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Copa: a história e o futuro do maior torneio esportivo do planeta

Competição chega a sua 21ª edição em 2018, com retrospecto esportivo glorioso e organização política questionada

A 21ª edição da Copa do Mundo de futebol da Fifa tem início em 14 de junho de 2018. Durante 30 dias, 12 estádios em 11 cidades da Rússia serão palco para 64 partidas.

Estão na disputa do título 32 países, naquele que é o maior evento esportivo - dedicado a uma única modalidade - que existe.

Saiba as origens da competição, os valores em dinheiro que ela envolve, as características de seus campeões ao longo do tempo e os questionamentos que cercam seu modelo.

O QUE é a Copa do Mundo

A Copa do Mundo é o principal torneio organizado pela Fifa (sigla em francês para Federação Internacional de Futebol). Realizada a cada quatro anos, envolve times nacionais de futebol masculino de países do mundo todo e chega, em 2018, à sua 21ª edição.

A ideia de criar um torneio internacional exclusivo ao futebol nasceu enquanto Jules Rimet, então chefe da FFF (Federação Francesa de Futebol), assistia aos Jogos Olímpicos de Antuérpia, na Bélgica. A competição aconteceu em 1920, meses antes de Rimet se tornar o terceiro presidente da Fifa e iniciar um projeto de expansão ambicioso na entidade.

Até então, vencer o torneio de futebol disputado nas Olimpíadas se comparava a conquistar um título mundial. Essa equivalência, porém, não era interessante à Fifa. Isso porque atletas profissionais eram impedidos de competir nos Jogos da época, o que obrigava as equipes olímpicas a se formarem apenas com jogadores amadores.

Desde sua fundação, em 1904, a entidade de futebol franco-suíça buscava organizar competições e regulamentar regras com o objetivo de promover o esporte em sua forma profissional.

Essa divergência de objetivos, somada ao crescente sucesso do futebol olímpico, motivaram Rimet a chefiar a criação do primeiro torneio específico à modalidade.

Embora a prática do futebol tivesse maior destaque na Europa, onde diversos países já contavam com jogadores profissionais e ligas bem estabelecidas no início do século 20, o Uruguai acabou sendo escolhido como sede da primeira Copa do Mundo. A decisão aconteceu durante um congresso da Fifa em Barcelona, em 1929.

A escolha tinha como base o status do Uruguai como principal referência futebolística da época: o país sul-americano havia conquistado duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Paris (1924) e Amsterdã (1928).

Além disso, o governo uruguaio também se comprometeu a bancar as despesas das viagens das equipes e construir um novo estádio especialmente para a competição.

Foi no estádio “Centenário”, batizado em homenagem aos 100 anos da independência uruguaia, que aconteceram 10 dos 18 jogos do mundial de 1930, incluindo a final.

Os outros dois campos que receberam partidas da primeira Copa do Mundo, Pocitos e Parque Central, também estavam localizados na capital Montevidéu.

Por ter desbancado a candidatura de países europeus, a sede inaugural do campeonato não contou com a partipação da maioria das equipes relevantes da Europa.

Apenas Bélgica, França, Romênia e Iugoslávia cruzaram o Oceano Atlântico com o intuito de participar da primeira Copa do Mundo. O boicote em massa obrigou a Fifa a distribuir convites para os vizinhos sul-americanos, de menor expressão no futebol.

Por causa disso, seleções como a da Bolívia - que havia criado sua própria federação de futebol menos de 5 anos antes - acabaram entrando no grupo de 13 equipes que disputaram o primeiro torneio.

Derrotando a Argentina na final por 4 a 2, em partida assistida por mais de 93 mil pessoas, os uruguaios se sagraram os primeiros campeões mundiais de futebol da história, confirmando sua hegemonia na época.

Desde então, a competição é repetida quadrienalmente, sendo os anos de 1942 e 1946 as duas únicas exceções. Neles, a realização do torneio foi inviabilizada pela Segunda Guerra Mundial, que comprometia, sobretudo, a participação dos países europeus.

QUEM são os campeões

Até o hiato causado pela Segunda Guerra, os italianos venceram a edição de 1934, em que fizeram sua estreia, e se tornaram a primeira seleção bicampeã em 1938.

Na volta da disputa da Copa, em 1950, o Uruguai voltou a vencer. A sequência de vitórias dos dois países - Uruguai e Itália - foi interrompida em 1954, com a vitória da Alemanha Ocidental (um país já dividido pela Guerra Fria).

Na edição seguinte, foi iniciada a série de triunfos brasileiros. De 1958 em diante, outros quatro títulos viriam, tornando o Brasil o único pentacampeão do mundo.

Principal potência sul-americana, a “seleção canarinho” viu a rival Argentina ganhar importância a nível mundial a partir da década de 1970, com dois títulos, em 1978 e 1986.

A última seleção a entrar no rol dos campeões foi a Espanha, em 2010, aumentando a lista de seleções com apenas um título, da qual fazem parte França (1998) e Inglaterra (1966).

Todos os campeões

 

Após 20 edições de Copas, alguns padrões em relação aos campeões chamam a atenção. Até agora, todos os países que venceram o torneio tinham em comum o fato de serem comandados por técnicos nacionais - situação de 19 das 32 equipes que disputarão a Copa da Rússia, em 2018.

Além disso, desde que o ranking da Fifa existe, nunca um país que ocupava a primeira colocação foi campeão de uma Copa do Mundo.

Criado em 1993, o ranking atribui pontuações às seleções, de acordo com seu desempenho em amistosos e competições internacionais. Vitórias valem mais pontos que empates e derrotas, assim como partidas disputadas no período anterior a 12 meses contribuem mais para o coeficiente do que aquelas realizadas há mais tempo.

É um ranking de difícil compreensão, mas que tem relevância no torneio mundial. As sete seleções mais bem colocadas nessa relação, junto ao país sede, são eleitas cabeças-de-chave na Copa do Mundo, orientando o sorteio dos grupos da fase pré “mata-mata”. Atualmente, a Alemanha, campeã em 2014, é quem lidera o ranking. Brasil, Bélgica, Portugal e Argentina completam o top cinco.

