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Antibióticos: do ‘milagre’ da cura às superbactérias

Invenção que transformou a farmácia e a medicina viveu auge no século 20. Mas evolução de microrganismos cria novos desafios. Entenda todos os aspectos que envolvem o tema no século 21

 

A história dos antibióticos remonta ao início do século 20, numa revolução médico-farmacêutica que viria a salvar milhões de vidas. Sua produção impulsionaria economias. Provocaria mudanças demográficas, com melhora na expectativa e qualidade de vida no mundo.

Ao mesmo tempo em que representou um avanço sem precedentes, o antibiótico está no centro de discussões sobre graves problemas de saúde pública no século 21. A principal delas trata do combate às superbactérias, resistentes a todos os remédios criados até hoje. Entenda as questões centrais do tema.

O QUE é um antibiótico

 

Antibiótico é o nome que se dá a toda substância, natural ou sintética, capaz de eliminar ou impedir a reprodução de microorganismos. Sua descoberta permitiu o controle de infecções causadas por bactérias — o que transformou a evolução natural dessas doenças.

Sem efeitos letais para animais e seres humanos, os antibióticos tornaram simples o tratamento de infecções que antes de seu surgimento eram letais, como tuberculose, meningite e pneumonia.

Ao longo do século 20, o desenvolvimento em larga escala de antibióticos levou à criação de dezenas de variedades do medicamento, que hoje está entre os mais prescritos em tratamentos médicos. Em 2004, eles eram a segunda classe de drogas mais usada em hospitais.

12%

era o percentual de prescrições ambulatoriais de antibióticos em 2004, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde)

O uso de antibióticos

Saúde humana

Antibióticos podem ser comprados com receita em farmácias para uso individual. Os remédios também são amplamente utilizados em hospitais, para tratamento de casos complexos.

Agropecuária

Medicamentos antibacterianos são usados no setor agropecuário, que os consome em larga escala tanto para a prevenção de doenças quanto para incentivar o crescimento de animais de corte.

É ideal consultar um médico e pedir uma receita antes de recorrer ao antibiótico, por mais acessíveis que esses medicamentos sejam em hospitais e farmácias. Nem sempre o tipo de antibiótico comprado é o mais adequado para se combater determinada infecção, por exemplo.

Um erro comum que se comete é o de utilizar antibióticos para tratamento de infecções virais. Esses medicamentos não matam vírus — não curam, portanto, doenças como gripe ou resfriado.

QUEM criou o antibiótico

 

A história dos antibióticos começou em 1928, com a descoberta da penicilina, obtida por acaso durante um experimento com bactérias conduzido pelo médico e pesquisador britânico Alexander Fleming (1881-1955).

Naquele ano, uma década após o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Fleming trabalhava no Hospital de St. Mary, em Londres, então vinculado à universidade de mesmo nome. Ex-oficial médico, ele desejava descobrir uma substância que pudesse reduzir o sofrimento de pessoas como os soldados que atendera em campo, atingidos por infecções sem cura.

Seu objeto de pesquisa era então a bactéria Staphylococcus aureus, responsável pela formação de abscessos (acúmulos de pus) em feridas abertas provocadas por armas de fogo. Ao sair de férias, num ato de distração, Fleming deixou abertos no laboratório recipientes de vidro que continham culturas da bactéria expostas. Assim que voltou, ele percebeu que os invólucros haviam sido contaminados por mofo.

Chegando à penicilina

Descoberta

Ao retornar das férias ao laboratório, Fleming percebeu no interior de seus recipientes de vidro que nos lugares onde havia se formado o bolor não havia atividade das bactérias que estudava. Concluiu que o mofo — na realidade o  fungo Penicillium notatum, ele descobriria depois — havia secretado uma substância capaz de destruir a Staphylococcus.

Investigação

A partir da descoberta, Fleming realizou testes isolando o Penicillium para descobrir suas propriedades. Também testou diferentes fungos daquele gênero em mais de uma linhagem de microrganismos para entender qual era seu alcance — o teste funcionaria mais vezes. Na prática, a secreção do Penicillium inibia a produção de moléculas de carbono na membrana (a “parede” celular) das bactérias, fazendo-as “estourar”.

