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Depressão: do estigma ao transtorno de grandes proporções

Cerca de 4% da população mundial sofre da condição, que por muito tempo foi pouco discutida. Entenda todos os aspectos que envolvem a questão

 

Uma estimativa da OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgada em 2017 mostrou que cerca de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão, algo que corresponde a 4,4% da população global. O transtorno pode levar a uma série de outras enfermidades e nos casos mais graves estimular o suicídio, causa da morte de cerca de 800 mil pessoas todo ano no mundo.

Considerado um dos problemas de saúde mental mais comuns, a depressão traz consigo o estigma que associa seus sintomas à inadequação social ou à falta de força de vontade. Por muito tempo, foi pouco discutida. Agora é a principal causa de incapacidade em todo o mundo e raramente está longe das notícias.

O QUE é depressão

A Classificação Internacional de Doenças, mantida pela OMS, define a depressão como um transtorno, e não como uma doença. Isso quer dizer que ela é mais associada a um desarranjo ou distúrbio que afeta a mente e o corpo, com causas intrínsecas à pessoa. Já doenças se definem por sinais e sintomas característicos, e são mais associadas a causas externas, como vírus ou bactérias.

Ela é resultado de uma interação de fatores sociais, psicológicos e biológicos. Um artigo sobre as causas da depressão publicado em 2019 pela Universidade de Harvard sinaliza que há muitas causas possíveis, incluindo “regulação de humor problemática pelo cérebro, vulnerabilidade genética, eventos de vida estressantes, medicamentos e problemas médicos”. Pessoas que passaram por traumas e outros eventos adversos são mais propensas a desenvolver o transtorno, algo que pode levar a mais estresse e sofrimento.

A OMS explica que a condição é diferente de oscilações usuais de humor. Um episódio depressivo pode ser categorizado como leve, moderado ou grave, a depender da intensidade dos sintomas. Sobretudo quando tem longa duração e intensidade moderada ou grave, pode se tornar uma condição de saúde crítica, gerando grande sofrimento e disfunções na vida cotidiana.

Dois tipos principais

Transtorno depressivo recorrente

É o caso quando episódios depressivos ocorrem repetidas vezes, com duração de pelo menos duas semanas. Esses períodos são caracterizados por “humor deprimido, perda de interesse e prazer e redução de energia, levando à redução da atividade”. Ansiedade, distúrbios de sono e de apetite são comuns, além de sentimentos de culpa, autoestima prejudicada, dificuldade de concentração e sintomas sem explicação médica. Quem apresenta sintomas leves pode ter dificuldade em tocar suas atividades, mas “provavelmente não deixará suas atividades completamente”, nas palavras da OMS. Em casos severos, dificilmente o indivíduo conseguirá manter suas atividades sociais, profissionais ou domésticas.

Depressão do transtorno bipolar

É caracterizada por uma alternância de episódios depressivos e de mania, separados por períodos de humor normal. Episódios maníacos são caracterizados por humor exaltado ou irritado, hiperatividade, fala frenética, autoestima inflada, aceleração do pensamento e necessidade menor de sono.

EM QUE partes do corpo a depressão se manifesta

A depressão se manifesta de maneiras diferentes em cada um, mas de modo geral tem implicações na saúde física. Alguns dos sintomas do transtorno podem ser mudanças no corpo, como alterações no peso e perda de apetite. Fadiga, falta de energia ou sensação de lentidão também são efeitos que a depressão pode causar, além de dificuldade em dormir, acordar cedo demais ou ter sono excessivo.

A depressão também pode levar a doenças cardiovasculares e vice-versa. Dados globais apresentados na pesquisa “Impacto de enfermidades depressivas por país, sexo, idade e ano”, publicada em 2013 na Public Library of Science, apontam que 4 milhões de pessoas morrem anualmente de doenças do coração associadas à depressão.

