Ir direto ao conteúdo

Escolas de samba: de ícone da cultura à crise de identidade

As origens das agremiações, o financiamento do Carnaval e onde os desfiles fazem sucesso fora do Rio e de São Paulo

“Estação Primeira de Mangueira, nota… 10!”. “Nenê de Vila Matilde, nota… 9 ponto 9”.  Na terça de Carnaval ou na Quarta de Cinzas, frases como essas são comuns na apuração dos desfiles, trasmitida pela televisão a cada ano. Para quem acompanha o Carnaval das escolas de samba, há grande expectativa para saber qual foi a campeã, quem subiu para o grupo de elite, quem foi rebaixado. E o resultado vai para as manchetes de jornais pelo Brasil.

As escolas de samba começaram como uma expressão cultural popular no Rio de Janeiro no início do século 20. Nas décadas seguintes, se multiplicaram pelo país e os desfiles se tornaram festas conhecidas no mundo. Não sem antes as escolas entrarem no terreno da cultura mainstream e se profissionalizarem. Desfilar virou um negócio, mas, hoje, ele passa por uma crise.

Em fevereiro, época em que as escolas de samba ficam mais em evidência, o Nexo recupera a história e as características dessas agremiações, responsáveis por boa parte da fama internacional do Carnaval brasileiro.

O QUE é uma escola de samba

Escolas de samba são agremiações que de fato dão aulas para ritmistas, como o nome sugere. Possuem quadras e galpões, onde funcionam as atividades administrativas e onde ocorrem os eventos que organizam.

As escolas costumam ter forte ligação com a comunidade em que se situam. Elas têm projetos sociais e cursos profissionalizantes dos mais variados tipos, voltados para pessoas do bairro.

Embora a grande atividade de uma escola de samba seja a preparação de um desfile para o Carnaval, elas funcionam o ano inteiro. Além da montagem de fantasias e alegorias, as escolas fazem festas, feijoadas, ensaios pagos, shows, locações, homenagens, entre outros eventos. Muitos deles com o intuito de arrecadar dinheiro para as atividades regulares e para o Carnaval.

QUEM inventou esse tipo de celebração

As escolas de samba são “filhas” dos ranchos carnavalescos, blocos de Carnaval que surgiram no fim do século 19 no Rio de Janeiro, com influência de folguedos de tradição negra e do calendário religioso cristão. O samba como o conhecemos hoje não existia, e em seus primórdios foi perseguido pelas autoridades, associado à criminalidade.

Os ranchos desfilavam pelas ruas no Carnaval, como um cortejo, e havia uma pessoa que segurava um estandarte identificando o bloco, assim como integrantes que protegiam o estandarte. Alguns dos instrumentos tocados, como cavaquinho, ganzá e prato, vieram a ser usados no samba. O som dos ranchos eram sobretudo as marchinhas, com pequenas orquestras e instrumentos de sopro.

As escolas de samba surgiram nos anos 1920 e, no início, foram vistas como um tipo de rancho. Já havia concursos entre ranchos carnavalescos desde 1909.

A escola de samba mais antiga, Deixa Falar, não existe mais. O nome “escola de samba” foi adotado por a Deixa Falar reunir professores (ou mestres) de samba e estar localizada em frente a uma escola, no bairro do Estácio, no centro do Rio. Lá se reuniam nomes como Ismael Silva, Bide e Marçal, importantes na construção do samba moderno.

Na escola é que se inventou o surdo e se introduziu a cuíca ao samba. A orquestra foi sendo abandonada. Instrumentos de sopro foram proibidos pelos regulamentos das primeiras competições, tradição que perdurou nas décadas seguintes. Tradições como enredo, comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira vêm dos ranchos e dos seus concursos.

1928

é fundada a Escola de Samba Deixa Falar

1932

foi o ano do primeiro desfile competitivo das escolas de samba do Rio, organizado pela revista Mundo Sportivo

Na mesma época da Deixa Falar, foram fundadas algumas das escolas que permanecem em destaque até hoje, como Portela, Unidos da Tijuca e Mangueira, esta última campeã do primeiro desfile.