Resultados

Os resultados da investigação foram registrados num artigo publicado um ano depois na revista científica British Journal of Experimental Pathology. Nele, Fleming afirmava que a penicilina serviria tanto para o isolamento de bactérias quanto para o tratamento de infecções causadas por esses microrganismos. A descoberta estava nos circuitos científicos — mas pouca atenção se deu a ela, pois o médico ainda não sabia como produzir a substância em larga escala.

“[...] teria sido absolutamente impossível planificar uma investigação tendente a descobrir aquele antibiótico, porque ninguém tinha em vista a sua existência. O ‘Penicillium notatum’ apareceu por acaso numa das culturas de Fleming em seu laboratório. Centenas de variedades de ‘Penicillium’ foram examinadas até hoje, mas só o ‘Penicillium notatum’ é capaz de dar penicilina. Mais ainda: há sessenta espécies desse bolor — e só uma delas, a que se deparou a Fleming, produz penicilina”

Jornal do Médico

em editorial sobre a penicilina publicado em 1950

Àquela altura, Fleming não era o primeiro a descobrir a existência de substâncias naturais que, testadas, revelariam-se antagônicas ao desenvolvimento de outros microrganismos. Antes dele, Joseph Lister (1827-1912), Louis Pasteur (1822-1895) e Paul Ehrlich (1854-1915) haviam trabalhado com antissépticos — substâncias diferentes dos antibióticos pelo efeito ainda mais destruidor, inclusive contra bactérias saudáveis.

André Gatia (1893-1950), na Bélgica, e Gerard Domagk (1895-1964), na Alemanha, conduziam estudos sobre a penicilina e a sulfamida, outro remédio antibacteriano que mais tarde seria popular.

Fleming, oito anos antes da penicilina, havia descoberto outra substância antibiótica, a lisozima — que, no entanto, não despertara interesse dos cientistas, uma vez que os micróbios atingidos pelo remédio não causavam doenças em seres humanos.

 
 

A penicilina de Fleming superou os trabalhos contemporâneos apenas em 1939, quando o farmacêutico Howard Florey (1898-1968) e o bioquímico Ernst Chain (1906-1979), ambos da Universidade de Oxford, encontraram uma maneira de produzi-la em larga escala.

Ambos tiveram apoio inglês e dos EUA, que testaram o remédio em soldados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Universidades, indústria e governos contribuíram para levar a substância ao maior número de pessoas, ainda nos anos 1940.

“O desenvolvimento da penicilina em grande escala constitui uma história maravilhosa. Governos, fabricantes, cientistas e todos, desde o operário mais humilde, desempenharam sua parte. [...] Os pesquisadores sentiam que estavam realizando algo para seus próprios amigos e parentes, e nisto foram auxiliados pelas autoridades...”

Alexander Fleming

no livro “A penicilina e suas aplicações práticas” (1947)

Em 1945, Fleming, Florey e Chain receberam o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia pela descoberta e aplicação da penicilina no tratamento de infecções. Em seu discurso, o britânico disse que a obtenção da substância começou como um exercício de observação ao acaso e que seu “único mérito” foi não ter negligenciado os estudos. Florey destacou a possibilidade futuras de investigação de antibióticos.

QUANDO o antibiótico foi criado

Foto: Wikimedia Commons
Porta-aviões americano atingido por dois Kamikazes em 1945, no Japão
 

O sucesso da penicilina pode ser explicado por acontecimentos na ciência e na política na primeira metade do século 20 — o principal deles foi a Segunda Guerra Mundial, razão pela qual governos passaram a investir em medicamentos que evitassem a morte de seus soldados.

Até os anos 1900, o número de vítimas que morria com ferimentos causados por armas em confrontos militares era menor do que a quantidade morta por causa de bactérias trazidas pelo conflito. Em alguns casos, as doenças eram elas mesmas as armas de guerra.

“Todas essas histórias militares que glorificam grandes generais simplificam demais a dolorosa verdade: os vencedores das guerras passadas nem sempre foram os exércitos com os melhores generais e as melhores armas, mas quase sempre aqueles que simplesmente carregavam os piores germes para transmiti-los aos inimigos”

Jared Diamond

geógrafo, no livro “Armas, germes e aço” (2011)

A partir de 1940, com as publicações de Howard Florey e Ernst Chain sobre a penicilina, esse cenário se transformaria em definitivo: diante do grande número de feridos em ataques à Inglaterra, naquele ano a Universidade de Oxford criou seu primeiro “departamento de produção” farmacêutica, cujo trabalho possibilitou o tratamento de militares e civis.