Em uma nota pública sobre o tema, o Instituto Nacional de Saúde Mental do governo dos Estados Unidos aponta alguns sintomas que podem ajudar a identificar depressão:

  • Sentir-se desesperançoso, pessimista
  • Sentir-se culpado, sem valor, rendido
  • Perda de interesse ou prazer em hobbies e atividades
  • Fadiga, falta de energia, sentir-se lento
  • Dificuldade de concentração, falta de memória, dificuldade em tomar decisões
  • Dificuldade em dormir, acordar cedo demais, ou dormir demais
  • Perda de apetite ou mudanças de peso
  • Pensamentos sobre morte ou suicídio, tentativas de suicídio
  • Irritabilidade
  • Sintomas físicos persistentes

Fatores que podem influenciar

NEUROTRANSMISSORES

Neurotransmissores, como a serotonina, são substâncias químicas que garantem a transmissão de mensagens entre um neurônio e outro. Há indícios de que, entre pessoas com depressão, a interação entre neurotransmissores e as células é alterada. Isso pode ocorrer porque os receptores dos neurotransmissores se tornam hipersensíveis ou insensíveis a eles, o que altera sua resposta. Ou então porque a produção dos neurotransmissores é desregulada, por exemplo. No geral, antidepressivos intervêm nesses sistemas levando ao aumento dos neurotransmissores nos espaços entre um neurônio e outro. Os casos de eficácia desses medicamentos não bastam, no entanto, para cientificamente comprovar a tese de que é um “desequilíbrio químico” que causa a depressão.

ESTRESSE

“Estresse” é o termo geralmente utilizado para definir reações físicas a estímulos que requerem que o indivíduo se ajuste a uma situação. Isso ocorre, por exemplo, quando ameaças, reais ou não, são identificadas. Um dos efeitos fisiológicos do estresse é a liberação de hormônio liberador da corticotropina que, por sua vez, leva à liberação de um outro hormônio, o cortisol. É como se o corpo se preparasse para lutar ou correr. Alguns efeitos comuns são “coração batendo mais forte, músculos tensos, respiração acelerada e suor”. A atenção e sentidos como audição ficam mais aguçados. O estresse também afeta o córtex cerebral, a amígdala, o tronco cerebral e a concentração de neurotransmissores no cérebro. Segundo nota da Universidade de Harvard, “alterações nos sistemas hormonais podem, portanto, afetar neurotransmissores e vice-versa. Estudos mostraram que pessoas depressivas tipicamente têm níveis elevados de hormônio liberador da corticotropina”.

CÉREBRO

Há indícios de que a depressão se relaciona também a particularidades dos cérebros. “O estresse, que tem um papel na depressão, pode ser um fator-chave aqui, à medida que especialistas acreditam que o estresse pode suprimir a produção de novos neurônios [células nervosas] no hipocampo”, diz a nota da Universidade de Harvard. Ou seja, o estresse também pode alterar o formato do cérebro. Uma pesquisa publicada em 1999 na revista acadêmica The Journal of Neuroscience estudou 24 mulheres com histórico de depressão. Em média, elas tinham um hipocampo entre 9% e 13% menor do que a média de mulheres sem depressão. Essa área do cérebro tem um papel importante no processamento da memória. Antidepressivos liberam neurotransmissores, como a serotonina, imediatamente, mas em muitos casos só funcionam no decorrer de semanas. Nesse tempo, contribuem para a formação de novos neurônios. Por isso cientistas estudam a hipótese de que essa transformação na estrutura do cérebro, e não apenas a liberação imediata de neurotransmissores, seria uma das causas para a eficácia desses remédios no tratamento de muitos dos casos de depressão. Além disso, a amígdala, uma parte do cérebro associada a emoções como prazer, dor, tristeza e medo, tem um nível de atividade maior entre pessoas deprimidas.

GENÉTICA

Genes influenciam toda parte do corpo, incluindo a formação do cérebro e o funcionamento dos neurotransmissores. No caso de gêmeos com carga genética idêntica, se um apresentar depressão do transtorno bipolar, o outro tem uma chance de entre 60% e 80% de ter o mesmo problema, por exemplo. Entre outros casos de depressão, a correlação é menor. Alguém com um parente em primeiro grau que passou por episódios de depressão severa tem uma chance entre 1,5% e 3% maior de passar pelo mesmo problema do que a média.

