e sobre o mundo.

Muito dessa convergência entre astrologia e psicologia se deve à produção do psiquiatra e psicoterapeuta Carl Jung (1875-1961), que durante décadas estudou e produziu análises sobre a astrologia como parte de seu trabalho sobre mitologia e arquétipos. Embora ele a tenha abordado criticamente, seu interesse é usado por alguns astrólogos como sinal de legitimidade.

O apelo da astrologia e a identificação sentida por muitas pessoas quando leem um horóscopo podem ainda ser explicados pelo Efeito Barnum ou Forer. Demonstrado por um estudo de 1949, ele consiste na aceitação de descrições de personalidade fictícias e imprecisas como exatas e verdadeiras.

POR QUE a astrologia não é uma ciência

A astrologia não é considerada uma ciência pela comunidade científica por não contar com evidências que provem sua validade.

Enquanto a astronomia considera as alterações ocorridas na configuração dos astros ao longo do tempo, a disposição dos elementos usados para fazer os cálculos do mapa astral continua praticamente a mesma desde a concepção da astrologia.

Seus fundamentos ainda pressupõem que a Terra está no centro do universo, rodeada pelo Zodíaco. O surgimento da astrologia é anterior à formulação do heliocentrismo, modelo que colocou o Sol no centro do universo, e das teorias gravitacional e eletromagnética, que explicam fenômenos do sistema solar como a órbita dos planetas.

Tanto a teoria gravitacional de Isaac Newton (1643-1727) e Albert Einstein (1879-1955) quanto a teoria eletromagnética de James Clerk Maxwell (1831-1879) comprovam que o efeito dos astros sobre as pessoas é desprezível, muito menor do que o efeito de outros corpos que estão na própria Terra.

Outro argumento científico que contesta a astrologia é que todas as forças conhecidas (gravitacional, elétrica e magnética, por exemplo) dependem da distância entre os corpos. O cálculo do horóscopo assume que o efeito de um planeta como Marte seria o mesmo quando ele está do mesmo lado do Sol que a Terra e quando ele está do outro lado do Sol, cinco vezes mais distante.

Além disso, devido à precessão, fenômeno físico que corresponde ao deslocamento circular efetuado pelo planeta em torno do eixo de sua eclíptica, a posição dos astros vem sofrendo alterações que a definição astrológica dos signos do zodíaco ignora. Esse movimento faz com que o Sol atualmente cruze as constelações correspondentes aos signos cerca de um mês mais tarde.

Entre as poucas inovações astronômicas incorporadas à astrologia está a descoberta dos planetas Urano, Netuno e Plutão, que trouxeram novos elementos à interpretação astrológica. Ainda assim, há críticas de que a adição desses planetas foi feita sem os séculos de observação que caracterizaram a astrologia helenística.

Não há só argumentos astronômicos contra a astrologia. Os efeitos das posições dos astros sobre fenômenos terrestres nunca foram demonstrados por pesquisas científicas sistemáticas de várias áreas do conhecimento.

4 estudos sobre astronomia

DIVÓRCIOS

Em pesquisa sobre o casamento e divórcio de mais de 3.000 casais, o psicólogo Bernard Silverman, da Universidade de Michigan, nos EUA, não encontrou correlação entre esses eventos e as previsões registradas nos horóscopos de compatibilidade ou incompatibilidade entre signos solares. No livro “A interpretação da natureza e da psique”, (1971), o psicólogo suíço Carl Jung tampouco encontrou correlação.

DUPLO-CEGO

Em um experimento de 1985 com 28 astrólogos, o físico Shawn Carlson, da Universidade da Califórnia, propôs um teste duplo-cego em que voluntários respondiam a um questionário sobre sua personalidade e, depois, forneciam informações para que a equipe produzisse seu mapa astral. A proposta era que, no fim do processo, diante de três questionários do tipo, os astrólogos dissessem qual deles estaria associado a determinado mapa. A organização dizia que sua taxa de acerto ultrapassaria 50%, mas o resultado foi de 34% de associações — a probabilidade, numa escolha ao acaso entre três, é de 33% de acerto.