Era a primeira vez em que a medicina conseguia reduzir a taxa de mortes de um conflito — apesar da letalidade recorde da Segunda Guerra, marcada por bombardeios, ataques a civis e armas nucleares. Em 1941, os EUA importaram a tecnologia, produzindo novas drogas.

40 mil

ataques aéreos a bomba foram empreendidos pela Alemanha em Londres, em 1940

Foto: National Museum of the USAF
Enfermeiras cuidam de soldados americanos durante a 2ª Guerra
 
Foto: Wikimedia Commons
Ilustração de 1881 de Louis Pasteur realizando exames

Na ciência, as primeiras iniciativas em direção aos antibióticos haviam acontecido no fim do século 19, com a ascensão da microbiologia. A partir de descobertas de Louis Pasteur e de Robert Koch (1843-1910) sobre a relação entre bactérias e infecções, a pesquisa feita no período levara, décadas antes da Segunda Guerra, à criação de outras substâncias que transformariam a saúde pública, como soros e vacinas.

Na época, os estudos se voltavam à situação dos novos centros urbanos — que, impulsionados pela economia industrial, cresceram desorganizados e sob más condições de saneamento em países como Inglaterra, França e Estados Unidos, constantemente atingidos por epidemias.

Mesmo o Brasil enfrentava o problema — a febre amarela surgia nos verões, a tuberculose crescia entre os mais pobres, a malária avançava e a varíola era forte, apesar de esforços do governo.

1%

era o percentual da população americana que morria por ano em decorrência de infecções no início do século 20; as principais eram tuberculose, diarreia e pneumonia

Antes da Segunda Guerra, as doenças vinham sendo atenuadas por ações voltadas à prevenção e à higiene nas cidades recém-construídas. A partir de 1945, tanto a penicilina quanto outras drogas criadas durante o conflito chegaram aos consumidores. Foi o momento em que, de fato, o avanço das infecções passou a sofrer recuos significativos.

COMO o antibiótico mudou o mundo

 

As ferramentas usadas por Florey e Chain para a aplicação clínica da penicilina — como a fermentação para a produção do medicamento e o desenvolvimento da síntese de substâncias naturais — ainda hoje são consideradas exemplos pioneiros da biotecnologia voltada à saúde.

A fabricação da penicilina

Fermentação

Originalmente, a penicilina é formada a partir da fermentação da glicose no fungo Penicillium notatum. Para intensificar seu crescimento, Florey e Chain criaram uma linha de produção em que colocavam a substância em meio a uma cultura líquida, em condições (de temperatura, por exemplo) que permitissem o desenvolvimento da droga em grandes quantidades. Depois, eles purificavam e solidificavam a substância, formando uma espécie de pó que pudesse ser diluído nos vasos sanguíneos.

Síntese

É o processo pelo qual moléculas orgânicas (como a penicilina, uma substância natural) são fabricadas por meio de processos químicos desenvolvidos por cientistas. A introdução da técnica na elaboração de antibióticos permite sua produção em escala ainda maior que a obtida com a fermentação. Embora Chain tenha contribuído para descobrir a estrutura da penicilina ainda no início dos anos 1940, a produção do antibiótico por síntese foi viabilizada apenas no pós-guerra.

A comercialização da droga durante a Segunda Guerra, além disso, introduziu um ambiente econômico-competitivo e uma cultura de produção inéditos no setor farmacêutico — que até então, nos EUA, estava mais próxima do Estado que das inovações em pesquisa.

Foi o início do que chamaram mais tarde de “anos dourados” da indústria — que, a partir de 1945, passou a fazer investimentos intensivos em pesquisa em medicina e farmacologia. Nos EUA, as universidades passaram a abastecer as empresas com seus cientistas, numa parceria que viabilizou a produção em larga escala de remédios.

Foto: True Comics/Reprodução
'O precioso remédio foi levado à criança moribunda.' 'Patsy vai viver?' 'A infecção foi examinada. A garotinha irá se recuperar.' 'Que bela história para os jornais!'

Por não terem patenteado a invenção da penicilina, Florey e Chain possibilitaram que os novos pesquisadores utilizassem a descoberta como base para estudos à base de antibióticos. Logo, novos produtos surgiriam, detendo a maior fatia do mercado de drogas no pós-guerra.