O futebol de cada campeão

Brasil

A conquista de 1958 foi marcada pela inovadora formação com quatro defensores (4-2-4), proposta pelo técnico Vicente Feola. Jogar dessa forma conferia maior solidez defensiva que o usual esquema com três zagueiros, além de mais autonomia aos pontas, Zagallo e Garrincha. Pelé, que em 1962 sofreu uma lesão na fase inicial do torneio, cedeu seu natural protagonismo a Garrincha e Amarildo, em uma seleção que, mantendo a base do primeiro título, garantiu o bicampeonato.

 

A consolidação do “futebol-arte” brasileiro aconteceu com a campanha de 1970, vencida por um dos melhores elencos da história. Com liberdade para atacar e circular pelo campo, bom comprometimento na defesa e excelente preparo físico, a equipe liderada por Pelé contava com Gérson, Rivelino, Tostão e Jairzinho, que marcou em todos os jogos do torneio.

O futebol de 1994 era menos criativo e mais eficiente defensivamente. O meio-campo era chefiado pelos marcadores Dunga e Mauro Silva, e garantia liberdade aos dois centroavantes, móveis e rápidos. Romário e Bebeto foram as principais referências ofensivas do time que conquistou o quarto título mundial, após 24 anos.

Em 2002, Ronaldo e Rivaldo, que voltavam de lesão, se uniram a Ronaldinho Gaúcho para formar um dos trios ofensivos mais importantes da história das Copas. O percurso rumo ao inédito pentacampeonato da “família Scolari” foi feito essencialmente no 3-5-2. Lúcio, Roque Júnior e Edmilson eram os titulares do trio defensivo, que ampliava o potencial de participação dos laterais Cafu e Roberto Carlos no ataque.

 

Alemanha

Após ser impedida de participar do torneio de 1950, o time de 1954 da Alemanha Ocidental foi o primeiro a competir separado da vizinha oriental. A vitória da determinação alemã sobre o talento da seleção húngara de Puskás na final, de tão inesperada, ficou conhecida como “Milagre de Berna”, e contribuiu para recuperar a imagem internacional do país, nove anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Com 25 gols, é a seleção campeã que mais marcou em uma única edição de Copa.

A importante geração alemã, de nomes como Franz Beckenbauer e Gerd Müller, havia conquistado sua primeira Eurocopa dois anos antes do mundial. Em 1974, após um início irregular, com derrota para a vizinha pouco tradicional Alemanha Oriental, os donos da casa derrotam na final a Holanda de Cruyff, sensação do torneio.

No torneio de 1990, apontado como o de menor nível técnico da história, o time alemão se destacava pelas qualidades individuais. Lothar Matheus, em sua terceira Copa do Mundo, e o goleador Rudi Völler conduziram o time ao tricampeonato. Beckenbauer igualou Zagallo e também se tornou campeão como jogador e técnico.

A última campanha campeã da Alemanha ainda está nítida na memória dos brasileiros. O 7 a 1 aplicado na seleção anfitriã na Copa de 2014 e a vitória sobre a Argentina na prorrogação premiaram o trabalho de oito anos do técnico Joachim Löw. Apesar de ter um meio-campo habilidoso e de boa troca de passes, composto por nomes como Toni Kroos e Mesut Özil, talentos individuais tinham menos destaque frente à organização coletiva da equipe.

 

Itália

Em 1934 e 1938, a Itália bicampeã tinha como referência técnica os lendários Silvio Piola e Giuseppe Meazza, principais nomes do início do futebol do país. Aliando muita força física a técnica apurada, os europeus não tiveram rivais à altura por oito anos.

O jejum de mais de quatro décadas sem levantar a taça da Fifa foi quebrado em 1982. A seleção de Paolo Rossi, Francesco Graziani e Dino Zoff, que tirou o sonho do tetra de uma das melhores gerações do Brasil, reviveu o futebol aguerrido e técnico das primeiras competições. Apesar de desacreditada, a Itália superou uma fase de grupos complicada, derrotando, também, adversários de peso como a Argentina e Alemanha.

Em 2006, uma equipe experiente e totalmente formada em clubes italianos levou o tetracampeonato. A solidez defensiva tinha referência no capitão Fabio Cannavaro, eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa naquele ano, além do goleiro Gianluigi Buffon em grande fase.

 

Uruguai

A seleção que conquistou o título de 1930 era a base do time bicampeão olímpico em 1920 e 1924. Principal referência do continente no esporte, tinha como destaques José Leandro Costa e Pedro Cea, que também participaram da série de conquistas da Copa América - foram quatro títulos, entre 1920 e 1926.

Apesar da conquista na edição inaugural, a equipe uruguaia chegou com menos prestígio à Copa de 1950, no Brasil. Desacreditado pela imprensa e com campanha irregular nos jogos pré-Copa, o time de Obdulio Varela e Alcides Ghiggia calou mais de 170 mil pessoas no Maracanã, contra os donos da casa, mostrando um futebol ofensivo e eficiente.

 

Argentina

Ao lado de Daniel Passarella e do goleiro Ubaldo Fillol, o artilheiro Mario Kempes foi o principal nome da Argentina em sua primeira conquista. A Copa do Mundo de 1978, disputada em solo argentino, ficou marcada por polêmicas envolvendo a arbitragem e organização confusa, com calendário que favorecia a equipe da casa.

Em 1986, o técnico Carlos Bilardo estreou o esquema 3-5-2, privilegiando a atuação ofensiva dos laterais e conferindo boa recomposição defensiva à equipe. Atuando em alto nível na Europa, Maradona foi o destaque da competição, conduzindo o time ao bicampeonato e se afirmando como grande ídolo da história da Argentina.

 

Inglaterra

O único título mundial do país que inventou o futebol foi marcado pela inovação tática. O 4-4-2 inglês, com duas linhas de quatro jogadores bem definidas, foi a chave para a conquista de 1966.

Combinando o rigor de posicionamento com boa qualidade técnica, a melhor geração do futebol britânico contava com nomes como o goleiro Gordon Banks, Bobby Moore e o craque do time, Bobby Charlton, que jogava em seu auge.

 

França

A França de 1998 se destacava por sua consistência defensiva. Foi a primeira seleção a conquistar uma Copa do Mundo tendo a melhor defesa (que sofreu apenas dois gols) e o melhor ataque do torneio.

Zinedine Zidane e o goleiro Fabien Barthez foram os principais nomes dos “bleus”, capitaneados à época por Didier Deschamps, que vai à Rússia 2018 como treinador do time.