 SEPARAÇÕES E TRAUMAS

Há indícios de que pessoas que passaram por perdas profundas na infância, como a morte ou afastamento de parentes queridos, podem sofrer, mais tarde, com sintomas depressivos. "Quando a pessoa não está ciente da origem de sua doença, ele ou ela não pode superar facilmente a depressão. Além disso, a não ser que a pessoa atinja uma compreensão consciente da origem de seu problema, perdas ou decepções futuras podem fazer com que [a depressão] volte", afirma a nota. Muitos pesquisadores também acreditam que traumas na infância levam a mudanças no funcionamento cerebral, que contribuem para sintomas de depressão e ansiedade.

QUANDO a depressão passou a ser vista como transtorno

No Ocidente, foi Hipócrates quem primeiro sistematizou características da depressão, no século 4 a.C. Ele cunhou o termo “melancolia” para designar um desequilíbrio entre os quatro humores que constituíam o corpo humano: bile negra, bile amarela, sangue e fleuma. O excesso de bile negra seria o responsável por causar os sintomas da melancolia.

 

A melancolia por muito tempo foi associada a mitos, superstições e possessões demoníacas, e não a questões próprias da natureza humana, sobretudo no período da Idade Média. Foi só na passagem do século 18 para o 19 que a ideia foi lentamente substituída pelo conceito moderno de depressão, fruto do desenvolvimento do conhecimento sobre a anatomia do cérebro e da ascensão da psiquiatria e da psicologia. O termo “depressão” começou a aparecer nos dicionários médicos por volta de 1860.

O século 20 foi um marco no tratamento e compreensão da depressão. De acordo com o livro “A história da melancolia”, o advento dos primeiros psicofármacos, que exigiram critérios diagnósticos mais precisos para suas aplicações, e a criação da Organização Mundial da Saúde, em 1948, impulsionaram a tentativa de desenvolver uma classificação internacional de doenças, traumatismos e causas de morte e, consequentemente, padronizar e compartilhar suas definições. A primeira revisão, a Classificação Internacional de Doenças, em sua 6º versão (CID-6), elaborada pela entidade, continha, na seção 5: “As desordens mentais, psiconeuróticas e de personalidade”.

Em 1952, foi criado o primeiro DSM, o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, dedicado exclusivamente à saúde mental. Mas a primeira edição ainda contemplava a ideia de que a depressão poderia ter dois tipos: a endógena, consequência da oscilação de humor, e a depressão reativa, fruto de uma resposta do paciente a eventos externos. Ou seja, o transtorno era encarado não como consequência de uma interação de fatores, mas como exclusivamente biológica ou exclusivamente fruto de fatores externos.

A ideia de que a depressão envolve uma interação gene-ambiente passou a ser discutida somente nas últimas décadas do século 20. E a dicotomia entre depressão endógena e exógena só foi abolida na publicação da terceira edição do manual, nos anos 1980. No fim dessa mesma década, o uso de antidepressivos começou a se popularizar, sobretudo por causa da chegada do Prozac ao mercado americano. Ele era divulgado como uma espécie de "corretivo" para o desequilíbrio da serotonina do cérebro sem gerar tantos efeitos colaterais.

QUEM a depressão mais atinge

Mulheres são mais afetadas pela depressão do que homens, segundo dados da OMS. E apesar de a taxa de casos de depressão ter aumentado globalmente, mais de 80% dos diagnósticos da doença ocorreram em países de renda média ou baixa. Não há uma discrepância substancial de prevalência da depressão em nenhuma faixa etária específica, embora a incidência seja maior em pessoas mais velhas, especialmente entre 55 e 74 anos.

 

 

 

Um estudo publicado em 2019 no Journal of Abnormal Psychology, um periódico da Associação Americana de Psicologia, mostra que entre 2005 e 2017 a taxa de episódios depressivos aumentou 52% entre adolescentes de 12 a 17 anos e 63% entre jovens adultos (18 a 25) nos Estados Unidos. Ou seja, o número de jovens que sofrem de depressão cresce de maneira acelerada, embora eles não representem o grupo mais afetado pelo transtorno.