200 trilhões

de unidades de antibióticos foram consumidas no mundo até 1950, diz o livro “As bases farmacológicas da terapêutica” (13ª ed., 2019)

Na saúde, o uso dos remédios afetou a taxa de mortalidade por infecção — que caiu drasticamente, inclusive no Brasil. Em 1901, em São Paulo, doenças como pneumonia e tuberculose eram a causa de 37% das mortes no município; 60 anos depois, eram 16,1% dos óbitos.

Antes e depois dos antibióticos

 

Letalidade de diarreias

Letalidade de pneumonias

Letalidade da tuberculose

Letalidade de meningites

 

Após o início do pós-guerra, a indústria de antibióticos seria marcada por mais dois momentos — primeiro, pela introdução no mercado de remédios semi-sintéticos, entre os anos 1960 e 1980, e, desde então, pelo estudo da genética para se chegar a novas drogas.

Avanços na tecnologia, no entanto, não levaram ao consumo igualmente renovado de substâncias — entre 1980 e 2000, na verdade, houve uma redução dramática na identificação de novos remédios.

ONDE há deficit e onde há excesso de antibióticos

 

Um relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgado em novembro de 2018 mostra a quantidade de doses diárias de antibióticos consumidas pela população em 65 países.

Antibióticos no mundo

 

Há grande variação de consumo entre os países — de mais de 64 doses diárias a cada 1.000 habitantes, na Mongólia (Ásia), a menos de cinco, em Burundi (África). O Brasil está em 19º lugar, atrás da França (13º) e à frente de Reino Unido (24º), Canadá (40º) e Japão (46º).

22,75

é a quantidade de doses diárias de antibióticos consumidas a cada 1.000 habitantes no Brasil; no total, são 4,5 mi doses por dia no país

Índices altos como o do Brasil não são positivos e podem estar associados ao uso indiscriminado dos remédios — sobretudo para automedicação —, o que faz mais mal que bem à saúde, diz a OMS.

Onde mais se consomem antibióticos

 

Por outro lado, embora a taxa de consumo não se relacione diretamente com a oferta de antibióticos nos países, para a agência índices baixos também são negativos e podem indicar acesso insuficiente a remédios.

Onde menos se consomem antibióticos

 

Os dados do relatório foram levantados entre 2015 e 2016, com informações dos sistemas público e privado de saúde dos países consultados. As taxas também consideram o consumo na agropecuária.

POR QUE seu uso também é um problema

 

O uso indiscriminado de antibióticos, generalizado tanto na saúde como na agropecuária, é o principal responsável pela resistência bacteriana, que a OMS descreve como uma “das maiores ameaças globais à saúde, ao desenvolvimento e à segurança dos alimentos” no século 21.

2,4 milhões

é o número a que pode chegar a quantidade de mortes por infecções por supermicróbios entre 2015 e 2050, segundo projeção da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico)

A princípio, a resistência de bactérias é um fenômeno natural, um mecanismo de defesa dos microrganismos. Logo nos primeiros anos dos antibióticos, bactérias resistentes à ação dos remédios foram detectadas — algo que explica a constante corrida da indústria farmacêutica para a criação de novas drogas, que supram a função perdida das anteriores.

O problema, segundo a Organização Mundial da Saúde, é que o consumo de medicamentos em excesso desde meados do século 20 acelerou esse processo, a ponto de a velocidade de mutação das bactérias superar a eficiência da humanidade para combatê-las.

Como funciona a resistência

Mutação

Como qualquer ser vivo, bactérias de uma mesma espécie apresentam diferenças genéticas. Algumas dessas diferenças garantem proteção extra à ação de antibióticos e de outros agentes — são bactérias mutantes. Essa condição permite que elas consigam se reproduzir, se multiplicar. Com o tempo, as que apresentam mutações que garantem vantagem naquele meio se tornam mais numerosas que outras. O ritmo de reprodução bacteriano é bastante intenso; por isso, essas diferenças genéticas ficam evidentes quando se estuda uma população de bactérias.

Seleção natural

Uma vez existindo bactérias resistentes em um organismo, o uso de antibióticos funciona como uma espécie de “seleção natural” acelerada. O medicamento mata as bactérias não resistentes que causam a doença, assim como os microrganismos saudáveis, que protegem o corpo das infecções. Sobrevivem apenas as bactérias resistentes, que, sem competição, encontram as condições ideais para crescer e se reproduzir.