 

Espanha

O estilo “tiki-taka” marcou o futebol da melhor geração espanhola da história, que foi coroada com o título mundial de 2010, na África do Sul.

A equipe do técnico Vicente del Bosque tinha como principais características a manutenção da posse de bola e a preferência por passes laterais para cadenciar o jogo, concluindo as jogadas com alta eficiência. David Villa, artilheiro do torneio, jogava ao lado de nomes como Andrés Iniesta e Carles Puyol, em uma equipe fundamentada nos elencos de Barcelona e Real Madrid.

As taças em disputa

Entre as edições de 1930 e 1938, o troféu entregue à equipe campeã tinha o nome de Victoire aux Ailes d'Or (asas de ouro da vitória, em francês).

A dedicação de Rimet ao projeto da Copa fez com que em 1946, ano em que o presidente completou 25 anos à frente da entidade, a taça fosse rebatizada em sua homenagem.

O francês ocupou a presidência da Fifa por 33 anos e faleceu em 1956, bem antes de ver o símbolo do torneio desaparecer por duas vezes.

 

O primeiro furto da Jules Rimet aconteceu na Inglaterra, em 1966, quando estava em uma exposição pública, sendo recuperada uma semana depois.

Em 1983, quando já estava no Brasil de maneira definitiva, a taça foi novamente furtada na sede da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), no Rio de Janeiro - desta vez, sem jamais ter reaparecido.

A finada Jules Rimet havia sido substituída pelo troféu Copa do Mundo Fifa, versão utilizada até hoje e que passou a ser adotada na Copa de 1974.

Escolhida entre 53 modelos enviados por pessoas de sete países diferentes, a criação é assinada pelo designer italiano Silvio Gazzaniga, morto em 2016.

A taça Fifa tem 37 centímetros de tamanho e pesa pouco mais de 6 kg. Sua base é feita de malaquita, pedra semi-preciosa encontrada em todos os continentes - e originalmente verde, como são os campos de futebol. O nome de cada campeão a partir de 1974 está gravado na base, em seu idioma original.

4,927 kg

É a quantidade de ouro presente no troféu da Copa do Mundo Fifa

Para evitar os contratempos sofridos pela Jules Rimet, a equipe vencedora ganha, hoje, apenas uma réplica. Na maior parte do tempo, o troféu verdadeiro fica exposto no museu oficial da Fifa em Zurique, na Suíça, cidade onde está localizada também a sede da entidade.

A versão original só aparece em ocasiões especiais, como na partida final de cada edição do torneio ou durante o tour realizado em parceria com a Coca-Cola, que faz o troféu viajar por diferentes continentes. O último “Tour da taça”, feito antes da Copa de 2014, passou por 90 países em 267 dias.

Encantaram, mas não levaram

Alguns times históricos que, mesmo apresentando um futebol que marcou época, ficaram pelo caminho em Copas:

Hungria de 1954

Sob a liderança de Ferenc Puskás e do artilheiro Sándor Kocsis, que marcou 11 vezes na competição, a campeã olímpica de 1952 registrou 27 gols na Copa da Suíça (média de 5,4 por partida). O número representa o recorde para uma mesma edição do mundial. Os “mágicos magiares”, como ficaram conhecidos, venceram 31 partidas consecutivas entre 1950 e 1954. O jogo que pôs fim à sequência foi justamente a derrota por 3 a 2 na final da Copa do Mundo, que deu o título inédito à Alemanha Ocidental. Na primeira fase da competição, o time de Puskás havia goleado os alemães pelo placar de 8 a 3.

Holanda de 1974

Com a posse da bola, a ideia era abusar das trocas de posição para criar novos espaços no campo. Quando não se estava atacando, o time todo tinha a função de pressionar o adversário, forçando seu erro. Apesar da inovação tática e da qualidade coletiva, Johan Cruyff e o “futebol total” holandês foram derrotados na final por 2 a 1, novamente pela Alemanha Ocidental, que jogava em casa. Foi a primeira e única vez que a “Laranja Mecânica” esteve sob a liderança do melhor jogador de sua história em Copas do Mundo. Ainda em seu auge, Cruyff preferiu não disputar a edição seguinte, de 1978, por conta de ameaças feitas a sua família.

Brasil de 1982

A seleção acumulava 32 jogos sob o comando de Telê Santana: 24 vitórias, seis empates e apenas duas derrotas, com 84 gols pró e 20 contra. Com as vitórias nas quatro primeiras partidas da Copa da Espanha, a equipe chegava confiante ao jogo seguinte, contra os italianos. O tetracampeonato, porém, teve de ser adiado mais uma vez, com a derrota por 3 a 2 para uma Itália inspirada. Lembrada até hoje como uma das melhores gerações do futebol nacional, o Brasil de 1982 contava com nomes como Sócrates, Zico, Júnior e Falcão.

QUANDO a Copa ganhou a atual dimensão

O torneio de futebol disputado nos Jogos Olímpicos abandonou as pretensões de rivalizar com a competição criada pela Fifa a partir dos Jogos de Los Angeles, em 1984. Essa foi a primeira edição que o COI (Comitê Olímpico Internacional) abriu para participação de atletas profissionais com até 23 anos (sub-23), regra que vale até hoje.

A medida foi uma maneira de garantir que não existam duas competições do mesmo esporte a cada quatro anos e com a mesma importância. Com o torneio olímpico restrito a atletas jovens, a Copa da Fifa, assim, se consolidou de vez como principal referência do futebol profissional de alto nível.

Público somado em todos os estádios

Número de espectadores entre 1930 e 2014
 

Logo em 1934, na segunda edição do torneio, 12 rádios fizeram a cobertura ao vivo da Copa do Mundo. A competição de 1954 marcou a primeira vez que uma Copa foi transmitida pela televisão e, em 1966, o público assistiu às partidas a cores.

A tecnologia chegou ao Brasil na competição seguinte, em 1970, acompanhada em território nacional por 54 milhões de brasileiros.

Na última edição do evento, em 2014, 3.2 bilhões de pessoas assistiram à Copa pela televisão, de 207 territórios diferentes.

Número de equipes

A primeira edição do torneio, boicotada por países da Europa em 1930, foi a que registrou o menor número de seleções: 13. A partir da competição seguinte, adotou-se o modelo de 16 equipes, que se manteve até a edição de 1978, na Argentina.

