A história do cangaço: mito, estética e banditismo no sertão

Maior ícone do fenômeno, Lampião morreu em 1938. Os cangaceiros continuam a intrigar a população, dividir opiniões e inspirar artistas

Em 2018, o fim simbólico do cangaço completou 80 anos. Ou mais precisamente, da morte do seu maior expoente, o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião.

O cangaço é um dos fenômenos mais controversos da história nacional, geralmente categorizado na seguinte dualidade: ou criminosos assassinos ou heróis populares.

No Brasil, os cangaceiros continuam sendo uma inspiração no cinema, literatura, música, dança, moda, entre outras expressões artísticas, ao mesmo tempo em que são revisitados com frequência por pesquisadores.

O QUE foi o cangaço

O cangaço foi um fenômeno social, político e cultural de boa parte da região Nordeste (excetuando os estados do Piauí e do Maranhão). O chamado ciclo do cangaço tem diferentes datas como referência, mas abrange principalmente a segunda metade do século 19 e a primeira do século 20.

Basicamente, foi a organização social moldada por grupos de bandoleiros que andavam armados cometendo crimes e vendendo proteção pela região da caatinga, em uma sociedade majoritariamente agrária e na qual não enxergavam mais uma possibilidade de viver na legalidade.

O princípio era servir a si mesmos, em um local onde o Estado brasileiro não se fazia presente. A origem humilde revestiu o banditismo dos cangaceiros de um “escudo ético” entre parte da população da época e também de hoje em dia. Também existem relatos de que eram pessoas bem-educadas, justas e com rigidez moral.

Já outra parcela da população os enxerga como bandidos assassinos que agiram com violência, destruíram cidades, cometeram estupros e não respeitavam as leis. Não deveriam, portanto, ser alçados à condição de heróis e seus atos violentos não deveriam ser relativizados.

No cangaço, as forças policiais responsáveis por encontrar, prender ou matar cangaceiros eram chamadas de volantes. Esses policiais usavam trajes semelhantes aos dos cangaceiros. E houve confusões por conta disso. As volantes eram conhecidas por também agir com violência contra a população.

A origem do nome cangaço é incerta, porém a mais aceita se refere à canga ou cangalho, uma peça de madeira que une os bois lado a lado no arado ou no carro. A imagem dos bandoleiros carregando seus bacamartes nos ombros se remetia à canga dos bois.

QUEM foram os cangaceiros

Um cangaceiro era, em geral, um homem que vivia em fuga e contra a lei — a participação conhecida das mulheres teve início apenas no fim do período, na década de 1930.

Eles roubavam, destruíam e assassinavam, seguindo seus próprios interesses e também atendendo àqueles que os protegiam. Esses protetores eram chamados de coiteiros, podendo ser governadores, proprietários de terra, vaqueiros, habitantes comuns, entre outros. Existia uma vasta rede de coiteiros por diferentes estados.

Um líder político que protegesse um bando de cangaceiros poderia, em troca, pedir que matassem ou saqueassem um inimigo seu. A proteção de poderosos foi um dos fatores que permitiram o fenômeno do cangaço se estender por décadas.

Diversos relatos indicam que o ingresso no cangaço se dava por conta da desesperança, vingança familiar, pobreza ou seca, entre outras motivações.

Um dos mitos que envolvem os cangaceiros é o uso de sandálias ao contrário, para despistar quem os seguiam. Na verdade, Lampião chegou a encomendar e usar solados retangulares, sem curvas, para que as pegadas não indicassem o sentido em que ele estava indo.

Outro mito envolve o sexo. Alguns relatos de ex-cangaceiros falam em relações mais livres do que na sociedade de então, mas outras versões dizem que a prática era rara e atrelada a crenças religiosas. Relatos de ex-cangaceiros negam que havia relações homossexuais entre eles. Durante a maior parte do ciclo do cangaço, apenas homens faziam parte dos grupos.