Consumo

O uso exagerado de antibióticos é um problema, porque expõe um número maior de bactérias do corpo ao medicamento. Isso aumenta as chances de reprodução de bactérias resistentes.

Por causa da resistência, infecções como pneumonia, tuberculose e sepse (a mais letal) têm se tornado cada vez mais difíceis de se tratar, ao mesmo tempo em que os remédios são cada vez menos eficazes — e novas bactérias, como KPC, resistem à ampla maioria das drogas.

O fenômeno é global — pode afetar qualquer pessoa, seja qual for sua idade ou o país em que vive, afirma a OMS. Ainda segundo a agência, seus resultados mais visíveis têm sido o aumento da mortalidade, dos custos médicos e de internação nos sistemas de saúde nacionais.

 

A segurança alimentar também é atingida pelo problema, diz a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura). O uso abundante de antibióticos em animais no setor agropecuário, ao aumentar a resistência bacteriana, prejudica tanto sua saúde quanto a das pessoas. A prática também afeta a produtividade no meio rural.

7 em 10

doenças humanas recém-descobertas são de origem animal, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura)

A OMS atribui à crise na saúde e na agropecuária a permissão para comprar medicamentos sem prescrição médica em dezenas de países, onde a propagação da resistência tende a ser maior. Outro fator, diz a agência, é a ausência de diretrizes nacionais de tratamento padrão, o que permite que médicos prescrevam antibióticos em excesso.

Como retardar o problema

População

A OMS recomenda seguir a prescrição de antibióticos à risca (doses e horários), consumi-los apenas se há receita médica, não compartilhar remédios com outras pessoas, evitar reutilizar drogas de tratamentos anteriores e, mais importante, prevenir infecções — seja lavando as mãos regularmente, mantendo vacinações atualizadas, praticando boa higiene alimentar e evitando contato próximo às pessoas doentes.

Indústria

Deve-se investir em novos antibióticos, vacinas e diagnósticos para combater superbactérias, diz a OMS.

Profissionais de saúde

Deve-se prescrever antibióticos apenas quando forem realmente necessários — e apenas antibióticos adequados, com cuidado para informar corretamente a quantidade de doses e o período de utilização. Outras contribuições são manter a vacinação dos pacientes em dia, prevenir infecções ao garantir ambientes limpos de consulta e realizar culturas e testes bacterianos antes de confirmar uma infecção suspeita.

Setor agropecuário

Deve-se garantir que os antibióticos dados aos animais sejam apenas utilizados no tratamento de doenças, sob supervisão de um veterinário. Também se sugere vacinar os animais na pecuária, desenvolver alternativas ao uso de antibióticos em plantações e aplicar boas práticas em todos os passos de produção e processamento de alimentos.

Governos

Segundo a OMS, os gestores da política de saúde devem aprimorar a vigilância às infecções resistentes, reforçar medidas de controle e prevenção de infecções, incentivar o desenvolvimento de novos tratamentos, educar o público sobre as superbactérias e regulamentar o uso de medicamentos.

As restrições do comércio no Brasil

A fim de tentar retardar o aumento da resistência bacteriana, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), órgão federal responsável pela regulação de medicamentos no Brasil, criou uma resolução (RDC 44) em 2010 que impõe restrições à venda de antibióticos.

A resolução proíbe a venda de antibióticos sem receita, estabelece qual formato as prescrições devem ter e quais informações devem constar no documento — sob risco de sanções civis, administrativas e penais em caso de descumprimento das normas. Algumas regras são:

  • a receita deve ser prescrita em duas vias;
  • não pode haver rasuras no documento;
  • o prazo de validade da prescrição é de dez dias;
  • é obrigatório constar nome, idade e sexo do paciente;
  • é obrigatório constar identificação do médico, incluindo telefone, endereço e inscrição no CR (Conselho Regional) da categoria

Entre 2011 e 2013, a venda de antibióticos caiu 10% no Brasil — da amoxicilina, remédio mais utilizado, a queda foi de 14%. Na época, entidades do setor médico e farmacêutico discordaram da nova política, afirmando que as restrições poderiam levar à criação de um mercado de antibióticos paralelo ou impedir o tratamento de pacientes mais pobres.

“Como ficará a situação de uma criança ardendo em febre, devido a uma amigdalite ou infecção intestinal, e que mora numa cidadezinha distante, onde o médico só atende uma vez por semana? Ou, ainda, que reside num grande centro, onde a emergência do hospital está superlotada e o atendimento só poderá ser feito muito tempo depois?”