As duas únicas exceções do período foram 1938, na França, em que apenas 15 times participaram, e 1950, no Brasil, torneio que contou com 13 seleções.

Entre as edições de 1982 e 1994, 24 seleções disputavam o torneio. A última mudança de formato data da Copa de 1998, quando o atual modelo de 32 equipes foi incorporado.

77

É o número de países diferentes que já jogaram uma edição de Copa do Mundo

O aumento progressivo na quantidade de seleções participantes se relaciona a uma política integracionista da Fifa. Com um maior número de vagas disponível, a chance de que algum país menos tradicional participe de uma Copa aumenta.

A adesão de um novo mercado consumidor ao torneio, sobretudo em regiões como Ásia, África e Oriente Médio, representa a possibilidade de expansão da marca e do próprio esporte.

Hoje, 211 representações nacionais são vinculadas à entidade. O número supera o total de nações consideradas pela ONU (Organização das Nações Unidas), cuja lista de países-membros conta com 193 nomes.

Número de participações em Copas do Mundo
 

Ainda que tenha passado por inúmeras mudanças ao longo dos anos, o modelo de eliminatórias (para selecionar quem vai e quem não vai à Copa) é adotado desde a segunda edição do torneio, disputado na Itália em 1934.

Para a Copa da Rússia, 209 das 211 nações associadas disputaram uma vaga entre os 32 times que participarão do mundial, a maior adesão já registrada.

Para conquistar o direito de disputar a Copa, países associados à Fifa são divididos, de acordo com a geografia, em seis confederações. A da Ásia (AFC) tem 46 seleções; a africana (CAF), 54; a europeia (Uefa), 55; a da Oceania (OFC), 11; a da América do Sul (Conmebol), 10; e, por fim, a que representa América do Norte, Central e Caribe (Concacaf), reúne 35 times.

211

É o número de países-membros da Fifa

Dentro dessas federações, que têm regras e número de vagas específico, jogos preliminares decidem quais (e quantos) serão os representantes no mundial.

Enquanto na América do Sul a disputa acontece pelo sistema de pontos corridos, o restante das federações adota a divisão por grupos. Na edição de 2018, a oferta de vagas ficou dividida da seguinte maneira:

  • Uefa: 14 (13 + Rússia, sede)
  • CAF: 5
  • Conmebol: 5 (1 por repescagem)
  • AFC: 5 (1 por repescagem)
  • Concacaf: 3 (1 por repescagem)
  • OFC: 0 (1 por repescagem)

ONDE a Copa já foi realizada

Ao todo, 16 países já receberam jogos de Copas do Mundo. Cinco deles, México, Brasil, Itália, Alemanha e França, sediaram a competição em duas oportunidades.

A edição de 2002, disputada na Coreia do Sul e Japão, foi a única em que dois países receberam jogos do evento simultaneamente.

Com 20 participações, o Brasil é o único país a marcar presença em todos os torneiros. Até a Copa de 2014, disputada em território nacional, o principal campeonato organizado pela Fifa registrou:

2.379

gols

836

partidas

7.342

jogadores

37

milhões de espectadores

Fatos que chamam atenção

1934: Itália

Alegando problemas financeiros, o Uruguai, então campeão, não participou. Foi implementado o sistema de eliminatórias, em que confrontos locais qualificam 16 equipes para disputar o mundial de futebol. Os italianos, estreantes em Copas, faturaram seu primeiro título.

1938: França

Novamente em uma sede europeia, a Itália conquistou sua segunda Copa e se tornou o primeiro país bicampeão do mundo. Índias Orientais Holandesas (atual Indonésia) foram a primeira equipe da Ásia a participar da competição. Liderado por Leônidas da Silva, o Brasil terminou na terceira colocação do torneio.

1950: Brasil

O jogo mais visto da história das Copas do Mundo, segundo a Fifa, aconteceu na primeira Copa disputada em território brasileiro. O “Maracanazo”, nome utilizado para definir a derrota do Brasil para o Uruguai por 2 a 1, em pleno Maracanã, foi assistido 173,850 por pessoas.

1954: Suíça

Campeã olímpica em 1952, a Hungria chegou à Copa com status de favorita - mas foi derrotada na final pela Alemanha. Proporcionalmente, a Copa da Suíça teve a maior média de gols da história: os 26 jogos da competição contaram com 88 gols (5.38 por jogo). Na época, porém, o torneio era disputado por 16 seleções.

1958: Suécia

Quando participou da Copa da Suécia, Pelé tinha 17 anos e 235 dias. Até hoje, o “rei” é o mais jovem a disputar (e marcar gols em) uma final de mundial. O recorde de gols em uma mesma Copa do Mundo pertence até hoje ao francês Just Fontaine, que marcou 13 vezes no torneio de 1958.

1962: Chile

Já como uma estrela consolidada do Real Madrid, o húngaro Puskás se naturalizou espanhol e disputou a Copa pela Espanha. O Brasil manteve a base do time campeão em 1958, e se tornou bicampeão mundial, ao lado de Itália e Uruguai.

 

1966: Inglaterra

Foi a primeira Copa a ter um mascote oficial, o leão Willie. Países do continente africano boicotam a Copa de 1966, protestando contra a oferta de vagas para a África, Ásia e Oceania - apenas uma seleção desses três continentes seria selecionada no sistema de eliminatórias. Jogando em casa, os ingleses venceram sua única Copa.

Foto: Thiago Quadros/Nexo Jornal
Lista de Mascotes de Copas do Mundo
Lista de Mascotes de Copas do Mundo

 

1970: México

Criados pelo inglês Ken Aston, chefe de arbitragem da Fifa na Copa de 70, os cartões amarelo e vermelho tiveram sua estreia em uma competição da entidade. Marrocos se tornou a primeira seleção africana a participar do torneio. Para garantir maior qualidade às transmissões televisivas, vários jogos aconteceram sob o sol do meio dia.

Foto: Reprodução/Wikimedia Commons
Brasil de 1970: Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza, Félix, Clodoaldo e Everaldo; Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Rivelino.
Brasil de 1970: Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza, Félix, Clodoaldo e Everaldo; Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Rivelino.
 

1974: Alemanha Ocidental

O segundo título alemão, que competia como Alemanha Ocidental desde 1950, veio sob a liderança do capitão Franz Beckenbauer. A vizinha Alemanha Oriental também fazia sua estreia, e única participação em Copas do Mundo, terminando na 6ª colocação.