No Brasil, dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2013 indicam que 7,9% da população do país sofre de depressão, acima da média global. O estudo Desigualdades no acesso ao tratamento de depressão: resultados da PNS mostra que a maioria da população afetada é de mulheres, e que a doença atinge principalmente os pretos e pardos. A prevalência, nesse caso, é de 8,6% e 8,2% nessas populações, respectivamente. Em seguida estão os indígenas (8,1%), asiáticos (7,7%) e brancos (7,5%). Aqueles acima de 70 anos estão na faixa etária dos mais afetados - 10,3% deles têm depressão. A região mais atingida pelo transtorno é a Sul, onde 9,1% dos adultos apresentam depressão.

 

Entre os brasileiros que sofrem de depressão, 78% não recebem nenhum tipo de tratamento, que chega de forma desigual aos pacientes. O estudo mostrou que brancos têm uma probabilidade menor de sofrer de depressão no país e maior probabilidade de obter tratamento. A pesquisa também apontou que as regiões Norte e Nordeste são aquelas onde a maior proporção de depressivos não tem nenhum tratamento.

 

O gráfico acima traz os números da depressão e da ansiedade entre 1990 e 2015 no Brasil. Segundo a definição presente no DSM 5, os transtornos de ansiedade são aqueles que compartilham características de medo e ansiedade excessivos e perturbações comportamentais relacionadas. São diferentes do medo ou da ansiedade provisórios (induzidos, por exemplo, pelo estresse) pela maior intensidade e por serem persistentes (em geral, durando seis meses ou mais). O nível de ansiedade é desproporcional aos acontecimentos que podem gerar tensão e interfere na qualidade de vida de quem tem o transtorno. Segundo dados da OMS, o Brasil é o país com o maior número de ansiosos do mundo.

COMO o estigma da depressão dificulta o tratamento

Desde que pessoas que sofrem de depressão pararam de ser associadas a superstições, mitos e bruxarias, a percepção sobre saúde mental tem melhorado. Permanece, no entanto, o estigma do deprimido como alguém que não se adequa, é fraco ou se esforça pouco para encontrar uma solução para seus sintomas.

Embora existam tratamentos eficazes para o transtorno, baseados principalmente em psicoterapia e uso de medicamentos, separados ou em combinação, menos da metade da população afetada globalmente (em vários lugares, menos de 10%) recebe assistência. E o preconceito com relação à doença é um dos fatores que leva a essa estatística. Apesar de ser um dos quadros mais comuns do mundo atualmente, a depressão, assim como outros problemas relacionados à saúde mental, é um tabu.

O preconceito em torno do transtorno mobilizou campanhas públicas focadas na empatia com quem sofre de depressão e também estimulou músicos, artistas e outras figuras conhecidas a lidar publicamente com seus problemas psicológicos.

Isso impulsiona uma maior conscientização sobre o tema e, consequentemente, maior aceitação do diagnóstico. “Há dez anos, nunca teríamos visto uma lista assim [de famosos falando sobre sua saúde mental]", disse Seaneen Molloy-Vaughan, a escritora britânica que ficou famosa com seu blog “The Secret Life of a Manic Depressive (A Vida Secreta de um Maníaco Depressivo, na tradução livre) à BBC.

Uma pesquisa de 2014 de uma organização britânica de saúde mental sugere que 28% dos 2 mil entrevistados conseguiram falar de um problema psiquiátrico com um ente querido como consequência direta de uma declaração pública feita por uma pessoa famosa. Além disso, outros 25% que ouviram uma celebridade falando de suas dificuldades começaram a pensar em seus próprios problemas e acabaram pedindo ajuda.

Outros obstáculos

O estigma social em torno dos transtornos mentais é apenas uma das barreiras do acesso ao tratamento da depressão no mundo. A falta de recursos e de profissionais treinados e avaliações imprecisas também figuram entre os fatores que afastam pacientes do atendimento adequado, segundo a OMS. “Em países de todos os níveis de renda, pessoas com depressão frequentemente não são diagnosticadas corretamente e outras que não têm o transtorno são muitas vezes diagnosticadas de forma inadequada, com intervenções desnecessárias”, esclarece a entidade em nota.