Edison Tamascia

presidente da Febrafar (Federação Brasileira das Redes Associativistas de Farmácias), sobre a restrição da Anvisa à venda de antibióticos

Em Santa Catarina, ainda em 2010, e no Amazonas, em 2018, farmácias mostraram que não exigiam receita para a venda de antibióticos. Em Manaus, quatro drogarias foram fechadas. Atualmente, vale uma nova resolução da Anvisa (RDC 20), que atualiza a anterior.

EM ASPAS

“Homem de meia idade, com meningite estreptocócica, estava à morte, apesar do tratamento sulfamídico. O estreptococo [tipo de bactéria] era sensível à penicilina e [Howard] Florey foi bastante gentil em me dar todo o seu estoque de penicilina para experimentar neste caso — o primeiro caso de meningite a ser tratado. Após poucos dias de tratamento, com injeções intramusculares e intrarraquidianas, o paciente estava fora de perigo e teve uma convalescença sem incidentes”

Alexander Fleming

sobre sua primeira experiência no tratamento de um paciente com penicilina concentrada, em meados de 1942, no livro  “A penicilina e suas aplicações práticas”

“Supondo que nós tivéssemos um recipiente muito grande com cerca de 300 galões de meio de cultura [líquido para experiências em laboratório], e supondo que adicionássemos a esse recipiente estafilococos [bactérias] em quantidade adequada, seguidas por um grão de pura penicilina. Se mantivéssemos o recipiente em temperatura ambiente por 24 horas, a pequena quantidade de penicilina impediria toda a multiplicação de germes, e o líquido permaneceria claro”

BBC News

em programa de rádio sobre o antibiótico, em setembro de 1942

“Peguei uma bactéria na fístula. Fiquei em casa no final de semana chorando de dor, pedindo ajuda para meu pai. Meu braço queimava. Fiquei três dias tomando antibiótico, e ela só foi progredindo. Crescia. A gente pensava que ela estava morrendo. Eu tinha febre, aquela agonia no meu braço. Mas a gente não sabia o que era aquela bactéria”

Adrielly Gadelha Montoril

estudante brasileira atingida por versão resistente da bactéria Staphylococcus aureus no início de 2017, em entrevista à BBC Brasil

“O mundo está caminhando para uma era pós-antibióticos, em que as infecções comuns voltaram a ser letais. [...] Como disse repetidas vezes, a resistência aos antibióticos é um tsunami de efeito retardado, uma crise global que deve ser tratada com a máxima urgência”

Margaret Chan

ex-diretora-geral da OMS, em discurso às Nações Unidas em 2016

“Aqui vai um exemplo hipotético. O sr. X. tem dor de garganta. Ele compra penicilina e toma o remédio — não o suficiente para matar as bactérias, mas o bastante para ‘ensiná-las’ a resistir à penicilina. Ele então infecta sua esposa. A sra. X. contrai uma pneumonia e é tratada com penicilina. Como as bactérias são agora resistentes à penicilina, o tratamento falha, e a sra. X. morre. Quem é o principal responsável pela morte da sra. X.? O uso negligente da penicilina pelo sr. X mudou a natureza da bactéria. Moral: se você usa penicilina, use o suficiente”

Alexander Fleming

ao receber o Nobel de Medicina e Fisiologia, em 1945

NA ARTE

“Marcha da penicilina” (1954), música de Linda Batista

“A aventura do antibiótico” (2013), filme de Pierre Bressiant

 

“Breaking the mould: The history of Penicilin” (2010), filme da BBC  (em inglês)

 

“Resistance” (2014), filme de Michael Graziano

 

Vá ainda mais fundo

A história e suas epidemias: a convivência do homem com os microorganismos”, livro de Stefan Cunha Ujvari (São Paulo, 2003)

Discursos de Alexander Fleming, Howard Florey e Ernst Chain ao receberem o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia, em 1945

Folha Informativa - Resistência aos antibióticos”, da OMS

Estamos perdendo a guerra contra as bactérias. Veja por quê”, vídeo do jornal The New York Times (em inglês)

Controle de vendas de antibióticos no Brasil: análise dos efeitos dos atos regulatórios no uso abusivo pelos consumidores”, artigo de Marcia Cristina Zago Novaretti, Simone Aquino, Marcos Roberto Piscopo, pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo)

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