1978: Argentina

Mesmo sem Cruyff, a seleção holandesa chegou a mais uma final. Os gols de Mario Kempes, artilheiro do torneio, garantiram o título à seleção da casa, não sem polêmica. À época, cogitou-se que a vitória da Argentina sobre o Peru por 6 a 0, na segunda fase do torneio, tivesse sido armada. Para jogar a final contra a Holanda, os anfitriões precisavam tirar uma diferença de quatro gols.

1982: Espanha

Aconteceu a maior goleada da história das Copas: Hungria 10 a 1 contra El Salvador. Jogador mais jovem a disputar uma partida do torneio, Norman Whiteside, da Irlanda do Norte, estreou em mundiais aos 17 anos e 41 dias de idade. A Itália se tornou tricampeã do mundo, igualando o Brasil no número de conquistas.

1986: México

A edição de 1986 era para ser disputada na Colômbia. Por conta de problemas financeiros do país latino-americano, porém, a competição voltou a acontecer no México, que já havia sido sede em 1970. Foi a Copa de Diego Maradona: com seu “gol do século” e com ajuda da “mão de Deus”, o maestro argentino comandou a equipe nas quartas de final contra a Inglaterra, em um dos jogos mais emblemáticos da história dos mundiais. Derrotando a Alemanha na final, a seleção argentina conquistou seu segundo título.

 

1990: Itália

O Brasil foi eliminado nas quartas de final pelos argentinos. A Alemanha chegou ao tricampeonato, vingando a derrota em 1986 para a Argentina e igualando Brasil e Itália em número de conquistas. A média de gols do torneio foi a menor da história: apenas 2,21 por partida.

1994: Estados Unidos

Foi primeira final disputada nos pênaltis pela Itália, em edição vencida pelo Brasil. A Copa de 1994, até hoje, é a que detém o maior recorde de público: as 52 partidas do evento foram assistidas por 3.587.538 pessoas, uma média de 69 mil por jogo. Maradona foi pego em exame antidoping durante a competição e foi obrigado a abreviar sua última participação em Copas.

1998: França

Empatada com a Copa do Brasil, de 2014, o torneio de 1998 foi o que registrou o maior número de gols (171 no total). Na mesma edição, o alemão Lothar Matthaus, jogador que mais atuou em Copas, encerrou seu ciclo após 25 partidas, disputadas em cinco edições diferentes (entre 1982 e 1998). Croatas surpreenderam e ficaram com a 3ª colocação, em sua estreia na competição como nação independente. Brasil perdeu na final para a França, com atuação inspirada de Zinedine Zidane.

2002: Coreia e Japão

A primeira Copa do Mundo disputada na Ásia foi também a única a ser sediada de forma conjunta. Hakan Sukur, da Turquia, marcou o gol mais rápido da história dos mundiais, aos 11 segundos de jogo. Derrotando times como Itália e Espanha, a seleção sul-coreana chegou às semifinais da competição sob denúncias de favorecimento da arbitragem. O sistema de “morte súbita” (gol que acabava com o jogo em caso de prorrogação), introduzido na edição anterior, foi usado pela última vez. O Brasil venceu e se tornou o maior campeão do torneio, com cinco títulos.

2006: Alemanha

Novamente disputada na Alemanha, a Copa de 2006 foi a primeira a não classificar o campeão da edição anterior automaticamente, obrigando o Brasil a disputar as eliminatórias para conseguir sua vaga. Pela segunda vez, uma final de Copa foi definida nos pênaltis: a Itália figurava novamente na disputa, dessa vez, vencendo a França. A final em questão ficou marcada pela cabeçada de Zidane, eleito pela Fifa o melhor jogador do torneio, no zagueiro italiano Marco Materazzi.

2010: África do Sul

Na primeira Copa do Mundo disputada em continente africano, a seleção holandesa foi à terceira final e, pela terceira vez, ficou na segunda colocação. Quem conquistou o título inédito foi a Espanha, premiando a geração que é considerada por muitos a melhor da história do país.

2014: Brasil

Foi confirmado o primeiro gol pela influência da tecnologia, na partida entre França e Honduras. Miroslav Klose se tornou o maior artilheiro em Copas do Mundo, com 16 gols em quatro participações. Com 43 anos e três dias, o goleiro colombiano Faryd Mondragón passou a ser o jogador mais velho a entrar em campo em uma partida de Copa. O Brasil perdeu na semifinal para a Alemanha por 7 a 1, derrota que configura a maior goleada já sofrida por um país anfitrião na história dos mundiais. Os alemães conquistaram seu quarto título, após vitória na prorrogação sobre a Argentina.

 

O peso de jogar em casa

Os únicos títulos mundiais de Inglaterra e França (1966 e 1998, respectivamente) aconteceram na edição em que foram países-sede. Dos 20 torneios disputados, seis foram vencidos pela seleção “dona da casa”. Da mesma maneira, a melhor participação das seleções abaixo também aconteceu quando jogavam dentro de seus domínios:

  • Suécia em 1958, vice-campeonato
  • Chile em 1962, 3º lugar
  • Coreia do Sul em 2002, 4º lugar

A Copa da Rússia

A Copa da Rússia, que acontece entre 14 de junho e 15 de julho, marca a primeira vez que um país do leste europeu sedia o evento.

Ao todo, 12 países que não participaram do torneio de 2014 marcam presença em 2018. A edição confirmará o retorno de nações como o Egito (fora há 24 anos) e Peru (32), que há muito não se classificavam para a Copa. Como estreantes na competição, estão as representações nacionais de Panamá e a Islândia.

56 anos

É o tempo que a seleção egípcia ficou sem disputar um mundial da Fifa, antes de retornar em 1990

Será a primeira vez da tecnologia do árbitro adicional de vídeo (VAR) em mundiais. O recurso foi testado pela Fifa na última Copa das Confederações, disputada em 2017 na Rússia, e servirá para elucidar lances polêmicos como expulsões e pênaltis.

Próximas edições e processo de escolha

Com a Copa 2022 certa para acontecer no Catar, a Fifa já se mobilizou para definir a próxima sede. Marrocos, que pleiteava o posto de sede pela quinta vez, perdeu novamente: a Copa de 2026 acontecerá nos Estados Unidos, México e Canadá, a primeira a ser disputada simultaneamente em três países.