QUANDO as escolas de samba se profissionalizaram

Com o sucesso dos primeiros desfiles, nos anos 1930, as escolas foram ganhando popularidade. O primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945) colaborou para a disseminação do samba, criando uma entidade organizadora dos desfiles no Rio e incentivando o ritmo como uma marca da cultura nacional. Escolas de samba começaram a surgir em diferentes cidades do Brasil.

Não há consenso entre os estudiosos sobre uma data específica para delimitar quando o Carnaval das escolas de samba começou a se tornar profissional e não mais amador. Mas, nos anos 1960, os desfiles foram crescendo de tamanho, com transmissão pela TV e permitindo que pessoas de fora das escolas desfilassem.

Em 1968, foi lançado o primeiro disco reunindo os sambas-enredo das diferentes escolas cariocas que iriam desfilar naquele ano. Nessa época, os festivais da canção ganhavam espaço no mercado com a nascente MPB (Música Popular Brasileira, que trazia influências estrangeiras e da bossa nova). O lançamento da coletânea do Carnaval foi uma tentativa de o samba marcar terreno. O disco anual com os sambas das principais escolas é uma prática que perdura até hoje, divulgando o desfile que se aproxima.

Em 1973, a TV Globo fez a primeira transmissão colorida do Carnaval.

Nos anos 1970, o carnavalesco Joãosinho Trinta, que naquela década venceu cinco títulos seguidos do Carnaval do Rio, pelo Salgueiro e pela Beija-Flor, era criticado por fazer desfiles luxuosos demais. Era uma nova era do Carnaval das escolas de samba, na qual o esplendor era necessário para ganhar o título. Foi uma tendência que seguiu nas décadas seguintes.

As passarelas do samba

Um fator importante para que o Carnaval de escolas de samba ganhasse o perfil que tem hoje foi a criação dos sambódromos. A idealização e o próprio termo são de autoria do antropólogo Darcy Ribeiro.

No início dos anos 1980, quando o Brasil passava por um período de abertura política, embora ainda sob a ditadura militar, Darcy foi eleito vice-governador do Rio de Janeiro, na chapa com Leonel Brizola. No mesmo período, retornava ao Brasil o arquiteto Oscar Niemeyer, que durante a maior parte da ditadura morou na França.

Incumbido dos planos na área de educação e cultura do governo estadual, Darcy encomendou projetos a Niemeyer. Entre eles, uma grande passarela do samba, para os desfiles do Carnaval. Fora dessa época, funcionariam escolas públicas em salas construídas embaixo das arquibancadas — parte dessas escolas parou de funcionar a partir de 2011.

O sambódromo foi inaugurado para o Carnaval de 1984, na avenida Marquês de Sapucaí, no centro do Rio de Janeiro. Entre os anos 1930 e a construção do sambódromo, os desfiles aconteceram em diferentes ruas e avenidas da cidade, como a Praça Onze e a Avenida Rio Branco, com arquibancadas temporárias.

O sucesso do novo modelo fez com que, nos anos seguintes, outras cidades com grandes desfiles de escolas de samba também construíssem passarelas do tipo. Ter uma estrutura fixa para desfilar se mostrou mais vantajoso para as escolas e para o crescimento da festa, com mais espectadores e patrocínios.

Outra tendência foi a construção de galpões concentrados em espécies de “bairros do samba”, nos quais diferentes escolas se agrupam num espaço comum para confeccionar alegorias e fantasias. No Rio de Janeiro, se chama Cidade do Samba, com início das atividades em 2005. Em São Paulo, Fábrica do Samba, inaugurada em 2016, com parte ainda em conclusão.

Os desfiles modernos

Hoje, os carnavalescos, responsáveis pela concepção do desfile, mudam de escola com frequência, recebendo novas propostas de contratação. Isso também acontece com coreógrafos, intérpretes e outros profissionais do desfile. No concurso para definir o samba-enredo, os compositores não precisam ser ligados à escola.

Pela lógica moderna dos desfiles, é mais importante ajudar a escola a ser campeã do que possuir um vínculo de longa data com ela.