No Brasil, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, a maioria dos depressivos não recebe nenhum tipo de tratamento, e a maior parte dos que se tratam recebe apenas medicamentos, ou seja, não passa por nenhum tipo de psicoterapia. O estudo não aponta um tipo de tratamento como superior ao outro - afirma apenas, com base no Guia prático para tratamento de pacientes com graves problemas de depressão, publicado em 2010 pela Associação Americana de Psiquiatria, que “o tratamento efetivo da depressão inclui medicamentos antidepressivos e psicoterapias, seja individualmente ou em combinação”.

A probabilidade de receber tratamento aumenta quando o paciente atende a um ou mais dos seguintes fatores: ter diploma universitário, ser branco, ser mulher, ter alguma outra doença relacionada à depressão e estar na faixa etária compreendida entre 30 e 69 anos. A dificuldade de obter tratamento também tem um recorte regional.

Ela é especialmente alta na região Norte, onde 90% dos depressivos não têm acesso a nenhum tratamento, e menor no Sul e no Sudeste, onde essa é a realidade de 67,5% e 75,9% das pessoas com depressão, respectivamente. Os pesquisadores ressaltam que essa diferença reflete a má distribuição de serviços e especialistas de saúde no país.

POR QUE o registro de pessoas com depressão cresce

O registro de casos de depressão no mundo aumentou 18,5% entre 2005 e 2015, segundo dados da OMS, e existe um debate em torno dos motivos pelos quais essa mudança aconteceu.

Alguns pesquisadores consideram que isso se deve ao aumento de notificações, mas não necessariamente da incidência do transtorno. Para Allan Horwitz, professor de sociologia da Universidade de Rutgers, e Jerome Wakefield, professor de serviço social da Universidade de Nova York, o que mudou foi o aumento de pessoas procurando tratamento para essa condição, o número de prescrições médicas de antidepressivos e também a quantidade de artigos sobre depressão na mídia e na literatura científica, além da presença crescente da depressão como um “fenômeno na cultura popular”.

Essa posição não é um consenso. Muitos defendem que existe, de fato, um aumento no número de pessoas que sofrem de depressão, sobretudo  jovens, mais expostos à problemas de saúde mental do que as gerações anteriores.

O impacto das redes sociais

Várias teorias têm surgido para tentar explicar o aumento dos casos de transtornos mentais entre jovens, sobretudo ansiedade e depressão. Uma das principais é aquela que associa o problema ao fortalecimento das redes sociais. A combinação da instabilidade de humores, sobretudo na adolescência, com o uso excessivo de redes que são espaços de autoafirmação e excesso de informações seria o principal fator para o declínio da saúde mental de crianças e jovens.

Como mostra uma reportagem da BBC, o cérebro em desenvolvimento cresce de modo assimétrico. Em um adolescente, o  hipocampo e a amígdala, que são regiões cerebrais responsáveis pelos sentimentos e por processar emoções, amadurecem mais rapidamente que o córtex pré-frontal, responsável pela regulação emocional e de impulsos. Ou seja, adolescentes já têm de lidar, por natureza, com mais obstáculos para balancear emoções e o discernimento, o que os tornaria mais suscetíveis a problemas de saúde mental.

Essa vulnerabilidade, segundo especialistas, é agravada pelos efeitos das redes sociais, em função da menor interação interpessoal ao vivo, tempo reduzido de sono causado pelo uso excessivo dos aplicativos e baixa autoestima em um ambiente de autopromoção constante.

Uma pesquisa realizada com mais de 500 mil adolescentes por Jean Twenge, professor de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, dos EUA, e autor de “iGen”, livro que fala sobre o impacto da tecnologia da vida de jovens, mostra que crianças que utilizam as redes sociais diariamente têm 13% mais chances de reportar altos níveis de sintomas depressivos do que aquelas que as usam menos frequentemente.

O estudo também indica que crianças que passaram três horas diárias ou mais utilizando smartphones ou outros aparelhos eletrônicos têm 34% mais chances de ter pensamentos relacionados a suicídio pelo menos uma vez (isso inclui sentir-se desesperançoso ou considerar seriamente o suicídio), do que crianças que utilizam por duas horas diárias ou menos. Entre crianças que utilizaram aparelhos eletrônicos por cinco ou mais horas diárias, 48% tiveram pelo menos um episódio de pensamentos relacionados a suicídio.