O processo de escolha foi diferente das edições anteriores: até então, a avaliação era feita exclusivamente por um grupo de 24 dirigentes que compunham o Comitê Executivo da Fifa. Para 2026, porém, os 211 países federados tiveram voz ativa, participando por meio de votação eletrônica aberta, a ser divulgada no site da entidade.

 

A grande mudança para a edição de 2026 diz respeito ao aumento do número de seleções: das atuais 32 vagas, o total será ampliado para 48, o que altera não só a logística de preparação dos países-sede, mas também o chaveamento do torneio.

Até então, as equipes eram divididas em oito grupos com quatro times cada. O novo formato passará a trazer 16 grupos de 3 seleções. Os dois países mais bem classificados de cada grupo, então, são promovidos a uma fase “mata-mata”.

Com a nova fórmula, a Fifa espera criar um mundial “mais inclusivo”, que estimule o desenvolvimento do esporte em locais onde não é tão tradicional. A competição continuará tendo duração de 32 dias, e cada seleção jogará, no máximo, sete partidas.

Vale sediar uma Copa?

Como ressalta um artigo da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, os benefícios em se sediar uma Copa do Mundo costumam ser superestimados pelos países sedes. Ou seja: os gastos com a realização do evento não são revertidos a benefícios à população da forma como se esperava ou, no mínimo, não compensam financeiramente à longo prazo.

Além disso, a demanda por estádios “padrão Fifa” nem sempre corresponde ao tamanho de campeonatos locais. Da mesma maneira, obras de infraestrutura podem não ganhar o destino planejado após o mundial (o Brasil, por exemplo, tem hoje estádios subutilizados construídos para a Copa de 2014).

Por fim, os altos investimentos, sobretudo em países em desenvolvimento ou de população economicamente desiguais, podem onerar o Estado além da conta, aumentar a taxação e prejudicar o repasse a setores essenciais.

Receber o maior torneio esportivo do mundo, no entanto, ainda costuma ser um “bom negócio” pelo potencial de impacto na imagem que o país tem no exterior. Fazer uma Copa de sucesso pode significar novas oportunidades para o turismo na região, alteração de concepções ou estereótipos culturais locais e a criação de novas parcerias internacionais, impactando, até mesmo, a satisfação da população.

COMO o evento é financiado

Obras estruturais para a realização das Copas, como sistemas de transporte, hospedagem e estádios, costumam ficar, pelo menos na maior parte, a cargo dos países-sede. É comum que, para dar conta das demandas, os governos locais realizem parcerias com setor privado.

O orçamento da edição de 2018 é estimado em R$ 38,25 bilhões, sendo que, do total, cerca de R$ 8,5 bilhões foram destinados à construção de estádios.

Tais números tornam a Rússia o país que mais gastou até hoje com obras de infraestrutura para Copas do Mundo. O Brasil, recordista até então, teve gastos estimados na casa dos R$ 25 bilhões, sendo R$ 8,3 bilhões empregados na reforma e construção de estádios. Estima-se que a iniciativa privada tenha arcado com apenas 17% desse total.

No ano do evento, o Comitê Organizador do mundial fechou seu balanço com lucro líquido considerado modesto, de 5,7 milhões. A Fifa, por outro lado, teve o evento mais lucrativo da história. O saldo de R$ 5 bilhões é cerca de 20% maior em relação ao recorde anterior, estabelecido em 2010, ano em que a Copa foi disputada na África do Sul.

Obras de infraestrutura

Dinheiro gasto em estádios

Por parte da Fifa, o dinheiro gasto é destinado à preparação das seleções, bem como à organização do evento principal, da Copa das Confederações (torneio-teste) e das eliminatórias continentais. Entram na conta também outros torneios organizados pela entidade, como os campeonatos feminino e de base.

Para a Copa de 2018, a entidade irá desembolsar US$ 400 milhões (R$ 1,31 bilhões) entre premiações e auxílio à preparação das equipes. O valor é 12% maior do que o oferecido na edição anterior, disputada no Brasil.

A Copa da Rússia contará com cinco patrocinadores e sete apoiadores, além de cinco marcas locais (quatro europeias e uma asiática) que também investiram no evento. Valores referentes a marketing e licenciamento representam arrecadação de R$ 8,76 bilhões.

Dinheiro da Fifa

Quem transmite

A maior parcela das receitas vem de acordos por direitos de transmissão, feitos com conglomerados de mídia do mundo todo. No total, empresas que atuam em 203 países adquiriram direitos de transmitir a Copa, quer seja por TV, internet, rádio ou plataformas mobile.

Assim como aconteceu nas Copas de 2002 e 2006, a Rede Globo terá exclusividade do evento, sendo a única a transmitir os jogos na TV aberta do Brasil em 2018. Em 2010 e 2014, a Band (Rede Bandeirantes) também fez a cobertura do campeonato mundial.

Canais por assinatura nacionais como SporTV, que pertence ao grupo Globo, e FOXSports também transmitirão as 64 partidas do torneio, assim como 12 rádios do Sul, Sudeste e Nordeste do país. A Globo tem os direitos de transmissão assegurados até a Copa de 2022, no Catar.

Com concessões de transmissão para a Copa da Rússia, estima-se que a Fifa tenha arrecadado R$ 9,29 bilhões. Apenas 10% da receita gerada pelo evento provém da venda de ingressos.

POR QUE o modelo é questionado

A corrupção estrutural da Fifa é um dos principais pontos de pressão sobre a organização da Copa do Mundo. Com sede em Zurique, na Suíça, país considerado um dos principais paraísos fiscais da Europa, a entidade tem passado marcado por escândalos de desvio de verbas, que colocam em xeque o real destino das cifras bilionárias arrecadadas a cada edição do evento.

Data de maio de 2015 o escândalo mais recente, considerado o maior da história do esporte. De 1991 até então, autoridades de várias instâncias da Fifa teriam participado de crimes como fraude, subornos e lavagem de dinheiro, envolvendo o pagamento de propinas a empresas de marketing esportivo e detentoras de direitos de transmissão.

A própria escolha de Rússia (2018) e Catar (2022) como sedes, no fim de 2010, está no centro de denúncias de compra de votos. Documentos indicam que a escolha do país árabe tenha envolvido o pagamento de US$ 5 milhões em propina. A escolha da África do Sul, em 2010, teria registrado cifras ainda mais impressionantes: US$ 10 milhões.