Os regulamentos foram aumentando o número de exigência dos desfiles. Por exemplo, os integrantes devem cantar o samba e dançar o tempo todo, senão podem fazer a escola perder pontos, o que leva à cobrança de que todos entoem a letra e se mostrem animados.

Pessoas de fora da escola podem comprar uma fantasia (as mais baratas saem por volta de R$ 500, mas os preços podem ultrapassar R$ 2.000) e desfilar na avenida, algo inconcebível nos primórdios dos desfiles. As principais escolas de São Paulo precisam colocar um mínimo de 2.000 componentes na avenida, sem número máximo, mas é comum haver mais de 3.000 no desfile. No Rio, o regulamento não estipula quantidade obrigatória de integrantes — geralmente, estão na faixa de 3.000 a 4.000.

As cifras milionárias vindas do poder público e de empresas patrocinadoras mudaram a escala do desfile, cada vez mais competitivo. Nos camarotes, famosos do Brasil e do mundo assistem ao espetáculo.

QUAIS os significados das alas e passistas

Cada desfile se divide em alas, que são grupos, geralmente com a mesma fantasia, que simbolizam um aspecto do enredo da escola. No Rio e em São Paulo não existem um número delimitado de alas, mas costuma ficar entre 25 e 35 nos desfiles do grupo especial (a "primeira divisão" dis desfiles).

Algumas dessas alas têm características específicas, como a comissão de frente, que deve seguir uma coreografia e é responsável por apresentar o enredo da escola que vem desfilando atrás dela.

Os passistas representam a essência do samba como dança. Para participar da ala, que é concorrida, é preciso ter muita habilidade ao sambar. As mulheres originalmente eram chamadas de cabrochas, e os homens, de bambas. Para as passistas mulheres, participar da ala pode ser um caminho para, no futuro, se tornar musa ou rainha de bateria, posições de destaque no desfile, que muitas vezes são ocupadas por famosas.

A chamada velha guarda, formada por integrantes antigos da escola e às vezes até seus fundadores, costumam desfilar com roupas de gala, e não com fantasia, como sinal de respeito. É ao mesmo tempo um tributo à história da escola e às contribuições que aquelas pessoas deram.

A ala das baianas, com mulheres (geralmente senhoras) usando uma fantasia de saia rodada e girando ao longo do desfile, é uma tradição do Carnaval das escolas. Trata-se de uma homenagem às “tias baianas”, mulheres do candomblé e mães de santo que se mudaram de Salvador para o Rio de Janeiro nas últimas décadas do século 19, muitas delas levando também a tradição do samba de roda.

As “tias” abrigavam os sambistas na época da perseguição policial ao ritmo no Rio. A mais emblemática foi Tia Ciata, cuja casa era frequentada por sambistas como Sinhô, Donga e João da Baiana.

As integrantes giram durante todo o desfile, tradição que simboliza purificação e abertura de caminhos. No início dos desfiles, nos anos 1930, foi instituída como obrigatória a ala das baianas, que por décadas foi dominada por homens. Só depois o regulamento passou exigir apenas mulheres na ala.

Outros integrantes especiais são os casais de mestre-sala e porta-bandeira. O mestre-sala tem origem numa figura chamada baliza, de blocos carnavalescos do início do século 20 no Rio. Ele era encarregado de defender o estandarte, símbolo maior do bloco e carregado pela porta-estandarte, de roubos por agremiações rivais.

Acompanhando o estandarte da escola, o baliza (ou mestre-sala) também caía na dança, mas ficava alerta, por vezes levando lenços e navalhas para a tarefa. Ter o estandarte roubado era a maior humilhação de um bloco.

Com o tempo, o mestre-sala adquiriu um novo papel, de sincronia com a porta-bandeira, encenando protegê-la e cortejá-la. Os passos e dança desses integrantes são diferentes dos demais participantes do desfile, e constituem um quesito próprio de avaliação dos jurados, portanto carregam grande peso no resultado final.