EFEITO ERRADO

O ilusionista James Randi, em um experimento em um colégio, disfarçou-se de astrólogo e fingiu fazer leituras de mapa astral dos estudantes a partir de informações como local e horário de nascimento. Ao conferir a leitura de personalidade, os estudantes as consideraram muito precisas. Randi pediu então que cada um mostrasse sua descrição ao colega ao lado. Feito isso, todos perceberam que os textos eram iguais, escritos de forma vaga o bastante para se aplicarem a uma grande quantidade de pessoas.

90% FALSO

No livro “Astrology: True or False” (1988), os astrônomos Roger Culver e Philip Ianna registraram as previsões de astrólogos e organizações astrológicas conhecidas durante cinco anos. De 3.000 previsões envolvendo políticos, atores e pessoas famosas, 10% se concretizaram.

As tentativas de reabilitação

Há, no entanto, um grupo minoritário de cientistas que argumentaram em favor da astrologia. O psicólogo Michel Gauquelin (1928-1991) foi pioneiro na aplicação da estatística à astrologia e buscou restabelecer as bases teóricas da observação dos astros, principalmente com o livro “A base científica da astrologia”, publicado em 1969.

Essas tentativas de reabilitá-la cientificamente não se restringem ao passado. O livro “A prova científica da astrologia”, publicado no início dos anos 2000 pelo pesquisador Percy Seymour, defende que o campo magnético da Terra sofre influência do Sol, da Lua e de vários planetas. Seymour foi professor de astronomia e astrofísica da Universidade de Plymouth, na Inglaterra.

Para o americano Samuel Reynolds, que começou a estudar astrologia com o intuito de desmascará-la e acabou se tornando astrólogo, afirma que ela é uma linguagem literária simbólica e espiritual que a ciência empírica não pode validar nem invalidar.

EM ASPAS

“Toda a mitologia seria uma espécie de projeção do inconsciente coletivo. É no céu estrelado, cujas formas caóticas foram organizadas mediante a projeção de imagens, que vemos isto o mais claramente possível. Isto explica as influências dos astros, afirmadas pela Astrologia: estas influências mais não seriam do que percepções introspectivas inconscientes da atividade do inconsciente coletivo. Do mesmo modo como as constelações foram projetadas no céu, assim, também outras figuras semelhantes foram projetadas nas lendas e nos contos de fadas ou em personagens históricas”

Carl Jung

no livro ‘A natureza da psique’

“Um astrólogo não pode te dizer para se casar com o homem ou não se casar com o homem, para aceitar o emprego ou para não aceitar o emprego… Eu posso te dar o timing, e posso te dizer quais perguntas fazer, mas, no fim das contas, é você que está no banco do motorista”

Susan Miller

astróloga, em entrevista ao Financial Times

“A separação clara entre a alquimia e a química, entre a astrologia e a astronomia, é uma realização comparativamente recente. Hoje, entretanto, é patente a incompatibilidade entre o progresso nas ciências naturais, tais como a astrofísica, e a crença na astrologia. Aqueles que combinam o conhecimento de ambas são forçados a uma regressão intelectual que, anteriormente, dificilmente entrava em jogo. Em um mundo no qual, através da literatura científica popular, e em particular da ficção científica, qualquer garoto em idade escolar sabe da existência de bilhões de galáxias, da insignificância cósmica da Terra e das leis mecânicas governando os movimentos dos sistemas estelares, a visão geocêntrica e antropocêntrica implicada pela astrologia é completamente anacrônica. Assim, podemos assumir que apenas exigências instintuais muito fortes podem fazer que as pessoas ainda aceitem ou venham a aceitar a astrologia”

Theodor Adorno

no livro “As estrelas descem à Terra”, de 1952

NA ARTE

  • “O dia em que Urano entrou em escorpião”, conto de Caio F. Abreu, publicado no livro “Morangos mofados”

  • “Taurina”, álbum de Anelis Assumpção

  • “Hair” (1979), filme de Milos Forman

  • “Os cavaleiros do zodíaco”, anime criado na década de 1980

  • “Da maior importância”, música de Caetano Veloso

VÁ AINDA MAIS FUNDO

  • Projeto Hindsight, grupo de astrólogos que traduz textos da Antiguidade e pesquisa os fundamentos tradicionais da astrologia, com foco na astrologia helenística

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