As manobras tinham como figura central o presidente da entidade, o suíço Joseph Blatter e Michel Platini, presidente da Uefa (sigla em inglês para União das Associações Europeias de futebol).

Blatter comandava a Fifa desde 1998 e, após as acusações, renunciou ao cargo. Junto a Platini, o dirigente foi banido do futebol pelo Comitê de Ética da entidade em 2015, por um período de oito anos - punição que foi reduzida, em 2016, para seis anos. Foi a primeira vez na história que a Fifa afastou um presidente.

De acordo com o departamento de Justiça dos Estados Unidos, cerca de 30 outros dirigentes e ex-diretores da Fifa, principalmente de confederações da América do Norte, América Latina e Caribe, também se envolveram nos esquemas de corrupção revelados à época.

Entre eles, destacam-se três ex-presidentes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol): Ricardo Teixeira, Marco Polo del Nero e José Maria Marín. Entre as acusações, estão o recebimento de propina para beneficiar empresas de marketing em competições como Copa do Brasil e Libertadores.

Em dezembro de 2017, Marín foi condenado por seis dos sete crimes pelos quais havia sido indiciado. Estima-se que o dirigente estaria envolvido em desvios que, somados, ultrapassam a marca dos US$ 200 milhões.

O histórico da participação brasileira na entidade é marcado pelo período entre 1974 e 1998, anos em que a Fifa foi presidida por João Havelange. Na gestão de Havelange, surgiram os primeiros grandes contratos publicitários envolvendo a Copa do Mundo, que se consolidou como maior torneio esportivo do mundo.

Entre as acusações contra o brasileiro, estão o pagamento de propinas milionárias a uma empresa de marketing esportivo, e o recebimento de diamantes e outros presentes por defender a candidatura de Amsterdã aos Jogos Olímpicos de 1992. Muito influente no cenário político esportivo mundial, Havelange teria angariado votos que determinaram a escolha do Rio de Janeiro como sede olímpica em 2016.

A quantidade de acusações e investigações que tomaram corpo nos últimos anos lançam dúvida sobre a forma como a instituição vem sendo administrada, bem como a missão de promover o esporte e auxiliar o desenvolvimento de campeonatos continentais, de seleções de base e femininos por todo o planeta.

Sucessor de Blatter, o italiano Gianni Infantino assumiu a presidência da Fifa em 2016 com um discurso de renovação e maior transparência nos processos de escolhas de sede e administração de recursos. Como desafios iniciais importantes, estão a realização da Copa da Rússia e a definição da próxima sede, recém-escolhida durante o 68º Congresso Anual da Fifa, em 12 e 13 de junho de 2018.

Mudanças estruturais

Na gestão de Infantino, ganhou força a proposta de criação de duas novas competições mundiais, paralelas à Copa. Em março de 2018, o atual presidente da Fifa declarou ter recebido uma oferta de R$ 25 bilhões de um fundo de investidores anônimo, que seria aplicada à gestão de uma Liga das Nações, e a expansão do atual modelo do Mundial de Clubes.

A nova liga global envolveria confrontos continentais entre todos os mais de 200 países associados, de forma a estender seu calendário esportivo, e credenciaria a uma espécie de “mini Copa”. Disputado entre os vencedores regionais da Liga das Nações, o torneio substituiria a atual versão da Copa das Confederações.

Diferentemente do atual formato, jogado uma vez por ano, a nova competição interclubes aconteceria a cada quatro anos. O projeto é contar com a presença de 24 equipes, dos cinco continentes, que jogariam 31 partidas em 18 dias de torneio.

Fronteiras da Copa do Mundo

Federações nacionais europeias foram os principais opositores das propostas anunciadas por Infantino. Ao invés de mais jogos em épocas diferentes do ano, clubes europeus reivindicam um calendário com menos partidas, maiores intervalos de descanso e calendários de competições mais enxutos.

Acredita-se, também, que a criação de um mundial mais extenso poderia prejudicar a Liga dos Campeões, campeonato entre os campeões da Europa e competição entre clubes mais importante do mundo.

A reivindicação das equipes por maior autonomia, que faz frente à principal entidade que regula o futebol no planeta, acende a discussão sobre o crescente aumento de importância dos clubes.

Ligas nacionais dos países, nos últimos anos, têm concentrado os investimentos estrangeiros, sido mais assistidas ao redor do planeta e movimentado cifras cada vez maiores. A influência da Fifa como reguladora e entidade máxima do futebol, nessa lógica, perde importância. Os clubes, que se tornaram marcas globais e já têm independência financeira passam, assim, a buscar também autonomia política.

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é o número de atletas naturalizados na seleção de Marrocos

Uma consequência da internacionalização dos times é o intercâmbio de atletas. Na Copa da Rússia, 310 equipes, dos cinco continentes, liberaram seus jogadores para servir às suas seleções.

Apenas a Inglaterra convocou 23 jogadores que atuam em sua liga nacional - a poderosa Premier League. Só seis seleções que disputarão a edição de 2018 do torneio contam com mais de nove jogadores locais. Senegal e Suécia, por exemplo, não tem nenhum: todos os atletas estão em clubes fora de seu país de origem.

Com 32 representações nacionais na disputa, a Copa de 2018 tem jogadores nascidos em 48 países diferentes - apenas dez são formadas apenas por jogadores nascidos no país. Dos 736 jogadores do torneio, 78 têm dupla cidadania. Na seleção de Marrocos, isso fica mais evidente: 17 de seus 23 atletas nasceram fora do país.

 

Essa presença massiva de “estrangeiros” atesta a diluição das fronteiras geográficas por meio do futebol, o que, acredita-se, possa comprometer o modelo de torneios disputados por países a longo prazo.

NO MUNDO: a geopolítica das Copas

Uma série de outros esportes também tem “Copas do Mundo” como sua principal competição. Do grupo, destacam-se o rugby, vôlei, basquete e ginástica. Além de menores receitas, público e renda, nenhuma delas tem o mesmo poder sobre as relações internacionais dos países que o torneio mundial já demonstrou.

A estreia da Itália em Copas em 1934, por exemplo, é marcada pela intensa autopropaganda feita pelo ditador Benito Mussolini. Mesmo não tendo conhecimento técnico sobre futebol, Mussolini aproveitou o evento no país e a conquista do título pela seleção nacional para divulgar o regime fascista ao mundo.