ONDE as escolas de samba fazem mais sucesso no Brasil

A TV Globo transmite a festa de rua e das escolas de samba do Rio desde 1966, primeiro Carnaval da emissora — com algumas exceções, mas de modo ininterrupto desde 1985. Pelo alcance nacional, os desfiles do Rio de Janeiro e São Paulo são os mais conhecidos, com mais repercussão, público e dinheiro. Mesmo os brasileiros que não acompanham as escolas reconhecem nomes como Portela, Vai-Vai, Beija-Flor e Rosas de Ouro.

Diferentes cidades disputam, no passado e ainda hoje, o posto simbólico de terceiro principal carnaval de escolas de samba do Brasil. Locais como Manaus, Florianópolis e Vitória possuem desfiles tradicionais e de grandes proporções, com os próprios sambódromos.

Porto Alegre, Belém e Macapá também possuem as próprias avenidas do samba, mas os desfiles são menores.

Em Curitiba, Belo Horizonte, Campo Grande e Cuiabá há desfiles e competição há décadas, mas sem a estrutura de sambódromo, em avenidas comuns da cidade, assim como acontecia no Rio de Janeiro até a década de 1980.

Fora das capitais, Juiz de Fora (MG) e Joinville (SC) são cidades com tradição de desfiles de escolas de samba.

COMO as escolas de samba se financiam

Para seguir com o tamanho e perfil do desfile que adquiriram desde a profissionalização, as escolas precisam de verbas públicas e patrocínios. Dificilmente elas conseguem se manter apenas com as atividades próprias ao longo do ano, como eventos pagos, embora esse dinheiro também seja usado para a confecção dos desfiles.

Para preparar um desfile e levá-lo para a avenida, uma escola pode chegar a gastar R$ 15 milhões, embora esse valor tenha despencado nos últimos anos, de aperto no orçamento.

O dinheiro de bicheiros ou líderes do tráfico de drogas, comum no passado, foi diminuindo ao longo do tempo, à medida que o Carnaval de escolas de samba começou a ser mais regulado e atrair atenção nacional e internacional. O envolvimento de contraventores, segundo reportagens de jornais e revistas, não deixou de existir, mas perdeu muito espaço para outras fontes de recursos.

Do lado público, geralmente são as prefeituras que arcam com boa parte dos gastos das escolas. Governos estaduais também participam. Quem defende o aporte afirma que se trata de um incentivo legítimo do poder público, pois contempla uma manifestação cultural popular. Os críticos desse modelo costumam argumentar que as prefeituras e governos deveriam estar mais comprometidos com outras áreas, como saúde e educação, e não repassar tantos recursos à festa, vista como alvo não prioritário para o dinheiro público.

R$ 10,3 milhões

foi o valor total dado pela Prefeitura do Rio às escolas do grupo de acesso (“segunda divisão”), federação dos blocos e agremiações mirins em 2018

R$ 13 milhões

foi o valor total dado pela prefeitura às escolas do grupo especial em 2018, R$ 1 milhão para cada

Do lado privado, a tendência é a escolha de enredos que atraiam patrocínios. Grandes marcas têm interesse em dar dinheiro para que os desfiles contemplem áreas em que elas atuam, mesmo que a empresa não apareça — os regulamentos do Rio e de São Paulo proíbem a exibição de marcas e merchandising explícito ou implícito.

Quando se define o enredo para o ano seguinte, por volta do mês de maio, é comum a escola manter segredo sobre o tema e entrar em contato com empresas que possam ter interesse em patrociná-la para aquele ano.

Em 2012, por exemplo, a Porto da Pedra , do Rio de Janeiro, apresentou o enredo “Da seiva materna ao equilíbrio da vida”, sobre a história dos laticínios e do iogurte, com o patrocínio da Danone. Em 2013, a Vila Isabel foi campeã carioca com um enredo exaltando a agricultura brasileira. A Basf, empresa do setor químico que atua na agricultura, patrocinou o desfile.

Em 2010, o enredo campeão da Rosas de Ouro foi a história do cacau e do chocolate, garantindo dinheiro da Cacau Show. A escola foi obrigada a alterar um trecho do seu samba, de “o cacau é show” para “o cacau chegou”.