Mas nem mesmo a influência das redes sociais sobre a depressão é unânime. Um levantamento publicado em 2019 na revista acadêmica acadêmica Proceedings of The National Academy of Sciences colocou à prova a associação entre redes sociais e a depressão entre jovens. Os dados coletados pelos pesquisadores indicaram que, apesar de haver alguma correlação entre o uso dessas tecnologias e uma satisfação menor de adolescentes com suas vidas, não é possível dizer que essa relação é um forte determinante, capaz de deixar jovens tristes.

Intitulado “O efeito duradouro das redes sociais na satisfação de vida entre adolescentes”, o trabalho foi realizado por pesquisadores da Universidade de Oxford e da Universidade de Hohenheim a partir de dados coletados entre 2009 e 2016 no Understanding Society, um levantamento periódico realizado em mais de 40 mil lares no Reino Unido, financiado pelo governo britânico. Na opinião dos pesquisadores, a discussão sobre o tema é excessivamente tomada por “hype midiático sem fundamentação”. E é necessário que cientistas adotem uma postura mais criteriosa.

O QUE ainda não se sabe sobre a depressão

Sabemos que a depressão é uma consequência da interação de fatores biológicos, da predisposição genética e da influência de agentes externos, mas não qual o peso de cada um desses fatores na composição do transtorno. A predisposição genética aumenta as chances do desenvolvimento de um quadro depressivo (filhos de pais ou mães depressivos têm mais chance de apresentar o transtorno). Ao mesmo tempo, isso não garante que consigamos detectar com precisão quais interações foram responsáveis pelo surgimento da depressão.

Há também um mal-entendido comum de atribuí-la necessariamente à falta ou excesso de substâncias no cérebro. Mas a hipótese de que a depressão é causada por um desequilíbrio no cérebro, geralmente associado ao neurotransmissor serotonina, não é consolidada.

Em um artigo intitulado “O marketing de um mito”, publicado em 2015 na revista acadêmica BMJ, o psiquiatra David Healy atribui a popularização da ideia de que a depressão se deve a um “desequilíbrio químico do cérebro” a um esforço de marketing da indústria farmacêutica, que buscava dessa forma vender remédios sob o argumento de que eles restabeleceriam esse suposto equilíbrio perdido.

Existe uma classe de drogas chamadas de “inibidoras seletivas da recaptação da serotonina”, que aumentam a concentração do neurotransmissor na parte exterior das células cerebrais, e que circulam no mercado desde o final dos anos 1980.

Healy leciona na Universidade de Bangor, no Reino Unido, e é membro da Fundação para Excelência em Cuidados de Saúde Mental e da RxISK, uma entidade que busca coletar dados sobre efeitos não previstos de medicamentos e informar pacientes para que eles possam iniciar um diálogo com seus médicos sobre essas drogas.

Apesar dos questionamentos, a hipótese do desequilíbrio químico da serotonina é útil e eficaz, no sentido de convencer pacientes a se medicarem, escreve Healy no artigo. “Para médicos, ela oferece uma forma fácil e direta de se comunicar com pacientes. Para pacientes, a ideia de corrigir uma anormalidade tem uma força moral que pode se sobrepor aos escrúpulos que alguns deles podem ter quanto a tomar um tranquilizante.” Esse apelo contribuiu para que esses medicamentos se tornassem uma parte essencial da estratégia médica contra a depressão, apesar de eles não serem eficazes para todos os pacientes, em especial aqueles com risco aumentado de suicídio, diz Healy.

Embora a serotonina, assim como outros neurotransmissores, não seja irrelevante, o pesquisador critica o foco excessivo na hipótese de que a depressão se deve ao seu desajuste, o que desvia o foco de outras pesquisas e tratamentos promissores ou já disponíveis.