Alguns dos cangaceiros mais emblemáticos foram, em ordem cronológica:

  • Jesuíno Brilhante: potiguar, tornou-se cangaceiro em 1871, por um caso de vingança contra outra família. Foi morto em 1879 em um confronto
  • Antônio Silvino: pernambucano, esteve em atividade entre 1897, após o assassinato do seu pai, e 1914, quando foi preso. Libertado em 1937 por indulto do presidente Getúlio Vargas, morreu sete anos depois
  • Sinhô Pereira: pernambucano, entrou em atividade em 1917. Largou o cangaço em 1922 ao matar as pessoas responsáveis pelo assassinato do seu pai. Fugiu então para Goiás, onde se estabeleceu. Morreu em 1979
  • Lampião: pernambucano, tornou-se cangaceiro em 1919 para vingar a morte do pai. Assumiu o comando do bando de Sinhô Pereira quando seu mentor largou o cangaço. Foi morto em 1938 pelas forças volantes
  • Corisco: alagoano, entrou no cangaço em 1924, como forma de se proteger de retaliações por ter matado o filho de um coronel. Foi morto pelas forças policiais em 1940
  • Maria Bonita: baiana, sua família simpatizava com Lampião e recebeu o grupo mais de uma vez em sua fazenda. Em 1930, largou o marido e os pais e fugiu com Lampião, sendo a primeira mulher a se tornar cangaceira. Morreu em 1938, na emboscada das volantes

QUANDO o cangaço teve seu auge e declínio

Embora o cangaço tenha se delineado sobretudo a partir da década de 1870, os principais grupos e ataques existiram na época da Primeira República (1889-1930). O Brasil havia deixado de ser um Império monárquico e se tornado uma República Federativa.

O novo ordenamento político distribuía mais poder para os estados e municípios, diferentemente da figura centralizadora de um imperador. Isso significou um acirramento das disputas locais por poder. Os coronéis, em geral homens proprietários de terra e com forte influência política e econômica local, são uma característica do período.

Na Primeira República existiram diversos conflitos em áreas rurais do país, envolvendo questões como direitos sociais, controle de terras, distribuição de renda e disputa por poder. A maioria da população brasileira morava no campo. As desigualdades sociais e fundiárias contribuíram para a existência desses conflitos.

Houve movimentos de cunho religioso (como o Arraial de Canudos e o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto) e trabalhista (como greves nas lavouras cafeeiras paulistas). E também houve o cangaço, o mais duradouro e amplo desses fenômenos.

Apesar de seu caráter regional, o cangaço também recebia atenção nacional. Na Assembleia Constituinte de 1934, houve debates de se incluir o combate ao cangaço na nova Constituição, por iniciativa de deputados nordestinos. A ideia não foi adiante. Parlamentares também pediam ao governo federal ajuda com verbas e tropas.

Os cangaceiros ganharam maior projeção durante os anos 1920 e 1930. O fenômeno aparecia nos jornais e era um dos assuntos mais falados nas cidades por onde haviam passado e arredores. Eram comuns lendas e mentiras sobre o paradeiro, os feitos ou a morte de cangaceiros.

Justamente pela importância que Lampião tinha, a morte dele, de Maria Bonita e de outros nove integrantes do grupo, em julho de 1938, representou o fim simbólico do cangaço. Eles foram emboscados pelas forças policiais numa fazenda no atual município de Poço Redondo, no sertão de Sergipe.

Os cangaceiros foram decapitados e tiveram as cabeças expostas nas ruas da vizinha Piranhas, em Alagoas — uma prática comum no combate ao cangaço. O episódio rendeu uma das fotos mais emblemáticas do período. As cabeças foram levadas a diversas cidades. Após décadas de exposição pública, principalmente em Salvador, eles foram sepultados em 1969.

Foto: Autor Desconhecido/Domínio Público
11 cabeças expostas em espécie de altar. No canto, placa com os nomes dos mortos. Em volta, diversos itens dos cangaceiros, como chapéus, arma, cartucheira, sela, máquina de costura.
As cabeças de Lampião, Maria Bonita e outros 9 cangaceiros, em Piranhas (AL)

Com a notícia da morte do maior ícone, diversos grupos de cangaceiros começaram a largar o cangaço, com o temor de que seriam mortos. O governo do presidente Getúlio Vargas ofertou anistia àqueles que se entregassem, o que contribuiu para o desmantelamento.

Já nesse período de decadência, o cangaceiro Corisco, maior expoente da época, foi morto em 1940 pelas forças policiais no município de Barra dos Mendes, na Bahia. Ele havia feito parte do grupo de Lampião.

Muitos cangaceiros fugiram ou cumpriram pena e conseguiram se reinserir no convívio social dentro da legalidade, vivendo até idades avançadas.