Quem critica a grande participação de empresas no financiamento da festa diz que os desfiles se tornaram puramente um negócio, deixando em segundo plano o lado artístico e a tradição do samba. Quem defende esses patrocínios afirma que o Carnaval mudou ao longo das décadas e isso não constitui um problema necessariamente.

POR QUE as escolas de samba passam por um momento de crise

Em 2017 e 2018, os desfiles em Porto Alegre acontecem fora de época, em março, na semana do aniversário da cidade. Em Belém, não houve desfile em 2017. Em Macapá, um hiato entre 2016 e 2017. Em Juiz de Fora, a festa de 2018 foi cancelada. Em Brasília, não há o tradicional desfile desde 2015. Algumas escolas da capital federal saem às ruas durante o Carnaval assim como outros blocos, sem competir.

Todos esses casos se explicam por um motivo principal: com menos apoio e dinheiro do poder público, as escolas de samba de todo o Brasil estão com dificuldades para conseguir desfilar. Em tempos de crise econômica, a regra é diminuir gastos públicos. O patrocínio de empresas privadas também caiu pelo mesmo motivo, e quem mais se prejudica são as escolas das cidades com menos visibilidade.

Mesmo no Rio de Janeiro, maior polo das escolas de samba e que tem no desfile uma vitrine para atrair turistas, o dinheiro público para a festa despencou. Em 2018, o repasse da prefeitura às escolas do grupo especial caiu pela metade (R$ 1 milhão para cada agremiação) em relação ao ano anterior, mesmo com protestos do setor durante meses. O governo federal cancelou um repasse total de R$ 8 milhões citando razões de trâmite processual. Em 2017, as escolas cariocas tiveram dobrado o seu orçamento que vinha da prefeitura em razão de terem perdido verbas que, até então, provinham do governo estadual e da Petrobras.

O prefeito Marcelo Crivella (PRB) diz que menos repasse municipal não leva a desfiles menos glamorosos e acaba sendo uma maneira de incentivar as escolas a buscarem dinheiro da iniciativa privada, “o que é sempre bem-vindo”.

Nos últimos anos, os desfiles cariocas diminuíram de tamanho e duração, indicando um teto para a opulência da festa, para se encaixar na grade da TV e também um sintoma de menos dinheiro.

Além disso, o Brasil tem passado por um período de ressurgimento dos blocos de rua, a partir da segunda metade da década de 2000. Esse modo antigo de brincar Carnaval é mais acessível para os foliões e acontece em diferentes cantos do Brasil, onde existe a tradição de escolas de samba ou não.

No Rio de Janeiro, há blocos de rua com 1 milhão ou mesmo 2 milhões de pessoas — na Sapucaí, entre público e integrantes, não cabem mais de 120 mil por noite. Em São Paulo, o Carnaval de rua tem crescido a cada ano. Com a atenção dividida com os bloquinhos, os desfiles das escolas acabam perdendo espaço.

A audiência televisiva dos desfiles voltou a subir em 2015, depois de níveis ruins no ano anterior. Entre 2015 e 2017, a audiência tem subido. A Globo faz adaptações periódicas para atrair público, como troca de apresentadores, mais informalidade e menos tempo de transmissão.

NO MUNDO

O modelo de Carnaval que começou no Rio de Janeiro na década de 1930 se tornou, anos depois, popular no Brasil e também no exterior. A exemplo da expansão dos desfiles pelo país, algumas cidades estrangeiras também instituíram um sistema de escolas de samba e competição anual.

É comum baterias das grandes escolas de samba do Rio se apresentarem em outros estados e no exterior, o que colabora para a popularização do samba.