O próprio regime militar brasileiro utilizou do discurso ufanista para tirar proveito do êxito da seleção nacional na primeira Copa disputada no México. A conquista de 1970 e o crescimento econômico do período ajudaram a moldar a opinião pública, escondendo o cenário de repressão e controle midiático da ditadura. A identificação com o esporte foi um dos principais instrumentos usados pelo presidente Emílio Garrastazu Médici para tentar se aproximar da população.

O encontro entre Argentina e Inglaterra em 1986, por exemplo, teve como pano de fundo a briga histórica pela posse das Ilhas Malvinas. Dias após perder em definitivo o arquipélago do sul do Oceano Pacífico, os argentinos “deram o troco” nos ingleses dentro de campo, no jogo famoso pela “mão de Deus” de Maradona.

A única participação da seleção de El Salvador em Copas, da mesma maneira, estaria no centro do estopim para um conflito com um vizinho geopolítico.

Em seu livro “A Guerra do Futebol”, de 1978, o repórter polonês Ryszard Kapuscinski defende a teoria de que a Guerra das 100 horas, conflito entre El Salvador e Honduras que aconteceu de 14 a 18 de julho de 1969, teria derivado de duelos acirrados entre as duas equipes durante as eliminatórias para a Copa do México. À época, os dois países reivindicavam para si territórios em suas fronteiras e Honduras havia expulsado 300 mil imigrantes salvadorenhos.

Ainda que a história não seja confirmada, sabe-se que disputar o torneio pode ter influência direta na postura diplomática dos países.

É o que mostra um estudo feito por um sociólogo americano e disponível neste link, que analisou o comportamento de 142 países que participaram de eliminatórias da Copa do Mundo entre 1958 a 2010. Nações que conquistavam uma vaga no mundial de futebol da Fifa se tornavam mais agressivas em suas relações exteriores, movendo um maior número de ações contra outros países. Tal comportamento apareceu, sobretudo, em locais onde o futebol é mais tradicional.

EM ASPAS: as Copas faladas

“De repente é aquela corrente pra frente/ Parece que todo Brasil deu a mão/ Todos ligados na mesma emoção/ Tudo é um só coração/ Todos juntos, vamos/ Pra frente Brasil, Brasil/ Salve a seleção”

Trecho de ‘Pra Frente Brasil’

hino oficial da seleção na Copa do Mundo de 1970, composto por Miguel Gustavo

“Mais uma vez, o senhor provou que é um grande homem e um ser humano ímpar. É claro, professor, que eu, como os demais brasileiros, gostaria de estar comemorando outro resultado. Porém, sei que ninguém perde por vontade própria”

Trecho da carta da torcedora anônima “Dona Lúcia”

endereçada ao técnico Luís Felipe Scolari, e lida após a derrota por 7 a 1 para a Alemanha, em 2014.

“Fizemos mais em 90 minutos do que os políticos fizeram em 20 anos”

Jeff Agoos

zagueiro da seleção dos Estados Unidos na Copa de 1998, em comentário sobre o fair-play da derrota por 2 a 1 sobre o Irã. País persa tinha histórico de relações diplomáticas estremecidas com os americanos

“Um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus”

Diego Maradona

explicando como fez o gol que abriu o placar para a Argentina contra a Inglaterra, na Copa de 1986

“Odiamos quando repórteres europeus nos perguntaram se comíamos macacos e tínhamos um curandeiro como médico. Nós somos jogadores de futebol de verdade e provamos isso esta noite”

François Omam-Biyik

autor do gol da vitória de Camarões sobre a Argentina, na estreia da equipe africana na Copa do Mundo de 1990, na Itália

“Não se pode supervisionar todo mundo ligado ao futebol. Você não pode apenas pedir que as pessoas se comportem de maneira ética”

Joseph Blatter

ex-presidente da Fifa, durante congresso da entidade em março de 2015, que marcou sua quinta reeleição ao cargo de presidente

“Somos os campeões morais”

Cláudio Coutinho

técnico do Brasil em 1978, após a seleção ser eliminada da competição sem perder nenhuma partida

“Não estava nervoso, absolutamente. Já joguei muitas decisões. Essa era a que eu mais esperava. Não iria amarelar. A única coisa que aconteceu foi a indisposição”

Ronaldo Nazário de Lima

sobre sua ausência na final da Copa de 1998, contra a França

“Nós não ficamos entediados por seis anos para organizar a Copa do Mundo para não fazer algumas pequenas travessuras. Você acha que os outros não fazem o mesmo por suas Copas? É uma brincadeira? Brasil e França na final era o que todos sonhavam”

Michel Platini

sobre a manipulação do sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo de 1998, na França, que impediu que a seleção da casa enfrentasse o Brasil antes da final

“Treino é treino, jogo é jogo”

Valdir Pereira (Didi),

meio-campo brasileiro na Copa de 1958, sobre as acusações de que não vinha se dedicando o suficiente aos treinamentos para a competição

“A perda de equilíbrio deixou meu corpo instável e me fez cair em cima do adversário. Nesse momento bati meu rosto contra ele, o que me causou um hematoma na bochecha e fez meu dente doer muito”

Luiz Suárez

explicando a mordida que deu no zagueiro Giorgio Chiellini, durante a vitória do Uruguai sobre a Itália na Copa de 2014

NA ARTE: para ver a história

O milagre de Berna (2003)

 

1958: rumo à vitória (2014)

 

Música oficial da Copa do Chile (1962)

 

Trilha do filme ‘Tostão, a fera de ouro’ (1971)

 

Os dois Escobares (2010)

 

Vá ainda mais fundo

 

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que apenas quatro países sediaram a Copa do Mundo por duas vezes. Na verdade, foram cinco - faltou incluir a Itália. O texto foi corrigido às 13h13 de 15 de junho de 2018. Além disso, na seção ‘Encantaram mas não levaram’ , há a informação de que em 1982 o Brasil tinha vencido 4 partidas da Copa da Itália. De fato, a Copa de 1982 foi realizada na Espanha. Da mesma maneira, a conquista do 3º lugar pela Croácia aconteceu em 1998, não 1994. O trecho em questão foi corrigido às 12h21 de 5 de julho de 2018.

 

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