COMO o cangaço entrou no imaginário nacional

Os cangaceiros ainda são associados à figura da valentia, como homens e mulheres destemidos que lutavam contra o poder político e a elite agrária, embora em muitos casos eles não estivessem em conflito de fato com o poder, sendo até apoiados por personalidades influentes.

Os feitos e lendas envolvendo os cangaceiros, no entanto, serviram de inspiração para histórias na literatura de cordel, no cinema e na teledramaturgia, alimentando a imagem de sujeitos aventureiros e destemidos.

As roupas e acessórios dos cangaceiros eram pesadas, mas práticas para se proteger do sol, do calor e dos espinhos e também para se locomover em combate — pois o peso estava bem distribuído pelo corpo e era fácil manejar as armas e munições. Isso tudo sem deixar de lado a estética, com peças enfeitadas, coloridas, adornadas com ouro, moedas e signos. Muitos cangaceiros costuravam.

O historiador Frederico Pernambucano de Mello, especialista em cangaço, compara a riqueza e imponência desses trajes aos cavaleiros da Europa medieval e aos samurais japoneses.

De toda a vestimenta e indumentária, o chapéu passou a ser o símbolo maior do cangaceiro. Tinha as abas dobradas e emblemas que evocavam proteção e poder. Acabou se tornando uma marca de identidade do sertão nordestino e até da região Nordeste como um todo.

Celebridades brasileiras e até estrangeiras já usaram publicamente chapéus inspirados na estética do cangaço. É comum que, sobretudo em atos de campanha eleitoral, políticos usem esses chapéus para se identificar com o eleitorado da região Nordeste.

Ícone da cultura brasileira no século 20, Luiz Gonzaga disse uma vez que o maior fascínio e interesse da sua infância no interior de Pernambuco foi Lampião. O próprio cantor usou por toda a carreira vestes que se remetiam ao vestuário dos cangaceiros, além de ter composto canções que os citavam.

Além do visual, também havia o xaxado, dança cuja disseminação é atribuída ao principal grupo de cangaceiros. Os passos ligeiros dos pés simulavam o arado com a enxada nas plantações de feijão, prática que tem o nome de sachar.

A dança era uma forma de comemorar ataques bem-sucedidos e uma opção de distração em lugares ermos. Ainda hoje a dança e a música do xaxado seguem vivas em diferentes estados.

POR QUE o cangaço ainda desperta tanto interesse

Personagem favorito dos mitos populares no tempo do seu auge, Lampião quis aparecer e se fazer notar. Praticamente desconhecido até 1922, seus ataques estiveram por anos nas manchetes dos principais jornais nordestinos. Em 1926, deu uma entrevista ao jornal O Ceará.

Além das citações na imprensa, ele teve contato com o libanês Benjamin Abrahão, que registrou em fotos e vídeos o grupo de Lampião, com a permissão do líder. São raros os registros em vídeo do Brasil da década de 1930, o que ajudou a perdurar a imagem dos cangaceiros para as gerações seguintes e criou um manancial de pesquisa para historiadores.

Novos estudos, livros e biografias sobre o cangaço continuam sendo feitos, mesmo após oito décadas.

Essas novas leituras incluem, por exemplo, o papel das mulheres no cangaço. O marco foi a entrada de Maria Bonita para o grupo de Lampião, com quem também teve um relacionamento amoroso, a partir de 1930. A participação delas, seja nos ataques em si ou em atividades de apoio, ainda é pouco conhecida pelo público. Vem sendo combatida a visão de que elas não tinham papel importante e ficavam à sombra dos seus companheiros.

Em 2018 há duas grandes biografias sobre a cangaceira mais conhecida, uma delas escrita pela jornalista e historiadora Vera Ferreira, que também é neta do casal de cangaceiros.

Outro exemplo é uma biografia em que o autor Pedro de Morais defende a tese de que o Lampião era gay e se relacionava com um dos cangaceiros do seu grupo. A obra passou anos proibida por decisão judicial após reclamação da família.

Mesmo os estudos sobre a estética do cangaço são recentes. A afirmação de que Lampião costurava passou décadas desacreditada, mas existe uma foto dele com uma máquina de costura, além de relatos de ex-cangaceiros.

O cangaço foi um dos fenômenos mais marcantes do início do período republicano do Brasil. Pelo seu alcance social e cultural, é do interesse dos pesquisadores e demais curiosos continuar a se debruçar sobre ele.