Principais desfiles no exterior

JAPÃO

Na capital Tóquio ocorre o maior desfile de escolas de samba fora do Brasil: o Asakusa Samba Carnival. É em agosto, durante o verão no hemisfério norte, e reúne cerca de 400 mil pessoas. Os desfiles têm bateria, mestre-sala e porta-bandeira, passistas e carro alegórico. Cerca de 5.000 desfilam a cada ano, em sua maioria japoneses, e existe uma competição. Começou em 1982, após uma associação comercial local da cidade realizar apresentações de samba que foram atraindo público. Vendo o potencial econômico, integrantes dessa associação viajaram ao Brasil para entender como funcionavam os desfiles e então implantaram o modelo em Tóquio.

INGLATERRA

Também em agosto, no verão, o Carnaval de Notting Hill, em Londres, inclui desfile de escolas de samba inglesas. Não há competição direta entre as poucas agremiações, mas existe um ranking geral de melhores grupos, incluindo os diversos ritmos da festa, como o reggae. São 2 milhões de pessoas durante os dois dias de festa, da qual as escolas de samba são uma pequena parte. As maiores desfilam com mais de 100 integrantes. O samba apareceu no evento pela primeira vez em 1984, com a London School of Samba.

ARGENTINA

Em San Luis, capital da província de mesmo nome, no centro da Argentina, o samba tem estado em destaque nos últimos anos. Em 2010, escolas cariocas foram levadas para a cidade, a fim de apresentar o Carnaval brasileiro. Os desfiles agradaram e motivaram a fundação de escolas de samba argentinas, como a Sierros del Carnaval. Em um “sambódromo” adaptado, as apresentações têm público de 30 mil pessoas, e a cada ano os argentinos têm assumido mais os festejos que aprenderam com os brasileiros.

Existem ainda escolas de samba em cidades como Paris, Roma, Moscou, Nova York e Long Beach (no estado americano da Flórida). É comum brasileiros com experiência no Carnaval serem chamados para trabalhar em escolas estrangeiras, ou mesmo ajudar a fundá-las, formando ritmistas e transmitindo outras tradições da festa. Ou estrangeiros virem ao Brasil para aperfeiçoar o jeito de tocar samba.

EM ASPAS

“Pobre gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual”

Joãosinho Trinta

carnavalesco oito vezes campeão do carnaval do Rio, em entrevista  a Elio Gaspari em 1979, respondendo críticas da época de que seus desfiles eram luxuosos demais

“Não me sentiria bem sendo rainha de bateria se eu não pudesse estar na escola mirim, visitar os projetos da comunidade. Não adianta ir lá, fazer foto e ir embora”

Juliana Alves

atriz e rainha de bateria da Unidos da Tijuca desde 2012, em entrevista em 2016

“Se você prestar atenção, o Rio diminuiu a quantidade de carros, diminuiu a quantidade de componentes, diminuiu o tempo de desfile. Tudo isso porque apertou para todo mundo. Não venham me dizer que a coisa está redonda e o povo brasileiro é no que todo sambista está pensando no Carnaval, porque não está. As pessoas estão tentadas a olhar mais seu lado pessoal e profissional”

Solange Cruz Bichara Rezende

presidente da Mocidade Alegre, em entrevista em 2017

“O carnaval mudou muito e acho que tem de ser assim (...) Gostaria que fosse um pouco diferente [nos ensaios], que tivesse samba de quadra sendo cantado, que o barulho não fosse tão ensurdecedor. Você não consegue conversar com uma pessoa ao lado. Mas essa é a energia, a coisa de vibração. Antes o tempo era outro, havia preocupação maior com melodias, harmonias do samba, o coro da escola. Isso acabou. Hoje é o visual, a coisa plástica”

Paulinho da Viola

cantor e compositor ligado à carioca Portela, em entrevista em 2013

“Houve um tempo em que os discos dos sambas-enredos eram tão aguardados quanto os de Roberto Carlos. As escolas desfilavam porque existiam. Hoje, para existir, precisam desfilar”

Luiz Antonio Simas

historiador e estudioso do carnaval, em entrevista em 2017

NA ARTE

Aula de Samba - A história do Brasil em grandes sambas-enredo’ (2014)

Desde que o samba é samba” (2012)

Nossa escola de samba” (1968)

82 minutos” (2014)

Mataram meu gato” (2006)

Vá ainda mais fundo

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!