EM ASPAS: declarações sobre a depressão

“A diferença na qualidade de assistência médica recebida por pessoas que sofrem de doença mental é uma das razões pelas quais eles vivem menos do que as pessoas que não sofrem de doença mental. Mesmo nos países com os melhores recursos, essa diferença na expectativa de vida chega a 20 anos. Nos países em desenvolvimento, a diferença é ainda maior."

Vikram Patel

Psiquiatra e professor da Universidade de Harvard, em fala durante o TEDGlobal2012

"Na depressão há mudança drástica do modo de ser e de sentir, não se consegue ter prazer em coisas que antes eram vistas como agradáveis ou plenas de sentido, há falta de motivação e energia, e impossibilidade de cumprir bem as coisas de sempre. Há, também, ideias muito intensas de inadequação, de culpa, com forte impacto nos relacionamentos pessoais e nos campos escolar e profissional. (...)É importante nunca cobrar de uma pessoa deprimida 'que se esforce para melhorar'. Isso seria cruel."

Neury José Botega

Psiquiatra da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade de Campinas) e referência no país em prevenção do comportamento suicida

“A depressão é um campo amplo cheio de subcategorias, muitas das quais têm sido estudadas extensamente: depressão entre mulheres, depressão entre artitas, depressão entre atletas, depressão entre alcoólatras. A lista continua. E mesmo assim poucos trabalhos são feitos sobre a depressão entre os pobres. Isso é curioso, porque a depressão ocorre com mais frequência entre as pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza do que na população mediana.”

Andrew Solomon

Autor de "O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão"

 

“Academicamente, eu ainda vejo a psicologia como uma parada muito branca. Não existe um debate acadêmico sobre negros e sobre como o racismo transforma todos os negros em pessoas com saúde mental instável, saca? Não existe esse cuidado na academia, e por isso não tem como se formar profissionais para lidar com pessoas negras."

Baco Exu do Blues

rapper, em entrevista ao Nexo

 

“Geralmente difusa em sua insanidade, sempre havia uma sensação de culpa, cuja origem e natureza exata jamais consegui descobrir (...)Nos primeiros estágios agudos e suicidas da depressão, ela sentava por horas, esmagada por uma melancolia desesperançosa, silenciosa, sem responder a coisa alguma que se dissesse a ela”

Leonard Woolf

escritor, sobre a depressão da esposa, a escritora Virginia Woolf, em seu diário

“O humor, como a escuridão, invade a sede da alma, onde se situa a razão. Como crianças que temem a escuridão, assim se tornam os adultos quando são presas da bile negra, que sustenta o medo: eles têm no cérebro uma noite contínua, vivem num medo incessante. Por essa razão, os melancólicos têm medo da morte e ao mesmo tempo a desejam. Evitam a luz e amam a escuridão”

Cláudio Galeno

Nascido no século II d.C e médico de Marco Aurélio, sobre o desequilibrio hormonal que provocaria a subida da bile negra ao cérebro

 

“Com e sem precipitadores conhecidos, pode às vezes ser uma característica de família e às vezes não, pode mostrar diferentes taxas de concordância entre gêmeos univitelinos, pode às vezes durar uma vida inteira e em outras vezes ter remissão espontânea"

Michael McGuire e Alfonso Troinsi

Autores do livro “Psiquiatria Darwinista”

“Há um certo descuido, próprio dos modos correntes de classificação, que pega uma pitada de pensamento psicanalítico, um pouquinho de biologia e algumas circunstâncias externas e os mistura numa salada maluca. É preciso desemaranhar depressão, sofrimento, personalidade e doença antes de poder realmente entender os estados mentais dos deprimidos”

Andrew Solomon

Autor de "O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão"

NA ARTE filmes que falam sobre depressão

"Dor e Glória", 2019

 

"Dois dias, uma noite", 2014

"Melancolia", 2011

 

"As Horas", 2002

"Persona", 1966

 

VÁ AINDA MAIS FUNDO

Depression and Other Common Mental Disorders - Global Health Estimates

"What causes depression?" Nota da Universidade de Harvard

Desigualdades no acesso ao tratamento de depressão: resultados da Pesquisa Nacional de Saúde Brasileira - PNS”

Classificação Internacional de Doenças (CID-11) lançada pela OMS

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