NO MUNDO

Na década de 1950, “O cangaceiro”, dirigido por Lima Barreto, foi o primeiro filme brasileiro bem-sucedido e premiado internacionalmente. Com um enredo de ação e uma trama amorosa, ganhou prêmios no Festival de Cannes, na França.

A fama de Lampião extrapolou o Brasil e chegou a outros países. A notícia sobre a morte do cangaceiro no jornal americano The New York Times se referiu a ele como “há tempos considerado o bandido e assassino mais cruel do mundo ocidental”.

O cangaço, especialmente Lampião, foi estudado em diversas ocasiões por pesquisadores estrangeiros.

O fenômeno do cangaço é repleto de particularidades brasileiras. Existiram atividades semelhantes em outros países, quanto à característica de grupos ou pessoas de origem pobre que cometiam crimes e viviam em fuga, mas eram revestidas de certo apoio popular e uma moral de combate aos mais ricos. As condições históricas, sociais e estéticas, contudo, são muito diferentes às do cangaço.

Entre os séculos 17 e 19, existia na Europa central e na região dos Bálcãs a figura dos haiduques. Atacavam e roubavam autoridades sobretudo do Império Turco Otomano, além de pessoas ricas e comerciantes. No imaginário popular de vários países dessa parte da Europa, são símbolos de heroísmo e liberdade.

Outro exemplo são os betyárs, na Hungria do século 19. Organizados em pequenos grupos e habitando as florestas, criaram a fama de roubar dos ricos e dar aos pobres. O mais famoso dos betyárs foi Sándor Rózsa, figura que inspirou lendas e criações artísticas.

EM ASPAS

“Se o senhor estiver em um negócio, e for se dando bem com ele, pensará porventura em abandoná-lo? Pois é exatamente o meu caso. Porque vou me dando bem com este negócio, ainda não pensei em abandoná-lo”

Lampião

em entrevista publicada no jornal O Ceará em 17 de março de 1926, ao ser perguntado se estava pensando em parar

“Lógico que muitos [sertanejos] sofreram, muitos foram perseguidos. Muitos diziam o seguinte: ‘a gente não gostava do cangaceiro, porque atrás do cangaceiro vinha a volante, e aí a volante destruía tudo’. Muitas coisas são computadas ao cangaceiro, mas não são verdadeiras, porque a própria volante passou a se vestir igual. Tudo isso são estratégias de guerra”

Vera Ferreira

jornalista, historiadora e neta de Lampião e Maria Bonita, em entrevista em junho de 2018

“Eu poderia explicar aos nossos militares, como consultor técnico, a inteligência que existia na vestimenta do cangaceiro e em seu modo de distribuir cartucheiras, munição, cantil e armas com equilíbrio”

Padre Artur Passos

em relato escrito após encontro com o bando de Lampião em 1929

“Os Lampiões continuam matando, roubando, depredando, desvirginando crianças e moças e ferreteando-lhes o rosto e as partes pudentas sem que a União tome a menor providência. Os estados por si sós, desajudados do valioso auxílio federal, jamais resolverão o problema”

Negreiros Falcão

deputado baiano, em pronunciamento na Assembleia Nacional Constituinte de 1934

“Quando o [meu] livro [‘Guerreiros do Sol - violência e banditismo no Nordeste do Brasil’] foi feito, em 1985, o cangaço era usado muitas vezes como pretexto pelo marxismo para falar que havia ali uma luta de classe contra o poder dos coronéis. A universidade era tomada por essa interpretação”

Frederico Pernambucano de Mello

historiador especialista em cangaço, em entrevista em 2015

NA ARTE

‘Lampião, o rei do cangaço’ (1937), direção de Benjamin Abrahão

‘Xaxado - A dança de cabra macho’ (2010), documentário dirigido por Camilo Melo, dança do Grupo de Xaxado Cabras de Lampião

‘História de Lampião’, composição de Onildo Almeida e interpretação de Marinês

‘A chegada de Lampião no inferno’, cordel escrito por José Pachêco

‘Olha a pisada’, composição de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, interpretação e dança de Luiz Gonzaga

‘O cangaceiro’ (1953), direção de Lima Barreto

‘Baile perfumado’ (1996), direção de Lírio Ferreira e Paulo Caldas

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